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        <title type="main" level="a">A China fica ao lado / La Cina è accanto</title>
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            <forename>Silvia</forename>
            <surname>Cavalletto</surname>
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          <resp>This is a section of <title>Traduzione di A China fica ao lado / La Cina è accanto</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/978-88-5518-637-7</idno>) by </resp>
          <name>Maria Ondina Braga, Michela Graziani, Anna Tylusinska-Kowalska</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2022">2022</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/978-88-5518-637-7.05</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
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          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
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        <p>La Cina è accanto is the Italian translation of the equivalent Portuguese colletion of short stories A China fica ao lado. This literary work has been translated for the first time in Italian language by Silvia Cavalletto in this volume. The Italian translation provides the Italian reader to appreciate the language and the writing style of Maria Ondina Braga and to approach this relevant Portuguese author of the 20th century.</p>
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            <item>A China fica ao lado</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/978-88-5518-637-7.05<ref target="https://doi.org/10.36253/978-88-5518-637-7.05" /></p>
      
      
      
      <p rend="h1_part" >A China fica ao lado / La Cina è accanto</p><p rend="h1_part_title" ><hi rend="CharOverride-1" >Maria Ondina Braga <lb/>traduzione di Silvia Cavalletto</hi></p><p rend="editorial_metadata_author" >Maria Ondina Braga</p><p rend="editorial_metadata_author" >Silvia Cavalletto, University of Florence, Italy, nina.bracenera@gmail.com</p><p rend="editorial_metadata_polices" >Referee List (DOI 1<ref target="https://doi.org/10.36253/fup_referee_list">0.36253/fup_referee_list</ref>)</p><p rend="editorial_metadata_polices" >FUP Best Practice in Scholarly Publishing (DOI <ref target="https://doi.org/10.36253/fup_best_practice">10.36253/fup_best_practice</ref>)</p><p rend="editorial_metadata_book" >Maria Ondina Braga, <hi rend="italic CharOverride-2" >A China fica ao lado / La Cina è accanto</hi>, translation by Silvia Cavalletto, © Author(s), <ref target="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode">CC BY 4.0</ref>, DOI <ref target="https://doi.org/10.36253/978-88-5518-637-7.05">10.36253/978-88-5518-637-7.05</ref>, in Maria Ondina Braga Last name, <hi rend="CharOverride-3" >Traduzione di </hi>A China fica ao lado / La Cina è accanto, (edited by) Michela Graziani, Anna Tylusinska-Kowalska, pp. -108, 2022, published by Firenze University Press, ISBN 978-88-5518-637-7, DOI <ref target="https://doi.org/10.36253/978-88-5518-637-7">10.36253/978-88-5518-637-7</ref></p><p rend="h1_chapter" ><hi >A China fica ao lado  </hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >É indizivel</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >a dor que está</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >no coracão</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >do homem.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi >(Li Po — trad. Jorge de Sena)</hi></p><p rend="text" ><hi >— O doutor Yu está?</hi></p><p rend="text" ><hi >Era um prédio alto, de paredes, sujas, escalavradas, num beco húmido que virava para o cais.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinham-lhe dito que batesse no terceiro andar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma mulher idosa espreitou à porta, olhou-a de cima a baixo, fez-lhe sinal que entrasse.</hi></p><p rend="text" ><hi >Vinha de dentro uma música metálica, da telefonia da sala de espera, que era simultaneamente a casa de jantar.</hi></p><p rend="text" ><hi >A mulher do médico apareceu, cumprimentou, pediu que esperasse. Trazia na mão um rolo de algodão-em-rama, que deixou esquecido na bandeja do chá.</hi></p><p rend="text" ><hi >Louvava os céus por ter aprendido mandarim. Parecia que o doutor Yu só falava mandarim. Como iria contar-lhe? Seria preciso explicar tudo? Bem que chineses educados eram discretos. O doutor Yu! A avó conhecia-o de Pequim. Cirurgião de nome. Clínica de luxo. A avó tivera lá o filho mais novo. Então muito jovem o doutor Yu, mas já a caminho da fama. A avó contava dos seus instrumentos clínicos moderníssimos para a época, dos reposteiros bordados, da baixela de prata.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os pensamentos atropelavam-se, enquanto esperava. Até aí só soubera afastar da ideia aquele momento — momento que, mau grado a sua fatalidade, sempre se lhe afiguravam, e agora mais que nunca, confusamente remoto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Viera pelo seu próprio pé e dir-se-ia que alguém a trouxera ao engano, tão alheada de si e do que a rodeava. Alheamento era, aliás, a marca da sua vida. Daí não ter guardado as feições do homem, não ter querido guardá-las. Como responder às possíveis perguntas do doutor Yu, se jamais se interrogava a si mesma? Para que justificar-se, se nunca lhe fora concedido escolher?</hi></p><p rend="text" ><hi >Sabia que pertencia a família ilustre. A avó não se cansava de lho lembrar. Um sorriso azedou-lhe os lábios. Um catre de esmola, agora. A avó, afeita a servas para a vestir e calçar, abaixada a varrer o chão. Misericórdia dos deuses — o chão do templo! Como tinha pés ligados, era polida e falava mandarim, haviam-lhe arranjado um lugar no pagode. Soprava as cinzas dos grandes incensadores, servia os bonzos, sustentava-se da comida das oferendas.</hi></p><p rend="text" ><hi >O doutor Yu entrou. Homem de mais de sessenta anos, algo curvado, rosto sério.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por momentos ela pensou que se tinha enganado. Outro doutor Yu? Onde a elegância, a riqueza de que a avó falava?</hi></p><p rend="text" ><hi >O doutor Yu não queria saber coisa algum. Era chinês e exilado. Aceitava tudo, até o que a outros poderia parecer inaceitável.</hi></p><p rend="text" ><hi >O consultório ficava ali mesmo. Com um aceno de cabeça mandou-a deitar na esteira. De cetim, as suas mãos. Para quê os aparelhos mais modernos? Mãos tão hábeis, tão sábias, e aquele rosto sério.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Quer já?</hi></p><p rend="text" ><hi >A voz parecia vir de muito longe. Uma voz fatigada e indiferente como se não se dirigisse a ninguém.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foram para a casa de banho. Ela estendeu-se num banco de pau. Uma menina que não teria mais de doze anos limpava-lhe o suor da testa, do pescoço, enquanto o doutor Yu agia, rápido, eficiente. Os instrumentos clínicos numa caixinha no chão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Havia uma teia de aranha pendurada da lâmpada e fendas nas tábuas do tecto. De dentes cerrados a suster os gemidos, ela tentava recordar-se dos tectos sob que já tinha dormido. Na infância, altos, pintados… um dossel de seda? Depois, mais nítidos: de colmo, de canas de bambu… largas manchas de humidade, bolor a aveludar as paredes, bichos da noite a zunir… Entretanto, para estar ali naquele desespero, fora ao ar livre que se deitara. O peso do corpo do homem; o seu h</hi><hi >álito quente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sufocou um grito.</hi></p><p rend="text" ><hi >O próprio doutor Yu a ajudava a levantar-se. </hi><hi >Tão delicados os gestos do doutor Yu! E os do outro — ávidos, selvagens? Como se o velho médico quisesse compensá-la. Das duas vezes, porém, a mesma prostração: cabeça oca, ventre derreado.</hi></p><p rend="text" ><hi >O médico conduziu-a a um quarto onde havia uma cama estreita. Entregou-lhe um quimono. Ordenou descanso.</hi></p><p rend="text" ><hi >O quarto dava para o pátio. A criada passou, espiou pela cortina da janela, perguntou quando é que a doente queria o jantar.</hi></p><p rend="text" ><hi >A música da sala era agora longínqua. Desciam as sombras. Ela, de costas no colchão duro, cismava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um sentimento de liberdade possuía-a inteira, uma dolorosa, opressiva liberdade, como se, num mundo de súbito mudado, tal não significasse mais do que prisão. Mãe como as outras não lhe era permitido ser. Porquê, afinal? Fosse ela neta de mulher da rua, filha de bailarina, e daria à luz simplesmente, como qualquer fêmea, no fundo de uma sampana, ou numa barraca de lata, ou até sob as estrelas, com flanelas encarnadas, amuletos, ofertas de ovos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma gata amarela empurrou a porta e entrou miando. Seguiam-na dois gatinhos que deram a afiar as unhas na colcha de seda. Ela estendeu a mão, passou-a pelo dorso de um bicho, do outro… Sensação de tepidez, de brandura… Felizes! Alguma vez se perguntaram a uma gata pelo pai dos filhos que parira? Seriam os seres nascidos dentro da lei mais perfeitos do que os gerados à margem?</hi></p><p rend="text" ><hi >A avó nunca compreenderia. Mulher a ter filhos sozinha só a mãe de humanidade no confucionismo.A avó dera à luz, na luxuosa maternidade do doutor Yu, com baixela de prata, filhos legítimos, desejados, bem-vindos, de primeira esposa de casa rica. Esposa ou concubina era o que ela conhecia. Tinha de haver senhor, homem responsável, pai a apresentar, núpcias, leito conjugal.</hi></p><p rend="text" ><hi >A noite fechava-se na janela do pátio quando a criada surgiu com a tigela do arroz. Enquanto a ajudava a erguer-se, sobrepondo as almofadas, a velha desfiava palavras de simpatia, alinhava as chinelas ao lado da cama, segredava-lhe mezinhas caseiras: </hi><hi rend="italic" >alho macho</hi><hi > assado e posto sobre o umbigo aliviava as dores</hi><hi >… além de livrar de algum </hi><hi rend="italic" >vento sujo</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Passou-lhe uma moeda. Pediu que levasse os gatos, que a deixasse só. Precisava de estar só. Recostou-se na almofada de palha. Rompeu em soluços.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era a primeira vez que chorava desde que saíra de casa de seus maiores, desde aquela noite da infância em que os soldados haviam desligado os pés da avó. Julgava ainda ouvir os gritos de dor da avó por entre as gargalhadas dos intrusos. Pobres pés estropiados! Tinha chorado justamente por isso. Um orgulho essa avó de sapatinhos de brocado no pezinho de fada. Última coluna de mítica, respeitável ancestralidade, despedaçada sem dó no ímpeto de mãos brutais. Sim, fora pelos pés da avó que então chorara. Aquilo era como profanar o templo, como desenterrar os defuntos. Com o desligar desses pés venerandos, instintivamente ela sentira não apenas o ruir do seu mundo de menina, mas o desmitificar de toda uma tradição.</hi></p><p rend="text" ><hi >E agora? Porque chorava agora? Pelo filho que enjeitara certamente que não. Como poderia amar o que lhe fora dado sem amor? Tão-pouco por si. Era por demais abandonada para ter pena de si própria. E, sem saber explicar, sem sequer entender, sabia que continuava a chorar pelos pés da avó. Tudo se resumia nesta noite. Toda a dor reflectia essa dor.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas não simbolizavam, afinal, os pés atados da avó o longo e forçado destino da mulher? O mesmo destino que a tolhia, a angústia que nesse instante lhe subia à garganta?</hi></p><p rend="text" ><hi >Passos próximos. O doutor Yu apareceu, perguntou como estava, deu-lhe uma injecção.</hi></p><p rend="text" ><hi >(Simpático o doutor Yu a fingir que não lhe via as lágrimas!)</hi></p><p rend="text" ><hi >Nessa noite a avó morrera pateticamente e, com a avó, a China de antanho. E ela, criança, assistira, assombrada, a esse fim. Morte sem enterro, no entanto. Como se a avó e a China do seu tempo virassem fantasmas: o doutor Yu da importante maternidade da cap</hi><hi >ital operando na casa de banho em terra do exílio! A avó agarrada a antigos preconceitos, constantemente a falar de nomes que já não existiam… Sem saber uma palavra de cantonense, a avó, com a sua linguagem culta, entendendo-se com os deuses só. Os garotos de Macau, ao passarem pelo pagode, alcunhavam-na de dama-pé-de cabra. E ela, sua neta? Ali de ventre dolorido e vão pelo facto de não ser filha de bailarina, neta de mulher da rua, simples </hi><hi rend="italic" >amui</hi><hi > em casa de cortesãs?</hi></p><p rend="text" ><hi >Baixou as pálpebras: a gata e os gatinhos… os meninos nascidos ao deus-dará, criando-se com as galinhas e os porcos…</hi></p><p rend="text" ><hi >Um protesto cresceu-lhe nas entranhas, fez-lhe sacudir a cabeça com força. Não, não era a última derrota. Estava ali por não ter morrido nem virado fantasma. Os seus pés, soltos, poderiam palmilhar todos os caminhos do mundo. Poderia voltar à China ou ficar ao lado da China. O principal era combater o seu combate de mulher só e abusada. E guardar o coração intacto. Para um dia. Para uma verdade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ante os seus olhos pesados do calmante passavam as ruas de Macau, de Hong-Kong. Debaixo das arcadas, cegos a tilintar a varinha de osso no copo de bambu, a ler a sorte nas mãos das pessoas. Velhos, crianças, aleijados, opiómanos, prostitutas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Dez anos atrás: a avó, cambaleante, levava-a pela mão. O Governo estrangeiro dava dormida e arroz. Mas tinham saudades da comida do Norte.</hi></p><p rend="text" ><hi >Começaram depois a enrolar explosivo para panchões no vão de um portal. Algumas avós vendiam as netas a chineses ricos, a marinheiros bêbados, a barracas de feira. </hi><hi >A sua era diferente. Queria-lhe muito. Acompanhava-a para toda a parte. Ia buscá-la à escola. Receosa de que esquecesse a língua-mãe, dava-lhe lições à noite, à luz de azeite de coco, pelo livro dos filósofos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Veio a seguir a sampana na lama do cais, que o tufão destruíra. A avó implorara nessa ocasião aos céus a morte de ambas. Eram as tábuas do barco ou o coração da velha que gemia entre cada rajada? Um vizinho acudira-lhes. Pela manhã, no junco de empréstimo, a avó curara as feridas do cão aleijado por um mastro aplicando óleo de palma e saliva guardada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha treze anos quando se alojaram no pagode. Ao cair da tarde, os rostos dos deuses endureciam. Os olhos de topázio do dragão Long faíscavam no escuro como olhos de gato. A avó orava diante dos ídolos do lar, erguendo-se, noite alta, para chupar o cachimbo de água. Padecia de insónias e fumava de noite. No silêncio da hora, o gorgolejar do cachimbo era triste como o pio de uma fonte.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ela gostava do sorriso de Buda que nunca mudava, do corpo claro e gordo na peanha do altar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Fora crescendo. Seus vestidos cheiravam a incenso, a sândalo, a pivete. Na rua, os homens roçavam-se por ela, perguntavam maliciosamente se conhecia bonzo. Ia aos funerais. Armava quadros de flores para o cemitério. Entrava nas danças sagradas, de olhos pintados, boca pintada, uma flor de lótus em cada mão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Então (seria que estava a delirar?) havia árvores e fetos em redor. Lembrava-se de ter pensado nas histórias da infância que contavam dos génios da floresta. Lembrava-se de não ter pensado em mais nada. A Lua era branca como a cara dos mortos nos enterros que acompanhara com quadros de flores. Noite de calor. Hora de cansaços.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ainda bem que tudo fora tão efémero, que não fixara sequer as feições do homem.</hi></p><p rend="text" ><hi >A música extinguira-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >Vinham gargalhadas não sabia donde. Dos soldados a desatarem os pés da avó? Dos génios da floresta? De dentro de si mesma? A sombra da avó, orando diante do nicho dos ídolos do lar, avultava na parede, tremia com o último crepitar dos lumes.</hi></p><p rend="text" ><hi >A compreensão do doutor Yu… A indiferença do doutor Yu…</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma fadiga boa, apaziguante.</hi></p><p rend="text" ><hi >E via-se a caminhar por uma estrada sem bermas, os braços alongados até o infinito, levando consigo, triunfal, sem esforço, como se fossem penas de ave, toda a legião ancestral das ofendidas, de pés atados deslizando à flor da terra.</hi></p><p rend="h2" >OS ESPELHOS</p><p rend="text" ><hi >À hora do chá havia batata-doce. Descascávamos os tubérculos cozidos, quentes, vermelho-escuros, com uma faquinha de osso e embrulhávamo-los em açúcar.O chá, de jasmim, era amargo e aromático. Se tinha discutido com a diretora, Miss Carol, professora de Literatura Inglesa na classe das seniores, recitava passos do </hi><hi rend="italic" >King Lear: So young my lord, and true</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pequena e magra, Miss Carol, mestiça de chinesa e inglês embora mal passava dos trinta anos dir-se-ia nunca ter sido nova. Lembro-me do seu cabelo escorrido e ralo, da pele macilenta, da boca recta. Lembro-me dela ao piano da sala de visitas. Entrava a directora. Os dedos finos e leves de Miss Carol corriam o teclado. A directora sorria, formal. Os dentes brancos e grandes da directora. As teclas de marfim. Miss Carol levantava-se, de rompante, fechava o piano com estrondo, saía sem falar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os ódios da professora de Literatura eram longos e tortuosos como o corredor que desembocava no pátio menor. Aí, Amah fervia em caldeirões de ferro raízes e folhas para remédio. Para remédio ou para feitiço. As duas entendiam-se bem, cochichavam em chinês, riam. O riso de dentes estreitos e amarelos de Miss Carol e o de Amah de chapas de oiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pelas festas do Ano Lunar as alunas ofereciam-lhe um casaco acolchoado para o Inverno (no tempo frio Miss Carol tremia nas aulas) e durante três meses não largava o casaco de manhã à noite: parecia um caracol, os olhinhos ansiosos a espreitarem dos refegos da concha.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu perguntava a mim mesma se ela não teria família, relações, um namorado. Nunca a via sair à noite ou ir ao cinema com amigos. Sua vida na biblioteca, a dar aulas, a estudar piano. Deslocava-se três vezes por ano a Hong-Kong para exames no Conservatório.</hi></p><p rend="text" ><hi >No entanto, toda a gente, sabia que o quarto de Miss Carol era forrado de espelhos. Não que ela alguma vez nos convidasse a entrar. Entrevíamo-lo de passagem, pela porta casualmente meio aberta. Além do espelho do toucador, uma série de espelhos quadrados na parede, com iniciais ou um nome em caracteres sinicos. A mim aquilo intrigava-me. Seria que todos os anos Miss Carol recebia de algum admirador o presente de um espelho? Costume chinês ofertas assim, mas sempre em reconhecimento de serviços a favor da saúde ou do bem-estar do espírito. Alinhavam-se nos consultórios médicos, nas casas de necromantes ou adivinhos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Como, certo dia, falasse nisso a Miss Lu, que costumava acompanhar Miss Carol a Hong-Kong para os exames no conservatório, esta, olhando bruscamente o relógio, disse que estava atrasada e desandou para a capela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Miss Carol não frequentava a capela do colégio porque era anglicana. Na inauguração, em vésperas de Natal, da nova sede da Congregação Protestante — salão elegante à Rua da Praia Grande — vestiu cabaia comprida, preta, sob casaco de brocado, o melhor, o que as finalistas de cinco anos atrás lhe haviam oferecido (cinco anos antes contavam-se entre as suas alunas as filhas dos chineses mais ricos da terra). Frisou o cabelo. Estava quase bonita.</hi></p><p rend="text" ><hi >Havia quem dissesse que Miss Carol gostava de um professor da Escola Budista e que só não se casavam por causa da diferença de credos. Também corria que era filha de freira. Ou ainda que o pai a confiara à tutela do colégio, muito novinha, sumindo-se depois no mundo. As zangas de Miss Carol com a directora eram por esta lhe descontar exageradamente no ordenado o que gastara com a sua educação. Ao certo, porém, ninguém sabia nada. Entretanto, os sorrisos de polimento da directora e a cara fechada de Miss Carol.</hi></p><p rend="text" ><hi >E nunca uma chamada telefónica para a professora de Literatura Inglesa. Nunca para ela o anúncio malicioso de porteira: «É voz de cavalheiro». Nem correio na bandeja do bengaleiro, afora os avisos da Congregação da Praia Grande com o seu carimbo em cruz. Nem visitas tão-pouco. E todos os anos mais um espelho na parede do quarto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Às vezes imaginava Miss Carol reflectida até o infinito nos espelhos paralelos — nua?, de casaco acolchoado? E chegava a crer que ela própria os comprava, os encomendava ao vidraceiro da praça. Para nós julgarmos tratar-se de presente votivo do professor budista? Para ela própria gozar a ilusão de dormir num grande quarto? Miss Carol tinha passado, afinal, dos devassados dormitórios do internato para aquele cubículo, e quando ia a Hong-Kong, sem dinheiro para ficar num hotel, dormia em camaratas de algum lar de estudantes. Além disso, se era verdade o que constava — ela levantar-se alta noite para escrever novelas românticas —, um ambiente de fantasia ajudava-a, decerto. E perguntava a mim mesma, aterrada, se, revestidas por completo as paredes de espelho, Miss Carol não começaria a espelhar o soalho e o tecto, imergindo na loucura.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois de discutir com a directora, Miss Carol ficava diferente. Mais humana? Nessas ocasiões, suspeitava de que ela era capaz de amar. Não seria o ódio a face externa de um oculto amor? O seu riso e as conversas com Amah, no pequeno pátio, ecoavam corredor fora (Às vezes o riso assemelhava-se estranhamente a um choro). E nos espelhos? Como seria, nesses dias, Miss Carol exaltada e múltipla? Entraria às escuras no quarto para não se ver? Para não ver neles o sorriso fingido da directora?</hi></p><p rend="text" ><hi >Encontravámo-nos então ao chá. E, diante das batatas cozidas, dos pires de açúcar, das tigelas fumegantes, sentava-se ao lado de Miss Carol, ao nosso lado (à mesa de toalha de oleado e loiça grosseira), a Tristeza, ou a Pobreza, ou a Solidão, não sei bem. Sei só que era feminina e incomodava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mulheres havia ali de mais.</hi></p><p rend="text" ><hi >Comíamos em silêncio, cabisbaixas. Uma por uma, ouvia-se a batata rolar no açúcar de cana, e, de quando em quando, o mastigar de dentadura falsa da velha Miss Lu. Cada qual rememorava consigo uma história antiga e triste: fora no Natal ou na Páscoa que o rio tinha transbordado, invadido as casas, arrebatado os meninos do berço? Há dez, há vinte anos, talvez, o tufão metera no fundo todos os juncos do porto interior — as pessoas e os peixes a boiar mortos… E o dia em que chegara a notícia de que nunca mais outras notícias viriam?</hi></p><p rend="text" ><hi >Nisto, Miss Carol, erguendo a cabeça, declamava Shakespeare: </hi><hi rend="italic" >My love is more richer than my tongue!</hi><hi > Os seus olhos claros, duros, vidrados; a boca entreaberta; o gesto trágico.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deixávamos tombar a faquinha de osso. A pele da batata-doce colava-se-nos aos dedos, cor de sangue pisado. E, se acaso o bule gorgolejava ao verter o chá, sobressaltávamo-nos, como se a nossa ignorada hóspeda (Tristeza? Pobreza? Solidão?) de repente desatasse aos soluços.</hi></p><p rend="h2" >ÓDIO DE RAÇA</p><p rend="text" ><hi >Apesar de entrado em anos, o senhor rico conservava o hábito de nova mulher em cada nova Lua. Tai-Ku —</hi><hi > a Filha Primeira — tinha aquilo por uma doença. Tai-Ku, a inocente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma a uma, as irmãs haviam partido, de brocado escarlate e ouro, diadema nupcial, para casa dos maridos. Tai-Ku ficara. Ficara para temperar cada manhã o banho do grande senhor, para lhe deitar a poção no chá, para lhe desculpar a luxúria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tai-Ku era monja budista. Se não rapara a cabeça nem trocara a cabaia de seda pela de burel, é que o pai lho não consentira. Vivia da oração, do jejum, das ofertas para o altar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Cada mulher que transpunha os pátios da casa, Tai-Ku ignorava-a. Eram todas virgens. Ele exigia-as intactas. Ficavam depois suas protegidas, oferecia-lhe prendas, dotava-as.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tai-Ku tinha aquilo por uma doença. Jamais os lábios se lhe abriam para a censura, jamais se preocupara com parentes, vizinhos, amigos; fossem quinhentas ou oitocentas as mulheres do homem rico, o número era-lhe indiferente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Todas as manhãs, impassível, Tai-Ku ia tomar a temperatura ao banho do pai. Os cabelos tinham-lhe embranquecido naquele mister. As chinelas de palha de arroz pisavam sem ruído o mosaico dos pátios. Primogénita, cumpria o dever filial sem indagar quem era a nova mulher, sem lhe querer mal, sem lhe interessar conhecê-la.</hi></p><p rend="text" ><hi >Do mundo onde o pai e as outras pessoas viviam guardava uma única memória — e essa terrível. Destroçada, escolhera um exílio dentro de si.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma vez tinham passado os japoneses. Tinham passado e ficado. Era então muito moça. A mãe morria de parto, enterravam-na sem flores, sem bonzos que lhe encomendassem a alma a Buda. A erva crescendo nas ruas. Os japoneses entrando na grande casa, dispondo das salas e das servas. O pai cedendo parte da sua frota para que lha não dest</hi><hi >ruíssem inteira, entregando as jóias para não ter de entregar as filhas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os japoneses, Tai-Ku odiava-os. Assistir à insolência deles ali mesmo, no próprio lar. Vira-os maltratar o povo, escarnecer a Lei, profanar o templo. Os japoneses detestava-os mais do que a todos os malefícios diabólicos. Nunca, desde então, deixara de pedir ao Céu castigo que os fulminasse.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tai-Ku, a inocente. Os criados chamavam-lhe assim, mas fora o pai quem lhe dera o título.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quando recebia nova mulher em cada nova lua, o rico senhor oferecia perfumes e oiro ao Deus da sua primogénita. Queria-lhe mais, a ela, do que a si próprio. Tinha em grande conta a sisudez, a pureza daquela filha. Acreditava-a santa.</hi></p><p rend="text" ><hi >O que ninguém sabia, no entanto, era do sentimento de ódio que se infiltrara em Tai-Ku aquando da ocupação japonesa. Guardara-o escondido, e o coração ia-o nutrindo em silêncio e solitário, como o chão do deserto no choco dos ovos das víboras. Fruto negro de seus dias brancos,Tai-Ku sentia-o amadurar em cada oração, em cada jejum, em cada sacrifício ao Eterno. Parecia-lhe, às vezes, que nada mais lhe restava. Aquilo era tudo. Roía-lhe as entranhas, devorava-a.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um dia de Inverno, Wa-Lai, a ama, insinuou nova concubina.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tai-Ku acendia os lumes no altar dos antepassados, indiferente ao bisbilhotar da velha. Alarmou-a, a porém, o arranhar de certa palavra. A serva falava de japonesa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Japonesa?</hi></p><p rend="text" ><hi >Nem essa noite nem as seguintes conseguiu dormir. Os dias passados tornavam: a mãe a morrer sozinha (de susto?), os gritos das criadas, o tropear dos soldados nos pátios. Eram ontem, hoje, amanhã, eram o tempo todo. Não vivera senão esse instante, volvido eternidade. Nem antes nem depois. Nunca. E, pela primeira vez, revoltou-se. Tinha encontrado Deus, era verdade, mas jamais se encontrara a si própria. Presa nas malhas desse rancor? A alma dividida, como quem servisse ao mesmo tempo o Bem e o Mal.</hi></p><p rend="text" ><hi >De noite velava. E de dia tinha febre, e ria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nos aposentos do pai havia música e canto. Chegara a escutar, oculta pelos ramos da jaqueira, no pátio maior.</hi></p><p rend="text" ><hi >Wa-Lai dissera que o rosto da japonesa parecia alongado e transparente como o gomo do limão, que a sua voz lembrava um gorjeio e uma flor. </hi><hi >O nobre senhor ia amá-la mais do que nenhuma. Japonesas, olhos oblíquos, eram as rainhas do amor. Esta cantava, tocava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Que seu pai odiava os japoneses, como todos os chineses de carácter, Tai-Ku sabia-o de certeza. Mulher para ele, todavia, não tinha nação. O grande senhor precisava de nova donzela em cada nova Lua, e o dinheiro permitia-lhe variar, conforme os desejos lho pediam: adolescentes de corpos tenros e olhos castos, desarmadas para a luxúria, ou mulheres feitas, palpitantes de curiosa avidez. Mulheres de todos os géneros e de todas as nacionalidades. </hi><hi >Mas uma japonesa… Não. Ela, Tai-Ku, a Filha Primeira, não podia aceitar-lhe tanto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Naquela tarde Tai-Ku fez maquinalmente os gestos do costume: verificou as despesas do dia, deu ordens para o dia seguinte, recortou flores de papel de arroz para as festividades no pagode, orou. O seu espírito, porém, arredando-se de cada acto, detinha-se obsessivo num objecto bem próximo. E um plano germinava, impondo-se a pouco e pouco como coisa inevitável. Uma japonesa!</hi></p><p rend="text" ><hi >Das centenas de mulheres de seu pai jamais ela quisera saber sequer o nome. Esta, mal chegara, era já uma ideia fixa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Habilidosas, as mãos de Tai-Ku iam reunindo em corola de neve pétalas de jasmim, abotoando gomos de flor de laranjeira, espalmando folhas de lótus… E a japonesa ali. A japonesa tomando-lhe conta do coração e da mente, usurpando o lugar do próprio Deus!</hi></p><p rend="text" ><hi >As flores de papel tombaram-lhe do regaço espalhando-se pelo chão de mosaico como sobre uma campa. Tai-Ku estremeceu.</hi></p><p rend="text" ><hi >A sua religião ensinava: </hi><hi rend="italic" >não matar</hi><hi >. Mas não mandava também extirpar o mal? E não representava a japonesa o pior de todos os males — a violência, a guerra…</hi><hi > e aquele inferno dentro do seu peito?</hi></p><p rend="text" ><hi >Sete noites de insónia, e a decisão estava tomada. Meditava nos meios. Não saberia manejar uma arma.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pecado destruir a inimiga? Pecado era a filha do invasor habitar a casa que os seus ascendentes haviam ultrajado, ocupar o leito onde a mulher legítima morrera de terror, sem flores para o cemitério, sem bonzos que lhe encaminhassem a alma a Buda. Pecado era a japonesa viver ali, paredes meias com o seu ódio.</hi></p><p rend="text" ><hi >A Lua subia, amarela e redonda como uma laranja, e Tai-Ku velava. Emagrecera. Estava lívida. Oh, se pudesse matá-la com o veneno do seu próprio coração! Então, uma ideia lhe avermelhou o cérebro, penetrando-lhe todos os meandros, entregando-se-lhe em cada recesso. A sua mente era agora uma caverna explorada e iluminada. Ruíam os medos. Tai-Ku via tudo que tinha a fazer tão claro como via os braços da jaqueira abraçando, humanos, a noite de Lua.</hi></p><p rend="text" ><hi >Anunciava-se o Ano Chinês. Os ramos de pessegueiro, os pálidos crisântemos, as laranjeiras anãs em vasos de grés, todos os símbolos de felicidade com que Tai-Ku costumava presentear nesses dias o pai e os deuses, não lhe interessavam já. Tai-Ku pensava na cobra. Encomendara-a, zelosa, para o jantar de festa. Sempre cobra cabia em ceia de Inverno, ceia rica, ao lado de ninhos de andorinha, de pato à moda de Pequim. Iria ela mesma prepará-la. Extrair-lhe-ia os fígados para bálsamo contra a cólera. Mandaria fazer vinho do fel.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha um esgar de riso, nesse dia. Os servos estranharam-na. Tai-Ku de ordinário séria. Os dentes encastoados a oiro, que só costumavam brilhar em sorrisos de polimento, eram agora uma surpresa, permanentemente reluzindo na boca fina da primeira filha do senhor.</hi></p><p rend="text" ><hi >A cobra. Podia dormir, enfim. Podia sossegar. A mãe estava vingada. E os ecos da grande casa. E </hi><hi rend="italic" >ela</hi><hi >. Pulsava-lhe o sangue, como se apaixonada. Uma festa dentro de si. Uma festa e um espanto.</hi></p><p rend="text" ><hi >A cobra. O saquinho do veneno deslizou para dentro da sua coçada bolsa de pele. Ninguém percebera. O pai havia de felicitá-la pelo caldo de cobra com pétalas de crisântemo, com folhas de limoeiro. Havia de apreciar o vinho. Naturalmente que as concubinas não iam à mesa de família. Tai-Ku se encarregaria de enviar à japonesa a bebida festiva. Tai-Ku cuidaria de tudo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na rua estalavam panchões. Talvez que, ao fim, desse realmente em doida. Sentia como se o fogo lhe rebentasse dentro da cabeça. Um alvoroço. A alma a gritar e os gritos a repercutirem-se nas fontes. A vida a possuí-la de afogadilho, toda de uma vez, e a sufocá-la… Talvez que, ao fim, ficasse descansada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas já o velho senhor a chamava, aflito. Tai-Ku sobressaltou-se. O pai. Iria o pai sofrer muito com a vingança? Seria que ele amava de verdade a japonesa? Um dos principais ditames da doutrina budista era a piedade filial. O pai! E acorreu pressurosa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha acontecido uma grande desgraça. A japonesa morrera de repente, aparecera morta na cama, na primeira manhã do ano, de órbitas injectadas, roxa (O pai falava lentamente, a custo). A gueixa que requintava em lhe ungir os pés, que cantava para o entreter com a voz mais macia do mundo, deixara subitamente de viver, atacada de misterioso mal.</hi></p><p rend="text" ><hi >De olhos baixos, Tai-Ku escutou a notícia. Depois acompanhou o pai a mesa. Era domingo. Servia-se </hi><hi rend="italic" >ade</hi><hi > de cabidela. As mãos do velho a segurar os </hi><hi rend="italic" >fachis</hi><hi > de marfim tremiam como varas de bambu ao vento, e os seus setenta e mais anos arquejavam. Tai-Ku teve pena dele. De um momento para o outro ficara decrépito: olhos encovados, pele baça, ombros em arco.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mostrou desejo de que ela o ajudasse a deitar-se. E durante três dias não se levantou. E nunca mais havia de se levantar.</hi></p><p rend="text" ><hi >À cabeceira do moribundo, Tai-Ku era uma estátua. O pai pediu-lhe que se sentasse ao fundo da cama para a olhar. Não queria ninguém no quarto, mas a ela queria-a até à última. A sua primogénita. A filha que nunca lhe estorvara os hábitos, que nunca lhe criticara os desmandos. Tai-Ku, a inocente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma grande paz irradiava do rosto branco de Tai-Ku. O pai contemplava-a. Nunca antes a achara tão bela. Porque seria que Tai-Ku não casara? A mais dotada das filhas e a melhor. A dedicação, a entrega ao Divino, tê-la-iam compensado? Na verdade, quem poderia merecê-la senão um deus? E a veneração que sempre por ela sustentara crescia num amor desmedido que lhe transbordava do coração até o abafar. E esse amor redimia-o de todas as vis paixões de sua vida.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pálpebras descidas, Tai-Ku tentava uma prece. Não conseguia, porém, nem sequer coordenar os pensamentos. O seu espírito, agora tão livre, era como se já não existisse, ou como se existisse longe, muito longe, fora dela, como se fosse cruzando os caminhos assombrados da ausência para se reunir ao do pai no Desconhecido.</hi></p><p rend="h2" >O HOMEM DE MEIA VIDA</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >É antes do ópio que a minh</hi><hi rend="italic" >’alma é doente,</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >sentir a vida convalesce e estiola</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >e eu vou buscar o ópio que consola,</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >um oriente, ao oriente do Oriente.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(Fernando Pessoa)</p><p rend="text" ><hi >Era fatalmente um opiómano. Bastava lá ir um pouco antes do meio-dia e ver o olhar aflito que nos lançava, a lassidão dos seus gestos e palavras na venda da mercadoria.</hi></p><p rend="text" ><hi >A princípio julguei-o aloucado. Meia-idade, rosto simpático, embora muito emagrecido, não atendia os clientes directamente, deixando que lhe remexes-sem o armazém de antiguidades, indiferente, respondendo por monossílabos, arrastando os pés, suspirando.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, compreendi. Lembrei-me do que lera sobre Camilo Pessanha — o «morto-vivo», </hi><hi rend="italic" >pune-tio-iane-mean</hi><hi >, «homem de meia vida». Também o antiquário estava meio morto. De manhã era tal o vazio do seu olhar que uma espécie de ausência lhe transparecia da presença.</hi></p><p rend="text" ><hi >De tarde, dava-se a ressurreição. </hi><hi >Um milagre, pelas quatros horas. Fechando o estabelecimento para a sesta (coisa rara entre os Chineses que, das dez da manhã às dez da noite, trabalham a fio, almoçando e jantando à porta da loja), ele surgia renovado, semblante vivo, verbo fluente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Então valia a pena ir lá perguntar o preço de um buda de jade só para lhe ouvir a descrição de quantos firmamentos e dinastias ele acreditava ali, no seu antro.</hi></p><p rend="text" ><hi >A loja, escura, deitava para um barracão onde se atulhavam pedras da era do imperador Van-Li, a era em que na China se conheceram os relógios.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ele acendia anacrónicos candeeiros coloridos, fumarentos, que davam ao aposento um ar espectral.</hi></p><p rend="text" ><hi >De tarde, amável, oferecia chá a um ou outro apreciador de trastes velhos. Mandava sentar numa concha de cadeirinha, no estofo puído de um riquexó de mandarim. Citava Confúcio: «O Homem é por natureza virtuoso como a água que corre espontaneamente. É a perversidade do mundo que o corrompe». Ficava por um instante calado (comovido?). Mas logo se recompunha.</hi></p><p rend="text" ><hi >Aquele vaso ali, de bambu, pertencera a uma imperatriz célebre que o encomendara para a celebração do Tsing-Ming — o dia dos mortos, em Abril. Lá, ela devia guardar os ossos do defunto marido. Bambu era a madeira excelente, consagrada pelo Supremo, que a oferecera ao povo como a planta mais útil do mundo, quando de visita à terra da China. O bambu e o arroz, que chegava a frutificar três vezes por ano. Ele possuía desenhos em papel de arroz, in-fólios em fibra de bambu. Rebuscava prateleiras. Franqueava armários. Apresentava obras-primas, tesouros.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na festa dos barcos e da deusa A-Ma, padroeira dos pescadores, feriado para os marítimos dos pescadores, feriado para os marítimos da lota do peixe, o antiquário queria saber se tínhamos provado o pudim de arroz cozido em folha de bananeira, se, na rua, assistíramos à dança do leão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na festividade da primeira Lua cheia de Setembro, recomendava a subida a um monte para ver nascer o astro mais doirado e mais rotundo de todo o ano. Nas vésperas do Ano Lunar, a loja de antiguidades alegrava-se com o ramo de flor de pessegueiro, e, no arco da porta, o lojista escrevia em caracteres doirados sobre fundo escarlate os cumprimentos da praxe: </hi><hi rend="italic" >Kung Hei</hi><hi > — Ano Feliz!</hi></p><p rend="text" ><hi >O dragão Long, o deus-bicho de cinco garras, emblema do poder imperial, símbolo do Oriente e da Primavera, com a faculdade de crescer até abarcar os céus, de sustentar a abóbada celeste, de distribuir chuva e regular o curso dos rios, dominava, ao centro, todo de pau-santo incrustado de madrepérola.</hi></p><p rend="text" ><hi >À entrada e ao pé de um estranho instrumento musical que o antiquário afirmava vir do tempo em que o povo venerava a música como harmonia emanada de Deus (instrumento por isso só usado pelas virgens do templo), uma tartaruga talhada em ágata simbolizava a Força. Ao lado, um baixo relevo da fénix — insígnia das imperatrizes — e os licornes que reuniam em si os elementos primordiais da Natureza: metal, madeira, água, fogo e terra. Ao fundo, a enorme esteira com a pintura da árvore sagrada — o </hi><hi rend="italic" >ficus</hi><hi > —, retorcidos, multiplicados os troncos, as raízes adventícias ondulando ao vento.</hi></p><p rend="text" ><hi >Até o antiquário era algo para além do tempo. De feições emaciadas, pele de marfim antigo, surgia entre as remotas pedras, as porcelanas, as mad</hi><hi >eiras ricas, os pergaminhos e os papéis pintados, como um fantasma, ou um sopro do espírito a registar as idades — e simultaneamente a desmenti-las.</hi></p><p rend="text" ><hi >Falava inglês e um pouco de português juntamente, trocando o </hi><hi rend="italic" >r</hi><hi > pelo </hi><hi rend="italic" >l</hi><hi >. Explicava o milagre da criação do mundo: o Grande Tai-Ki, nascido do nada, dera origem ao princípio positivo, elemento macho, Yang, que no seu ócio inventara o elemento negativo, fêmea, Yin. Daí o equilíbrio do cosmos — </hi><hi >Yang</hi><hi >-Yin — com o céu Yang fecundando a terra Yin, entre o pranto da chuva e o sorriso do sol, na apoteose do arco-íris a que todo o chinês devia voltar pudicamente a cara.</hi></p><p rend="text" ><hi >Provado o néctar dos deuses, o opiómano alcançara o seu logos, e interpretava-o em êxtase, como se fosse semideus. </hi></p><p rend="text" ><hi >Isto de tarde, passadas as quatro horas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu ia lá de propósito para </hi><hi >o ver e escutar. De vez em quando, as suas palavras diluíam-se em música. Punha-me a cogitar enquanto o ouvia. O gosto de decifrar enigmas… Que teria levado aquele homem ao vício do ópio? Alguma paixão frustrada, mulher ardente que o tivesse trocado por outro? Talvez um filho único, amimado (fruto desse amor?), que o desiludisse, o roubasse, o consumisse, quem sabe se fugido em Hong-Kong, metido em assaltos à mão armada, conhecendo os tratos da enxovia… «… por natureza virtuoso… o equilíbrio do cosmo…». Mas… seria necessário inventar uma causa romanesca? Não bastaria a frágil condição humana, o desgosto de viver? «É a perversidade do mundo que o corrompe».</hi></p><p rend="text" ><hi >O antiquário não lia jornais, não sabia o que se passava longe, não queria sabê-lo. Tragédias? Guerras? Reparasse naquele painel de charão — a batalha dos deuses com os monstros. Terrível! </hi><hi >Os monstros (demónios?) ostentando halos de fogo que malevolamente se confundiam com os resplendores das cabeças divinas.</hi></p><p rend="text" ><hi >No meio das preciosidades, eloquente, eufórico, sôfrego de beleza, era agora senhor todo-poderoso de um mundo imaterial. O homem do bricabraque, o que, antes do meio-dia, gemia em vez de falar, o dos olhos de louco, </hi><hi rend="italic" >pune-tio-iane-mean</hi><hi >, o homem de meia vida.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ah, como um bem tamanho, tanta felicidade numa espiral de fumo, iriam, na manhã seguinte, reduzir satanicamente tão sublime criatura a um verme do pó, ao mais miserável ser! Era o ópio ou a vida que fazia aquilo? Na realidade, ele só vivia depois do ópio.</hi></p><p rend="h2" >FONG-SONG</p><p rend="text" ><hi >A morte vinha buscá-la, finalmente. Tão velha e tão cansada de viver, parecia quase feliz, agora que o fim se aproximava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao certo ninguém lhe sabia a idade. Falava-se em cem anos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não tinha razão de queixa. A família venerava-a, acarinhava-a, jamais lhe faltando com o chá, o arroz, o cachimbo. O neto mais velho, pescador, não partia para a pesca sem a sua benção. E no </hi><hi rend="italic" >fân-siun</hi><hi > que oscilava no lodo do porto interior, abrigando seis pessoas, além do gato e do cão, sempre se havia estendido uma esteira para o sono da avó, enquanto os mais dormiam nas tábuas.</hi></p><p rend="text" ><hi >A irmã de caridade, quebrando a reza murmurada, perguntou o nome da moribunda.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Sam-Ku, filha Terceira — respondeu o neto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Usava os pés ligados, devia ter pertencido à família nobre.</hi></p><p rend="text" ><hi >De manhã fora o bonzo encomendar a Buda o seu espírito agonizante. Ardiam a proa os pivetes da devoção. De tarde aparecerá a </hi><hi rend="italic" >ku-niu</hi><hi >, a freira católica.</hi></p><p rend="text" ><hi >A velha tinha o ar tranquilo de quem espera o que não falha.</hi></p><p rend="text" ><hi >Naturalmente que no burgo aquático das sampanas, dos juncos e das lorchas, em botes pouco maiores que caixões, no curso lamacento do rio, cada dia nasciam e morriam filhos do Celeste Império. Por isso vinham ali com frequência os sacerdotes de Buda e os representantes de Cristo. Vinham sem ser chamados. Por intuição. Por hábito.</hi></p><p rend="text" ><hi >Extraordinári</hi><hi >o, naquele dia da morte de Sam-Ku, era o facto de ter sido anunciado tufão violento. Estavam os barcos ligados uns aos outros por cordas de esparto; as varas de bambu enterradas fundo na lama. Os parentes da moribunda entreolhavam-se, inquietos. Cochichavam os vizinhos que devia ser levada para terra. O neto, porém, sabia da última vontade da avó: morrer ali, nas frágeis tábuas que a haviam acolhido dos naufrágios da vida, no </hi><hi rend="italic" >fân-siun</hi><hi > sobre as águas do rio — único chão fiel aos seus trôpegos passos.</hi></p><p rend="text" ><hi >A irmã de caridade aspergiu água-benta. Depois continuou a rezar. A oscilação do bote aumentava conforme a maré subia.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pouco a pouco, os amigos foram-se retirando para o seus próprios juncos, a cuidar dos bens ameaçados, a queimar incenso aos espíritos da bonança, o susto estampado nos semblantes pálidos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Escurecia. O neto de Sam-Ku agradeceu à </hi><hi rend="italic" >ku-niu</hi><hi >. Ajudou-a a transpor a ponte de barcos. Acompanhou-a ao cais.</hi></p><p rend="text" ><hi >No regresso, contudo, já ele perdia o equilíbrio. A força do vento crescia revolvendo a corrente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não fosse o uivar dos cães, e dir-se-ia que ninguém ali existia (cada família aninhada sob a coberta do barco, às escuras, em silêncio), que, para a luta contra o vendaval, noite fora, iam só ficar cordas, mastros, cascos corroídos.</hi></p><p rend="text" ><hi >No entanto, a morte que se sentara a proa da «casa» do pescador, impávida, firme, lá estava a testemunhar a vida. E ele ouviu o gemido da avó.</hi></p><p rend="text" ><hi >Abrigados a mão e os irmãos na lorcha do patrão, o pescador ficou sozinho junto da velha a velar-lhe a agonia.</hi></p><p rend="text" ><hi >Entretanto o tufão virava Fong-So</hi><hi >ng — Vento-Água —, o monstro feroz que morava nas entranhas da Terra e governava os elementos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Começaram os gritos dos homens a confundirem-se com a tempestade, com o estalar de madeiras podres, com o silvo das sereias nos vapores de carreira de Hong-Kong, nas lanchas da Polícia, nos salva-vidas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Se acaso uma rajada se detinha nos ares, podia escutar-se o choro das árvores que o vento degolava na estrada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Noite de loucura entre os princípios da criação. Talvez um ensaio do fim do mundo. O Criador dormia. Chamassem-lhe Tai-Ki ou Padre Eterno. Não atendia. Sumidos os próprios astros. Só, desamparado diante do caos, o homem era o único observador consciente de um espectáculo de deuses.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um junco incendiou-se. Outros ardiam. As vagas alteravam-se às chamas. </hi><hi >Por momentos era só branco e rubro. Em seguida, o vento, revolvendo o fogo e a água, desfazia tudo em fumo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sam-Ku passara para o colo do neto a fim de que os ossos descarnados se lhe não despedaçassem de encontro ao barco. O delírio do temporal, contudo, fazia-a reviver: «…A minha cabaia doirada como chã de primeira colheita e de seda mais fina que polpa do limão! O casamento do imperador… os seus olhos, dois crescentes de Lua…». Um murmúrio doce e lento, como se nada de grave acontecesse à volta, como se a morte não estivesse ali a pilotar-lhe o barco. «A ama a ligar-me os pés, e ambas a cantar para não chorar…</hi><hi > os </hi><hi rend="italic" >adens</hi><hi > brancos… os seus passos incertos… Os </hi><hi rend="italic" >adens</hi><hi > baloiçando-se como eu e como os navios… Aquele que me levou a casa do meu esposo! Todas as manhãs, por trás da rótula da janela, à espera dele… do primeiro filho». Falava e sorria. Palavras confusas mas sortílegas. Na angústia do momento, o neto mal podia entendê-las, mas fitava a moribunda e era como se, de súbito, ela tivesse remoçado.</hi></p><p rend="text" ><hi >Afinal, que sabia ele da velha? Sam-Ku, Filha Terceira; pés atados; descendente de família nobre. O que todos ali sabiam. No entanto, aquela mulher idosa, o dia inteiro calada, aninhada à ré do barco, a chupar o cachimbo turco, a embalar meninos no berço (embalar a ele, aos irmãos, ao pai, talvez ao pai do pai deles), convivera outrora com príncipes!</hi></p><p rend="text" ><hi >Estremeceu. A velha era do tempo dos senhores e dos servos. Como é que nunca reflectira nisso? Filha de algum tirano — quem sabe? E, por um momento, quis-lhe mal. Não mesmo a ela, mas ao sangue dela (o seu sangue!). Pescador, içava de vez em quando a bandei</hi><hi >ra vermelha e ia pescar em águas continentais. Nascido no fundo de uma sampana, ali ou na vasa de qualquer outro rio, jamais contudo se considerara exilado. Chinês, sim. Chinês da terra grande, do vasto mundo amarelo que cobria um quarto do globo terrestre. Orgulhava-se disso. Daí desfraldar à proa do branco a bandeira do Continente e odiar a raça renegada da avó (a sua raça!). A velha, porém, de pés embaraçados, deformados, mortos, que caminhos poderiam ter escolhido? «Os </hi><hi rend="italic" >adens</hi><hi > brancos… os </hi><hi rend="italic" >adens</hi><hi > baloiçando-se como eu e como os navios…».</hi></p><p rend="text" ><hi >Por mais que se esforçasse não conseguia senão ver a avó agachada no </hi><hi rend="italic" >fân-siun</hi><hi >, de olhar perdido, muda. Pedia-lhe a bênção antes de partir para a pesca como outros se confiavam à protecção de Buda. Uma relíquia. Uma múmia. Múmia de nascimento. Tinham-lhe enfaixado os pés em criança, cortado as asas logo ao ver a luz. Nunca correra ou saltara como as crianças normais; bamboleara só o corpo dorido, cantando para não chorar… A avó. A China das memórias da avó. Cabaia doirada como chã de primeira colheita e passos tolhidos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma vontade de lhe fazer perguntas (roía-o, ao mesmo tempo, a curiosidade e a revolta), de a sacudir, de lhe gritar: «Não sabe que ja não há império, nem castas, nem senhorios? Não sabe…».</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas a morte ia avançando</hi><hi > e era uma coisa imensa. A morte era maior que todas as fraudes e todas as verdades dos homens. Sem pátria, sem credo, sem divisa, a morte era tudo ali. E recolheu-se comovido.</hi></p><p rend="text" ><hi >As horas passavam. A confusão progredia.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Quando chegamos? — perguntou Sam-Ku.</hi></p><p rend="text" ><hi >Houve então um estremeção, como se o cosmo se desmoronasse. E separaram-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >(O pescador havia de dizer mais tarde que fora o próprio ar quem lhe arrancara a avó dos braços. Um ar claro e límpido que crescera inesperadamente entre as suas mãos, do peito encovado da velha).</hi></p><p rend="text" ><hi >Na madrugada, quando, depois de tantos trabalhos, o neto de Sam-Ku foi juntar-se ao resto da família na lorcha meio destruída, já o tufão quebrara muito. A paisagem aquática desenrolava-se numa desolação de mastros partidos, quilhas desconjuntadas, destroços e cadáveres de animais boiando à tona da água.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na marginal, as palmeiras, vencidas do furacão, lembravam um exército de gigantescos, inocentes soldados tombados no campo de batalha, enquanto o céu era uma sepultura aberta à proporção do mundo.</hi></p><p rend="text" ><hi >E ninguém sabia do paradeiro de Sam-Ku, ninguém a alcançava.</hi></p><p rend="text" ><hi >O corpo da centenária nunca o rio o devolveu, nem o seu nome tão-pouco constou das vítimas do tufão. Mas o neto, que a vira transfigurar-se, acreditava secretamente que Fong-Song — o ente fantástico que, das entranhas da Terra, governava os elementos — a levara, calma e contente, na exaltação da noite, para o reino dos justos, talvez (quem sabe?) bem recomendada ao Eterno pelas cerimónias do bonzo e pelas rezas da freira.</hi></p><p rend="h2" >O FILHO DO SOL</p><p rend="text" ><hi >O frio sempre vinha de repente, logo após a noite de Natal. Ia-se à Missa do Galo ainda de traje de seda. No colégio ofereciam chá quente e bolinhos de gergelim depois das três missas — as prendas aos pés do Menino, no palco do salão de festas transformado em presépio. Ficavam as meninas pobres, as que não tinham família onde passar as férias, uma ou outra professora solitária.</hi></p><p rend="text" ><hi >A directora, uma freira americana, deturpou-lhe o nome ao chamá-la. Ela sorriu. Aproximou-se. Era um embrulhinho de papel encarnado afitado a oiro. Mais tarde lembrava-se de ter pousado os lábios numa superfície fria. O rosto ossudo da velha directora no beijo da paz? Os pés de marfim do Menino Jesus?</hi></p><p rend="text" ><hi >Coube-lhe um colar de missangas que a fez pensar num guizo. Corou ao dar conta do próprio pensamento.</hi></p><p rend="text" ><hi >«Porque será que olham tanto para mim? As pequenas… como se nunca me tivessem visto… Estou estonteada. E se perco os sentidos?».</hi></p><p rend="text" ><hi >No desaconchego do salão, à luz das velas do presépio, o reduzido grupo de professores e alunas, meio cerimonioso, meio hostil, confraternizava a custo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em vão, Father Matthew, o franciscano escocês, tentava o seu cantonense com as meninas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Veio de dentro a irmã Chen-Mou, a face de lua reluzindo, com rebuçados de gengibre numa tigela de porcelana. As meninas rodearam-na; mostravam-lhe os presentes; perguntavam-lhe as horas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, tudo como antes. Ao cintilar místico das velas, as caras das pessoas pareciam esquisitamente alongadas.</hi></p><p rend="text" ><hi >No mosaico do chão sobressaíam, claros, os desenhos em cruz, enquanto o tecto, as paredes, as portas, se sumiram, informes, na boca da noite.</hi></p><p rend="text" ><hi >Como ele a assustara ao surgir da sombra dos vidoeiros na estrada, àquela hora! Tinha estugado o passo desde que deixara a praça. Batia-lhe com força o coração. Por pouco não desmaiara mesmo ali aos pés dele.</hi></p><p rend="text" ><hi >O homem cheirava vagamente a sândalo. Apresentou polidas desculpas pelo susto. Verdadeiramente, era o seu caminho também. No instituto houvera festa de Natal, por ser o reitor cristão convertido. Baptismo de seis alunos. Tinham assistido professores cristãos e professores budistas. Tinham bebido vinho de arroz, queimado paus de incenso.</hi></p><p rend="text" ><hi >A estrada era íngreme e ele ofereceu-lhe o braço, que ela rejeitou. Ladraram cães. Ele lamentou não ter carro para a levar a casa. Falou do Ano Chinês, que seria na próxima lua. Iriam juntos comprar o ramo de flores de pessegueiro. Sorria. Ela não o escutava, absorvida como estava num só pensamento: o filho dele em si.</hi></p><p rend="text" ><hi >«Há quantas luas? Por vezes parece-me que passou tanto tempo… que foi noutra vida».</hi></p><p rend="text" ><hi >Noutra vida… Os dois sós e intimidados de ser. Sós e a Natureza: céus claros, árvores frondosas, corpos, leves, longos, lisos. E uma alegria pura, comparante à infância.</hi></p><p rend="text" ><hi >Passavam o cemitério. O mocho piou. Instintivamente, ela achegou-se a ele. Apetecia-lhe chorar, chorar muito, chorar alto.</hi></p><p rend="text" ><hi >A sua terra era do outro lado do mundo. Havia neve. A família deveria lembrá-la mais naquela noite. E talvez lhe escrevessem, lhe enviassem presentes. As comidas que lá se comiam, o tilintar dos copos, conversas cortadas, risos, exclamações. A família! Não podia tornar a vê-la. Trazia nas entranhas sangue de uma raça alheia, o filho de alguém que nunca conhecera nem amara (alguém que nascera milhares de anos antes dela), o fruto híbrido e falso do próprio cinismo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deu-lhe de súbito uma imensa pena do homem. Tão inteligente! E alto e fino. Chinês do Norte? Um fidalgo entre os cantonenses pequenos e grosseiros. Pena também pela total ignorância do que só ela sabia e lhe ocultava: mistério, no entanto, impossível sem ele. Pena pela traição, pela vingança dela.</hi></p><p rend="text" ><hi >«E se fosse boa para ela esta noite?».</hi></p><p rend="text" ><hi >A Lua subira. Mais esguios do que nunca, os ciprestes do cemitério iam tombando em diagonal à beira da estrada. A sombra dele era igual à dos ciprestes. Aquele perfume vegetal… Começou a escutá-lo. Falava mandarim. Dizia versos. Uma musicalidade exótica, como a do vento no bambual. A mão aberta em folha de palma.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não. Não se podia amar um gesto, um som, um mito. E ele era só gesto, som, mito. Por mais que quisesse, nada conseguia recordar de real, de corpóreo. Tudo se fundia na aridez do espírito, ociosamente vago e triste — paisagem de areia…</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma vez, no bar, tomavam </hi><hi rend="italic" >cocktails</hi><hi >. Um relógio chinês entre reposteiros de vidrilhos. O tempo, porém, não existia. Com ele era sempre fora do tempo. Os olhos em fresta falavam de dolorosas, longínquas paragens de eternidade. Aqueles lábios a humedecerem-na, as narinas a aspirarem-lhe a pele. Lábios frios como os pés de marfim do Menino do presépio.</hi></p><p rend="text" ><hi >Outra vez, quisera afagá-lo. Tarde de vento quente de Agosto. As meias-luas pretas das velas dos barcos recortavam-se no horizonte. Ele sorria, um sorriso ausente como o dos retratos. Ficara-lhe a impressão de ter afogado a face do vento.</hi></p><p rend="text" ><hi >Então, a lição na sala dos actos. Todo de negro e púrpura, formal, à moda do Velho Império. A língua estrangeira brotando sem custo dos lábios secos, perfeita, eloquente. A palidez do rosto. Ele era um príncipe, um sábio. O abismo do génio. A confusão dos sentidos. A volúpia do sobrenatural.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não podia ter aquele filho. Não o sentira a formar-se-lhe na carne. Ausente ao gerá-lo. Tinha concebido desnaturadamente da luz do espírito dele, tal a primeira mulher do mundo, segundo Confúcio, concebera da própria sombra.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sabia que a manhã ia alta porque lhe vinha de longe, da estrada, o brado dos condutores de triciclo. Sabia que era Natal pelo embrulhinho escarlate em cima da mesa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Aconchegou ao peito o </hi><hi rend="italic" >min-toi</hi><hi > forrado de seda-bicho. O frio chegara, religiosamente pontual ao nascimento de Cristo.</hi></p><p rend="text" ><hi >No centro da cidade, tendas de bugigangas e </hi><hi rend="italic" >tin-tins</hi><hi > — o burburinho usual que a festa dos cristãos acentuava. Nos carrinhos de comidas, carne de porco estralejando em óleo a ferver, sementes de lódão, rebentos de soja e de bambu, pevides de melancia, </hi><hi rend="italic" >chao-fan</hi><hi >, </hi><hi rend="italic" >chao-min</hi><hi >. Pelas esquinas, cegos de dedos trémulos adivinhando futuros. A velha do realejo e dos remédios e o seu indecifrável pregão. Abrindo caminho aos gritos, os homens do </hi><hi rend="italic" >sam-um-ché</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sem quase dar conta dos seus passos, ela entrou no pagode. Havia, como sempre, devotos a queimar papéis de ofertas nas cinzas fumarentas. Havia os que batiam com a cabeça no chão diante do Buda e os que, reverentemente, tocavam o sino a chamar a atenção da plácida divindade para as suas carências.</hi></p><p rend="text" ><hi >O china baralhou as varinhas da sorte no copo de bambu, mandando-a escolher uma. Tirou depois da parede um pergaminho empoeirado. Principiou a ler.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ela escutava, séria.</hi></p><p rend="text" ><hi >O ar, oloroso, denso de fumo.</hi></p><p rend="text" ><hi >O bonzo disse que ela nascera sob uma lua varrida pelos ventos do Leste, o que era ao mesmo tempo venturoso e arriscado; que a Deusa da Ansiedade velava pelo seu fado, porque nenhum deus sabia do seu horóscopo. Ajuntou que ela confundia os valores do Céu com os valores da Terra, e daí a sua perdição; que nada possuía porque tinha querido tudo; que era aquele, sem dúvida, um destino raro.</hi></p><p rend="text" ><hi >O china parecia-se com o Buda do altar: crânio luzidio, sorriso enigmático, parado, de outro mundo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Subiu devagar a escadaria do colégio. No locutório, a directora recebia. Casais chineses, com a prole, entravam e saíam, mesureiros e solenes. Prelados. Superiores de outras escolas. Numa mesinha de cânfora, tigelas de chá e bolos de farinha de soja tingidos de vermelhão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ia despedir-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os olhos da diretora branqueavam-se de espanto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Apresentava desculpas, a felicitar-se intimamente por mentir tão bem, a medir a surpresa nos olhos da directora, a imaginar como ficariam vítreos se lhe confessasse uma coisa só, a única que valia a pena confessar: a verdade em que ela própria não acreditava.</hi></p><p rend="text" ><hi >«Há quantas Luas? Era Outono. O Outono aqui lembra a Primavera: morno, claro, perfumado. E que contentes que estávamos! Naturalmente, sem razão especial. Contentes apenas. Contentes como a Terra quando a cobre o Sol. Porque não digo isto em voz alta? Contentes e belos!».</hi></p><p rend="text" ><hi >A directora mexia-se no cadeirão. Mandava chamar a subdirectora.</hi></p><p rend="text" ><hi >Passos abafados no lajedo do pátio. A subdirectora usava óculos escuros.</hi></p><p rend="text" ><hi >Devia recomençar. Sentia-se, porém, terrivelmente fatigada. Teve vontade de dizer do fim para o princípio, de se calar, de pedir que falassem elas.</hi></p><p rend="text" ><hi >A directora aludia ao Menino do presépio, à Sua graça.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas que tinha o seu menino a ver com isso?</hi></p><p rend="text" ><hi >No jardim público as sombras das árvores iam-se estirando pelos passeios. O sino da capela das freiras — Natal de Cristo. O pagode — as palavras do bonzo. O Deus dela. O Deus dele. A ambos procurara e tinha de decidir sozinha. De seu, só aquele cansaço tão fundo como se já morta…</hi></p><p rend="text" ><hi >No porto interior, a cidade movediça dos juncos e das lorchas — cascos lodosos, mastros nus como dedos contra o céu — continha toda a velhice do mundo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quedou-se a olhar os papagaios de papel esvoaçando, alegres, no roxo do poente. Os papagaios presos às colunas do cais. Ia-se enredando nos fios de </hi><hi rend="italic" >nylon</hi><hi > dos papagaios. Os fios de dor que a prendiam à vida.</hi></p><p rend="text" ><hi >«Foi no Outono e parecia Primavera. Acho que não o amava mas estava contente. Estávamos ambos contentes. Que importava fosse só um instante? Ele bem merecia amor…».</hi></p><p rend="text" ><hi >A noite fechou-se. Era tudo negro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Oh, quem ficasse para contar dessa alegria! Quem fosse dizer que ela estivera ali e que trazia no ventre um filho do Sol!</hi></p><p rend="h2" >OS LÁZAROS</p><p rend="text" ><hi >Quando o Sol descia no mar, o morro, ao cabo da ilha, era um archote flamejante. Parecia que o mundo ia acabar ali, ou talvez começar, que novas formas, ou o nada, surgiriam, definitivas, da massa ígnea dos elementos — terra argilosa, céu e água ardendo ao sopro do Espírito — e que o tempo que havia de suceder-se seria o dia perfeito da natureza depurada.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Mou, que tinha na face rosetas de lepra, todos os dias saía a admirar o espetáculo do entardecer, trémula de inquietação e de esperança.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era a hora em que as outras doentes se acolhiam ao canto dos catres, ou porque o Sol, espelhando-se no mar, lhes feria os olhos infeccionados, ou apenas por inexplicáveis, secretas superstições.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Mou era jovem, e a doença, ainda no princípio, não lhe causava sofrimento. Verdadeiramente, só tinha as rosetas. O médico prometera-lhe cura. Ela gostava de viver, de se aformosear com cabaias garridas, flores no cabelo, laca nas unhas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pelo fim da tarde, levando ao colo o seu favorito — um porquinho-da-índia que lhe dormia aos pés da cama como um gato —, A-Mou subia até o mais alto do morro, sonhando com um amanhã novo, diferente, melhor.</hi></p><p rend="text" ><hi >Via-se dali a ilha toda: os talhões pantanosos de arroz fulgindo aos últimos raios de sol, nos vales; os arbustos de chá e de inhame em socalcos pelas encostas; as pedras negras e amarelas por entre as matas sempre verdes dos abetos. E ver a ilha era, de certo modo, contemplar o mundo, vislumbrar a vida para além da leprosaria. Na curva larga do mar os barcos tornavam da pesca. Depois, a noite pousava na Terra. E a alma romântica de A-Mou enchia-se de fé, de ternura pela própria existência, de felicidade até às lágrimas.</hi></p><p rend="text" ><hi >As demais chamavam-lhe excêntrica; enquanto elas, chinesas de lei, apreciavam companhia, tagarelice, ruído, em especial ao anoitecer, A-Mou gozava com estar só. Que nem parecia chinesa, comentavam. E, se lhe perguntavam porque saía sozinha àquela hora, sorria. Não dizia, nem saberia dizer, que era mesmo porque ninguém mais saía, porque algo de sobrenatural marcava o momento, porque no regresso fazia escuro, surgiam no caminho os primeiros sapos, os primeiros ratos do monte — que ela quase esperava entrassem de falar, como nos contos da infância —, e as ondas nas covas dos rochedos tinham o som grave de música sagrada.</hi></p><p rend="text" ><hi >De volta, A-Mou achava as companheiras acocoradas na escuridão do pátio, cantando, enquanto se penteavam. Algumas perguntavam-lhe, sisudas, o que tinha visto na noite. Falava-se de duendes. As cegas, de olhos abertos, parados, na treva, lembravam videntes de ignotos e </hi><hi >imponderáveis espaços.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Mou ficava entre as mais, afagando o porquinho no regaço e escutando, espantada, as histórias de fantasmas e de bruxas que as velhas sem mãos, sem nariz, sem orelhas, desfilavam com voz cava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foi assim que ela soube que o amor era uma coisa perigosa. Sempre, nas histórias das velhas, amor, paixão, noivados, se mostravam assinalados por fatos adversos, malefícios, desgraça.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Mou nunca tinha amado, nem sabia bem o que isso era.</hi></p><p rend="text" ><hi >Menina adoecera, menina viera para ali, inconsciente da vida; e entediava-se. Emocionava-se, porém, todos os dias ao entardecer. Como se no dia seguinte lhe dessem alta: um adeus com abraços e prendas, uma festa na leprosaria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas já entre as companheiras, no pátio, voltando a pensar no dia da ressurreição, costumava perguntar de si para si o que faria depois. Não tinha família. A avó, com quem fugira dos arredores de Cantão, morrera logo que ela entrara ali. Era uma velha pequenina e triste, de touca de veludo preto-esverdinhado; fumava ópio em longas horas paradas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Recordava amigos da avó, também gente sem eira nem beira: o professor, quase macróbio, meia dúzia de pêlos escorridos do queixo, palavras doutas (sabia versos que ele lhe ensinara); a mulher que de dia vendia banha de cobra e de noite falava com os espíritos dos antepassados.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em cada amanhecer, com o rumor das caçarolas na cozinha, o odor adocicado do </hi><hi rend="italic" >chouck</hi><hi > nas tigelas do refeitório, o ladrar dos cães, A-Mou saudava a espada de luz que lhe penetrava a alcova num gesto de alegria. No espelho da mesa, as manchas continuavam lá, sobre os malares, por vezes róseas, outras quase roxas. Mas um novo dia despontava. Ela tinha muito em que pensar — entrançar os cabelos, tratar da cobaia, aguardar o pôr do Sol.</hi></p><p rend="text" ><hi >E nem deu pela chegada do moço à casa dos homens, no outro lado do morro. As velhas contavam que tinha atravessado o rio numa jangada construída por ele próprio, em noite sem Lua. Caso brando o seu. O médico pô-lo-ia são em poucos meses. Era rapaz bonito.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Mou principiou então a imaginá-lo uma espécie de deus, como os deuses do lar, à entrada do pagode, galantes, com pássaros nos ombros, ou como o génio do mal que empunhava uma víbora ao jeito de ceptro — divindade de terror para a avó, mas que ela, pelo contrário, achava de sedutora beleza.</hi></p><p rend="text" ><hi >E, sem ter tentado ver o recém-vindo, A-Mou sentia-se a esperá-lo a cada instante, e para ele esperava o penteado todos os dias.</hi></p><p rend="text" ><hi >Claro que o moço não viria ali — proibido aos homens devassar o quarteirão das mulheres — nem ela tão pouco se lembrou de o procurar. Mas pensava nele de manhã, ao acordar, e durante o passeio do pôr do Sol, e quando se vestia, e quando entrançava os cabelos. Acreditava-o vindo de propósito para a despertar da modorra das horas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Saberia ele que ela existia? Decerto que sim. A avó costumava dizer que os fios do pensamento eram mais fortes que os fios do tear. Teciam teias do comprimento de estradas imperiais, resistiam a tufões, atravessavam águas de rios e de mares. De tanto pensar nele, o moço já a conhecia a essa hora. E já contava com ela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Naturalmente que não podiam esperar um do outro algo de duradoiro. Uma vez curados, se caso se entrassem no mundo dos sãos, talvez fingiram ignorar-se. No mundo dos sãos nada poderia ser igual porque eles próprios haviam de ser diferentes.</hi></p><p rend="text" ><hi >E chegava a julgar-se feliz por estar doente, por estarem ambos doentes, por vegetar em ambos ali. Que havia de ser dele sem ela? Que havia de ser dela sem ele?</hi></p><p rend="text" ><hi >No mundo dos sãos não precisariam tanto um do outro. Essa a razão de Deus consentir a doença… e o exílio? Na desgraça, as pessoas tornavam-se mais importantes. Era ver a avó: no fim da vida nunca o </hi><hi rend="italic" >pó branco</hi><hi > lhe faltara para o cachimbo. E o velho professor, o enterro que tivera! A senhora octogenária e rica que se sentava no pátio maior —</hi><hi > cercada de criadas e sem pernas dos joelhos para baixo — com saúde, era </hi><hi rend="italic" >tai-tai</hi><hi > de sua casa, só; doente, mandava no hospital inteiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sim, a desgraça tinha as suas compensações. No mundo dos sãos, tanto ele como ela jamais seriam únicos. E jamais ela guardaria consigo aquela certeza. As histórias das velhas falavam de ciúmes e traições. Com eles não aconteceria tal. Histórias de gente livre. A liberdade pagava-se. Embora não pudesse contar com ele depois, agora contava A-Mou com ele todo.</hi></p><p rend="text" ><hi >E pensava no moço devotamente, como quem pensasse nos ídolos do lar, como quem, temerário, prestasse culto ao génio do mal.</hi></p><p rend="text" ><hi >O tempo corria. As noites dobravam-se sobre as tardes. A tagarelice das mulheres deixou de entreter o assunto do novo leproso. E A-Mou esperava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foi no passeio do lusco-fusco que o sonho se tornou realidade. De repente, já o Sol descera, notou um vulto a seu lado, um vulto que se lhe dirigiu, lhe disse o nome, quis saber o dela. Não podia ser mais ninguém. Nenhum homem ou mulher doente ali vinha a tal hora, e os sãos assustavam-se só em ver de longe o morro dos leprosos. No escuro, A Mou distinguia-lhe apenas os olhos. O mar ressoava no côncavo das rochas. Ele arrancou um ramo de lúcia-lima de um arbusto próximo, esmagou as folhas nos dedos, o perfume espalhou-se, tomou conta da noite.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, fois mais ou menos sempre igual. Ele vinha após o sol-posto. Havia a fragrância do limonete e o choro do mar. Em noites de Lua chegavam a ver-se perfeitamente. Ele gabava-lhe as tranças. Ela comparava-o, no coração, aos deuses jovens do pagode. Foi mais ou menos sempre igual e sempre inesperado: as horas, o dobro do tempo; os silêncios exprimindo mais que as falas; o gesto gratuito; a alma isenta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas, rápidos, iam correndo os meses dados pelo médico para a cura do rapaz. Seria que ele já não tinha rosetas no corpo? Incapaz de perguntar, e sem mesmo desejar sabê-lo, A-Mou via, dia a dia, as suas crescerem no espelho.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nas conversas da noite, as companheiras faziam-lhe agora mais perguntas.</hi></p><p rend="text" ><hi >E A-Mou cada vez a falar menos.</hi></p><p rend="text" ><hi >E que dizer, afinal? Do seu rosto, as manchas arroxeadas falavam por ela, tal como da grande </hi><hi rend="italic" >tai-tai</hi><hi >, sentada no pátio interior, as pernas que não tinha, e noutras as mãos, o nariz, as orelhas. Como em todas, a fidelidade à desgraça.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas ainda bem que ele viera uma noite, três, trinta. E ainda bem que ela, durante tantas noites, acreditara na aparição.</hi></p><p rend="text" ><hi >Já não era para contemplar a fogueira do pôr do Sol e sonhar com um amanhã renovado que ainda subia o morro ao entardecer. Nem por causa do homem. Só por si própria. Porque tinha de viver, mau grado a morte que a marcava. Porque o médico não voltara a aludir à cura e ela precisava de saber das </hi><hi rend="italic" >venturas</hi><hi > do amor para um dia as contar, agachada no pátio, a alguma menina inocente que entrasse na leprosaria.</hi></p><p rend="h2" >O HOMEM DO <hi rend="italic" >SAM-LUN-CHÉ</hi></p><p rend="text" ><hi >O menino apareceu certa manhã húmida de Março à porta do convento. Era de idade à volta dos seis meses, feições mistas de chinês e europeu, pele clara. Uma criança perfeita, embrulhada em flanelas encarnadas e um amuleto de osso no pulso.</hi></p><p rend="text" ><hi >Naturalmente que as rezas se atrasaram no coro, essa manhã. Necessário alimentar o menino, que chorava alto chupando no dedo, trocar-lhe as roupas frias por panos aquecidos. Um alvoroço entre as monjas mais novas. Preocupação e dó no rosto severo da abadessa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não era a primeira vez que na portaria do convento apareciam crianças abandonadas. Sempre, porém, meninas recém-nascidas. Por vezes as próprias mães iam lá oferecê-las. </hi><hi >Os pais não as queriam. Tinham de desfazer-se delas de qualquer jeito. As madres tentavam convencer, prometiam a farinha, o enxoval, acabando por receber as pobrezinhas e enviá-las para a creche, donde, na devida altura, passavam ao asilo das órfãs.</hi></p><p rend="text" ><hi >Algumas dessas enjeitadas tornavam-se mais tarde irmãs conversas; outras ficavam empregadas da casa, bordadeiras. Havia um rumo a dar-lhes quando atingissem a idade adulta. Eram chamadas filhas-da-caridade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Rapaz contudo, parecia muito mais complicado. Onde o poriam depois da creche? Decerto que a mãe estava mesmo desesperada para assim abandonar um filho varão.</hi></p><p rend="text" ><hi >As criadas bisbilhotavam: «Mãe desnaturada! Filho macho, a maior felicidade de qualquer mulher! Bailarina, com certeza, rapariga de vida fácil, alma sem sentimentos, sem dignidade».</hi></p><p rend="text" ><hi >A gorda irmã porteira, que fora a primeira a ver o menino, impunha silêncio. Quem poderia dizer o que levara a mãe a repudiar o filho? Na realidade, ela o aguentara até àquela idade</hi><hi >… Quem sabia do drama de tal separação? Rezar por ela, sim, a única coisa que valia a pena.</hi></p><p rend="text" ><hi >Claro que a madre superiora não recorreu às autoridades nem tentou investigações, porque tudo seria infrutífero. Impossível descobrir a família do exposto num tão confuso mundo, na maioria pessoas sem identificação — refugiados dos mais diversos pontos da China, dia a dia, em levas de dezenas, usavam nomes falsos, desconheciam-se entre si, falavam dialetos diferentes, atropelavam-se e odiavam-se uns aos outros, sob o mais trágico destino que pode pesar sobre as criaturas: a falta de um pedaço de terra.</hi></p><p rend="text" ><hi >A solução não seria adoptar o enjeitado, baptizá-lo, confiá-lo à Providência?</hi></p><p rend="text" ><hi >Deram-lhe o nome de Francisco, em memória do santo falecido ali em frente, na ilha de Sanchoão, há quinhentos anos. Madrinha, a criada mais antiga do convento. Padrinho, o santo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas, no dia seguinte àquele em que o menino apareceu na portaria do convento, alguém pediu uma entrevista particular à madre abadessa. Era o homem do </hi><hi rend="italic" >sam-un-ché</hi><hi >, esse que, à hora de as meninas saírem do colégio, gritava na praça a sua oferta de transporte. Vinha rogar o favor de o menino lhe ser confiado, logo que a creche não o pudesse ter. Era velho, pobre, só. Seu desejo, no entanto, dedicar-se a alguém. Possuía no porto interior a sua sampana, onde podiam caber ambos. Os cinquenta avos de cada corrida davam-lhe ao fim do dia o bastante para dois.</hi></p><p rend="text" ><hi >A madre aceitou, agradecida, com a condição de ele frequentar a igreja católica, a catequese, de o convento velar pela sua educação espiritual.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha rezado toda a noite a São Francisco Xavier, a madre superiora, pedindo lar para a criança desprezada. A resposta do santo viera pronta. Milagre. O velho do </hi><hi rend="italic" >sam-un-ché</hi><hi > era chinês sério, de confiança do convento. Criar-se-ia o rapazinho com o seu povo. Cristão baptizado, educado na Igreja. Quem sabe se não chegaria a ser exemplo de muitos, a conversão do próprio protector?</hi></p><p rend="text" ><hi >Francisco Cheong — do nome do seu adoptante — fez-se um gentil menino do coro que ajudava à missa todas as manhãs na capela do convento, apresentando ao padre, na bênção da tarde, o turíbulo oloroso de incenso.</hi></p><p rend="text" ><hi >O velho Cheong deixava o triciclo à esquina para ir ver o pequeno nos actos do culto. Por vezes as lágrimas subiram-lhe aos olhos. O menino mais parecia um anjo do que gente. Passos silenciosos de um lado para outro do altar, uma vénia agora, as mãos erguidas depois, a língua estranha que ele falava, a batina encarnada a atrapalhar-lhe os pés, o roquete de rendas farfalhando. Um orgulho, um filho assim, de feições mistas de chinês e europeu, esguio e branco, que o destino lhe confiara, a ele, pobre velho sem família.</hi></p><p rend="text" ><hi >E daí passava pelo pagode a agradecer aos deuses a graça do filho adoptivo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Francisco era inteligente. Ia bem nos estudos. Desenhava a primor os caracteres sínicos. Respeitava e amava o velho a quem chamava pai.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao fim da tarde o homem do </hi><hi rend="italic" >sam-un-ché</hi><hi > parava à porta da escola masculina. Ali não precisava de gritar o seu pregão. Ia buscar Francisco, que, livros na mão, se sentava na cadeirinha, depois de saudar o pai. O homem pedalava, estrada fora, e ambos contentes, rumo ao barco no lodaçal do rio.</hi></p><p rend="text" ><hi >De manhã, era o caminho para a igreja. O velho comovendo-se, ao fundo da nave, com o porte do filho.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas lá veio o dia em que alma piedosa insinuou a Francisco o dever de trazer o pai para o seio de Cristo. Ele, cristão baptizado, menino de coro, comungante, e o pai, a frequentar o pagode, a bater com a testa no chão diante do Buda, a consultar o bonzo. Não ficava bem. Como podia um filho católico crescer feliz junto do pai adorador dos ídolos?</hi></p><p rend="text" ><hi >Na consciência de Francisco jamais tal problema acordara, e não foi sem relutância que, instado, prometeu falar nele ao pai. Achava conversa difícil, algo desrespeitosa até. Tão gozoso o velho de ir ao pagode nas festas solenes, de oferecer comida e queimar perfumes no altar dos deuses! Lera nos livros antigos que quinhentos anos antes de Cristo já na China se ensinava a Bondade e a Beleza. Não descortinava dentro de si, católico, virtudes maiores do que as do velho budista.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era na viagem de regresso a casa. Anoitecia. O rapaz via o busto curvado do pai pedalando à frente. Não sabia por onde começar. Nunca o velho criticara a religião dele, Francisco; antes pelo contrário, achava bonito, tinha orgulho em vê-lo na capela do convento a ajudar o padre, a acender as velas, a comungar o Senhor. Porque ia ele agora menosprezar o seu deus, dizer que era falso, que de nada lhe valiam as oferendas a Buda, as orações?</hi></p><p rend="text" ><hi >Chegaram a casa sem palavra.</hi></p><p rend="text" ><hi >O velho Cheong perguntava a si mesmo por que razão se mostrava o moço tão pensativo aquela noite.</hi></p><p rend="text" ><hi >O jantar decorreu também em desusado silêncio. Ouviam-se os </hi><hi rend="italic" >fachis</hi><hi > de bambu tinir na borda das tigelas. O velho ofereceu mais arroz. Francisco acenou que não. Ficaram ambos, calados, a olhar a noite e as águas escuras. Depois Francisco abriu a boca para citar uma frase do Evangelho. O pai ergueu se. O barco vacilou. À luz da candeia, a sombra do velho alongava-se em ponte até o cais.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por fim, já deitados, lado a lado, nas tábuas carcomidas do bote, o rapaz, encorajado pelas trevas, entrou a falar de religião.</hi></p><p rend="text" ><hi >O velho escutava, atento. Gostava de ouvir o filho. Como sabia tanto o menino! Claro que não entendia tudo que ele dizia. Falar de Deus, todavia, parecia-lhe matéria excelente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Francisco contava dos mistérios da sua fé, referia-se à Bíblia, a passos da vida de Jesus.</hi></p><p rend="text" ><hi >O sono pesava nas pálpebras cansadas do condutor de </hi><hi rend="italic" >sam-un-ché</hi><hi >: um sono bom, todo embalado nas palavras do filho, palavras ressoantes de doçura, de perdão, de amor.</hi></p><p rend="text" ><hi >A hora avançava, dando lugar à Lua. Uma Lua cheia, leitosa, que o moço contemplava enquanto discorria, e que lhe trazia à ideia a lembrança de uma deidade </hi><hi >— Nossa Senhora?, alguma santa?, o Génio da Noite?</hi></p><p rend="text" ><hi >— …Paz na Terra aos homens de boa vontade — murmurou.</hi></p><p rend="text" ><hi >E comparava a paz divina à Lua redonda. Sentia mesmo essa paz como nunca antes a havia sentido. E não disse mais nada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Todo vestido de luar, olhos fechados, mundo a seu lado, o pai era como se estivesse morto. Tão puro, tão bom! Desejou afagar-lhe as mãos ao de leve. A alma dele devia assemelhar-se ao rosto da Lua. Religião, Deus, oração, não seriam afinal o velho de alma branca como a Lua e a serenidade que de ambos irradiava?</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa doutrina, no entanto, nunca ninguém lha ensinara. Não a aprendera na catequese nem na escola. Talvez que professores e catequistas não tivessem reparado na Lua e no homem do </hi><hi rend="italic" >sam-un ché</hi><hi >. Ele, porém, sabia agora que era assim.Uma revelação, aquela noite. Nem cristãos, nem budistas, nem tauistas, nem confucionistas…</hi><hi > Deus, só. Um deus de todos.</hi></p><p rend="text" ><hi >A custo o velho abriu os olhos, vencendo o sono. O filho estava calado, meditabundo, com certeza findara já a sua bela história. E Cheong balbuciou:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Tão novo e sabendo coisas que um velho mal entende! Por isso vou ao pagode depois de te deixar na capela das freiras. Quanto devo agradecer aos deuses um filho assim!</hi></p><p rend="h2" >MAGIA</p><p rend="text" ><hi >Foi na Ladeira do Dragão que visitei o bruxo, na casinha baixa com dois lampiões vermelhos à porta e a tabuleta a oiro e púrpura: </hi><hi rend="italic" >Vong Kei </hi><hi rend="italic" >— Adivinho</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Vong Kei era casado e tinha cincos filhas, todas bailarinas e cantadeiras de teatro. Obeso, de pele clara, olhos afogados nas banhas do rosto, vestia cabaia de seda preta que lhe descobria a base das pernas nuas, gordas, sem pêlo.</hi></p><p rend="text" ><hi >No cubículo em que profetizava e onde só havia uma mesa e duas cadeiras, pendiam da parede tábuas de sândalo com caracteres sínicos.</hi></p><p rend="text" ><hi >A mulher, relativamente nova, andava de um lado para outro em combinação, porque fazia calor, obsequiando os clientes com tigelas de chá. Ouvia-se o server do chá, o murmurar de insectos, de quando em quando um suspiro. Em volta, espelhos com dizeres em chinês, jarrões de folhas secas, e, ao fundo, entre ofertas de comida e paus de incenso, o altar das almas e dos deuses.</hi></p><p rend="text" ><hi >Junto do altar, num canto tão sombrio que mal lobrigava, uma velha, afundada em cadeira de espaldar, parecia dormir.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quem suspirava era uma rapariga grávida no fim do tempo, de queixo quase pousando no ventre. Súbito, saindo da cela do bruxo, um homem forte, de óculos pretos (cego?), atravessou a sala de braços estendidos como quem tacteasse, empurrou a porta que dava para o pátio, soltou um brado de dor ou desespero. E os demais taparam os ouvidos escondendo a cabeça nas mãos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não sei se foi o ambiente se o próprio adivinho que me convenceram. A verdade é que rira, antes, zombando da magia e da minha amiga chinesa que nela cria. Entrara céptica, embora cheia de curiosidade. E acabei por estender a mão, escutar o mágico, pagar a consulta, ficar impressionada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ir lá só para acompanhar outrem não era permitido. Impeliram-me, cortina adentro, logo que alguém saiu, e, por ser estrangeira, fui à frente da minha amiga.</hi></p><p rend="text" ><hi >Culto, falando inglês, o feiticeiro relacionava os acontecimentos e os astros, rodando no pulso esquerdo, como quem brincasse, uma argola de jade, enquanto com a mão direita segurava a minha. Não havia alfarrábios  na mesa, mas alguns dados num vaso de marfim, que só uma vez consultou. E quando me fixou nos olhos, sorrindo, absorto, cheguei a imaginar-me diante de um ente sobrenatural, quem sabe se do próprio Buda?</hi></p><p rend="text" ><hi >O gorgolejar do chá, o sussurro de insectos, os suspiros da grávida, </hi><hi >haviam desaparecido. Agora era o silêncio e a fala pausada do adivinho. É tão dominante a esfera dos seus poderes que tive vontade de ficar ali a ouvi-lo a tarde inteira.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foi a mulher, do lado de fora, quem arredou o cortinado de vidrilhos, avisando que para mim a audiência terminara.</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa falava cantonense. Pálida, corpo pequeno quebrado de vénias. A combinação, lilás, contornava-lhe o pescoço e os ombros, revelando-lhe as coxas à transparência da seda. Nos pés arrastava chinelas bordadas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Enquanto a minha amiga era atendida, levou-me ela ao quarto de cama para me mostrar o retrato das filhas — cinco raparigas da estatura da mãe, de cara pintada e flores nos cabelos. Bailavam no teatro em Xangai.</hi></p><p rend="text" ><hi >O quarto era escuro. Ela acendeu a lanterna de papel de arroz. Como eu a entendesse mal, exprimia-se por gestos, destapando os dentes chapeados de ouro. A luz colorida da lanterna, a mímica da mulher, a máscara das dançarinas, faziam crescer o mistério da casa, do bruxo (ou Buda?), do meu estado de espírito. «E se eu desatasse a gritar como o cego?». Então um gato saltou da esteira, passou entre nós, tomou o rumo da sala, ia transpor o reposteiro. A mulher, em pânico, correu a agarrá-lo. Explicou-me: o marido não podia ser perturbado.</hi></p><p rend="text" ><hi >Voltámos à saleta. Uma freira budista, de cabeça rapada e cabaia cinzenta cain</hi><hi >do solta até aos pés, perfeitamente confundível com um homem, entrava. A dona da casa postou-se diante dela, tocou-lhe com a cabeça no peito, apresentou-lhe a tigela do chá. Acocorando-se depois junto das visitas, que se sentavam, caladas, em tamboretes, parecia inquieta, como se alguma coisa estivesse para acontecer.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu pensava na moça do fim do tempo. Semelhante às bailarinas, também ela tinha máscara, ma de pano da gravidez. Que lhe diria o mágico? Que ia nascer uma rapariga quando o pai da criança só se casava se fosse rapaz? E porque teria o cego soltado aquele brado de aflição?</hi></p><p rend="text" ><hi >Quanto a mim, recordava do adivinho pouco mais do que o som manso da voz, o aroma de sândalo, aquela remota e contudo tão inteira presença. O bastante para sentir por ele respeito e quase temor. Como se ele fosse o senhor dos nossos destinos e todos dependêssemos da sua palavra. «Que vou fazer amanhã? Com que idade morrerei?».</hi></p><p rend="text" ><hi >A noite ia descendo. Iam-se os rostos perdendo nas sombras. No altar, os pivetes consumiam-se em cinzas aromáticas. Nisto, e vindo da cadeira ao fundo, um gemido rompeu o silêncio da sala — a velha tinha recebido o aviso telepático do filho e não podia expressar-se de outro modo porque estava moribunda.</hi></p><p rend="text" ><hi >A mulher do mágico ergueu-se, rápida, cruzou o aposento, afastou a cortina de contas, disse à cliente que saísse. E a nós, num cochicho, se não gostaríamos de esperar pela monja, que costumava distribuir lembranças sacras. Era a mãe-santa do convento.</hi></p><p rend="text" ><hi >A minha amiga china escolheu ficar; sem ser propriamente budista, apreciava quaisquer relíquias.</hi></p><p rend="text" ><hi >A mulher de Vong Kei fechou, pois, a porta da rua. Tinham terminado as consultas do dia.</hi></p><p rend="text" ><hi >E, enquanto esperava, vi as cinco bailarinas, de cara caiada e diadema de flores, saírem do retrato na parede da alcova e iniciarem uma dança, de mãos dadas. Era uma dança terrível. As pessoas que ali haviam passado naquele dia e todos os dias de todos os tempos revolteavam nela, arrastadas, sem querer. E cada um pasmado de si e dos outros. «Será que ela me trai?» — « Diga-me se ele gosta de mim!» A velha, cercada pelo fumo dos lumes no ângulo do oratório, estorcia-se ao ritmo da dança, como quem a comandasse. As perguntas aumentavam, confundiam-se, perdiam-se num clamor. Toda a gente querendo alguém, alguma coisa. Todos inquietos. Desvairados todos. E a velha a arquejar. O filho? Onde estava o filho? Onde estava aquele que nascera do seu ventre e sabia tudo?</hi></p><p rend="text" ><hi >À espera da freira, na penumbra da sala, entre a minha amiga e a mulher de Vong Kei, impassíveis, presenciei esse quadro talvez por ter ido ali sem intenção. Eu e a velha. Que esta, à medida que se finava, é que o ia criando.</hi></p><p rend="text" ><hi >O gato rondava agora, vagaroso, por entre os bancos. A monja saiu. O bicho entrou. A do adivinho principiou a renovar as luzes do altar onde a mãe-santa do convento foi depor uma flor seca, oferecendo-nos a nós sementes de lódão chamuscadas e cheirosas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois o bruxo apareceu na moldura da porta, repartindo a cortina. Tão largo o seu corpo que enchia o vão. A mulher apresentou-lhe uma bacia de água. Ele dirigiu o olhar para a mãe, ao canto, encolhida na espalda da cadeira, estendeu as mãos em direcção à bacia, o rosto gordo franziu-se-lhe, dorido, e desatou a chorar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era como se não houvesse ali mais ninguém senão Vong Kei e a noite, Vong Kei e a morte. O volume do bruxo contra os vidrilhos — estrelas ao clarão dos lumes —, a sua imponência, a sua amargura, dominavam de tal modo que, além dele, só o vulto desfeito, murcho, da mãe.</hi></p><p rend="text" ><hi >A monja apressava-se, dizia que já deveríamos estar lá fora. Vong Kei nem parecia ver-nos. De bacia nas mãos, a mulher era sem palavras.</hi></p><p rend="text" ><hi >E não posso mais esquecer o choro abafado, rouco, do adivinho, um choro que se alongava na sala de tecto baixo, que nos seguiu até à rua, que fazia pensar na fala distante do trovão.</hi></p><p rend="h2" >A MORTA</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Os antigos mortos, invisivelmente</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Vêm ainda ao seu terraço antigo…</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Já sopra da nona lua o vento lamentoso.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(<hi rend="italic" >Elegia Chinesa</hi>- versão de Camilo Pessanha)</p><p rend="text" ><hi >Numa tarde sufocada de tufão, enquanto as professoras do colégio jogavam </hi><hi rend="italic" >majong</hi><hi > e trincavam pevides de melancia na sala do lar, com as persianas corridas, as portas trancadas, ventoinhas e leques refrescando, Mei-Lai convidou-me a descer ao claustro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mei-Lai era uma chinesa de corpo bem feito, rosto largo de tez amarelo-terrosa, olhos ternos, que ensinava, como eu, na escola inglesa. Costumávamos sair, as duas, ao domingo, para comer </hi><hi rend="italic" >chao-min</hi><hi > malaio, às vezes canja, em restaurantezinhos baratos cujos donos ela conhecia e que mandavam os filhos pequenos reverenciar diante de nós e tratar-nos por tias — tratamento de deferência entre os Chineses. Íamos também juntas ao cinema durante a semana, no fim das aulas, ou passear pela avenida marginal ao pôr do Sol. Éramos boas amigas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por isso quando Mei-Lai me propôs sair como ela, acedi com prazer. Agradava-me a sua companhia — e estava tão abafado dentro de casa!</hi></p><p rend="text" ><hi >Do alto da parede do claustro descobrira a minha amiga uma abertura gradeada donde podíamos ver, sem sermos atingidas, a água invadindo o jardim e o vento rechaçando tudo em derredor.</hi></p><p rend="text" ><hi >Trepámos os degraus de pedra do muro interior e encostámos-nos, caladas, às grades do postigo. Mei-Lai, de ordinário alegre, parecia melancólica.</hi></p><p rend="text" ><hi >Uma osga de corpo rosado e olhinhos de azeviche corricou, assustada, quedando-se um instante, para, por fim, regressar à cornija do arco onde uma aranha se encolhia na teia. Súbito, uma rajada de vento arrastou a teia, a aranha e, provavelmente, a osga, que deixámos de ver.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mei-Lai disse, de olhar absorto:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Dia de tufão é dia de morte. Morrem árvores, morrem bichos, morre gente. Há dez anos, num dia como este, morreu a minha avó.</hi></p><p rend="text" ><hi >A avó fora uma mulher notável que, apesar de pobre, criara dez filhos para a riqueza. Pequena, magra, activa, inteligente, mandara seis pares para a América, para a terra do ouro, à custa só das leiras de arroz por ela duramente trabalhadas de sol a sol. Quando o marido morreu, andava pejada do décimo filho. A viuvez, contudo, não a assustou: nada podia assustar uma mulher como ela. Do arroz de cada colheita todos os anos apartava uns tantos </hi><hi rend="italic" >cates</hi><hi > — ração que por vezes tirava à boca </hi><hi >—, vendia-os, e o produto da venda, arrecadado no fundo da arca, destinava-se à viagem dos filhos. Durante vinte anos não teve mais do que duas cabaias de pano grosseiro. Os sapatos que a família levava ao pagode nos dias de festa eram feitos por ela com palha de arroz e pele de porco.</hi></p><p rend="text" ><hi >Da América, os rapazes foram enviando os dotes para as irmãs casarem bem.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, a velha não quis aceitar mais nada. Riqueza para ela não tinha sentido. Basta-lhe a terra, que continuava a lavrar de sol a sol, agora mais devagar, o arroz, que o seu labor e os deuses faziam crescer, o saber os filhos na abastança.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quando o último filho embarcou, chamado pelos irmãos já encarreirados na vida, preparou um banquete só para ela: pato estufado que não comia desde o dia do casamento — as ripas do telhado fumegando tanto que os vizinhos se assustaram, julgando tratar-se de incêndio. Era a satisfação de ter cumprido o seu dever de mãe.</hi></p><p rend="text" ><hi >O pai de Mai-Lai, como primogénito, encomendou noiva da terra natal. Mei-Lai nascera no Colorado. Aos seis anos mandaram-na, com a irmã mais velha, para junto da avó, a fim de se educarem chinesas. E, tempos mais tarde, com um pé-de-meia, os pais foram viver com elas, a dar a velha o bem merecido conforto da companhia do filho maior e dos netos.</hi></p><p rend="text" ><hi >No dia da reunião da família, a avó cozinhou outra vez pato, tão contente que (ela própria o confessou) chegou a recear morrer de alegria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tínhamo-nos, entretanto, sentado nos degraus toscos, desiguais.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em baixo, as lajes do claustro iam-se afundando sob o aguaceiro. Abrigada no seu nicho, uma imagem de pedra musgosa velava, tranquila. Mei-Lai fez uma pausa, como se o resto da história lhe exigisse um grande esforço e já lhe escasseasse o fôlego.</hi></p><p rend="text" ><hi >—</hi><hi > Subitamente, a revolução estalou…</hi></p><p rend="text" ><hi >O pai de Mei-Lai reagiu. Que sabia ele dos sonhos de uma justiça colectiva, abstracta e distante? Foi morto.Tiveram de entregar todos os bens, incluindo as leiras de cuja seiva a avó tirara o sangue de criar dez filhos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Com a guerra veio a epidemia. O Governo obrigou as mulheres ao serviço dos enterramentos. O povo sublevou-se. Tocar em cadáveres de gente alheia ia cruelmente além das suas forças. Recolher os ossos dos seus antepassados, sim, era o mesmo que guardar as cinzas sagradas do templo. Mas mexer em defuntos desconhecidos, abrir-lhes a cova, sepultá-los sem caixão, sem flores, sem bonzos, roçava pelo sacrilégio, até podia atrair a ira do Omnipotente.</hi></p><p rend="text" ><hi >A mãe de Mei-Lai arrepanhava os cabelos, num desespero.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os soldados prendiam a torto e a direito, ameaçavam pegar fogo ao povoado. E foi então que a avó se ergueu na praça para falar às mulheres.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mal começou a falar, desceu em torno um fundo silêncio. O discurso feito com as veras da alma e mais ainda a sua humilde e patética figura, entre os soldados de armas aperradas, suspensos, e o povo inquieto, impressionaram uns e outros.</hi></p><p rend="text" ><hi >A avó pedia às mulheres que mostrassem a força da sua dor.</hi></p><p rend="text" ><hi >E, à frente delas, curvada, trôpega, deu o exemplo, lançando-se ao trabalho.</hi></p><p rend="text" ><hi >Olhavam-na os militares, atónitos; seguiram-na as mulheres, submissas; e a aldeia foi poupada a mais vexames.</hi></p><p rend="text" ><hi >Da avó partiu também a ideia da fuga para Macau. Ela, que tanto amava o rincão onde nascera, achava que não valia a pena continuar ali, após a morte do primogénito. Na terra da China tudo lhe acontecera já, desde ser forçada a enterrar cadáveres de estranhos até ver aquele filho assassinado. Queria agora um lugar longe, para morrer. Se ninguém a acompanhasse, iria só.</hi></p><p rend="text" ><hi >Meteram-se os fugitivos, de noite, pelas montanhas. Esconderam-se em cavernas assombradas por aves de rapina. Perderam-se nos córr</hi><hi >egos precipitosos. Mastigaram folhas, raízes, bagas silvestres. Chuparam seixos para apagar a sede. Chegados ao rio, duas semanas mais tarde, a velha só podia arrastar-se, e cada movimento lhe fazia sentir o corpo uma chaga.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era dia de tufão, um tufão terrível que cortava as árvores pelo pé com tanta agilidade como os ceifeiros no campo cortando as hastes do arroz.</hi></p><p rend="text" ><hi >A noite, negra e tumultuosa. Estalavam trovões. O alarido das crianças sublinhava o pranto das mulheres. Os homens admoestavam, receosos de serem ouvidos pelos guardas da fronteira. O barulho do vendaval, entanto, absorvia quaisquer outros sons.</hi></p><p rend="text" ><hi >A velha era a única que mantinha a força interior, que ia dando alma aos companheiros.</hi></p><p rend="text" ><hi >Acabaram a noite e a tempestade por os separar. A avó desapareceu. Em vão durante horas a buscaram nas trevas, para, de madrugada, a encontrarem enfim num barranco; um fio de sangue a correr-lhe pelo rosto miudinho e ossudo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na outra margem ficava Macau.</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa noite, Mei-Lai dizia, jamais se lhe varreu da ideia.</hi></p><p rend="text" ><hi >Entre homens, mulheres e crianças eram treze.</hi></p><p rend="text" ><hi >Numa cova onde se acolheram, formaram círculo em volta do corpo da avó, rasgando cada qual uma tira das vestes em farrapos para o amortalharem. Alguém tirara do seio um pacotinho de serradura da sândalo com que aromatizou o cadáver, todo ligado, a seguir: cabeça e peito de costelas, pescoço, ventre de peles, ancas mirradas, braços e pernas, dedos um por um.</hi></p><p rend="text" ><hi >— O principal era podermos levá-lo connosco. Chorávamos todos. Chorávamos e rezávamos para que o tufão abrandasse e conseguíssemos atravessar o rio sem danificar o nosso tesouro. Dir-se-ia mais importante salvar a avó morta do que as nossas próprias vidas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Chovia ainda quando transpuseram as águas revoltas. De certa maneira, a tempestade e a manhã cinzenta protegiam-nos dos guardas. Os homens, que tinham atado troncos de abetos com juncos, armaram sobre os troncos uma espécie de pirâmide com os meninos, que as mulheres amparavam, para resguardar da humidade o corpo da morta. Então, remaram com bambus.</hi></p><p rend="text" ><hi >A travessia durou uma eternidade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um pato bravo voava baixo, aos berros, como que a denunciá-los — as asas desenhando nas águas sombras pressagas. Ouviram-se tiros, ao longe, tiros que estremunharam a pilha de meninos meio adormecidos. Os homens pararam, emudecidos, com a vara de bambu entre as mãos. Os tiros cessaram. Foi só um momento, e horroroso. Quando tornaram a avançar, as mulheres suspiraram. E Mai-Lai, fitando o céu nublado, sem saber bem onde estava, teve a fugidia visão de uma jangada de mortos, e a avó à proa: a avó com asas, que tanto eram as do pato bravo como as fogosas e invisíveis asas do tufão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Atingida a outra margem, sentiam-se tão fracos que julgaram não ter ânimo para mais. Cumpria-lhes, no entanto, prosseguir. A morta não podia cair em mãos desconhecidas nem ser enterrada senão pela família: tanto um preceito sagrado como uma dívida. Graças a ela, ao seu exemplo, é que tinham escapado… Mas escapado de quê? A desventura seguia-os. Eram agora mais pobres do que nunca. A mãe, aninhando-se, pousou a cabeça em terra e chorou. Chorou pelo marido que em nação longínqua fizera fortuna, para ser na sua humilhado e enterrado na vala comum; pela avó ali morta e sem ataúde nem túmulo; por todos eles, adultos e crianças, atirados a costas estrangeiras como náufragos. E jurou em voz alta vingança contra o Destino. Era ainda bastante forte para impelir a remos um tancar, carregar água aos ombros, puxar o búfalo na lavra do arroz. Mas as filhas ,essas jamais haviam de servir.</hi></p><p rend="text" ><hi >— A-Seng, nosso companheiro de jornada, tinha um amigo em Macau que nos emprestou um baú desconjuntado para guardarmos a morta e nos disse de um esconderijo num barco abandonado. Ali ficámos, eu e a mãe, enquanto os demais procuravam comida e no-la traziam. Ali estivemos um dia a refazer-nos. O corpo enfaixado e perfumado da avó nunca cheirou a defunto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, foi a peregrinação até Coloane.</hi></p><p rend="text" ><hi >— O funcionário do cais de embarque perguntou que levávamos no baú. A mãe respondeu que era peixe seco. O homem sorriu: «Peixe para Coloane? É carne que há falta dela… Se fosse peixe, cheirava mal». E deixou-nos passar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os olhos estreitos de Mei-Lai arrasaram-se de lágrimas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era a primeira vez que eu via chineses chorar e nenhuns outros olhos em pranto me impressionaram assim. Mais parecia que os da moça tinham deixado de ser olhos para se mudarem em duas fendas roxas, aquosas, de bordos inflamados, como feridas.</hi></p><p rend="text" ><hi >—</hi><hi > Cavámos uma sepultura na mata, por trás das dunas, neste fim de tarde de Agosto. Então, abrindo o baú, cercámos o corpo de ervas aromáticas e de conchas da praia. A mãe, tirando da cintura, sob a cabaia, um fio de seda, escolheu um dos anéis que conseguira salvar, o mais bonito, o melhor, uma jóia de ouro e jade, e enfiou-o no dedo da avó. A-Seng rebuscou a areia por um seixo em forma de meia-lua, onde, com outro seixo, riscou o nome da morta, metendo-lho entre as mãos. O corpo pequenino e enfaixado lembrava uma ingénua bonequinha de trapo. Cantavam periquitos e canários selvagens no arvoredo. Um tufo de espinheiro, ali ao pé, desdobrava-se em flores de lume. Funeral mais lindo nunca vi.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pela manhã, um domingo, Mei-Lai e eu saímos a ver a cidade depois de tufão e, enquanto olhávamos, tristes, a paisagem devastada, observou Mei-Lai:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Ontem não cheguei a acabar a minha história. Receei que o desfecho lhe parecesse macabro de mais. Mas aí vai. Você é capaz de entender.</hi></p><p rend="text" ><hi >E contou que, sete anos decorridos sobre a morte da avó, elas tinham ido a Coloane recolher-lhe os ossos, ossos que guardava numa caixa de charão junto do altar da família — o nome da avó já na lista a vermelho e oiro dos antepassados.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em seguida, estendendo a mão, Mei-Lai apontou para o anel de jade que trazia no dedo do meio. O mesmo anel que a avó usara durante sete anos debaixo da terra.</hi></p><p rend="h2" >NATAL CHINÊS</p><p rend="text" ><hi >A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa.</hi></p><p rend="text" ><hi >A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.</hi></p><p rend="text" ><hi >Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar </hi><hi rend="italic" >majong</hi><hi >. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite da festa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhe permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente a filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha… a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções… Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.</hi></p><p rend="text" ><hi >Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-íamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.</hi></p><p rend="text" ><hi >O chocolate era a esperada surpresa da diretora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde demais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz.</hi></p><p rend="text" ><hi >Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.</hi></p><p rend="text" ><hi >O vinho de arroz queimava-me o peito e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.</hi></p><p rend="text" ><hi >Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: </hi><hi rend="italic" >aluares</hi><hi >, </hi><hi rend="italic" >fartes</hi><hi > e coscorões, dizendo que </hi><hi rend="italic" >aluá</hi><hi > era o colchão do </hi><hi rend="italic" >Minino</hi><hi > Jesus, </hi><hi rend="italic" >farte</hi><hi > almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.</hi></p><p rend="text" ><hi >A menina sabia… — a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio —, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera a sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.</hi></p><p rend="text" ><hi >Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.</hi></p><p rend="text" ><hi >… E aquele mistério de virgindade de Nossa Senhora! Virgem e Mãe ao mesmo tempo… Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porque então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atração. Como a Natureza com os seres vegetais e animais. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder as dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta… e surgia a deusa.</hi></p><p rend="text" ><hi >O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenininha, nua.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha?</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.</hi></p><p rend="h2" >A DOIDA</p><p rend="text" ><hi >Foi nas férias de Verão na praia de Cheok-Vân, em Coloane.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ela costumava sentar-se nos penedos, à beira da água, depois do pôr do Sol. Não a víamos chegar. Aparecia de repente, sobre as pedras, sem ruído, como um lagarto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Magra, de trança grisalha, rosto liso e triste nas mãos, firmava os olhos num ponto longínquo, não respondia às nossas boas-tardes, não se mexia, em nada atentava.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ninguém lhe conhecia morada ou família. Os chineses evitam sequer olhá-la.</hi></p><p rend="text" ><hi >Noite alta, no bangaló de madeira, eu acordava a pensar nela: doida? Continuaria lá, sobre os rochedos, de olhos no escuro, pés na agua, rosto nas mãos?</hi></p><p rend="text" ><hi >Sam-Lei, a criada da casa, contara-me a história que corria a seu respeito:</hi></p><p rend="text" ><hi >Doida, fugira da China continental com o filho, que morrera já em terra do exílio. O marido, que a devia seguir, nunca aparecera. Enterrado o filho na praia, vinha ao anoitecer esperar o marido. Ela própria fugira de noite. Era também de noite que o marido se devia escapar. De noite os mortos ressuscitavam. E, todas as noites, a doida ali à espera…</hi></p><p rend="text" ><hi >Na casa grande da encosta — o palácio de A-Tim —, o pavão gritava pela madrugada, e Sem-Lei, a criada velha, acreditava que era a doida na agonia do amanhecer.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não gostava de sol, a doida. Ninguém sabia dela de dia. Só à noite surgia, de cabaia esfarrapada, trança grisalha, pés nus e rosto perdido no cismar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Cheguei a levantar-me muito cedo para ver se a encontrava, embora nunca antes de o Sol nascer.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era a hora em que os caracóis gigantes içavam os caminhos da ilha. Enormes, vermelhos, gomosos, rastejavam direitos às moitas de inhame e às trepadeiras nos muros, cabeça levantada, pauzinhos em riste. Os barcos partiam para a pesca. A rocha da doida desaparecia, por vezes, sob as ondas que andavam a lamber o átrio apilarado do pagode. Da mulher, nem sinais. E eu sempre receosa de que o mar tivesse levado, esperando, aflita, o anoitecer.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas, ao lusco-fusco, lá estava ela, imóvel, olhando a distância.</hi></p><p rend="text" ><hi >A criada da casa ria-se de mim.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Não pode morrer porque verdadeiramente já morreu. É um espírito dividido. Uma sombra. Já nada de bem ou de mal lhe poderá acontecer. Oscila entre a vida e a morte. Não é nada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Julgava eu que o corpo da doida possuía alguma consistência? Tocasse-lhe e veria (Certo ninguém jamais lhe tocara. A trança, entretecida das raízes aéreas do </hi><hi rend="italic" >ficus</hi><hi >, polvilhavam-na as cinzas do pagode, e os pés eram peixes de vidro). Nunca eu reparava nos pés da doida? Longos, chatos, vítreos, boiavam à flor da água como peixes mortos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sam-Lei ouvira-a, um dia, rir, e o riso semelhava-se a uma rajada de vento no fundo de uma gruta. Não tinha entranhas. Não tinha alma. Era oca.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu perguntava:</hi></p><p rend="text" ><hi >— E, de madrugada, os gritos?</hi></p><p rend="text" ><hi >— É a hora em que ela reencontra o seu espírito transviado. Então sabe que o marido nao virá e que o filho já não lhe pertence. Grita de dor, de conhecimento, de derrota. Mas é apenas um instante. Depois, volta a ausentar-se, a</hi><hi > não ser ninguém.</hi></p><p rend="text" ><hi >— É o pavão, você bem sabe.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Pavões só gritam de noite quando adivinham o tigre. Em Coloane não há tigres. Não é o pavão.</hi></p><p rend="text" ><hi >E todas as noites a doida na praia, de pés na água, cabeça nas mãos. E nunca alguém a via chegar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao passar perto, as crianças murmuravam:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Que cheiro a outro mundo…</hi></p><p rend="text" ><hi >A doida não se mexia, não ouvia, não via.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sam-Lei recomendava que não me aproximasse. Era perigoso.</hi></p><p rend="text" ><hi >— De dia, vive no buraco de uma árvore… um mocho! Pode ser mesmo outro pássaro, ou um morcego. De noite, toma figura de gente, vai esperar os fantasmas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foi por essa altura que a minha amiga Mei-Lai apareceu em Coloane e que resolvemos as duas decifrar o mistério da doida.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não nos deitávamos; ficaríamos, como ela, na praia, sobres os rochedos, toda a noite, se preciso fosse. Quando por fim regressasse a casa (havia por força de ter casa), segui-la-íamos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era uma noite muito quente. Ficar ao ar livre com um calor assim podia quase considerar-se um prazer. Mei-Lai levou uma lâmpada de mão que só acenderíamos em último caso, com receio de assustar a mulher, e um saquinho de amendoins para entreter o tempo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Conversámos horas, baixinho.</hi></p><p rend="text" ><hi >O tempo corria a galope. Uma, duas, três. Havia Lua, uma lua gorda, clara, que rasgava um caminho de pérolas no mar. As ondas repetiam, incansáveis, a sua envolvente litania.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu lembrava-me de que noites semelhantes, em África e em Março, eram o terror dos negros, por serem as escolhidas pelos animais (meio deuses, e dem</hi><hi >ônios) para a reprodução — o namoro dos crocodilos e a postura das cobras na areia morna das praias. Noites brancas traziam sonhos angustiosos, e a preta Águeda rezava uma oração ao «pesadelo de mãos furadas e unhas encarnadas». Não fossem as mãos do pesadelo furadas, as mãos com que ele nos tapava a boca, e morreríamos abafados.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mei-Lai contava de superstições do seu país. Em noites de luar, a avó punha sob o alpendre sementes de papoila num prato de grés para defender a casa dos espíritos errantes. A papoila, com o seu veneno hipnótico, entontecia-os. De manhã, ela sabia que tinham passado por uma leve nuvem de fumo — tão leve que Mei-Lai nunca a distinguira </hi><hi >— a evolar-se do prato.</hi></p><p rend="text" ><hi >Soprava do mar um ventinho tépido.</hi></p><p rend="text" ><hi >Calámos-nos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Súbito, o murmúrio das ondas, tal como os sussurros da praia, cessou.</hi></p><p rend="text" ><hi >Dir-se-ia que a Natureza se preparava, respeitosa, para algum espetáculo solene, talvez a luta entre a noite e o dia, talvez a agonia da doida.</hi></p><p rend="text" ><hi >A minha amiga china chegou-se mais a mim. Mal ousávamos falar. Mal ousávamos olhar na direcção da mulher de trança grisalha. Mal ousávamos mexer-nos.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Nunca senti tanto medo na minha vida. Que será que vai acontecer?</hi></p><p rend="text" ><hi >E os amendoins entornaram-se-lhe das mãos, rolando pelas pedras como gotas de água.</hi></p><p rend="text" ><hi >Entreolhámo-nos, surpresas. A um tempo, como se combinados, os nossos olhos procuraram a doida. E lá estava ela anichada no penedo, água pelos tornozelos, inerte, espectro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deviam ser mais ou menos quatro horas. Nesse momento o pavão gritou.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era o de A-Tim, o ricaço, na encosta do areal. O grito vinha desses lados. Eu quase ri. Mei-Lai suspirou.</hi></p><p rend="text" ><hi >—</hi><hi > Havemos de dizer a Sam-Lei que é o pavão, afinal — decidiu a minha amiga. E a sua voz, embora apagada, ecoou singularmente.</hi></p><p rend="text" ><hi >A Lua andava agora muito alto, enquanto uma ténue claridade se anunciava algures, não sabíamos se no monte, se no mar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em volta, as coisas pareciam deformadas. Um tufo de cactos, ali à beira, lembrava uma mão aberta, descomunal, aggressiva. Os rochedos eram animais selvagens, feras: leões deitados, ursos a pino, búfalos prontos a escornar. Nos dedos de Mei-Lai os anéis de jade tinham empalidecido, como olhos de felinos.</hi></p><p rend="text" ><hi >E a doida? Fixámos o sítio. A maré continuava baixa. O penedo lá estava. Ela, porém, sumira-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Mas ainda agora a vi! — dissemos ao mesmo tempo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Corremos a praia. Vivalma. Espreitámos o mar, deserto, indiferente. Com o prenúncio da manhã a água ia-se tornando arroxeada, e o areal, ainda há pouco branco, escurecera, como se, em vez de Cheok-Vân, ali fosse Hack-Ça — Areia-Preta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Caladas, em passo arrastado, voltámos ao bangaló.</hi></p><p rend="text" ><hi >À porta da cozinha, Sam-Lei à espera.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Foi o pavão que gritou, temos a certeza! — mas eram só as nossas vozes a fazerem-se fortes.</hi></p><p rend="text" ><hi >— E, então, ela? — perguntou Sam-Lei, sem lograr resposta.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Ah, estive toda a noite agarrada a este amuleto para que lhes não acontecesse mal! Um perigo arriscarem-se assim…</hi></p><p rend="text" ><hi >E deu-nos, a cada uma de nós, uma tigela de chá. Ainda me vem à boca o travo da beberagem. Sabia fortemente a badiana. Era talvez um filtro contra o mau-olhado.</hi></p><p rend="h2" >A POUSADA DA AMIZADE</p><p rend="text" ><hi >Naquela manhã, que teria acontecido à senhora Li?</hi></p><p rend="text" ><hi >Um sábado de Abril excepcionalmente quente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deitada de costas na cama de lona, olhos abertos, perdido o sono às seis horas, eu escutava o zumbido, sonolento da ventoinha e os desusados ruídos no quarto pegado ao meu.</hi></p><p rend="text" ><hi >Criatura calma, a senhora Li era toda gestos breves, arredondados, polidos. Nunca até aí eu a sentia mexer-se dessa maneira. Nunca até aí sequer a ouvira do outro lado da parede. Aquela manhã, porém, que esquisito corricar, que constante ranger de portas, arrastar de cadeiras, abrir e fechar de gavetas e de armários!</hi></p><p rend="text" ><hi >Se se tratasse de Maleia Chung, de Miss Jane, professora da escola infantil, ou mesmo do moço Wang, baixo e magro, de cabelo espetado e olhos lassos, não me admiraria. Eram barulhentos todos. Barulhentos e jovens.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não o senhor Choi, homem maduro, alto, forte, de feições mongóis ou tártaras. Empregado na Biblioteca Chinesa da cidade, o senhor Choi tinha o passo solene e um suave tom de voz.</hi></p><p rend="text" ><hi >O moço Wang — chamávamos-lhe Mister Wang, talvez por falar inglês correctamente e se dar muito com ingleses — vivia no quarto número três. A senhora Li, no número um. Eu, no número dois.</hi></p><p rend="text" ><hi >O facto de os quartos serem numerados, ali seria pretensão. Isso e o rectângulo de fibra de bambu na porta do corredor com «Pousada da Amizade» em pomposos caracteres sínicos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pousada? Apenas um andar dividido em quartos que A-Hin, o estalajadeiro do prédio contíguo, alugava a pessoas decentes.</hi></p><p rend="text" ><hi >O rés-do-chão habitava-o A-Hin com a família.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Pein, a avó, que ficava lá todo o dia com os meninos, saía à tarde, pelas traseiras, para o chá na loja do filho, donde tornava com um comprido cachimbo que fumava no pátio até altas horas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os quartos da Pousada da Amizade, seis ao todo, mais ou menos iguais, quadrados, tinham cada qual janela que deitava para o alpendre de madeira a toda a volta da casa. Não havia sala de estar, mas algumas preguiceiras de esparto, na varanda em frente à baía, convidavam os hóspedes a gozar o ar fresco nas noites de Verão.</hi></p><p rend="text" ><hi >A-Pein subiu duas vezes por semana ao andar para as limpezas. Todos tomávamos o pequeno-almoço no restaurante de A-Hin (boa canja china com bolinhos de farinha fritos) e frequentemente o jantar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu gostava de viver ali, embora estrangeira entre os demais. Estrangeira mas não estranha. Ape</hi><hi >nas não chinesa. A senhora Li dizia que jamais tivera melhor vizinha de quarto e perguntava-me, às vezes, à tardinha, quando do meu regresso das aulas, se não me agradaria ficar por uns momentos com o seu gato siamês.</hi></p><p rend="text" ><hi >Inteligente, a senhora Li. Eu mal arranhava a língua chinesa. Ela sabia um pouco de inglês, e de português — nada. O gato, não ela, era quem melhor podia fazer-me companhia.</hi></p><p rend="text" ><hi >O senhor Choi, como dominava os três idiomas, servia-nos de ponte. Emprestava-me revistas e jornais em língua inglesa, de Hong-Kong, de Banguecoque, passando-mos por debaixo da porta quando eu não estava, e mesmo quando estava, para não estorvar.</hi></p><p rend="text" ><hi >O senhor Choi conversava muito com a senhora Li, na varanda. Por vezes, curvando-se, sussurrava-lhe coisas ao ouvido.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu, da minha janela, imaginava um namoro.</hi></p><p rend="text" ><hi >No entanto, a senhora Li era velha, mais velha que o senhor Choi, apesar do rosto liso, viçoso, e dos olhinhos maliciosos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha também pernas bonitas a senhora Li — nada pernas de velha —, roliças, cor de marfim.</hi></p><p rend="text" ><hi >Costumava ver-lhe as pernas até aos joelhos quando, pela Primavera, ela trepava a um banquinho de teca para atar os ramos da trepadeira com um fio de seda.</hi></p><p rend="text" ><hi >A senhora Li amava as plantas. A trepadeira, toda verde (nunca lhe vira flor), era ela quem lhe regava o pé, quem a guiava alto no beiral do telhado, quem em Março lhe cortava uma folha que esmagava nos dedos e nos dava a cheirar. E todos os vasos de avencas lhe pertenciam, assim com um cacto precioso que a neta, residente em Hong-Kong, lhe trouxera de Honolulu.</hi></p><p rend="text" ><hi >A neta da senhora Li era modelo. Vinha nas revistas, de cabaia florida, de vestido decotado à europeia, de biquini. Deste traje a senhora Li não gostava. Achava-o uma moda bárbara. Miss Chung, menos romântica do que eu, dizia que, quando a senhora Li e o senhor Choi conversavam em surdina, muito juntos, sob o alpendre, era a murmurarem da velha A-Pein e do seu pouco cuidado com o asseio dos quartos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Para Miss Chung estava tudo perfeitamente. A senhora Li com a neta modelo (seria modelo uma profissão séria?) e tantas exigências… Da filha não falava ela. O pai da rapariga era japonês! Reparássemos nos retratos da moça, que olhos enviesados! E o senhor Choi? Sempre com a mesma cabaia…</hi></p><p rend="text" ><hi >Maleia Chung tinha uma língua afiada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Miss Jane, que se orgulhava de sangue inglês na família, lamentava que a direcção do colégio não lhe deixasse pintar as unhas, e, nas tardes de sábado, de cabaia fendida ao meio das coxas e um romance na mão, suspirava na varanda.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mister Wang, que, aos domingos, em companhia de Miss Jane e de Maleia, tentava especialidades da cozinha chinesa num fogão de petróleo ao fundo do corredor, sempre me convidava para as provar. Creio que era ele e não elas a lembrar-se de mim. Vinha nas pontas dos pés, depois de ter feito um estardalhaço com tachos de ferro e gritinhos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Maleia, glutona, aparentava não gozar muito a minha presença. Era ela quem se servia primeiro, escolhendo os melhores bocados. Mister Wang dizia-me os </hi><hi >nomes chineses dos acepipes. O papagaio reclamava do quarto; cheirava-lhe a chá </hi><hi >quente. Ele ia buscá-lo, empoleirado no dedo, e deixava-o beber pela sua tigela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Animalzinho exótico, o papagaio de Mister Wang alimentava-se quase só de flores.</hi></p><p rend="text" ><hi >Todas as tardes o moço regressava do emprego com os bolsos do casaco cheios de pétalas de crisântemos, de corolas de acácia, de bagas de pericanto. Por vezes, chamava-me, entusiasmado, tocando com os nós dos dedos no mosquiteiro da minha janela. Eu via o pássaro, ávido, a atacar as algibeiras do dono, que entrara pela varanda para o surpreender; via o riso de Mister Wang, esplêndida coroa de dentes brancos na cara sumida, agora sem olhos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Depois, também eu passava para a varanda. Aquele — dizia-lhe — era um papagaio de deuses.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ele repetia: «Papagaio de deuses». Ria mais. Contava-me como as flores escasseavam em certas épocas, como chegava a apanhar pétalas caídas à porta do pagode nas ocasiões em que ninguém mais as tinha senão o Supremo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um dia arrisquei, irreflectidamente:</hi></p><p rend="text" ><hi >— No cemitério, Mister Wang! No cemitério, os quadros de flores. Ficam lá a murchar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Então a boca descaiu-lhe, os olhos mostraram-se mais cansados do que nunca.</hi></p><p rend="text" ><hi >Era como se lhe tivesse anoitecido.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Oh, Miss B., o cemitério…</hi><hi > o cemitério… Nunca!</hi></p><p rend="text" ><hi >Tartamudeei uma desculpa.</hi></p><p rend="text" ><hi >O papagaio continuava de cabeça perdida no bolso do casaco de Mister Wang, que já não ria.</hi></p><p rend="text" ><hi >Passou-se muito tempo antes que ouvisse de novo os nós dos dedos no mosquiteiro da janela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Foi em Novembro — já o Inverno se anunciava na trepadeira da varanda e no mar, límpido, após a passagem das chuvas — que constatou que Miss Jane e Mister Wang dormiam juntos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os aposentos deles ficavam defronte um do outro. E Maleia Chung (só podia ser ela) vira o moço sair do quarto da amiga pela madrugada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Voltava eu da rua quando se me depararam Maleia e a velha A-Pein à porta da casa de banho em misteriosos cochichos. Ambas pareciam muito sérias, se não alarmadas. Também me admirei de que a moça viesse logo a seguir ter comigo, ela que nunca me visitava.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Os dois dormem juntos!</hi></p><p rend="text" ><hi >Não sei porquê, pensei na senhora Li e no senhor Choi. Era o meu romance. Ambos belos e vividos. Ele, enorme, imponente, de feições mongóis ou tártaras. Ela, pequena, nédia, de olhos travessos. E aludiu vagamente à idade dos dois e ao respeito que se lhes devia.</hi></p><p rend="text" ><hi >A cara de Miss Chung dir-se-ia mais larga do que o habitual.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Falo da Jane e do Wang.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Ah, sim?</hi></p><p rend="text" ><hi >— Bem sabe, isto é uma pensão de gente honesta. E eles dormem juntos, tenho a certeza. Vi com os meus olhos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sentei-me na borda da cama, sem me lembrar de oferecer uma cadeira a Miss Chung.</hi></p><p rend="text" ><hi >Aquilo era deveras excitante. Um amor jovem, exacto, e inesperado também, ali a meu lado, na casa onde eu vivia, no modesto andarzinho de quartos de aluguer. Uma aventura a quebrar o ramerrão da Pousada da Amizade, aventura autêntica, com segredo, arrojo, paixão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Julgo que o meu rosto transparência contentamento porque Maleia falou áspero:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Acha bem?</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu dava agora voltas pelo quarto.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Meu Deus, quem imaginaria?</hi></p><p rend="text" ><hi >Achava bem, sim. Tão gentil, Mister Wang. Tão terna, Miss Jane.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Vai ficar desempregada, se souberem no colégio. Bom… não serei eu quem a acusará. Mas uma fingida é o que ela é.</hi></p><p rend="text" ><hi >Escurecia. Maleia Chung, que se acomodava na cadeira de braços, torcia os dedos papudos enroscados de anéis.</hi></p><p rend="text" ><hi >Durantes longos minutos nenhuma de nós disse nada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Finalmente, ela falou devagar, como quem meditasse:</hi></p><p rend="text" ><hi >— A Jane traiu-me. O Wang gostava de mim. Sim, era de mim que ele gostava. Só que eu não sou assim fácil, assim barata… Ela roubou-mo. Ele gostava de mim.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sem lhe dar atenção, eu considerava as personagens do enredo: Miss Chung era gorda e desbotada; Miss Jane, magrinha e feia; Mister Wang, de olhos antigos e cansados…</hi><hi > E senti pena de Miss Chung, de todos, do mundo inteiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os gritos do papagaio vieram despertar-nos.</hi></p><p rend="text" ><hi >O moço Wang tamborilava na rede da minha janela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Fomos ambas ver o pássaro comer as flores que o dono lhe oferecia as mãos-cheias, a bradar:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Hoje é dia de festa para ele. Faz dois anos que mo deram. Até açucenas lhe trago!</hi></p><p rend="text" ><hi >Tempos depois, uma noite, já passava das onze, a senhora Li veio ver-me.</hi></p><p rend="text" ><hi >Estranhei a visita tardia.</hi></p><p rend="text" ><hi >A face simpática da senhora Li, contudo, irradiava satisfação.</hi></p><p rend="text" ><hi >Enquanto acendia a lamparina de álcool e punha a água para o chá, perguntava a mim mesma o que a traria ali àquela hora.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mas fois só após ter provado o chá e desfiado os elogios da praxe que, afagando o gato no regaço, ela desabafou comigo.</hi></p><p rend="text" ><hi >O cacto, aquela planta rara que a neta lhe trouxera de Honolulu, estava a comecar a florir. </hi><hi >Tinha-a há três anos e jamais lhe vira flor. A neta dissera que dava uma rosa escarlate, maravilhosa. E ela há três anos à espera desse acontecimento, constantemente a regar a planta, a limpá-la do bicho, a pôr-lhe novas camadas de areia. Nessa manhã, porém (Oh, Céus! Oh, Bondade Infinita!), nessa manhã, o gomo despontara. Mal se distinguia ainda. Apenas um grãozinho esbranquiçado entre as folhas carnudas. Mas ia crescer, hora a hora, dia a dia, para por fim desabrochar na flor das suas esperanças – vermelha, cor da felicidade! Quando a </hi><hi >flor abrisse, daria um «chá gordo» no seu quarto, uma verdadeira festa.</hi></p><p rend="text" ><hi >A senhora Li, que nessa noite era quase eloquente em inglês, servia-se do chinês para frisar a beleza da flor ou a sua alegria, e batia palmas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pondo depois os dedos nos lábios, apontou para o quarto de Mister Wang. O papagaio… O sorriso murchou-lhe. Bela ave, sem dúvida. Que plumagem! Que esperteza! Mas, por causa dele, só tinha verdes, plantas verdes. Como gostaria de cultivar um aloendro, um pé de gengibre! Aquela paixão do animal por flores… Os olhos arregalaram-se-lhe de susto. O papagaio andava muitas vezes solto pela varanda… Ia meter o cacto do lado de dentro do mosquiteiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Lembrei que se avisasse o dono do papagaio.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Não, isso não. O pássaro pode perceber. E quero fazer surpresa a toda a gente, em especial ao senhor Choi. Falo da minha flor há três anos!</hi></p><p rend="text" ><hi >A planta, no entanto, precisava agora de mais sol do que nunca. Pô-la-ia umas tantas horas ao ar livre, à sua beira, guardada por ela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sorria de novo.</hi></p><p rend="text" ><hi >—</hi><hi > Não quero mal ao animalzinho. Enfim, caprichos da Natureza. Olhe o meu gato. O seu prato favorito são caracóis do mar. Por isso é bonito! Por isso tem olhos azuis!</hi></p><p rend="text" ><hi >Apertava o gato ao peito. Estava outra vez feliz.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, Mister Wang convidou-nos a todos para umas bebidas antes do jantar no melhor bar da cidade. Ia participar-nos algo de importante. Fitava Miss Jane com ternura.</hi></p><p rend="text" ><hi >A senhora Li, que olhava de um para outro, entusiasmou-se:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Não me digam que é casamento!</hi></p><p rend="text" ><hi >Todos felicitámos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eles riam. Que ninguém se apressasse. À noite saberíamos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nesse fim de tarde, à saída do colégio, veio de repente uma chuvada, e, como não estivesse prevenida, Miss Chung ofereceu-se para me abrigar até casa sob a sua sombrinha. Estanhei a gentileza. Havia dias que a professora chinesa nem sequer me falava. Então, enquanto caminhávamos, apressadas, ela murmurou, destacando as palavras:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Sabe que a Jane está grávida? Ainda não se nota, mas sei que está.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sem responder, eu pensava no cacto da senhora Li, também a preparar-se para dar à luz. Quem o notara já? Só a velha dama, que o espiava a todo o momento, cheia de ansiedade. Miss Jane era para Maleia Cung como o cacto para a senhora Li, só que esta amava a planta e desejava que ela florisse, ao passo que a outra odiava tanto Miss Jane como o fruto das suas entranhas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Frequentemente, ao jantar, o senhor Choi chamava a senhora Li </hi><hi rend="italic" >Tai-Tai</hi><hi >, que significa grande dona, a senhora de casa, a maior de todas. Ela sorria</hi><hi >, apertando-lhe a mão, e, nos últimos tempos, olhava significativamente para mim. Era o segredo: a flor do cacto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao encontrar-se comigo no corredor, parava, animada:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Vá lá logo. Já tem uma pontinha de cor. Que surpresa para todos quando abrir!</hi></p><p rend="text" ><hi >Casualmente, à saída de casa ou no intervalo das aulas, também Miss Chung me fazia inconfidências, mas, essa, de sobrolho carregado:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Ouvi-a esta manhã vomitar. É de certeza.</hi></p><p rend="text" ><hi >E:</hi></p><p rend="text" ><hi >—</hi><hi > A directora chamou-a e ela negou. Que descaramento!</hi></p><p rend="text" ><hi >Os dias corriam. Os noivos, agora declarados, saíam muito a passeio, de mãos entrelaçadas. A-Hin, com um risinho agudo, perguntava, ao servir à mesa, quando era o grande dia. A senhora Li continuava a trocar comigo olhares comprometidos. Miss Chung não falava quase.</hi></p><p rend="text" ><hi >Que quereria, pois, dizer tamanha azáfama no quarto da senhora Li, nessa manhã quente de Abril?</hi></p><p rend="text" ><hi >Apurei o ouvido. Soluços? Sim. A senhora Li estava a chorar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Fui ter com ela.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Posso ajudá-la, senhora Li?</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha a trança desfeita, os olhos vermelhos, a face entumecida. A neta, muito mal, no hospital. Talvez cólera, quem sabe? Havia epidemia em Hong-Kong… — a voz embaraçava-se-lhe. Falava quase só chinês. — Partia no primeiro barco. Levava o gato. Tinha de ser. A-Pein não gostava de gatos e o bichinho estava habituado a certo tratamento.</hi></p><p rend="text" ><hi >Já não soluçava; só, de quando em quando, uma lágrima, descendo-lhe o rosto, vinha revelar-lhe ignorados feixes de rugas em torno dos olhos, aos cantos da boca.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eu tentava consolá-la. Tudo havia de correr pelo melhor. Naturalmente que a doente estava vacinada. Mas já a senhora Li, que metia roupa numa mala, me fitava aterrada:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Meu Deus, o cacto?</hi></p><p rend="text" ><hi >Não podia deixá-lo no quarto. A flor morreria sem sol. E, tapando a cara com as mãos, afundou-se no cadeirão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Fui chamar Mister Wang, que veio, surpreendido, de roupão e chinelas. Deitara-se tarde. Estava ensonado. De cabeça para a frente, a testa franzida, os olhos mais estreitos, entrou no quarto da senhora Li como um furão.</hi></p><p rend="text" ><hi >A senhora Li explicava. A flor devia desabrochar na próxima semana. Já se via o rosado das pétalas. E era perfumada. Uma coisa única.</hi></p><p rend="text" ><hi >O moço acenava com a cabeça. Ficasse descansada. Ia prender bem o papagaio. E, descerrando ele mesmo o mosquiteiro da janela, pôs lá fora o vaso.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Senhora Li, a sua neta vai curar-se. Dentro de uma semana a flor do seu cacto dar-lhe-á as boas-vindas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Dobrava-se em vénias.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pelos lábios da velha senhora passou uma sombra de sorriso. Confiava em Tai-Ki, o Todo-Poderoso.</hi></p><p rend="text" ><hi >O senhor Choi apareceu, pronto para a acompanhar ao cais. Pegou-lhe na mala.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ela murmurou não sei quê ao ouvido do jovem Wang. O segredo?</hi></p><p rend="text" ><hi >Por fim, com um derradeiro olhar para a varanda, desapareceu escada a baixo atrás</hi><hi > do Senhor Choi.</hi></p><p rend="text" ><hi >Quando no sábado seguinte eu regressava a casa, no fim do cinema, vi luz no quarto da senhora Li, e, apesar do adiantado da hora, não pude deixar de lhe bater à porta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ninguém respondeu.</hi></p><p rend="text" ><hi >A porta, encostada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Como o gato se esgueirasse pela fresta, entrevi a senhora Li, de pé, ao fundo do aposento, ainda em traje de viagem, com a mala ao lado, no chão.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Posso entrar, senhora Li?</hi></p><p rend="text" ><hi >Ela fitou-me, sem falar. Parecia mais pequena e mais magra.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Então, a doente?</hi></p><p rend="text" ><hi >— Sarou. Nada de maior, graças ao Céu…</hi></p><p rend="text" ><hi >— Que bom. Andávamos todos preocupados.</hi></p><p rend="text" ><hi >Os olhos dela, dantes tão vivos, tão gaiatos, não tinham a mínima expressão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Perguntava de mim para mim que coisa a afligia, quando, olhando à roda, descobri, no peitoril da janela aberta, o vaso do cacto…</hi><hi > sem flor. Lá estavam as folhas polposas e o caulezinho decapitado. Nenhum vestígio de pétalas, de pólen, de cor. Na terra arenosa, as pegadas do assassino.</hi></p><p rend="text" ><hi >Abracei-a.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Oh, senhora Li! Oh, senhora Li!</hi></p><p rend="text" ><hi >Julgo que a minha voz fez eco, porque, dentro de segundos, se recortavam dois vultos no quadrado da janela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eram Mister Wang e a noiva, como dois monos de um teatro de fantoches, miúdos, toscos, de braço dado e boca entreaberta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ocorreu-me, em vertigem, que eles iam ali representar «O Milagre da Flor». Via já a senhora Li a bater palmas. Era uma rosa de sangue… uma rosa de fogo… uma rosa de oiro!</hi></p><p rend="text" ><hi >Com a aparição do senhor Choi, seminu, enorme, tártaro, voltei à realidade. A sua grande mão acariciava, lenta, a cabeça da velha senhora.</hi></p><p rend="text" ><hi >— Oh, </hi><hi rend="italic" >Tai-Tai</hi><hi >! Oh, </hi><hi rend="italic" >Tai-Tai</hi><hi >!</hi></p><p rend="text" ><hi >Por fim, a senhora Li falou:</hi></p><p rend="text" ><hi >— Esperei três anos pela flor deste vaso. Conceder-me-ão os deuses mais três anos de vida?</hi></p><p rend="text" ><hi >Continuava de pé, imperturbável. O seu rosto, todavia, outrora redondo e claro, era agora amarelo e murcho como o limão espremido.</hi></p><p rend="text" ><hi >E foi então que um grito rompeu a noite, vindo de fora, da varanda.</hi></p><p rend="text" ><hi >Agarrada ao ventre, Miss Jane, soluçava, histérica.</hi></p><p rend="text" ><hi >A flor morrera ao desabrochar, lacerada pelo bico ferino da ave. Ela esperava também, às ocultas, uma floração, e temia o pássaro do agoiro… O medo vencia-a. Um medo maior do que todas as exigências do mundo, maior do que o seu próprio orgulho, maior do que o mundo.</hi></p><p rend="h2" >O DIA DO GRANDE FRIO</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Quando o salgueiro</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >os ramos pende</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >na noite fria</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >nus.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >No triste Inverno</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >como esperar</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >pelo milagre</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >de lhe nascerem</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >folhas?</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(Tu Fu- trad. Jorge de Sena)</p><p rend="text" ><hi >A festa do tempo em terras da China. A Lua, que contou os dias e os meses, marca enfim a data, e o ano vai nascer. Toda a gente sai para a rua. Estalam panchões para afastar os demónios e purificar o ar. É o primeiro dia da semana comemorativa da criação do mundo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pregões em chinês: «Compre o ramo da sorte! O ramo da felicidade!».</hi></p><p rend="text" ><hi >Tendas de </hi><hi rend="italic" >achares</hi><hi >; barracas de frituras de peixe e de porco; sementes e frutas cristalizadas em açúcar; bolos de coco, de melaço, de feijão, de batata-doce, de gergelim; crisântemos, dálias, flor de pessegueiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >O velho herbanário, de óculos na ponta do nariz e barba comprida e rala, senta-se na penumbra da loja a ver passar as pessoas e a fumar, pensativo. Não fuma narcóticos, embora os venda em segredo e só para remédio. Alimenta o cachimbo com uma mistura de ervas aromáticas e medicinais. Condena o </hi><hi rend="italic" >pakfanismo</hi><hi >. Sabe uma história de deuses que se embriagaram de ópio e enlouqueceram. Daí já não haver deuses. O ópio compara-se à celebridade. Os deuses encheram-se de si próprios, do seu poder, abismaram-se na sua glória — </hi><hi rend="italic" >pakfanistas</hi><hi > em delírio —, descuidaram o governo do mundo e sobreveio o caos. Desataram-se os ventos, a terra tremeu, os rios transbordaram do leito arrasando cidades e campos. Desde então, o homem ficou só na confusão do cosmo. E ilude-se venerando as imagens dos deuses antigos, desses que perderam o juízo que já não são. E fuma ele próprio o </hi><hi rend="italic" >pó branco</hi><hi > (</hi><hi rend="italic" >pak-fân</hi><hi >) imaginando-se no Sétimo Céu.</hi></p><p rend="text" ><hi >A religião do herbanário é a Natureza: as plantas, os animais, os elementos. Estender o corpo nu ao sol uma hora por dia dá mais força do que um bom repasto de </hi><hi rend="italic" >ade</hi><hi > salgado. A água das fontes que brota entre pedras, bebida de noite, quando mais fria, pode conceder a juventude eterna, talvez — quem sabe? — a imortalidade. Da banha de tigre alguém extraiu um bálsamo para todas as dores — medicamento célebre no mundo inteiro; o seu descobridor tornou-se o homem mais rico do Sul da China. E a flor branca do trigo e os seus poderes analgésicos?</hi></p><p rend="text" ><hi >Boticário, curandeiro, tirante a médico, o herbanário recebe doentes e recita. As pessoas procuram-no quando sofrem de insónias (ele aconselha engolir dentes de alho cru), de friagem nos ossos, de sezões. No seu dizer, todas as plantas guardam propriedades benéficas ou meléficas, só que a maior parte dessas propriedades se desconhecem ou não se aproveitam. A papoila, por exemplo, é a </hi><hi rend="italic" >flor do mal</hi><hi >. Mas já o alecrim o bem que não faz a certos estados debilitados ou de convalescença! Antigamente nenhuma mulher de parto precin</hi><hi >dia de uma inalacão de alecrim e vinho quente. Águila, pucho, abuta, formam juntas uma das mais importantes mezinhas da farmacopeia chinesa. E a água de cozer arroz — o arroz, a planta por excelência da terra da China! — não cura males de estômago e de intestinos, não é boa para lavar o rosto suado depois das febres?</hi></p><p rend="text" ><hi >Hoje, porém, véspera de Ano Lunar, com as ruas iluminadas, fogo de artifício, divertimentos e bulício por toda a parte, o herbanário bebe chá de jasmim, sozinho, na soleira da porta, e fuma as suas ervas. Em noite de Ano Bom ninguém adoece. As pessoas passam, a palrar, a rir, a trincar pevides tingidas, e nem nele reparam. Um ou outro ainda lhe lança de longe a saudação da época: </hi><hi rend="italic" >Kung Hei Fat Choi </hi><hi >(Feliz Ano novo), à qual não responde. Um escárnio aquelas palavras. Ano Novo? O tempo é sempre o mesmo. Estagnou. Quando havia realmente deuses (deve ter havido porque as suas figuras lá estão no pagode), decerto que cada ano representava uma bênção do Céu. Generosos, os governantes divinos dotavam-no de ventura, abundância, vigor. Filho da Lua e do Sol, os homens recebiam-no com bem merecidos festejos. Nova era que se prolongava diante deles, fecunda, cheia de promessas. Presentemente, no entanto, que triste arremedo! No dia seguinte, logo de madrugada (ele toda a noite acordado; o estampido dos panchões não o deixa dormir), lá virá bater-lhe à porta o que comeu e bebeu de mais (geralmente amparado por um amigo), desolhado, aos arrancos, e lá terá de lhe arranjar um vomitório e de lhe suster, com engulho, a testa escaldante. E as raparigas que aparecem a suplicar um impedimento para a gravidez! «Ainda irá a tempo?» Vê-as nos braços dos homens. Quantos? Noite de Ano Bom, farra, dão largas aos instintos, desmandam-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >Agora, todavia, choram, agarradas às mangas da sua cabaia, como se ele não fosse também homem. Sente ganas de as levar para as traseiras da loja e de as derrubar na esteira. Sempre, sempre esse desejo vil lhe sobe do fundo do ser, mas sempre também o reprime. Nem em moço (e bem parecido que era!) deixara de se dominar. Mulheres nunca lhe tinham faltado, mas mulheres que o queriam e o esperavam. Talvez por haver tantas e tão belas mulheres na terra da China é que jamais se casara. </hi><hi >Como as plantas, cada mulher possui grandes virtudes ou grandes defeitos, mas só depois de as tomarem por esposas é que os homens as conhecem. E não vale a pena. Antes de casar, são elas as flores e eles os besouros. Amá-las não passa de um gracioso esvoaçar à sua volta, um estonteamento. As plantas, essas, sim, interessam-lhe: estudar-lhes longamente defeitos e virtudes, numa espécie de volúpia.</hi></p><p rend="text" ><hi >As raparigas vêm rogar-lhe ajuda, aflitas, e ele dá-lhes ervas de desfazimento que as farão estorcer de dores uma noite inteira, o que nada condiz com os votos de alegria e felicidade que os namorados lhe ofereceram, no dia da festa, em largas faixas de papel vermelho a letras de oiro.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ah, ele, o mais famoso herbanário de Macau, com prática de largos anos nas maiores cidades da China, o que sabe da miséria dos homens e das suas ilusões! Ilusões ou ignorância?</hi></p><p rend="text" ><hi >«Diga-me, isto não é lepra, pois não?» Há quarenta, há cinquenta anos. Dia de festa, também. O homem mais abastado da região. Mesa posta (sopa cheirosa de cobra, aguardente de arroz velha e loira - </hi><hi rend="italic" >jade líquido</hi><hi >), um ror de convidados… E a chaga a devorar-lhe raivosamente o peito. «Se me curar, dou-lhe uma bolsa de oiro!».</hi></p><p rend="text" ><hi >Tinha calcorreado longos caminhos até a casa do doente, e não podia senão receitar-lhe o </hi><hi rend="italic" >pó branco</hi><hi >, para ao menos lhe abrandar o padecimento. Tão desgraçados os homens que, para não desesperarem, chegavam a valer-se da </hi><hi rend="italic" >flor do mal</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Duas semanas atrás fora</hi><hi > o Dia do Grande Frio, dia em que os Chineses comem arroz carolino (</hi><hi rend="italic" >ló-mai</hi><hi >), e desde então a preparação para o Ano Novo.</hi></p><p rend="text" ><hi >O herbanário assistira a essa preparação com um sorriso céptico. Vendera mais que nunca, naturalmente. Toda a gente queria chás purgativos, todos compravam mezinhas contra</hi><hi rend="italic" > ventos sujos</hi><hi >, ervas da fortuna e da inveja, filtros de amor e de sedução. As mães pobres pediam caroços chamuscados de anona para limpar de parasitas a cabeça dos filhos. E havia quem o fizesse devassar prateleiras e gavetas em busca de uma especiaria muito fina (mais picante que o gengibre, mais doce que o anis) para temperar um pudim de Ano Bom destinado ao templo.</hi></p><p rend="text" ><hi >A todos atendia o herbanário, mal tendo tempo de mexer os pauzinhos às refeições cozinhadas ali mesmo, na loja, ou de sorver um gole da chá.</hi></p><p rend="text" ><hi >O Dia do Grande Frio. Dia da rendição dos deuses? Do seu enlouquecimento? As pessoas não reflectiam nessa designação, ocupadas como andavam com o advento da festividade, e atribuíam-na à descida de temperatura. Ele, porém, que sabia do tempo parado, nulo, meditava na ironia das palavras: Grande Frio — morte. Ano Novo — vida. Como podia a morte gerar vida, o fim vir antes do princípio? Necessário ser herbanário e viver só para perscrutar tais mistérios. Necessário ter gasto a vida a tentar curar carnes ulceradas, olhos baços de cegueira, nervos rasgados de convulsões, pestíferos, tolhidos, alucinados, histéricos, empecidos. Ter passado noites, em claro a preparar tisanas, emplastros, cáusticos e elixires, a manipular unguentos, a pulverizar cristais, resinas, raízes, mucosidades, detritos (não havia nos excrementos de certas aves grandes propridades terapêuticas?). E ter falhado miseravelmente, recorrido a soporíferos, a expedientes, a paliativos. Necessários, acima de tudo</hi><hi >, ser, dia a dia, testemunha da ausência da Guarda Divina, o mesmo que dizer: o desamparo das criaturas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Noite de Ano Novo chinês. Meio oculto no vão da porta, e imperturbável, o herbanário assiste ao espectáculo das ruas: homens e mulheres passando, eufóricos, com o ramo de pessegueiro erguido alto, como meninos pequenos segurando a amarra dos papagaios. Vão ao pagode apresentar oferendas, trocam presentes entre si, compram bolos pesados e enjoativos, comem, bebem, jogam jogos de azar, amam. Nessa noite o herbanário não existe.</hi></p><p rend="text" ><hi >Morrer fica para o dia seguinte. Morrer ou sofrer – que ainda é pior. O herbanário, pessimista e ateu, não tem nada com aquilo, nada com eles, de momento. Não o vêem nem o querem ver. Que masque as suas folhas e rumine os seus lúgubres pensamentos na sombra da loja. Rebentam com mais estrondo os panchões. O ar vai ficar completamente limpo à meia-noite, hora marcada para o nascimento do ano, quando o rélogio da praça deixar cair solenemente as doze badaladas. </hi><hi rend="italic" >Kung Hei Fat Choi</hi><hi > - Festas felizes!</hi></p><p rend="text" ><hi >«Acuda-me. Excedi-me. Tenho setenta e mais anos e um martelo no coração!».</hi></p><p rend="text" ><hi >«Dormi com um marinheiro que me pegou humores ruins…».</hi></p><p rend="text" ><hi >Enquanto avia as mezinhas, em silêncio, o herbanário vai cogitando no Dia do Grande Frio. Celebração da morte do tempo? Aniversário do suicídio dos deuses?</hi></p><p rend="h1_chapter" >La Cina è accanto</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >È indicibile</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >il dolore che c’è</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >nel cuore</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >dell’uomo.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(Li Po — trad. Jorge de Sena)</p><p rend="text" >— C’è il dottor Yu?</p><p rend="text" >Era un edificio alto, dalle pareti sudice, scalcinate, in un vicolo che dava sul porto.</p><p rend="text" >Le avevano detto di bussare al terzo piano.</p><p rend="text" >Un’anziana signora sbirciò dalla porta, la guardò dall’alto in basso, le fece segno di entrare.</p><p rend="text" >Dall’interno veniva una musica metallica, dai telefoni della sala d’aspetto che era al contempo la sala da pranzo.</p><p rend="text" >Apparve la moglie del dottore, salutò, chiese di aspettare. Aveva in mano un rotolo di cotone grezzo, che lasciò sul vassoio del tè.</p><p rend="text" >Ringraziava il cielo per aver imparato il mandarino. Sembrava che il dottor Yu parlasse solo mandarino. Come glielo avrebbe raccontato? Avrebbe dovuto spiegare tutto? I cinesi colti erano discreti. Il dottor Yu! La nonna lo conosceva da Pechino. Chirurgo rinomato. Clinica di lusso. Era lì che la nonna aveva avuto il figlio più piccolo. Sebbene molto giovane, il dottor Yu aveva già intrapreso la via del successo. La nonna raccontava dei suoi strumenti clinici modernissimi per quell’epoca, dei tendaggi ricamati, del servizio in argento.</p><p rend="text" >I pensieri si aggrovigliavano, mentre aspettava. Perfino lì, riusciva soltanto ad allontanare l’idea di quel momento che, malgrado la fatalità, le appariva, adesso più che mai, confusamente lontano.</p><p rend="text" >Era arrivata con le sue stesse gambe e sembrava ci fosse capitata per sbaglio, così alienata da sé e da ciò che la circondava. Lo straniamento era, dopotutto, il marchio della sua vita. Come rispondere alle possibili domande del dottor Yu, se non se ne era mai poste lei stessa? Perché giustificarsi se non le era mai stato concesso di scegliere?</p><p rend="text" >Sapeva di appartenere a una famiglia illustre. La nonna non si stancava mai di ricordarglielo. Un sorriso le inasprì le labbra. Un giaciglio di elemosina, adesso. La nonna, abituata all’aiuto della servitù per vestirsi e calzare le scarpe, ridotta a spazzare i pavimenti. Misericordia degli dei — il pavimento del tempio! Dato che aveva i piedi fasciati, era raffinata e parlava mandarino, le avevano trovato un impiego al tempio. Soffiava via la cenere dai grandi incensieri, serviva i bonzi, si arrangiava con i pasti della carità.</p><p rend="text" >Il dottor Yu entrò. Era un uomo di più di sessant’anni, piuttosto curvo, viso serio.</p><p rend="text" >Per alcuni istanti pensò che l’avessero ingannata. Un altro dottor Yu? Dov’erano l’eleganza e la ricchezza di cui parlava la nonna?</p><p rend="text" >Il dottor Yu non voleva sapere niente. Era cinese e esiliato. Accettava tutto, perfino quello che agli altri poteva apparire inaccettabile.</p><p rend="text" >Anche il consultorio era lì. Con un cenno della testa le ordinò di sdraiarsi sulla stuoia. Di raso, le sue mani. A cosa servivano gli strumenti più moderni? Mani tanto abili, tanto sapienti, e quel viso serio.</p><p rend="text" >— Procediamo?</p><p rend="text" >La voce sembrava venire da molto lontano. Una voce stanca e indifferente come se non si dirigesse verso nessuno.</p><p rend="text" >Entrarono nel bagno. Lei si stese su una panchina di legno. Una bambina che non aveva più di dodici anni gli asciugava il sudore dalla fronte, dal collo, mentre il dottor Yu agiva, rapido, efficiente. Gli strumenti clinici in una cassetta sul pavimento.</p><p rend="text" >C’erano ragnatele che pendevano dalla lampada e crepe nelle assi del tetto. A denti stretti per trattenere i gemiti, cercava di ricordarsi dei tetti sotto i quali aveva già dormito. Da bambina, alti, dipinti… Un baldacchino di seta? Poi, più nitidi: di paglia, di canne di bambù… grandi macchie di umidità, muffa che trasformava le pareti in velluto, insetti notturni che ronzavano… Comunque, per stare lì in quello sconforto, era all’aria aperta che si era coricata. Il peso del corpo dell’uomo; il suo alito caldo.</p><p rend="text" >Soffocò un grido.</p><p rend="text" >Lo stesso dottor Yu l’aiutava ad alzarsi. Così delicati i gesti del dottor Yu! E quelli dell’altro — avidi, selvaggi? Come se il vecchio medico potesse risarcirla. Entrambe le volte, comunque, la stessa prostrazione: testa svuotata, ventre straziato.</p><p rend="text" >Il medico la condusse in una stanza dove c’era un letto stretto. Le portò un chimono. Le prescrisse riposo.</p><p rend="text" >La stanza dava sul cortile. La domestica passò, guardò attraverso le tende della finestra, chiese quando la malata volesse la cena.</p><p rend="text" >Adesso la musica della sala era lontana. Lei, di spalle sul materasso duro, rimuginava.</p><p rend="text" >Un sentimento di libertà la possedeva interamente, una dolorosa, oppressiva libertà, come se, in un mondo improvvisamente cambiato, tutto questo non significasse altro che stare in prigione. Non le era permesso di essere madre come le altre. Perché, poi? Fosse stata la nipote di una donna di strada, figlia di una ballerina, avrebbe partorito come qualsiasi animale femmina, in fondo a una barca, o in una baracca di lamiera, o perfino sotto le stelle, con panni di colore rosso, amuleti, offerte di uova.</p><p rend="text" >Una gatta dal pelo giallo spinse la porta ed entrò miagolando. La seguivano due gattini che iniziarono ad affilarsi le unghie sul copriletto di seta. Allungò la mano, la passò sul dorso di una bestiola, dell’altra… Sensazione di tepore, di tenerezza… Felici! Una gatta si sarà mai chiesta qualche volta chi è il padre dei figli che ha partorito? Gli esseri nati dalla legge sarebbero stati più perfetti di quelli generati ai margini?</p><p rend="text" >La nonna non avrebbe mai capito. L’unica donna ad avere avuto figli da sola è stata la madre dell’umanità nel confucianesimo. La nonna aveva dato alla luce, nella lussuosa clinica ostetrica del dottor Yu, con il servizio in argento, figli legittimi, desiderati, ben accetti, prima sposa di una famiglia ricca. Sposa o concubina era ciò che lei conosceva. C’era bisogno di un signore, di un uomo responsabile, un padre da presentare, nozze, letto coniugale.</p><p rend="text" >La notte avanzava oltre la finestra sul cortile quando la domestica apparve con la ciotola di riso. Mentre la aiutava a raddrizzarsi, sovrapponendo i guanciali, la vecchia sciorinava parole di simpatia, allineava le ciabattine al lato del letto, le confidava rimedi casalinghi: <hi rend="italic" >alho macho </hi>arrostito e messo sull’ombelico alleviava i dolori… oltre che liberare da alcuni <hi rend="italic" >venti sporchi</hi>.</p><p rend="text" >Le passò una moneta. Le chiese di portare via i gatti, di lasciarla sola. Aveva bisogno di stare da sola. Si distese nuovamente sui cuscini di paglia. Irruppe in singhiozzi.</p><p rend="text" >Era la prima volta che piangeva da quando era uscita dalla casa dei suoi (antenati), da quella notte in cui i soldati avevano tolto le bende ai piedi della nonna. Credeva di poter sentire ancora le grida di dolore della nonna fra le risate degli intrusi. Poveri piedi storpi! Aveva pianto per questo. Un orgoglio quella nonna dalle scarpine di broccato sui piedini di fata. Ultima colonna di una mitica, rispettabile ancestralità infranta senza dolore dall’impeto di mani brutali. Sì, era per i piedi della nonna che aveva pianto. Era come aver profanato il tempio, come aver dissotterrato i morti. Slegando quei piedi venerabili, istintivamente lei sentì non solo crollare il suo mondo di bambina, ma anche demistificare tutta una tradizione.</p><p rend="text" >E adesso? Perché piangeva adesso? Di certo non per il figlio che aveva rifiutato. Come avrebbe potuto amare ciò che le era stato dato senza amore? Nemmeno per sé. Era fin troppo abbandonata per avere pena di se stessa. E, senza saper spiegare, senza neppure capire, sapeva che continuava a piangere per i piedi della nonna. Tutto si riassumeva in quella notte. Tutto il dolore rifletteva quel dolore.</p><p rend="text" >Ma, dopotutto, i piedi fasciati della nonna non simboleggiavano il lungo e forzato destino della donna? Lo stesso destino che la ostacolava, l’angoscia che in quel momento le saliva in gola?</p><p rend="text" >Passi vicini. Il dottor Yu apparve, chiese come stava, le fece un’iniezione.</p><p rend="text" >(Carino il dottor Yu a fingere di non vedere le sue lacrime!)</p><p rend="text" >Quella notte la nonna era morta in modo patetico, e con la nonna, la Cina del passato. E lei, bambina, aveva assistito, stregata, a questa fine. Morte senza sepoltura, comunque. Come se la nonna e la Cina del suo tempo fossero diventate fantasmi: il dottor Yu dall’importante reparto ostetrico della capitale a operare in un bagno in una terra d’esilio! La nonna aggrappata ad antichi preconcetti, costantemente a parlare di nomi che non esistevano più… senza sapere una parola di cantonese, la nonna, con il suo linguaggio colto, che si intendeva solamente con gli dèi. I ragazzi di Macao, passando per il tempio, la additavano chiamandola “donna dai piedi di capra”. E lei, sua nipote? Lì, con il ventre dolorante e inutile per il fatto di non essere figlia di ballerina, ma nipote di donna di strada, semplice <hi rend="italic" >amui</hi> in una casa di tolleranza?</p><p rend="text" >Abbassò le palpebre: la gatta e i gattini… i bambini nati Dio sa come, allevati come le galline e i maiali…</p><p rend="text" >Una protesta le insorse dalle viscere, le fece scuotere la testa con forza. No, non era l’ultima sconfitta. Era lì perché non era morta e non era diventata un fantasma. I suoi piedi, liberi, potevano calpestare tutti i sentieri del mondo. Poteva tornare in Cina o rimanere accanto alla Cina. La cosa fondamentale era combattere la sua battaglia di donna sola e abusata. E conservare il cuore intatto. Per un giorno. Per una verità.</p><p rend="text" >Davanti ai suoi occhi appesantiti dal calmante scorrevano le vie di Macao, di Hong Kong. Sotto le arcate, i ciechi facevano tintinnare la bacchetta di osso nel bicchiere di bambù, leggevano il destino nelle mani delle persone. Vecchi, bambini, storpi, oppiomani, prostitute.</p><p rend="text" >Dieci anni prima: la nonna, vacillante, la prendeva per mano. Il governo straniero dava alloggio e riso. Ma avevano nostalgia del cibo del nord.</p><p rend="text" >In seguito, iniziarono ad arrotolare esplosivo per i petardi nel vano di un portone. Alcune nonne vendevano le nipoti a dei cinesi ricchi, a marinai ubriachi, alle bancarelle del mercato. La sua era diversa. La amava molto. La accompagnava ovunque. L’andava a prendere a scuola. Impaurita che dimenticasse la lingua nativa, le dava lezioni di notte, alla luce dell’olio di cocco, dal libro dei filosofi.</p><p rend="text" >Arrivò poi la barca nel porto melmoso, che il tifone aveva distrutto. La nonna quella volta aveva implorato che il cielo le uccidesse entrambe. Erano le tavole della barca o il cuore dell’anziana che gemeva tra le raffiche? Un vicino le aveva accudite. La mattina, nella barca presa in prestito, la nonna aveva curato le ferite del cane, azzoppato da un palo, applicando olio di palma e saliva.</p><p rend="text" >Aveva tredici anni quando si stabilirono nel tempio. Al calare della notte, i volti degli dèi si inasprivano. Gli occhi di topazio del dragone Long scintillavano nel buio come occhi di gatto. La nonna pregava davanti agli idoli del focolare, alzandosi, a notte fonda, per succhiare la pipa ad acqua. Soffriva di insonnia e fumava di notte. Nel silenzio di quei momenti, il gorgogliare della pipa era triste come il gorgoglio di una sorgente.</p><p rend="text" >A lei piaceva il sorriso del Buddha che non cambiava mai, dal corpo chiaro e paffuto sul piedistallo dell’altare.</p><p rend="text" >Era cresciuta. I suoi vestiti odoravano di incenso, di sandalo, di bastoncini aromatici. Per strada, gli uomini si strusciavano per lei, le domandavano maliziosamente se conosceva il sacerdote. Andava ai funerali. Montava sculture floreali per il cimitero. Partecipava alle danze sacre, con gli occhi truccati, la bocca truccata, un fiore di loto in ogni mano.</p><p rend="text" >Poi (sarà che stava delirando?) c’erano alberi e feti tutto intorno. Si ricordava di aver pensato alle storie dell’infanzia che le raccontavano sui geni della foresta. Si ricordava di non aver pensato più ad altro. La luna era bianca come il volto dei morti che aveva accompagnato alla sepoltura con le sculture floreali. Notte calda. Momento della stanchezza.</p><p rend="text" >Per fortuna che tutto era stato così effimero, che non aveva nemmeno fissato le fattezze dell’uomo.</p><p rend="text" >La musica si era spenta.</p><p rend="text" >Arrivavano risate da non si sa dove. Dai soldati che slegavano i piedi della nonna? Dai geni della foresta? Da dentro se stessa? L’ombra della nonna, che pregava davanti alla nicchia degli idoli del focolare, si ingrandiva sulla parete, tremava con l’ultimo scoppiettio dei lumi.</p><p rend="text" >La comprensione del dottor Yu… L’indifferenza del dottor Yu…</p><p rend="text" >Una stanchezza buona, pacificante.</p><p rend="text" >E si vedeva mentre camminava per una strada senza cordoli, con le braccia allungate fino all’infinito, portando con sé, in modo trionfale, senza sforzo, come se fossero piume d’uccello, tutta la schiera ancestrale delle donne offese, con i piedi fasciati, che scivolano sulla superficie della terra.</p><p rend="h2" >GLI SPECCHI</p><p rend="text" >All’ora del tè c’erano patate dolci. Sbucciavamo i tuberi lessati, caldi, rosso scuro, con un piccolo coltello di osso e li facevamo rotolare nello zucchero. Il tè al gelsomino era amaro e aromatico.</p><p rend="text" >Ogni volta che discuteva con la direttrice, Miss Carol, professoressa di letteratura inglese della classe delle adulte, recitava passi dal <hi rend="italic" >King Lear: So young, my lord, and true</hi>.</p><p rend="text" >Piccola e magra, Miss Carol, meticcia di madre cinese e padre inglese, sebbene superasse di poco i trent’anni, nessuno avrebbe detto che fosse stata giovane. Mi ricordo i suoi capelli scoloriti e radi, la pelle emaciata, la bocca dritta. Mi ricordo di lei al pianoforte della sala d’attesa. Entrava la direttrice. Le dita sottili e lievi di Miss Carol correvano sulla tastiera. La direttrice sorrideva, in modo formale. I denti bianchi e grandi della direttrice. I tasti d’avorio. Miss Carol si alzava, in fretta e furia, chiudeva il pianoforte con un tonfo, usciva senza parlare.</p><p rend="text" >Gli odi della professoressa di letteratura erano lunghi e tortuosi come il corridoio che si apriva sul cortile inferiore. Lì, Amah bolliva in pentoloni di ferro radici e foglie per rimedi curativi. Per rimedi o malefici. Le due si capivano bene, bisbigliavano in cinese, ridevano. La risata a denti stretti e gialli di Miss Carol e quella di Amah in capsule d’oro.</p><p rend="text" >Per la festa dell’Anno Lunare le alunne le avevano regalato un cappotto trapuntato per l’Inverno (nei periodi freddi Miss Carol tremava durante le lezioni) e per tre mesi non si toglieva il cappotto dalla mattina alla sera: sembrava una chiocciola, con gli occhietti ansiosi che sbirciavano dalle pieghe della sua conchiglia.</p><p rend="text" >Mi domandavo se avesse una famiglia, delle relazioni, un fidanzato. Non la vedevo mai uscire la sera o andare al cinema con gli amici. La sua vita era nella biblioteca, a fare lezione, a studiare pianoforte. Si spostava tre volte l’anno a Hong Kong per gli esami al Conservatorio.</p><p rend="text" >Tuttavia, ognuno di noi sapeva che la camera di Miss Carol era tappezzata di specchi. Non che lei avesse mai invitato qualcuno ad entrare. Si intravedeva di passaggio, dalla porta casualmente socchiusa. Al di fuori dello specchio della toeletta, una serie di specchi quadrati alla parete, con iniziali o nomi in caratteri cinesi. Tutto questo mi intrigava molto. Sarà che ogni anno Miss Carol riceveva da qualche ammiratore uno specchio in regalo? È un’usanza cinese fare regali del genere, ma sempre per riconoscenza di servizi in favore della salute o del benessere spirituale. Se ne vedevano allineati negli studi medici, nelle case di negromanti o indovini.</p><p rend="text" >Un giorno, non appena feci per parlarne a Miss Lu, che aveva l’abitudine di accompagnare Miss Carol a Hong Kong per gli esami al Conservatorio, questa, guardando bruscamente l’orologio, disse che era in ritardo e se ne andò verso la cappella.</p><p rend="text" >Miss Carol non frequentava la cappella del collegio perché era anglicana. La vigilia di Natale, per l’inaugurazione della nuova sede della Congregazione Protestante — salone elegante nella strada di Praia Grande — indossò una veste lunga, nera, sotto un cappotto di broccato, il migliore, che le diplomande di cinque anni prima le avevano regalato (cinque anni prima si contavano fra le sue alunne le figlie dei cinesi più ricchi del territorio). Si era arricciata i capelli. Era quasi gradevole.</p><p rend="text" >C’era chi diceva che a Miss Carol piacesse un professore della scuola buddista e che non si sposassero solo a causa delle differenti religioni. Si diceva anche che fosse figlia di una suora. O persino che suo padre l’avesse affidata alle cure del collegio molto piccola, per poi allontanarsi in giro per il mondo. I litigi fra Miss Carol e la direttrice erano dovuti al fatto che quest’ultima le diminuiva esageratamente lo stipendio per riprendere ciò che aveva speso per la sua educazione. Di preciso, nessuno sapeva niente. Invece, i sorrisi di circostanza della direttrice e il volto serrato di Miss Carol erano sicuri.</p><p rend="text" >E mai una telefonata per la professoressa di letteratura inglese. Per lei mai un annuncio malizioso dalla portiera: «È la voce di un gentiluomo». Nemmeno la posta nella vaschetta dell’attaccapanni, al di fuori degli avvisi della Congregazione di Praia Grande con i loro francobolli a croce. Nemmeno visite. Ma tutti gli anni uno specchio in più sulla parete della stanza.</p><p rend="text" >A volte immaginavo Miss Carol riflessa all’infinito sugli specchi paralleli — nuda? Con il cappotto trapuntato? E arrivavo a credere che lei stessa li comprasse, li ordinasse al vetraio della piazza. Dobbiamo pensare che si trattasse di regali votivi del professore buddista? Perché lei stessa godesse dell’illusione di dormire in una stanza grande? Miss Carol era passata, dopotutto, dagli smisurati dormitori dell’internato a quel cubicolo, e quando andava a Hong Kong, senza soldi per potersi permettere un hotel, dormiva nelle camerate di qualche alloggio studentesco. A parte ciò, se era vero quello che si diceva — che si svegliava di notte per scrivere racconti romantici —, un ambiente fantastico la aiutava di sicuro. E mi domandavo, allarmata, se ricoperte del tutto le pareti di specchi, Miss Carol non avrebbe iniziato a tappezzare il soffitto e il tetto, affogando nella pazzia.</p><p rend="text" >Dopo che discuteva con la direttrice, Miss Carol era diversa. Più umana? In queste occasioni sospettavo che fosse capace di amare. Non era forse l’odio la faccia esterna di un amore occulto? Le sue risate e le sue conversazioni con Amah, nel piccolo cortile, echeggiavano nel corridoio esterno (a volte le risate assomigliavano stranamente ad un pianto). E negli specchi? Come appariva, in quei giorni, Miss Carol esaltata e moltiplicata? Entrava di nascosto nella stanza per non vedersi? Per non vedere nel riflesso il sorriso falso della direttrice?</p><p rend="text" >Ci incontravamo poi per il tè. E davanti alle patate lessate, ai piattini di zucchero, alle ciotole fumanti, si sedeva accanto a Miss Carol, accanto a noi (al tavolo con la tovaglia incerata e il servizio spartano), la Tristezza, o la Povertà, o la Solitudine, non so ben dirlo. So solo che era femmina e preoccupava.</p><p rend="text" >Ce n’erano di donne lì.</p><p rend="text" >Mangiavamo in silenzio, a testa bassa. Una per una, si sentivano le patate rotolare nello zucchero di canna, e, di tanto in tanto, il masticare della dentiera malmessa della vecchia Miss Lu. Ciascuna rammentava dentro di sé una storia antica e triste: era a Natale o a Pasqua che il fiume era esondato, invadendo le case, strappando i bambini dal grembo delle madri? Dieci, forse venti anni prima, il tifone affondò tutte le barche del porto Interiore — le persone e i pesci morti che galleggiavano… e il giorno in cui arrivò la notizia che nessun’altra notizia sarebbe arrivata?</p><p rend="text" >Così, Miss Carol, alzando la testa, declamava Shakespeare: <hi rend="italic" >My love is more richer than my tongue!</hi> I suoi occhi chiari, duri, vitrei; la bocca semiaperta; i gesti tragici.</p><p rend="text" >Lasciavamo cadere il coltellino di osso. Le bucce di patata dolce si incollavano alle nostre dita, color del sangue rappreso. E, se per caso la teiera gorgogliava nel versare il tè, sussultavamo, come se la nostra ignota ospite (Tristezza? Povertà? Solitudine?) di colpo fosse scoppiata in lacrime.</p><p rend="h2" >ODIO DI RAZZA</p><p rend="text" >Nonostante fosse in là con gli anni, il ricco signore manteneva l’abitudine di avere una nuova donna a ogni Luna Nuova. Tai-Ku — la Prima Figlia — la riteneva una malattia. Tai-Ku, l’innocente.</p><p rend="text" >Una a una, le sorelle se ne erano andate, in broccati scarlatti e dorati, diadema nuziale, verso le case dei mariti. Tai-Ku era rimasta. Era rimasta per riscaldare ogni mattina il bagno del grande signore, per somministrargli la medicina nel tè, per giustificarne la lussuria.</p><p rend="text" >Tai-Ku era una monaca buddista. Se non si era rasata la testa né aveva cambiato l’abito di seta con quello di feltro, era perché il padre non glielo aveva consentito. Viveva di preghiera, di digiuno, delle offerte per l’altare.</p><p rend="text" >Ogni donna che attraversava il cortile della casa, Tai-Ku la ignorava. Erano tutte vergini. Lui le esigeva intatte. Diventavano poi sue protette, faceva loro regali, dava loro una dote.</p><p rend="text" >Tai-Ku la riteneva una malattia. Mai le sue labbra si aprirono per farne censura, mai si confidò con parenti, vicini, amici; fossero cinquecento o ottocento le donne del ricco signore, il numero le era indifferente.</p><p rend="text" >Ogni mattina, impassibile, Tai-Ku prendeva la giusta temperatura dell’acqua per il bagno del padre. I capelli le erano diventati bianchi per quell’impegno. Le pantofole di paglia di riso calpestavano senza rumore il mosaico del cortile. Primogenita, eseguiva i doveri filiali senza indagare su chi fosse la nuova donna, senza volerle male, senza che le importasse conoscerla.</p><p rend="text" >Del mondo in cui il padre e le altre persone vivevano conservava un solo ricordo — ed esso era terribile. Distrutta, aveva scelto l’esilio dentro di sé.</p><p rend="text" >Una volta erano passati i giapponesi. Erano passati e si erano fermati. All’epoca era molto piccola. La madre era morta di parto, la seppellirono senza fiori, senza bonzo che ne raccomandasse l’anima a Buddha. L’erba cresceva per le strade. I giapponesi erano entrati nella grande casa, disponendo delle stanze e delle serve. Il padre aveva messo a disposizione parte della sua flotta perché non gliela distruggessero interamente, consegnando i propri averi per non dover dar loro le figlie.</p><p rend="text" >I giapponesi, Tai-Ku, li odiava. Aveva assistito alla loro insolenza proprio lì, nella sua stessa casa. Li aveva visti maltrattare il popolo, prendersi gioco della legge, profanare il tempio. I giapponesi li detestava più di tutti i malefici diabolici. Mai, da quel momento, aveva smesso di chiedere al Cielo un castigo che li fulminasse.</p><p rend="text" >Tai-Ku, l’innocente. I servitori la chiamavano così, ma era stato il padre ad affibbiarle tale titolo.</p><p rend="text" >Quando riceveva una nuova donna a ogni nuova luna, il ricco signore offriva profumi e oro al Dio della sua primogenita. Voleva più bene a lei che a se stesso. Teneva in gran conto l’austerità, la purezza di quella figlia. La riteneva santa.</p><p rend="text" >Tuttavia, quello che nessuno sapeva, era il sentimento di odio che si era insinuato in Tai-Ku dall’occupazione giapponese. Lo conservava nascosto e il cuore lo nutriva in silenzio e solitudine, come il suolo del deserto schiude le uova di vipera. Frutto nero dei suoi giorni bianchi, Tai-Ku lo sentiva maturare in ogni preghiera, in ogni digiuno, in ogni sacrificio all’Eterno. Le sembrava, a volte, che non le restasse altro. Quello era tutto. Le rodeva le viscere, la divorava.</p><p rend="text" >Un giorno d’Inverno, Wai-Lai, la balia, le indicò la nuova concubina.</p><p rend="text" >Tai-Ku accese i ceri all’altare degli antenati, indifferente ai bisbigli della vecchia. Tuttavia, la allarmò lo stridio di una certa parola. La serva parlava di una giapponese.</p><p rend="text" >Giapponese?</p><p rend="text" >Né quella notte né la seguente riuscì a dormire. I giorni passati tornavano: la madre che moriva da sola (di spavento?), le grida dei servi, il trambusto dei soldati nei cortili. Erano ieri, oggi, domani, erano tutto il tempo. Non aveva vissuto se non quel momento, che ritornava eternamente. Né prima né dopo. Mai. E, per la prima volta, si ribellò. Aveva trovato Dio, era vero, ma non aveva mai trovato se stessa. Intrappolata nelle maglie di quel rancore? L’anima divisa, come se servisse allo stesso tempo il Bene e il Male.</p><p rend="text" >Di notte vegliava. E di giorno aveva la febbre, e rideva.</p><p rend="text" >Negli alloggi del padre c’erano musica e canti. Finì per spiare, nascosta dai rami dell’albero del pane, nel cortile principale.</p><p rend="text" >Wai-Lai disse che il volto della giapponese appariva allungato e trasparente come una gemma di limone, che la sua voce ricordava un gorgheggio e un fiore. Il nobile signore l’avrebbe amata più di qualunque altra. Le giapponesi, dagli occhi obliqui, erano le regine dell’amore. Questa cantava, suonava.</p><p rend="text" >Che suo padre odiasse i giapponesi, come tutti i cinesi rispettabili, Tai-Ku lo sapeva con certezza. Tuttavia, le donne per lui non avevano nazionalità. Il grande signore aveva bisogno di una nuova donzella a ogni luna nuova, e il denaro gli permetteva di variare, in base a ciò che desiderava: adolescenti dai corpi teneri e gli occhi casti, inermi davanti alla lussuria, o donne fatte, palpitanti di curiosa avidità. Donne di ogni genere e nazionalità. Ma una giapponese… No. Lei, Tai-Ku, la Figlia Primogenita, non poteva accettare questo da lui.</p><p rend="text" >Quella sera Tai-Ku fece meccanicamente i gesti abituali: verificò le spese del giorno, dette ordini per il giorno seguente, ritagliò fiori di carta di riso per le festività del tempio, pregò. Il suo spirito, comunque, sfuggendo a ogni azione, era ossessionato da un obiettivo assai prossimo. E un piano nasceva, imponendosi a poco a poco come una cosa inevitabile. Una giapponese!</p><p rend="text" >Delle centinaia di donne del padre non aveva mai voluto sapere il nome. Questa, appena arrivata, era già un pensiero fisso.</p><p rend="text" >Le mani abili di Tai-Ku avevano intrecciato in corolle innevate petali di gelsomino, riunendo gemme di fiori d’arancio, stendendo foglie di loto… E la giapponese lì. La giapponese che le prendeva corpo e mente, che usurpava il posto del suo Dio!</p><p rend="text" >I fiori le caddero dal grembo sparpagliandosi sul pavimento di mosaico come su una lapide. Tai-Ku tremò.</p><p rend="text" >La sua religione insegnava: <hi rend="italic" >non uccidere</hi>. Ma non ordinava anche di estirpare il male? E la giapponese non rappresentava forse il peggiore di tutti i mali — la violenza, la guerra… e quell’inferno che sentiva nel suo petto?</p><p rend="text" >Sette notti di insonnia e la decisione era presa. Meditava sui mezzi. Non sapeva maneggiare un’arma.</p><p rend="text" >Peccato distruggere la nemica? Peccato era che la figlia dell’invasore abitasse la casa che i suoi predecessori avevano oltraggiato, occupando il letto in cui la donna legittima era morta di terrore, senza fiori per il cimitero, senza bonzo che ne raccomandasse l’anima a Buddha. Peccato era che la giapponese vivesse, tra le mura intessute del suo odio.</p><p rend="text" >La Luna saliva, gialla e rotonda come un’arancia, e Tai-Ku vegliava. Dimagriva. Diventava livida. Oh, se avesse potuto ucciderla con il veleno del suo stesso cuore! In quel momento un’idea le permeò il cervello, penetrandone tutti i meandri, insinuandoglisi in ogni cavità. La sua mente, adesso, era una caverna esplorata e illuminata. Crollavano le paure. Tai-Ku vedeva tutto ciò che doveva fare, in un modo così nitido come vedeva i rami dell’albero del pane che abbracciavano, umani, la notte lunare.</p><p rend="text" >Il Capodanno Cinese si avvicinava. I rami di pesco, i pallidi crisantemi, le piante di arancio nano in vasi di arenaria, tutti i simboli della buona sorte con cui Tai-Ku usava omaggiare in quei giorni il padre e gli dei, non le interessavano più. Tai-Ku pensava al serpente. Ne ordinò uno, zelante, per la cena celebrativa. Era sempre previsto del serpente per il banchetto d’Inverno, cena ricca, affiancato da nidi di rondine, da anatra alla Pechinese. L’avrebbe preparato lei stessa. Ne avrebbe estratto il fegato per il balsamo contro il colera. Il fiele lo avrebbe trasformato in vino.</p><p rend="text" >Aveva un ghigno sorridente, quel giorno. I servi si stupirono. Tai-Ku era solitamente seria. I denti incastonati in oro, che brillavano solo in sorrisi di circostanza, erano adesso una sorpresa, che riluceva permanentemente nella bocca della prima figlia del padrone.</p><p rend="text" >Il serpente. Poteva dormire, finalmente. Poteva riposare. La madre era vendicata. E gli echi della grande casa. E <hi rend="italic" >lei</hi>. Le pulsava il sangue come se fosse innamorata. Una festa dentro di lei. Una festa e uno stupore.</p><p rend="text" >Il serpente. Un’ampollina di veleno scivolò all’interno della sua consunta borsa di pelle. Nessuno se ne accorse. Il padre si congratulava con lei per il brodo di serpente con petali di crisantemo, con foglie di limone. Si doveva esaminare il vino. Ovviamente le concubine non sedevano al tavolo di famiglia. Tai-Ku si sarebbe incaricata di inviare alla giapponese la bevanda celebrativa. Tai-Ku avrebbe pensato a tutto.</p><p rend="text" >Per strada esplodevano petardi. Forse, alla fine, sarebbe davvero impazzita. Era come se il fuoco le fosse esploso in testa. Un tumulto. L’anima che gridava e le grida che si ripercuotevano nelle fonti. La vita la possedeva precipitosamente, tutta in una volta, e la soffocava… forse, alla fine, si sarebbe riposata.</p><p rend="text" >Ma già il vecchio signore la chiamava, afflitto. Tai-Ku sussultò. Il padre. Ne avrebbe sofferto molto il padre, della vendetta? Forse lui amava veramente la giapponese? Uno dei principali dettami della dottrina buddista era la pietà filiale. Il padre! Accorse in tutta fretta.</p><p rend="text" >Era avvenuta una grande disgrazia. La giapponese era morta all’improvviso, trovata morta nel letto, la prima mattina dell’anno, con le orbite iniettate, viola (il padre parlava lentamente, a fatica). La geisha che gli ungeva i piedi alla perfezione, che cantava per intrattenerlo con la voce più soave del mondo, aveva smesso improvvisamente di vivere, attaccata da un male misterioso.</p><p rend="text" >Ad occhi bassi, Tai-Ku ascoltò la notizia. Dopo accompagnò il padre a tavola. Era domenica. Si serviva anatra stufata. Le mani del vecchio, nel tenere le bacchette d’avorio, tremavano come canne di bambù al vento, e i suoi settant’anni passati ansimavano. Tai-Ku ebbe pena di lui. Da un momento all’altro divenne decrepito: occhi incavati, pelle bianca, spalle ricurve.</p><p rend="text" >Manifestò il desiderio che lei lo aiutasse a distendersi. E per tre giorni non si alzò. E non si sarebbe mai più rialzato.</p><p rend="text" >Al capezzale del moribondo, Tai-Ku era una statua. Il padre le chiese di sedersi in fondo al letto per poterla guardare. Non voleva nessuno nella stanza, ma lei la volle fino alla fine. La sua primogenita. La figlia che non aveva mai ostacolato le sue abitudini, che mai ne aveva criticato gli eccessi. Tai-Ku, l’innocente.</p><p rend="text" >Una grande pace irradiava dal volto di Tai-Ku. Il padre la contemplava. Mai prima di allora l’aveva ritenuta tanto bella. Perché Tai-Ku non si era sposata? La più dotata delle figlie e la migliore. La dedizione, la devozione al Divino, l’avevano ricompensata? In verità, chi poteva meritarsela se non un dio? E la venerazione che aveva sempre nutrito per lei crebbe in un amore smisurato che gli traboccava dal cuore al punto di soffocarlo. E questo amore lo redimeva di tutte le vili passioni della sua vita.</p><p rend="text" >Ad occhi bassi, Tai-Ku cercava di pregare. Non riuscì nemmeno a coordinare i pensieri. Il suo spirito, adesso così libero, era come se non esistesse più, o come se esistesse lontano, molto lontano, al di fuori di lei, come se stesse percorrendo i cammini oscuri dell’assenza per riunirsi a quello del padre nell’Ignoto.</p><p rend="h2" >L’UOMO DI MEZZA VITA</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >È prima dell’oppio che la mia anima soffre,</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >sentire la vita affatica e fiacca</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >e io cerco nell’oppio che consola,</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >un Oriente, a oriente dell’Oriente.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(Fernando Pessoa)</p><p rend="text" >Inevitabilmente era un oppiomane. Bastava andare là un po’ prima di mezzogiorno e vedere lo sguardo afflitto che ci lanciava, la spossatezza dei suoi gesti e le parole che usava per la vendita della merce.</p><p rend="text" >All’inizio lo ritenni matto. Di mezza età, volto simpatico, sebbene molto smagrito, non serviva i clienti direttamente, ma lasciava che gli rovistassero il magazzino di antichità, indifferente, rispondendo per monosillabi, strascicando i piedi, sospirando.</p><p rend="text" >In seguito, compresi. Mi ricordai ciò che lessi a proposito di Camilo Pessanha — il «morto- vivo», <hi rend="italic" >pune-tio-iane-mean</hi>, «uomo di mezza vita». Anche l’antiquario era mezzo morto. La mattina, il vuoto del suo sguardo era tale che una sorta di assenza gli traspariva dalla presenza.</p><p rend="text" >La sera, arrivava la resurrezione. Un miracolo, intorno alle quattro. Chiuso il magazzino alle sei (cosa rara fra i cinesi che, dalle dieci di mattina alle dieci di notte, lavorano di fila, pranzando e cenando sulla porta del negozio), egli sorgeva rinnovato, apparentemente vivo, loquace.</p><p rend="text" >Allora valeva la pena andare là, a chiedergli il prezzo di un Buddha di giada solo per sentirgli descrivere quante costellazioni e dinastie possedeva lì, nel suo antro.</p><p rend="text" >Il negozio, tetro, dava su una baracca, dove si ammassavano pietre dell’era dell’Imperatore Van-li, epoca in cui la Cina conobbe gli orologi.</p><p rend="text" >Accendeva anacronistici candelabri colorati, fumosi, che davano alla stanza un’aria spettrale.</p><p rend="text" >Nel pomeriggio, con un’aria amabile, offriva tè all’uno o all’altro appassionato di vecchie cianfrusaglie. Li faceva accomodare su una seggiolina a conchiglia, sulla tappezzeria logora del risciò di un mandarino. Citava Confucio: «L’uomo è virtuoso per sua natura come l’acqua che scorre spontaneamente. È la perversità del mondo a corromperlo». Rimaneva per un istante in silenzio (commosso?). Ma si ricomponeva velocemente.</p><p rend="text" >Quel vaso lì, di bambù, apparteneva a un’imperatrice che lo commissionò per la celebrazione dello Tsing-Ming — il giorno dei morti, ad aprile. Là, lei doveva custodire le ossa del defunto marito. Il bambù era un legno eccellente, consacrato dal Supremo, che lo donò al popolo come la pianta più utile al mondo, quando visitò la terra di Cina. Il bambù e il riso, che fruttificava tre volte all’anno. Egli possedeva disegni su carta di riso, in foli in fibra di bambù. Rovistava scaffali. Liberava armadi. Presentava capolavori, tesori.</p><p rend="text" >Per la festa delle barche e della dea A-Ma, patrona dei pescatori, festeggiata dalla gente di mare che commerciava pesce, l’antiquario voleva sapere se avevamo assaggiato il budino di riso cotto in foglie di banano, se, per strada, avevamo assistito alla danza del leone.</p><p rend="text" >Per la festa della prima Luna piena di settembre, raccomandava la salita su un monte per vedere nascere l’astro più dorato e rotondo che nel resto dell’anno.</p><p rend="text" >Per la vigilia dell’Anno Lunare, il negozio di antiquariato si ravvivava con rami fioriti di pesco, e, sull’arcata della porta, il negoziante scriveva in caratteri dorati su fondo scarlatto gli auguri abituali: <hi rend="italic" >Kung Hei —</hi> Felice Anno!</p><p rend="text" >Il drago Long, il dio-animale dai cinque artigli, emblema del potere imperiale, simbolo dell’Oriente e della Primavera, con la facoltà di crescere fino ad abbracciare i cieli, di sostenere la volta celeste, di distribuire la pioggia e regolare il corso dell’acqua, dominava, al centro, tutto in palissandro incrostato di madreperla.</p><p rend="text" >All’entrata e ai piedi di uno strano strumento musicale che l’antiquario affermava venire dal tempo in cui il popolo venerava la musica come armonia emanata da Dio (strumento usato, quindi, solo dalle vergini del tempio), una tartaruga scolpita nell’agata simboleggiava la Forza. Accanto, un bassorilievo della fenice — insegna delle imperatrici — e gli unicorni che riunivano in sé gli elementi primordiali della Natura: metallo, legno, acqua, fuoco e terra. In fondo, l’enorme stuoia con dipinti dell’albero sacro — il <hi rend="italic" >ficus</hi> —, dai molteplici tronchi intrecciati, le radici avventizie che ondulano al vento.</p><p rend="text" >Perfino l’antiquario era qualcosa di estraneo al tempo. Dai lineamenti emaciati, la pelle di avorio antico, sorgeva fra le pietre remote, le porcellane, i legni pregiati, le pergamene e i fogli dipinti, come un fantasma, o un soffio dello spirito che registrava le età — e simultaneamente le smentiva.</p><p rend="text" >Parlava inglese e un po’ di portoghese, scambiando la <hi rend="italic" >r</hi> con la <hi rend="italic" >l</hi>. Spiegava il miracolo della creazione del mondo: il grande Tai-Ki, nato dal nulla, dette origine al principio positivo, elemento maschile, Yang, che nel suo ozio inventò l’elemento negativo, femminile, Yin. Da qui, l’equilibrio del cosmo — Yang-Yin— con il cielo Yang che feconda la terra Yin, fra il pianto della pioggia e il sorriso del sole, nell’apoteosi dell’arcobaleno al quale tutti i cinesi devono nascondere pudicamente il volto.</p><p rend="text" >Provato il nettare degli dei, l’oppiomane giungeva al suo principio, e lo interpretava in estasi, come se fosse un semi-dio.</p><p rend="text" >Questo nel pomeriggio, passate le quattro.</p><p rend="text" >Io andavo lì di proposito, per poterlo vedere e ascoltare. Di tanto in tanto le sue parole si diluivano in musica. Mi portava a riflettere mentre lo ascoltavo. Il piacere di decifrare enigmi… Cosa aveva portato quell’uomo al vizio dell’oppio? Forse un figlio unico, viziato (frutto di quell’amore?) che lo disilludeva, lo derubava, lo consumava, forse fuggito da Hong-Kong, coinvolto in assalti a mano armata, che conosceva i trattamenti nelle segrete… «… per natura virtuoso… l’equilibrio del cosmo…». Ma… era necessario inventare una causa romanzata? Non bastava la fragile condizione umana, il disgusto di vivere? «È la perversità del mondo che lo corrompe».</p><p rend="text" >L’antiquario non leggeva i giornali, non sapeva  quello che succedeva lontano, non voleva saperlo. Tragedie? Guerre? Le osservava in quel pannello laccato — la battaglia degli dei con i mostri. Terribile! I mostri (demoni?) ostentavano aureole di fuoco che si confondevano malevolmente con lo splendore delle chiome divine.</p><p rend="text" >In mezzo ai tesori, eloquente, euforico, avido di bellezza, era ancora signore onnipotente di un mondo immateriale. L’antiquario che prima di mezzogiorno gemeva invece di parlare, quello dagli occhi da pazzo, <hi rend="italic" >pune-tio-iane-mean</hi>, l’uomo di mezza vita.</p><p rend="text" >Ah, come cotanta grandezza, tanta felicità in una spirale di fumo, avrebbero, la mattina seguente, diabolicamente ridotto una creatura tanto sublime a un verme della polvere, al più miserabile degli esseri! Era l’oppio o la vita che lo permetteva? In realtà, egli viveva solo dopo l’oppio.</p><p rend="h2" >FENG SHUI</p><p rend="text" >Alla fine la morte venne a prenderla. Così vecchia e così stanca di vivere, sembrava quasi felice, adesso che la fine si avvicinava.</p><p rend="text" >Nessuno ne conosceva l’età con certezza. Si parlava di un centinaio d’anni.</p><p rend="text" >Non aveva motivo di lamentarsi. La famiglia la venerava, la coccolava, mai che le mancasse il tè, il riso, la pipa. Il nipote più anziano, pescatore, non partiva per la pesca senza la sua benedizione. E nel barchino che oscillava nel fango del porto Interiore, ospitando sei persone, senza contare il cane e il gatto, c’era sempre una stuoia per farla riposare mentre gli altri dormivano su delle tavole.</p><p rend="text" >La suora di carità, interrompendo la litania della preghiera, chiese il nome della moribonda.</p><p rend="text" >— Sam-Ku, Terza Figlia — rispose il nipote.</p><p rend="text" >Portava i piedi fasciati, doveva essere appartenuta a una famiglia nobile.</p><p rend="text" >Al mattino era venuto il bonzo a raccomandarne lo spirito agonizzante a Buddha. A prua bruciavano gli incensi della devozione. Nel pomeriggio sarebbe apparsa <hi rend="italic" >ku-niu</hi>, la suora cattolica.</p><p rend="text" >L’anziana aveva l’aria tranquilla di chi attende l’inevitabile.</p><p rend="text" >Naturalmente, nel borgo acquatico delle <hi rend="italic" >sampanas</hi>, delle giunche e delle <hi rend="italic" >lorchas</hi>, in barche poco più grandi che cassoni, nel corso fangoso del fiume, ogni giorno nascevano e morivano figli del Celeste Impero. Per questo, frequentemente, arrivavano lì sacerdoti di Buddha e rappresentanti di Cristo. Arrivavano senza essere chiamati. Per intuizione. Per abitudine.</p><p rend="text" >È straordinario che, nel giorno della morte di Sam-Ku, fosse stato annunciato un violento tifone. Le imbarcazioni erano legate con corde di sparto; i bastoni di bambù piantati in profondità nel fango. I parenti della moribonda si scambiavano sguardi, in modo inquieto. Bisbigliavano ai vicini che doveva essere portata a terra. Il nipote, tuttavia, conosceva l’ultima volontà della nonna: morire lì, sulle fragili tavole che l’avevano accolta dal naufragio della vita, nel <hi rend="italic" >fân-siun</hi> sulle acque del fiume — unico suolo fedele ai suoi passi zoppicanti.</p><p rend="text" >La suora di carità sparse acqua benedetta. Dopodiché continuò a pregare. L’oscillazione della barca aumentava in conformità alla marea che saliva.</p><p rend="text" >Poco a poco gli amici si ritirarono nelle proprie giunche, a proteggere i beni in pericolo, a bruciare incensi per gli spiriti della benevolenza, con l’angoscia impressa sui volti pallidi.</p><p rend="text" >Si faceva buio. Il nipote di Sam-Ku ringraziò <hi rend="italic" >ku-niu</hi>. L’aiutò ad attraversare la passerella. L’accompagnò alla banchina.</p><p rend="text" >Rientrando, nondimeno, già perdeva l’equilibrio. La forza del vento aumentava invertendo la corrente.</p><p rend="text" >Se non fosse stato per l’abbaiare dei cani, si sarebbe detto che nessuno esisteva lì (ogni famiglia annidata sotto coperta nella barca, nell’oscurità, in silenzio) che, a lottare contro la tempesta, nella notte, ci sarebbero stati solo corde, pennoni, scafi corrosi.</p><p rend="text" >Eppure la morte, che si era seduta a prua della “casa” del pescatore, impavida, ferma, era lì a testimoniare la vita. Ed egli sentì il gemito della nonna.</p><p rend="text" >Messi al sicuro la madre e i fratelli nella barca del padrone, il pescatore rimase solo al fianco dell’anziana, a vegliarla nell’agonia.</p><p rend="text" >Nel frattempo, il tifone diventava Feng Shui — Vento-Acqua —, il mostro feroce che abitava nelle viscere della terra e governava gli elementi.</p><p rend="text" >Le grida degli uomini iniziarono a confondersi con la tempesta, con lo scricchiolio dei legni marci, con il sibilo delle sirene nei piroscafi della rotta da Hong-Kong, nei motoscafi della polizia, nelle scialuppe.</p><p rend="text" >Se per caso una raffica si fermava per aria, si poteva sentire il pianto degli alberi a cui il vento tagliava le gole per strada.</p><p rend="text" >Notte di pazzia fra i princìpi della creazione. Forse un assaggio della fine del mondo. Il Creatore dormiva. Che lo si chiamasse Tai-Ki o Padre Eterno. Non sentiva. Anche le stelle erano sparite. Solo, arreso davanti al caos, l’uomo era l’unico spettatore cosciente di uno spettacolo di divinità.</p><p rend="text" >Una giunca prese fuoco. Altre bruciavano. Le onde si alternavano alle fiamme. Per un po’ c’erano solo bianco e porpora. Di seguito, il vento, rivoltando fuoco e acqua, disfaceva tutto in fumo.</p><p rend="text" >Sam-Ku era stata presa in braccio da suo nipote per far sì che quelle ossa scarne non venissero fatte a pezzi contro la barca. Il delirio del temporale, nondimeno, la faceva rianimare: «… la mia veste dorata come il tè di primo raccolto e di seta più fine della polpa del limone! Il matrimonio dell’imperatore… i suoi occhi, due Lune crescenti…». Un mormorio dolce e lento, come se nulla di grave accadesse intorno, come se la morte non fosse lì a pilotarne la barca. «La balia che mi fasciava i piedi, e entrambe che cantavamo per non piangere… le anatre bianche… i suoi passi incerti… le anatre che oscillavano come me e come le navi… Colui che mi portò a casa del mio sposo! Ogni mattina, dietro le imposte della finestra, ad aspettarlo… il primo figlio». Parlava e sorrideva. Parole confuse ma profetiche. Nell’angoscia del momento, il nipote la sentiva male, ma fissava la moribonda ed era come se, all’improvviso, fosse ringiovanita.</p><p rend="text" >Dopotutto, cosa sapeva lui della vita dell’anziana? Sam-Ku, Terza Figlia; piedi fasciati; discendente di una famiglia nobile. Quello che tutti sapevano, lì. Eppure, quella donna anziana, tutto il giorno in silenzio, raggomitolata a poppa della barca, a fumare la pipa turca, a sorvegliare i bambini nella culla (aveva cullato lui, i fratelli, il padre, forse il padre del padre), un tempo aveva convissuto con dei principi!</p><p rend="text" >Tremò. L’anziana apparteneva al tempo dei signori e dei servi. Com’è che non ci aveva mai riflettuto? Figlia di qualche tiranno — chissà? E, per un momento, le volle male. Non proprio a lei, ma al suo sangue (il suo stesso sangue!). Il pescatore issava ogni tanto la bandiera rossa e andava a pescare in acque continentali. Nato sul fondo di una <hi rend="italic" >sampana</hi>, lì o nel letto di qualche altro fiume, non si era mai considerato esiliato. Cinese, sì. Cinese della grande terra, del vasto mondo giallo che copriva un quarto del globo terrestre. Era orgoglioso di questo. Perciò esibiva la bandiera del Continente a prua della nave e odiava la razza esiliata della nonna (la sua razza!). L’anziana, tuttavia, dai piedi fasciati, deformati, morti, che strade avrebbe potuto scegliere? «Le anatre bianche… le anatre che oscillavano come me e come le navi…».</p><p rend="text" >Per quanto si sforzasse, non riusciva a vedere la nonna se non rannicchiata nel barchino, con lo sguardo perso, muta. Le chiedeva la benedizione prima di partire per la pesca, come gli altri si affidavano alla protezione di Buddha. Una reliquia. Una mummia. Mummia dalla nascita. Le avevano fasciato i piedi da bambina, tagliato le ali appena vista la luce. Non aveva mai corso o saltato come i bambini normali; aveva trascinato solo il corpo dolorante, cantando per non piangere… la nonna. La Cina della memoria della nonna. Veste dorata come tè di primo raccolto e passi impediti.</p><p rend="text" >Una voglia di porle domande (lo rodevano, allo stesso tempo, curiosità e ribellione), di scrollarla, di gridarle: «Non sai che non esistono più l’impero, né le caste, né l’aristocrazia? Non lo sai…».</p><p rend="text" >La morte, però, avanzava ed era qualcosa di immenso. La morte era più grande di tutte le frodi e di tutte le verità degli uomini. Senza patria, senza credo, senza divisa, la morte era tutta lì. E si ricompose commosso.</p><p rend="text" >Le ore passavano. La confusione progrediva.</p><p rend="text" >— Quando arriveremo? — Chiese Sam-Ku.</p><p rend="text" >Allora ebbe un tremito, come se il cosmo crollasse. E si separarono.</p><p rend="text" >(Il pescatore ebbe a dire più tardi che fu l’aria stessa a strappargli la nonna dalle braccia. Un’aria chiara e limpida che crebbe inaspettatamente fra le sue mani, dal petto incavato della vecchia).</p><p rend="text" >All’alba, quando, dopo tante peripezie, il nipote di Sam-Ku raggiunse il resto della famiglia nell’imbarcazione semidistrutta, il tifone aveva già devastato tutto. Il paesaggio acquatico si stendeva in una desolazione di alberi maestri rotti, chiglie infrante, relitti e cadaveri di animali che galleggiavano a fior d’acqua.</p><p rend="text" >Sul lungomare, le palme, vinte dall’uragano, ricordavano un esercito di giganteschi, innocenti soldati caduti sul campo di battaglia, mentre il cielo era una sepoltura aperta a misura del mondo.</p><p rend="text" >E nessuno sapeva dove si trovasse Sam-Ku, nessuno riuscì a saperlo.</p><p rend="text" >Il corpo della centenaria non fu restituito neanche dal fiume, neppure il suo nome figurò fra le vittime del tifone. Ma il nipote, che la vide trasformarsi, credeva in cuor suo che Feng Shui — l’essere fantastico che dalle viscere della terra governava gli elementi — la portò, calma e contenta, nell’eccitazione della notte, nel regno dei giusti, forse (chissà?) ben raccomandata all’Eterno dalle cerimonie del bonzo e dalle preghiere della suora.</p><p rend="h2" >IL FIGLIO DEL SOLE</p><p rend="text" >Il freddo arrivava sempre all’improvviso, subito dopo la notte di Natale. Si andava alla Messa della Notte Santa ancora in abito di seta. Nel collegio si offrivano tè caldo e dolcetti di sesamo dopo le tre messe — i regali ai piedi del Bambinello, sul palco del salone delle feste trasformato in presepe. Restavano le bambine povere, quelle che non avevano una famiglia con cui passare le vacanze e qualche professoressa sola.</p><p rend="text" >La direttrice, una suora americana, chiamandola, sbagliò il suo nome. Lei sorrise. Si avvicinò. Era un pacchetto di carta rossa con disegni dorati. Più tardi si ricordò di aver posato le labbra su una superficie fredda. Il volto ossuto della vecchia direttrice nel bacio in segno di pace? I piedi di marmo del Bambino Gesù?</p><p rend="text" >Ricevette una collana di perline che le fece venire in mente un sonaglio. Arrossì nel rendersi conto dei suoi pensieri.</p><p rend="text" >«Perché mi guardano così tanto? Le piccole… come se non mi avessero mai vista… mi sento disorientata. E se perdo i sensi?».</p><p rend="text" >Nello sconforto del salone, alla luce delle candele del presepe, il ridotto gruppo di professori e alunne, mezzo cerimonioso, mezzo ostile, fraternizzava a fatica.</p><p rend="text" >Invano, Padre Matthew, il francescano scozzese, metteva alla prova il suo cantonese con le bambine.</p><p rend="text" >Arrivò da dentro la sorella Chen-Mou, il volto di luna che riluceva, con zenzero caramellato in un vassoio di porcellana. Le bambine la circondarono; le mostravano i regali; le chiedevano che ora fosse.</p><p rend="text" >Poi, tutto come prima. Allo scintillio smorto delle candele, i volti delle persone sembravano stranamente allungati.</p><p rend="text" >Sul mosaico del pavimento si distinguevano, in modo chiaro, i disegni a croce, mentre il tetto, le pareti, le porte, svanivano, informi, nel crepuscolo.</p><p rend="text" >Come l’aveva spaventata, sbucando fuori dall’ombra delle piante per strada, a quell’ora! Aveva affrettato il passo una volta lasciata la piazza. Le batteva con forza il cuore. Per poco non sarebbe svenuta lì, ai suoi piedi.</p><p rend="text" >L’uomo profumava vagamente di sandalo. Le pose delle scuse educate per lo spavento. In verità, quella era anche la sua direzione. All’istituto c’era stata una festa di Natale, dato che il direttore era un cristiano convertito. Battesimo di sei alunni. Avevano assistito professori cristiani e professori buddisti. Avevano bevuto vino di riso, bruciato bastoncini d’incenso.</p><p rend="text" >La strada era in pendenza e lui le offrì il braccio, che lei rifiutò. Dei cani abbaiarono. Lui si dispiacque di non avere la macchina per portarla a casa. Parlò del capodanno cinese, che sarebbe arrivato con la prossima luna. Sarebbero andati insieme a comprare il ramo di fiori di pesco. Sorrise. Lei non lo ascoltava, assorta com’era in un unico pensiero: il figlio di lui in sé.</p><p rend="text" >«Quanto tempo è passato? A volte mi sembra che sia passato così tanto tempo… che sia stato in un’altra vita».</p><p rend="text" >Un’altra vita… I due, soli e intimiditi di esserlo. Soli con la Natura: cieli chiari, alberi frondosi, lievi, lunghi, lisci. E un’allegria pura, comparabile all’infanzia.</p><p rend="text" >Costeggiarono il cimitero. Il gufo bubbolò. Istintivamente, si avvicinò a lui. Desiderava intensamente piangere, piangere molto, piangere forte.</p><p rend="text" >La sua terra era dall’altro capo del mondo. C’era la neve. La sua famiglia doveva ricordarla di più quella notte. Se almeno qualche volta le scrivessero, le inviassero regali. I pasti che si mangiavano lì, il tintinnio dei bicchieri, le conversazioni interrotte, risate, esclamazioni. La famiglia! Non poteva tornare dalla sua famiglia. Portava nella pancia il sangue di una razza straniera, il figlio di qualcuno che non aveva mai conosciuto né amato (qualcuno nato migliaia di anni prima di lei), il frutto ibrido e falso del suo cinismo.</p><p rend="text" >Le venne improvvisamente una grande pena per l’uomo. Così intelligente! E alto e delicato. Cinese del Nord? Raffinato tra i cantonesi piccoli e grossolani. Pena anche per la totale ignoranza di quello che lei sapeva e gli nascondeva: un mistero, comunque, impossibile senza di lui. Pena per il tradimento, per la sua vendetta.</p><p rend="text" >«E se per lui fosse buona questa notte?».</p><p rend="text" >La luna era salita. Più esili che mai, i cipressi del cimitero si proiettavano in diagonale sul bordo della strada. L’ombra di lui era uguale a quella dei cipressi. Quel profumo vegetale… iniziò ad ascoltarlo. Parlava mandarino. Citava versi. Una musicalità esotica, come quella del vento in un bosco di bambù. La mano aperta a foglia di palma.</p><p rend="text" >No. Non si poteva amare un gesto, un suono, un mito. E lui era solo gesto, suono, mito. Per quanto volesse, non riusciva a ricordare niente di reale, di corporeo. Tutto si fondeva nell’aridità dello spirito, oziosamente vago e triste — paesaggio di sabbia…</p><p rend="text" >Una volta, al bar, presero dei <hi rend="italic" >cocktails</hi>. Un orologio cinese tra drappeggi di conterie. Il tempo, comunque, non esisteva. Con lui, era sempre fuori dal tempo. Gli occhi socchiusi parlavano di dolorosi, lontani confini dell’eternità. Quelle labbra a inumidirla, le narici ad aspirarne la pelle. Labbra fredde come i piedi di marmo del Bambinello nel presepe.</p><p rend="text" >Avrebbe voluto stringerlo un’altra volta. Serata ventosa e calda di agosto. Le mezzelune nere delle vele delle navi si stagliavano sull’orizzonte. Lui sorrideva, un sorriso assente come quello dei ritratti. Le restò l’impressione di aver accarezzato il volto del vento.</p><p rend="text" >Poi, la lezione in sala conferenze. Tutto in nero e porpora, formale, alla moda del Vecchio Impero. La lingua straniera fluiva senza fatica dalle labbra sottili, in modo perfetto, eloquente. Il pallore del volto. Egli era un principe, un saggio. L’abisso del genio. La confusione dei sensi. La voluttà del soprannaturale.</p><p rend="text" >Non poteva tenere quel figlio. Non lo aveva sentito formarsi dentro di sé, nella carne. Estranea nel generarlo. Avrebbe concepito in modo non naturale dalla luce dello spirito di lui, come la prima donna del mondo, secondo Confucio, aveva concepito dalla propria ombra.</p><p rend="text" >Sapeva che il giorno era alto, perché arrivava da lontano, dalla strada, il clamore dei guidatori di risciò. Sapeva che era Natale per il pacchetto scarlatto in cima al tavolo.</p><p rend="text" >Avvicinò al petto il <hi rend="italic" >min-toi</hi> foderato di seta. Il freddo era arrivato, religiosamente puntuale alla nascita di Cristo.</p><p rend="text" >Nel centro della città, tende di chincaglierie e <hi rend="italic" >tin-tins —</hi> il borbottio usuale che la festa dei cristiani accentuava. Nei carretti delle vivande, carne di maiale che sfrigolava nell’olio da frittura, semi di loto, germogli di soia e bambù, semi di cocomero, <hi rend="italic" >chao-fan</hi>, <hi rend="italic" >chao-min</hi>. Agli angoli, cechi dalle dita tremule che prevedevano il futuro. La vecchia dell’organetto e dei rimedi, con i suoi indecifrabili annunci. Ad aprire la strada alle grida, gli uomini dei risciò.</p><p rend="text" >Senza quasi accorgersi dei suoi passi, entrò nel tempio. C’erano, come sempre, devoti che bruciavano biglietti di offerte negli incensieri fumanti. C’erano quelli che battevano con la testa sul pavimento davanti al Buddha e quelli che, riverentemente, suonavano la campana per chiamare l’attenzione della placida divinità sulle proprie necessità.</p><p rend="text" >Il cinese mescolò le bacchette della fortuna nel bicchiere di bambù, chiedendo di sceglierne una. Prese poi dalla parete una pergamena polverosa. Iniziò a leggere.</p><p rend="text" >Lei ascoltava, seria.</p><p rend="text" >L’aria era profumata, densa di fumo.</p><p rend="text" >Il bonzo le disse che era nata sotto una luna sferzata dai venti dell’Est, che questo era al contempo avventuroso e pericoloso; che la Dea dell’Ansia vegliava sul suo destino, perché nessun altro dio conosceva il suo oroscopo. Aggiunse che aveva confuso i valori del Cielo con i valori della Terra, e da questo era derivata la sua perdizione; che non possedeva niente perché aveva voluto tutto; che quello era, senza dubbio, un destino raro.</p><p rend="text" >Il cinese assomigliava al Buddha dell’altare: cranio lucido, sorriso enigmatico, immobile, di un altro mondo.</p><p rend="text" >Salì lentamente la scalinata del collegio. Nel parlatorio, la direttrice riceveva. Coppie cinesi, con la prole, entravano e uscivano, cerimoniosi e solenni. Prelati. Superiori di altre scuole. Su un tavolino di canfora, ciotole da tè e dolcetti di farina di soia colorati di rosso.</p><p rend="text" >Se ne sarebbe andata.</p><p rend="text" >Gli occhi della direttrice sbiancarono per lo spavento.</p><p rend="text" >Porse delle scuse, congratulandosi intimamente di essere così brava a mentire, a valutare la sorpresa negli occhi della direttrice, a immaginarsi come sarebbero stati vitrei se le avesse confessato una sola cosa, l’unica che valeva la pena confessare: la verità era che lei stessa non ci credeva.</p><p rend="text" >«Da quante Lune? Era Autunno. L’Autunno qui ricorda la Primavera: tiepido, caldo profumato. E come eravamo felici! Naturalmente, senza una ragione particolare. Solo felici. Felici come la Terra quando il Sole la inonda. Perché non lo dico a voce alta? Felici e belli!».</p><p rend="text" >La direttrice si agitò sulla poltrona. Mandò a chiamare la vicedirettrice.</p><p rend="text" >Passi velati sul lastricato del cortile. La vicedirettrice portava occhiali scuri.</p><p rend="text" >Dovette ricominciare. Eppure, si sentiva terribilmente stanca. Voleva ripeterlo dalla fine al principio, ammutolire, chiedere che parlassero loro.</p><p rend="text" >La direttrice alludeva al Bambino del presepe, a Sua grazia.</p><p rend="text" >Ma cosa aveva a che fare il suo bambino con tutto questo? Nel giardino pubblico le ombre degli alberi si allungavano sul viale. La campana della cappella delle suore — Natale di Cristo. Il tempio — le parole del bonzo. Il Dio di lei. Il Dio di lui. Era andata alla ricerca di entrambi e doveva decidere da sola. Di suo, solo quella fatica così profonda come se fosse già morta…</p><p rend="text" >Nel porto Interiore, la città instabile delle barche e delle <hi rend="italic" >lorchas</hi> — scafi fangosi, alberi nudi come dita verso il cielo — conteneva tutta la vecchiaia del mondo.</p><p rend="text" >Si fermò a osservare gli aquiloni di carta che svolazzavano, allegri, nel violaceo di ponente. Gli aquiloni legati alle colonne del pontile. Si annodava nei fili di <hi rend="italic" >nylon</hi> degli aquiloni. I fili di dolore che la stringevano alla vita.</p><p rend="text" >«Era Autunno e sembrava Primavera. Penso di non averlo amato ma ero felice. Eravamo entrambi felici. Che importava che fosse solo un istante? Lui meritava davvero l’amore…».</p><p rend="text" >La notte calò. Era tutto nero.</p><p rend="text" >Oh, chi sarebbe rimasto a raccontare quell’allegria! Chi avrebbe detto che lei stava lì e che portava nel ventre un figlio del Sole!</p><p rend="h2" >I LEBBROSI</p><p rend="text" >Quando il Sole calava nel mare, la collina, all’estremità dell’isola, era una torcia fiammeggiante. Sembrava che il mondo dovesse finire lì, o forse iniziare, che nuove forme, o il nulla, dovessero sorgere, immutabili, dalla massa infuocata degli elementi — terra argillosa, cielo, acqua che ardevano al soffio dello Spirito — e che il tempo a seguire sarebbe stato il giorno perfetto della natura depurata.</p><p rend="text" >A-Mou, che aveva sul volto i segni della lebbra, saliva tutti i giorni ad ammirare lo spettacolo dell’imbrunire, tremante di inquietudine e di speranza.</p><p rend="text" >Era l’ora in cui le altre malate si raccoglievano agli angoli delle loro brande, o perché il Sole, specchiandosi nel mare, feriva i loro occhi infettati, o soltanto per inspiegabili, segrete superstizioni.</p><p rend="text" >A-Mou era giovane e la malattia, ancora allo stadio iniziale, non le causava sofferenza. In verità, aveva solo dei segni. Il medico le aveva promesso una cura. A lei piaceva vivere, diventare bella e indossare abiti sgargianti, fiori nei capelli, smalto sulle unghie.</p><p rend="text" >Nel tardo pomeriggio, portando in braccio il suo protetto — un porcellino d’India che dormiva ai piedi del suo letto come un gatto —, A-Mou saliva fino alla collina più alta, sognando un domani nuovo, differente, migliore.</p><p rend="text" >Si vedeva tutta l’isola da lì: le risaie fangose che brillavano agli ultimi raggi di sole, nelle valli; gli arbusti di tè e di igname sui versanti costieri terrazzati; le pietre nere e gialle tra la boscaglia sempreverde degli abeti. E osservare l’isola era, in un certo modo, contemplare il mondo, intravedere la vita oltre il lebbrosario. Nell’ampia curva del mare le barche tornavano dalla pesca. Poi, la notte si adagiava sulla Terra. E l’animo romantico di A-Mou si riempiva di fede, di tenerezza per la propria esistenza, di felicità fino alle lacrime.</p><p rend="text" >Le altre la consideravano eccentrica: mentre loro, cinesi per legge, apprezzavano la compagnia, i pettegolezzi, il rumore, specialmente all’imbrunire, A-Mou preferiva stare sola. Non sembrava una cinese, commentavano. E se le chiedevano perché usciva da sola a quell’ora, sorrideva. Non diceva, né avrebbe saputo dire, se fosse perché nessun altro usciva, perché qualcosa di soprannaturale segnava quel momento, perché al ritorno faceva buio e uscivano sul sentiero i primi rospi, i primi topi di montagna — che lei quasi sperava parlassero, come nei racconti dell’infanzia —, e le onde negli anfratti degli scogli avevano il suono profondo della musica sacra.</p><p rend="text" >Al ritorno, A-Mou trovava le compagne sveglie nell’oscurità del cortile, che cantavano pettinandosi. Alcune le chiedevano, prudentemente, cosa aveva visto nella notte. Si diceva che ci fossero i folletti. Le donne cieche, con gli occhi aperti, immobili, nel buio ricordavano visioni di ignoti e imponderabili spazi.</p><p rend="text" >A-Mou rimaneva insieme alle altre, accarezzando la pancia del porcellino e ascoltando, spaventata, le storie di fantasmi e di streghe che le vecchie senza mani, senza naso, senza orecchie, tessevano con voce cavernosa.</p><p rend="text" >Fu così che seppe che l’amore era una cosa pericolosa. Sempre, nelle storie delle anziane, amore, passione, fidanzamenti si presentavano segnati da destini avversi, malefici, disgrazie.</p><p rend="text" >A-Mou non aveva mai amato, né sapeva bene cosa fosse amare.</p><p rend="text" >Si era ammalata da bambina, da bambina venne portata lì, ignorante della vita; e si annoiava. Eppure ogni giorno si emozionava all’imbrunire. Come se il giorno seguente avesse terminato la cura: un addio con abbracci e regali, una festa nel lebbrosario.</p><p rend="text" >Ma tra le compagne, nel cortile, ripensando al giorno della resurrezione, era solita chiedersi cosa avrebbe fatto dopo. Non aveva famiglia. La nonna, con la quale era fuggita dalla periferia di Canton, era morta non appena era arrivata lì. Era una vecchia piccola e triste, dal cappello di velluto nero-verdolino; fumava oppio per lunghe, immobili ore.</p><p rend="text" >Ricordava gli amici della nonna, anch’essi persone senza arte né parte: il professore, quasi matusalemme, mezza dozzina di peli scoloriti sul mento, parole dotte (ricordava versi che egli le aveva insegnato); la donna che di giorno vendeva grasso di serpente e di notte parlava con gli spiriti degli antenati.</p><p rend="text" >Ad ogni alba, con il rumore delle pentole nella cucina, l’odore dolce del <hi rend="italic" >chouk</hi> nelle ciotole del refettorio, il latrare dei cani, A-Mou salutava la lama di luce che penetrava nella sua stanza con un gesto di allegria. Allo specchio della toeletta, le macchie restavano là, sugli zigomi, alcune rosee, altre quasi violacee.</p><p rend="text" >Ma un nuovo giorno sorgeva. Aveva molto a cui pensare — intrecciarsi i capelli, prendersi cura del suo animaletto, osservare il calare del Sole.</p><p rend="text" >E non fece caso all’arrivo del ragazzo nella casa degli uomini, sull’altro lato della collina. Le vecchie raccontavano che aveva attraversato il fiume su una zattera che aveva costruito lui stesso, in una notte senza luna. Caso particolare il suo. Il medico lo dava per guarito in pochi mesi. Era un bel ragazzo.</p><p rend="text" >A-Mou iniziò quindi a immaginarlo come una specie di divinità, come gli dèi del focolare, all’entrata del tempio, eleganti, con uccellini sulle braccia, o come il genio del male che impugnava il bastone a mo’ di scettro — divinità del terrore secondo la nonna, ma che lei, al contrario, trovava di una bellezza seducente.</p><p rend="text" >E senza cercare di vedere il nuovo arrivato, A-Mou si sedeva ad aspettarlo in ogni istante, e per lui perfezionava la sua pettinatura ogni giorno.</p><p rend="text" >Ovviamente il ragazzo non sarebbe venuto lì — era proibito per gli uomini oltrepassare la zona delle donne — e lei nemmeno si ricordò di cercarlo. Ma pensava a lui dalla mattina, al risveglio, e durante la passeggiata al tramonto, e quando si vestiva, e quando si intrecciava i capelli. Pensava che fosse venuto di proposito per scuoterla dal torpore delle ore.</p><p rend="text" >Lui era a conoscenza della sua esistenza? Certo che sì. La nonna usava dire che i fili del pensiero erano più forti dei fili del telaio. Tessevano tele della grandezza di strade imperiali, resistevano a tifoni, attraversavano le acque dei fiumi e dei mari. Con tutto quel pensare a lui, il ragazzo ormai la conosceva. E già contava su di lei.</p><p rend="text" >Naturalmente non potevano aspettarsi niente di duraturo l’uno dall’altra. Una volta guariti, se per caso si fossero incontrati nel mondo dei sani, forse avrebbero finto di ignorarsi. Nel mondo dei sani niente avrebbe potuto essere uguale, perché loro stessi sarebbero stati diversi.</p><p rend="text" >Nel mondo dei sani non avrebbero avuto così bisogno l’una dell’altro. Era questa la ragione per cui Dio ammetteva la sofferenza… e l’esilio? Nella disgrazia, le persone diventavano più importanti. Come la nonna: in fin di vita non le mancò mai la <hi rend="italic" >polvere bianca </hi>per la pipa. E il vecchio professore che sepoltura che ebbe! La signora ottuagenaria e ricca che sedeva nel cortile principale — circondata da domestiche e senza gambe dal ginocchio in giù — in salute era la signora (<hi rend="italic" >tai-tai</hi>) della propria casa, sola; da malata, comandava un intero ospedale.</p><p rend="text" >Sì, le disgrazie avevano anche la loro parte di gioia. Nel mondo dei sani, tanto lui quanto lei non sarebbero stati unici. E lei non avrebbe mai conservato in sé tale certezza. Le storie delle anziane parlavano di gelosie e tradimenti. Tra di loro non sarebbe mai successo. Storie di gente libera. La libertà si pagava a caro prezzo. Anche se non avrebbe potuto contare su di lui più avanti, adesso A-Mou si affidava a lui completamente.</p><p rend="text" >E pensava al ragazzo devotamente, come si pensa agli dèi del focolare, come chi, temerario, venera il genio del male.</p><p rend="text" >Il tempo correva. Le sere lasciavano il posto alle notti. Il chiacchiericcio delle donne smise di intrattenere l’argomento del nuovo lebbroso. E A-Mou aspettava.</p><p rend="text" >Fu durante la passeggiata al crepuscolo che il sogno si trasformò in realtà. All’improvviso, quando il Sole era già calato, notò un’ombra al suo fianco, un’ombra che si diresse verso di lei, le disse il proprio nome, volle sapere il suo. Non poteva essere nessun altro. Nessun uomo o donna tra i malati veniva lì a quell’ora, e i sani si spaventavano solo a vedere da lontano la collina dei lebbrosi. Nell’oscurità, A-Mou ne distingueva a mala pena gli occhi. Il mare risuonava nelle insenature degli scogli. Lui strappò un rametto di verbena da un arbusto vicino, ne stropicciò le foglie tra le dita, il profumo si diffuse, prese consapevolezza della notte.</p><p rend="text" >Da quel momento in poi, fu più o meno sempre uguale. Lui arrivava dopo il tramonto. C’erano la fragranza del limone e il pianto del mare. Nelle notti di Luna arrivavano a vedersi perfettamente. Le faceva i complimenti per le trecce. Lei lo paragonava, in cuor suo, ai giovani dèi del tempio. Fu più o meno sempre uguale e sempre inaspettato: le ore, il doppio del tempo; i silenzi che dicevano più delle parole; i gesti gratuiti; l’anima esente.</p><p rend="text" >Ma correvano rapidi i mesi che il medico aveva assegnato per la cura del ragazzo. Forse non aveva già più segni sul corpo? Incapace di chiederlo, e senza nemmeno volerlo sapere, A-Mou vedeva, di giorno in giorno, crescere i suoi allo specchio.</p><p rend="text" >Nelle conversazioni notturne, le compagne adesso le facevano molte più domande.</p><p rend="text" >E ogni volta A-Mou parlava sempre di meno.</p><p rend="text" >Cosa c’era da dire, in fondo? Dal suo volto, le macchie violacee parlavano per lei, proprio come per la grande <hi rend="italic" >tai-tai</hi>, seduta nel cortile interiore, le gambe che non aveva, e per le altre le mani, il naso, le orecchie. Come in tutte, la fedeltà alla disgrazia.</p><p rend="text" >Ma per fortuna lui era venuto una notte, tre, trenta. E per fortuna lei, durante tante notti, aveva avuto fede in quelle apparizioni.</p><p rend="text" >Non era più per contemplare la torcia del Sole al tramonto e sognare un domani nuovo che ancora saliva per la collina all’imbrunire. Nemmeno per via del ragazzo. Solo per se stessa. Perché doveva vivere, malgrado la morte che la segnava. Perché il medico non era tornato ad accennare alla cura, ma lei aveva bisogno di conoscere le<hi rend="italic" > avventure</hi> felici dell’amore per raccontarle un giorno, accasciata nel cortile, a qualche bambina innocente che sarebbe entrata nel lebbrosario.</p><p rend="h2" >L’UOMO DEL RISCIÒ</p><p rend="text" >Il bambino apparve in una mattina umida di marzo alla porta del convento. Aveva circa sei mesi, la fisionomia mista di cinese e europeo, la pelle chiara. Un bambino perfetto, avvolto in panni rossi e con un amuleto di osso al polso.</p><p rend="text" >Ovviamente le preghiere del coro ritardarono quella mattina. Era necessario nutrire il bambino che piangeva forte succhiandosi il dito, cambiargli i vestiti freddi con panni riscaldati. Un trambusto tra le monache più giovani. Preoccupazione e pietà sul volto severo della badessa.</p><p rend="text" >Non era la prima volta che alla portineria del convento comparivano bambini abbandonati. Ma di solito si trattava sempre di bambine appena nate. A volte le madri stesse si recavano lì a donarle. I padri non le volevano. Dovevano disfarsene in qualche modo. Le suore tentavano di convincerle, promettevano della farina, un corredo, finendo per accogliere le poverette e inviarle al nido d’infanzia, dal quale, all’età giusta, sarebbero passate all’asilo delle orfane.</p><p rend="text" >Alcune di queste trovatelle diventavano più tardi sorelle convertite; altre diventavano donne di servizio, ricamatrici. Andavano indirizzate quando raggiungevano l’età adulta. Venivano chiamate figlie della carità.</p><p rend="text" >Un maschio, invece, rendeva tutto più complicato. Dove metterlo dopo il nido? Di sicuro la madre doveva essere disperata per abbandonare così un figlio maschio.</p><p rend="text" >Le domestiche borbottavano «Madre snaturata! Un figlio maschio, la più grande felicità di ogni donna! Ballerina, di sicuro, ragazza di vita facile, anima senza sentimento, senza dignità».</p><p rend="text" >La grassa suora portinaia, che era stata la prima a vedere il bambino, impose il silenzio. Chi poteva dire cosa avesse portato la madre a ripudiare il figlio? In realtà, lo aveva tenuto fino a quell’età… Chi poteva conoscere il dramma di quella separazione? Pregare per lei, sì, era l’unica cosa che valesse la pena.</p><p rend="text" >Ovviamente la madre superiora non ricorse alle autorità né tentò di investigare, perché tutto sarebbe stato infruttuoso. Impossibile scoprire la famiglia dell’abbandonato in un mondo così confuso, per la maggior parte persone senza identificazione — rifugiati dai luoghi più diversi della Cina, di giorno in giorno, decine su decine, usavano nomi falsi, si ignoravano fra loro, parlavano dialetti diversi, si colpivano e si odiavano gli uni con gli altri, sotto il più tragico destino che può gravare sulle creature: la mancanza di un pezzo di terra.</p><p rend="text" >La soluzione non sarebbe stata adottare il trovatello, battezzarlo, affidarlo alla provvidenza?</p><p rend="text" >Gli dettero il nome Francesco, in nome del santo morto lì di fronte, nell’isola di Sanchoão, cinquecento anni prima. Gli fu madrina la suora più anziana del convento. Padrino, il santo.</p><p rend="text" >Ma il giorno seguente a quello in cui il bambino apparve alla portineria del convento, qualcuno chiese un colloquio privato alla madre badessa. Era l’uomo del risciò, quello che, all’ora dell’uscita di scuola delle bambine gridava nella piazza la sua offerta di trasporto. Venne a chiedere il favore che gli fosse affidato il bambino, dato che il nido non poteva ospitarlo. Era vecchio, povero, solo. Desiderava, tuttavia, dedicarsi a qualcuno. Possedeva nel porto Interiore la sua imbarcazione, dove potevano vivere entrambi. I cinquanta soldi di ogni corsa gli rendevano a fine giornata abbastanza per tutti e due.</p><p rend="text" >La madre accettò, rincuorata, a condizione che il bambino frequentasse la chiesa cattolica, il catechismo, e che il convento vegliasse sulla sua educazione spirituale.</p><p rend="text" >La madre superiora aveva pregato tutta la notte san Francesco Saverio, chiedendo un focolare domestico per il bambino abbandonato. La risposta del santo fu immediata. Miracolo. Il vecchio del risciò, un cinese serio, conosciuto dal convento. Il bambino sarebbe cresciuto con la sua gente. Cristiano battezzato, educato dalla Chiesa. Chissà se non sarebbe stato d’esempio a molti, la conversione del proprio protettore?</p><p rend="text" >Francesco Cheong — dal nome del padre adottivo — divenne un bambino gentile del coro che serviva la messa tutte le mattine nella cappella del convento, presentando al padre, alla benedizione della sera, l’incensiere profumato.</p><p rend="text" >Il vecchio Cheong lasciava il mezzo in un angolo per andare a vedere il piccolo durante i riti del culto. A volte, le lacrime gli riempivano gli occhi. Il bambino sembrava più un angelo che un essere umano. Passi silenziosi da un lato all’altro dell’altare, adesso un inchino, poi le mani innalzate, la strana lingua che parlava, la tunica rossa che gli intralciava i piedi, gli orli ricamati che frusciavano. Un orgoglio, un figlio così, di fattezza mista, cinese ed europeo, snello e bianco, che il destino gli aveva affidato, a lui, povero vecchio senza famiglia.</p><p rend="text" >E di lì passava per recarsi al tempio a ringraziare gli dei per il dono del figlio adottivo.</p><p rend="text" >Francesco era intelligente. Andava bene negli studi. Disegnava i caratteri cinesi in modo eccellente. Rispettava e amava il vecchio che chiamava papà.</p><p rend="text" >A fine serata l’uomo del risciò si fermava alla porta della scuola maschile. Lì non c’era bisogno di gridare il suo servizio. Andava a prendere Francesco che, con i libri in mano, si sedeva sulla seggiolina, dopo aver salutato il padre. L’uomo pedalava, la strada davanti a sé, entrambi contenti, fino alla barca sul fiume melmoso.</p><p rend="text" >La mattina faceva il percorso verso la chiesa. L’uomo si commuoveva, dal fondo della barca, per il portamento del figlio.</p><p rend="text" >Venne però il giorno in cui nell’anima pietosa di Francesco si insinuò il dovere di portare il padre verso Cristo. Egli, cristiano battezzato, bambino del coro, che prendeva la comunione, e il padre che frequentava il tempio, che batteva la fronte sul pavimento davanti a Buddha, che consultava il bonzo. Non andava bene. Come poteva un figlio cattolico crescere felice insieme a un padre che adorava degli idoli?</p><p rend="text" >Nella coscienza di Francesco non era mai sorto questo problema, e non fu senza riluttanza che, sollecitato, promise di parlarne al padre. Trovava difficile la conversazione, persino irrispettosa. Il vecchio era così soddisfatto di andare al tempio durante le feste solenni, di offrire pasti e bruciare profumi sugli altari degli dèi! Nei libri antichi aveva letto che cinquecento anni prima di Cristo in Cina si insegnava già la Bontà e la Bellezza. Non comprendeva dentro di sé, da cattolico, virtù maggiori di quelle del vecchio buddista.</p><p rend="text" >Fu durante il viaggio di ritorno a casa. Al crepuscolo. Il ragazzo vedeva il busto curvo del padre che pedalava davanti. Non sapeva da dove iniziare. Mai il vecchio aveva criticato la religione di Francesco; al contrario, la riteneva buona, era orgoglioso di vederlo nella cappella del convento ad aiutare il sacerdote, ad accendere le candele, a fare la comunione con il Signore. Perché adesso doveva essere lui a disprezzare il suo dio, dire che era falso, che non gli avrebbero valso a niente le offerte a Buddha, le preghiere?</p><p rend="text" >Arrivarono a casa senza dire una parola.</p><p rend="text" >Il vecchio Cheong si chiedeva per quale ragione il ragazzo si mostrasse così pensieroso quella sera.</p><p rend="text" >La cena passò anch’essa in un inusuale silenzio. Si sentivano le bacchette di bambù tintinnare sul bordo della ciotola. Il vecchio gli offrì dell’altro riso. Francesco fece cenno di no. Entrambi rimasero silenziosi a osservare la notte e le acque scure. Poi Francesco aprì la bocca per citare una frase del Vangelo. Il padre si alzò. La barca vacillò. Alla luce della candela, l’ombra del vecchio si allungava sul ponte fino alla banchina.</p><p rend="text" >Alla fine, già sdraiati, fianco a fianco, sulle tavole corrose della barca, il ragazzo, incoraggiato dalle tenebre, iniziò a parlare di religione.</p><p rend="text" >Il vecchio ascoltava, attento. Gli piaceva ascoltare il figlio. Quante cose sapeva il fanciullo! Ovviamente non capiva tutto quello che gli diceva. Tuttavia, parlare di Dio gli sembrava un argomento eccellente.</p><p rend="text" >Francesco raccontava dei misteri della sua fede, si riferiva alla Bibbia, ai passi della vita di Gesù.</p><p rend="text" >Il sonno pesava sulle palpebre stanche del guidatore di risciò: un sonno buono, tutto cullato dalle parole del figlio, parole che risuonavano di dolcezza, di perdono, di amore.</p><p rend="text" >L’ora avanzava, facendo spazio alla Luna. Una Luna piena, lattiginosa, che il giovane guardava mentre parlava e che gli riportava alla mente il ricordo di una divinità — Nostra Signora?, qualche santa?, il Genio della Notte?</p><p rend="text" >— …Pace in Terra agli uomini di buona volontà — mormorò.</p><p rend="text" >E paragonava la pace divina alla Luna rotonda. Sentiva questa stessa pace come non l’aveva mai sentita prima. E non disse più nulla.</p><p rend="text" >Tutto vestito del chiarore lunare, occhi chiusi, muto, al suo fianco, il padre era come se fosse morto. Così puro, così buono! Desiderò accarezzargli lievemente le mani. La sua anima doveva assomigliare al volto della Luna. Religione, Dio, preghiere, non saranno alla fine il vecchio dall’anima bianca come la Luna e la serenità che da entrambi irradiava?</p><p rend="text" >Questa dottrina, comunque, non gliela aveva insegnata nessuno. Non l’aveva imparata a catechismo e neanche a scuola. Probabilmente le catechiste non si erano accorte della Luna e dell’uomo del risciò. Egli in ogni caso ora sapeva che era così. Una rivelazione, quella notte. Né cristiani, né buddisti, né taoisti, né confuciani… Dio soltanto. Un Dio per tutti.</p><p rend="text" >Faticosamente il vecchio riaprì gli occhi, vincendo il sonno. Il figlio era silenzioso, meditabondo, di sicuro aveva già finito la sua bella storia. E Cheong balbettò:</p><p rend="text" >— Così giovane e sa cose che un vecchio non comprende! Per questo vado al tempio dopo averti lasciato al convento delle suore. Quanto devo ringraziare gli dei per un figlio così!</p><p rend="h2" >MAGIA</p><p rend="text" >Fu alla Salita del Drago che feci visita allo stregone, nella casetta bassa con due lanterne rosse alla porta e un’insegna d’oro e porpora: <hi rend="italic" >Vong Kei </hi><hi rend="italic" >— Indovino</hi>.</p><p rend="text" >Vong-Kei era sposato e aveva cinque figlie, tutte ballerine e cantanti di teatro. Obeso, con la pelle chiara, gli occhi sprofondati nel grasso del volto, indossava un abito di seta nera che gli lasciava scoperta la base delle gambe nude, grasse, senza peli.</p><p rend="text" >Nel cubicolo in cui profetizzava, dove c’erano solo un tavolo e due sedie, pendevano dalle pareti tavolette di sandalo con caratteri cinesi.</p><p rend="text" >La moglie, relativamente giovane, andava da una parte all’altra in sottoveste, perché faceva caldo, accogliendo i clienti con tazze di tè. Si sentiva il sorseggiare del tè, il ronzio degli insetti, di tanto in tanto un sospiro. In giro, specchi con detti in cinese, grandi vasi di foglie secche, e in fondo, tra offerte di alimenti e bastoncini di incenso, l’altare delle anime degli dei.</p><p rend="text" >Vicino all’altare, in un angolo tanto scuro che a malapena si vedeva, una vecchia, affondata in una poltrona posteriore, sembrava dormire.</p><p rend="text" >Chi sospirava era una ragazza in gravidanza alla fine del tempo, con il mento che quasi le arrivava sul ventre. All’improvviso, uscendo dalla stanza dello stregone, un uomo forte, con occhiali neri (cieco?), attraversò la sala a braccia stese come se andasse a tentoni, spinse la porta che dava sul cortile, scoppiò in un urlo di dolore e disperazione. E i più a tapparsi le orecchie nascondendo la testa tra le mani.</p><p rend="text" >Non so se fu l’ambiente o l’indovino stesso a convincermi. La verità è che prima ridevo, ridicolizzando la magia e la mia amica cinese che ci credeva. Entrai scettica, sebbene piena di curiosità. E finii per stendere la mano, ascoltare il mago, pagare la seduta, restare impressionata.</p><p rend="text" >Andare lì soltanto per accompagnare altre persone non era permesso, mi spinsero oltre le tende appena un altro ne uscì e, dato che ero straniera, entrai insieme alla mia amica.</p><p rend="text" >Colto, parlava inglese, lo stregone riportava gli avvenimenti e gli astri, ruotando nel polso sinistro, come se giocasse, un anello di giada, mentre con la mano destra teneva la mia. Non c’erano manoscritti sul tavolo, ma alcuni dadi in un vaso d’avorio, che consultò una sola volta. E quando mi guardò negli occhi, sorridendo, assorto, arrivai a immaginarmi davanti a un ente soprannaturale, chissà forse davanti allo stesso Buddha?</p><p rend="text" >Il gorgoglio del tè, il sussurro degli insetti, i sospiri della donna incinta erano scomparsi. Ora c’erano il silenzio e la parlata cadenzata dell’indovino. Ed era così dominante la sfera dei suoi poteri che mi venne voglia di restare lì ad ascoltarlo tutta la sera.</p><p rend="text" >La moglie, dall’esterno, scostò la tenda di conteria, dichiarando che per me la seduta era conclusa.</p><p rend="text" >Lei parlava cantonese. Pallida, il piccolo corpo spezzato dagli inchini. La sottoveste, color lilla, le contornava il collo e le spalle, rivelandone le gambe trasparenti come la seta. Ai piedi trascinava pantofole ricamate.</p><p rend="text" >Mentre aspettavo la mia amica, mi portò nella stanza da letto per mostrarmi i ritratti delle figlie — cinque ragazze della statura della madre, dal volto dipinto e fiori nei capelli. Ballavano al teatro di Shanghai.</p><p rend="text" >La stanza era scura. Accese la lanterna di carta di riso. Siccome io la capivo male, lei si esprimeva a gesti, mostrando denti incapsulati in oro. La luce colorata della lanterna, la mimica della donna, le maschere delle ballerine, facevano crescere il mistero della casa, del mago (o Buddha?), del mio stato spirituale. «E se irrompessi in grida come il cieco di prima?». Nel mentre un gatto saltò dal tetto, passò tra di noi, andò verso il salone, volendo oltrepassare la tenda. La donna, nel panico, corse ad afferrarlo. Mi spiegò: il marito non poteva essere disturbato.</p><p rend="text" >Tornammo nella saletta. Una suora buddista, con la testa rasata e la veste grigia che le cadeva sciolta fino ai piedi, perfettamente confondibile con un uomo, stava entrando. La donna di casa le si parò davanti, le toccò il petto con la fronte, le porse una tazza di tè. Poi si accovacciò vicino ai visitatori che sedevano, in silenzio, su degli sgabelli, sembrava inquieta, come se stesse per succedere qualcosa.</p><p rend="text" >Pensavo alla ragazza a fine gestazione. Assomigliava alle ballerine, anche lei indossava una maschera, ma era “la maschera della gravidanza”. Cosa le avrebbe detto il mago? Che sarebbe nata una ragazza quando il padre l’avrebbe sposata solo se avessero avuto un maschio? E perché il cieco era scoppiato in quell’urlo di afflizione?</p><p rend="text" >Quanto a me, dell’indovino ricordavo poco più del suono mansueto della voce, l’aroma del sandalo, quella remota e, nonostante tutto, integra presenza. Sufficiente a percepire per lui rispetto e quasi timore. Come se lui fosse il signore dei nostri destini e tutti dipendessimo dalla sua parola. «Cosa farò domani? A che età morirò?».</p><p rend="text" >Calava la notte. I volti si perdevano nell’ombra. Sull’altare, i coni d’incenso si consumavano in cenere aromatica. In tutto ciò, un gemito, che proveniva dalla sedia verso il fondo, ruppe il silenzio della sala — la vecchia aveva ricevuto l’avviso telepatico dal figlio e non poteva esprimersi in altro modo poiché era moribonda.</p><p rend="text" >La moglie del mago si alzò velocemente, attraversò la stanza, e aprendo la tenda, disse alla cliente di uscire. E a noi, in un sussurro, se volevamo aspettare la monaca che usava distribuire ricordanze sacre. Era la madre santa del convento.</p><p rend="text" >La mia amica scelse di rimanere. Senza essere propriamente buddista, apprezzava qualsiasi reliquia.</p><p rend="text" >Poi, la moglie di Vong Kei chiuse la porta sulla strada. Erano terminate le sedute per quel giorno.</p><p rend="text" >E mentre aspettavo, vidi le cinque ballerine dal volto truccato e le corone di fiori uscire dai ritratti sulla parete della camera da letto e iniziare una danza tenendosi per mano. Era una danza terribile. Le persone che erano passate in quel luogo quel giorno, e ogni giorno di ogni epoca, vi si contorcevano, trascinate, senza volerlo. E ognuno spaventato da se stesso e dagli altri. «È vero che lei mi ha tradito?» — «Dimmi se le piaccio!». La vecchia, circondata dal fumo dei lumi nell’angolo dell’oratorio, si contorceva al ritmo della danza, come se la comandassero. Le domande aumentavano, si confondevano, si perdevano in un clamore. Tutti volevano qualcuno, qualcosa. Tutti inquieti. Tutti impazziti. E la vecchia che boccheggiava. Il figlio? Dov’era il figlio? Dov’era colui che era nato dal suo ventre e che sapeva tutto?</p><p rend="text" >In attesa della suora, nella penombra della sala, tra la mia amica e la moglie di Vong-Kei, entrambe impassibili, presenziai a quella scena, pur essendo andata fin lì senza averne l’intenzione. Io e la vecchia. E questa che, avvicinandosi al limite, lo stava creando.</p><p rend="text" >Adesso il gatto gironzolava, lentamente, fra le panche. La monaca uscì. La bestiola entrò. Quella dell’indovino iniziò a riaccendere le luci dell’altare dove la madre santa del convento andò a deporre un fiore secco, offrendoci semi di loto tostati e aromatici.</p><p rend="text" >Poi il mago apparve dall’architrave della porta, separando la tenda. Il suo corpo era così largo che riempiva tutto il vano. La moglie gli portò una bacinella d’acqua. Lui diresse lo sguardo verso la madre, nell’angolo, rannicchiata nello schienale della sedia, stese le mani verso la bacinella, il viso paffuto si infranse, con dolore, e scoppiò in lacrime.</p><p rend="text" >Era come se lì non ci fosse nessun altro oltre a Vong Kei e alla notte, Vong Kei e la morte. Il volume del mago contro le conterie — stelle al bagliore dei lumi — la sua imponenza e la sua amarezza dominavano in un modo tale che, oltre a lui, solo il volto disfatto, marcio della madre.</p><p rend="text" >La monaca si affrettava, diceva che già dovevamo essere usciti. Vong Kei non sembrava nemmeno vederci. Con la bacinella in mano, la moglie era senza parole.</p><p rend="text" >E non potrò mai dimenticare il pianto sordo, roco, dell’indovino, un pianto che si allungava nella stanza dal tetto basso, che ci seguì fino in strada, che faceva pensare alla voce distante del tuono.</p><p rend="h2" >LA MORTA</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Gli antichi morti, invisibilmente</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Arrivano adesso ai loro antichi tetti…</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Già soffia dalla nona luna il vento lamentoso.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(<hi rend="italic" >Elegia Cinese</hi>- versione di Camilo Pessanha)</p><p rend="text" >In una soffocante serata tempestosa, mentre le professoresse del collegio giocavano a <hi rend="italic" >majong</hi> e sbucciavano semi di cocomero nella sala del focolare, con le persiane abbassate e le porte sprangate, ventoline e ventagli per rinfrescarsi, Mei-Lai mi invitò a scendere nel chiostro.</p><p rend="text" >Mei-Lai era una cinese di bell’aspetto, viso ampio e carnagione giallo-terrosa, gli occhi teneri, che insegnava, come me, nella scuola inglese. La domenica ci piaceva uscire insieme per mangiare <hi rend="italic" >chao-min</hi> della Malesia e a volte <hi rend="italic" >canja</hi>, in ristorantini economici di cui conosceva i gestori che mandavano i loro figli piccoli ad accoglierci e ci trattavano come zie — trattamento di rispetto fra i cinesi. Andavamo insieme anche al cinema durante la settimana, finite le lezioni, o a passeggiare sul viale secondario al tramonto. Eravamo buone amiche.</p><p rend="text" >Per questo, quando Mei-Lai mi propose di uscire con lei, accettai con piacere. Mi piaceva la sua compagnia — ed era così soffocante dentro casa!</p><p rend="text" >Dall’alto della parete del chiostro la mia amica aveva scoperto un’apertura con l’inferriata da dove potevamo vedere, senza essere colpite, l’acqua che invadeva il giardino e il vento che scuoteva tutto attorno.</p><p rend="text" >Ci arrampicammo per i gradini in pietra del muro interiore e ci appoggiammo, in silenzio, alle grate d’apertura. Mei-Lai, solitamente allegra, sembrava malinconica.</p><p rend="text" >Un geco dal corpo rosato e gli occhietti neri si arrampicò, spaventato, fermandosi un istante, per tornare, infine, al cornicione dell’arco dove un ragno si raccoglieva nella sua tela. All’improvviso, una raffica di vento portò via la tela, il ragno e, probabilmente, il geco, e non lo vedemmo più.</p><p rend="text" >Mei-Lai disse, con lo sguardo assorto:</p><p rend="text" >— I giorni del tifone sono giorni di morte. Muoiono gli alberi, muoiono le bestie, muoiono le persone. Dieci anni fa, in un giorno come questo, morì mia nonna».</p><p rend="text" >La nonna era una donna notevole che, nonostante la povertà, dette alla luce dieci figli come ricchezza. Piccola, magra, attiva, intelligente, mandò sei ragazzi in America, nella terra dell’oro, a costo solo della crusca di riso che lei coltivava duramente giorno dopo giorno. Quando il marito morì, era incinta del decimo figlio. La vedovanza, comunque, non la spaventò: niente poteva spaventare una donna come lei. Dal riso di ogni raccolta ogni anno tratteneva una certa quantità — razione che a volte si levava di bocca —, la vendeva, e il ricavato della vendita, depositato al sicuro nel baule, era destinato ai viaggi dei figli. Per vent’anni non ebbe che due vestiti di panno grezzo. Le scarpe che la famiglia portava al tempio nei giorni di festa erano fatte da lei con la paglia di riso e la pelle di maiale.</p><p rend="text" >Dall’America, i ragazzi inviavano delle doti affinché le sorelle potessero sposarsi adeguatamente.</p><p rend="text" >Poi, la vecchia non volle più accettare niente. La ricchezza per lei non aveva senso. Le bastava la terra, che continuava a lavorare di giorno in giorno, adesso più lentamente, il riso, che il suo lavoro e le sue divinità facevano crescere, il fatto di sapere che i suoi figli vivevano nell’abbondanza.</p><p rend="text" >Quando l’ultimo figlio si imbarcò, chiamato dai fratelli già sistemati, preparò un banchetto solo per lei: anatra stufata che non aveva più mangiato dal giorno del matrimonio — le assi del tetto erano così avvolte nel vapore che i vicini si spaventarono, pensando che si trattasse di un incendio. Era la sua soddisfazione per aver compiuto il suo dovere di madre.</p><p rend="text" >Il padre di Mei-Lai, in quanto primogenito, ordinò una sposa dal paese natale. Mei-Lai era nata in Colorado. All’età di sei anni la mandarono, con la sorella maggiore, a stare con la nonna per essere educate come cinesi. E, un po’ di tempo dopo, grazie ad un cospicuo risparmio, i genitori andarono a vivere con loro, a dare alla vecchia il ben meritato conforto della compagnia del figlio maggiore e dei nipoti.</p><p rend="text" >Nel giorno in cui la famiglia si riunì, la nonna cucinò di nuovo l’anatra, così contenta che (lei stessa lo confessò) arrivò a pensare che sarebbe morta di felicità.</p><p rend="text" >Eravamo rimaste, nel frattempo, sedute sui gradini duri, disuguali.</p><p rend="text" >In basso, le piastrelle del chiostro stavano affondando sotto l’acquazzone. Al riparo della sua nicchia, un’icona di pietra muschiosa vegliava, tranquilla. Mei-Lai fece una pausa, come se per il resto della storia le servisse un grande sforzo e già le stesse mancando il fiato.</p><p rend="text" >— All’improvviso si scatenò la rivoluzione…</p><p rend="text" >Il padre di Mei-Lai reagì. Che ne sapeva lui dei sogni di giustizia collettiva, astratta e distante? Venne ucciso. Dovettero consegnare tutti i loro beni, inclusi i campi dalla cui linfa la nonna ricavò il sangue per generare dieci figli.</p><p rend="text" >Con la guerra venne l’epidemia. Il Governo obbligò le donne al servizio della sepoltura. Il popolo si sollevò. Toccare il cadavere di gente estranea andava crudelmente al di là delle loro forze. Raccogliere le ossa dei loro antenati, sì, era come conservare le ceneri sacre del tempio. Ma mischiare morti sconosciuti, scavarne la fossa, seppellirli senza bara, senza fiori, senza bonzo, rasentava il sacrilegio, poteva arrivare ad attirare l’ira dell’Onnipotente.</p><p rend="text" >La madre di Mei-Lai si tirava i capelli, dalla disperazione.</p><p rend="text" >I soldati colpivano a destra e a manca, minacciando di dare fuoco alla città. E fu in quel momento che la nonna si recò nella piazza per parlare alle donne.</p><p rend="text" >Appena iniziò a parlare, calò tutto intorno un profondo silenzio. Il discorso fatto con sincerità d’animo, in aggiunta alla sua umile e patetica figura, fra i soldati dalle armi cariche, sospese, e il popolo inquieto, impressionò sia gli uni che gli altri.</p><p rend="text" >La nonna chiedeva alle donne che mostrassero la forza del loro dolore.</p><p rend="text" >E, di fronte a loro, curva, malmessa, dette l’esempio, lanciandosi nel lavoro.</p><p rend="text" >La guardavano i militari, attoniti; la seguivano le donne, remissive; e il villaggio venne risparmiato da ulteriori vessazioni.</p><p rend="text" >Dalla nonna partì anche l’idea della fuga verso Macao. Lei, che tanto amava il luogo in cui era nata, pensava che non valesse la pena rimanere lì, dopo la morte del primogenito. In Cina le era già successo tutto, dall’essere obbligata a seppellire cadaveri di estranei fino a vedere il suo primogenito assassinato. Adesso voleva un luogo lontano in cui morire. Se nessuno l’avesse accompagnata, sarebbe andata da sola.</p><p rend="text" >I fuggitivi si incamminarono, di notte, verso le montagne. Si erano nascosti in caverne abitate da uccelli rapaci. Si erano persi fra torrenti ingrossati. Avevano masticato foglie, radici, bacche silvestri. Avevano succhiato ciottoli per placare la sete. Giunti al fiume, dopo due settimane, l’anziana riusciva solo a trascinarsi e ogni movimento le faceva percepire il corpo come una piaga.</p><p rend="text" >Era un giorno di tifone, un tifone terribile che troncava gli alberi alle radici con la stessa agilità dei mietitori che nel campo tagliano gli steli del riso.</p><p rend="text" >La notte, nera e tumultuosa. Riecheggiavano tuoni. Le grida dei bambini sottolineavano il pianto delle donne. Gli uomini le ammonivano, preoccupati di essere sentiti dalle guardie alla frontiera. Il rumore del tifone, nel frattempo, assorbiva qualsiasi altro suono.</p><p rend="text" >L’anziana era l’unica che manteneva la forza interiore, che ridava speranza ai compagni.</p><p rend="text" >La notte e la tempesta finirono per separarli. La nonna scomparve. Invano la cercarono per ore nelle tenebre per trovarla infine, all’alba, in un burrone; un rivolo di sangue le correva sul volto minuto e ossuto.</p><p rend="text" >Sulla sponda opposta c’era Macao.</p><p rend="text" >Quella notte, disse Mei-Lai, non l’avrebbe mai cancellata dalla sua mente.</p><p rend="text" >Fra uomini, donne e bambini erano in tredici.</p><p rend="text" >Nella fossa in cui erano radunati, formarono un cerchio intorno al corpo della nonna, strappando ognuno un lembo dai vestiti a brandelli per avvolgerlo. Qualcuno estrasse dal grembo un pacchetto di segatura di sandalo con la quale aromatizzò il cadavere, tutto avvolto, di seguito: testa e cassa toracica, collo, ventre, anche ossute, braccia e gambe, dita ad una ad una.</p><p rend="text" >— Era essenziale poterlo portare con noi. Piangevamo tutti. Piangevamo e pregavamo perché il tifone si placasse e ci facesse attraversare il fiume senza danneggiare il nostro tesoro. Poteva dirsi più importante salvare la nonna morta che le nostre stesse vite.</p><p rend="text" >Pioveva ancora mentre attraversavamo le acque rivoltose. In un certo senso, la tempesta e la mattinata grigia ci proteggevano dalle guardie. Gli uomini, che avevano legato legni di abete con dei giunchi, eressero sui tronchi una specie di piramide con i bambini, che le donne riparavano, per proteggere dall’umidità il corpo della morta. Nel frattempo remarono con delle canne di bambù.</p><p rend="text" >La traversata durò un’eternità.</p><p rend="text" >Un’anatra selvatica volava basso, starnazzando, come per denunciarli — le ali disegnavano sull’acqua ombre di presagio. Si udirono degli spari, spari in lontananza, che destabilizzarono la pila di bambini mezzi addormentati. Gli uomini si fermarono, ammutoliti, con le aste di bambù fra le mani. Gli spari cessarono. Fu solo un istante, ma orribile. Quando ripresero ad avanzare, le donne sospirarono. E Mei-Lai, fissando il cielo nuvoloso, senza sapere bene dove fosse, ebbe una fuggevole visione di una zattera di morti, e la nonna ne era alla prua: la nonna aveva delle ali, che erano sia le ali dell’anatra selvatica che le impetuose e invisibili ali del tifone.</p><p rend="text" >Raggiunta l’altra sponda, si sentivano così stanchi che pensarono di non avere la forza per fare altro. Erano determinati, in ogni caso, a proseguire. La morta non poteva cadere in mani sconosciute né essere interrata se non dalla famiglia: un precetto sacro e un valore. Grazie a lei, al suo esempio, erano scappati… ma scappati da cosa? Le sventure li seguivano. Adesso erano più poveri che mai. La madre, accovacciandosi, posò la testa a terra e pianse. Pianse per il marito che in una nazione lontana aveva fatto fortuna, per essere invece umiliato nella sua e sepolto nella fossa comune; per la nonna, lì, morta, senza bara né tumulo; per tutti loro, adulti e bambini, lanciati verso coste straniere come naufraghi. E giurò a voce alta vendetta al Destino. Era ancora abbastanza forte per spingere una barca a remi, caricare l’acqua sulle spalle, spingere il bufalo per arare le risaie. Ma le figlie, loro non avrebbero mai dovuto vivere da serve.</p><p rend="text" >— A-Seng, un nostro compagno di viaggio, aveva un amico a Macao che ci prestò un baule sgangherato per nascondere la morta e ci disse di un nascondiglio in una barca abbandonata. Rimanemmo lì, io e mia madre, mentre gli altri cercavano del cibo e ce lo portarono. Rimanemmo lì un giorno per riprenderci. Il corpo fasciato e profumato della nonna non puzzò mai di cadavere.</p><p rend="text" >Poi, fu la volta della peregrinazione fino a Coloane.</p><p rend="text" >— Il funzionario sul molo di imbarco ci chiese cosa portassimo nel baule. La mamma rispose che era pesce secco. L’uomo sorrise: «Pesce a Coloane? È di carne che c’è penuria… se fosse pesce, puzzerebbe». E ci lasciò passare.</p><p rend="text" >Gli occhi stretti di Mei-Lai si riempirono di lacrime.</p><p rend="text" >Era la prima volta che vedevo un cinese piangere e mai altri occhi che piangevano mi impressionarono così. Sembrava che gli occhi della ragazza non fossero più tali per trasformarsi in due fessure rosse, acquose, dai bordi arrossati, come ferite.</p><p rend="text" >— Scavammo una sepoltura nella radura, dietro le dune, in quella tarda serata di agosto. Poi, aprendo il baule, circondammo il corpo con erbe aromatiche e conchiglie della spiaggia. La mamma, sfilando dalla cintura, al di sotto della veste, un filo di seta, scelse uno degli anelli che era riuscita a salvare, il più bello, il migliore, un gioiello d’oro e giada, e lo infilò al dito della nonna. A-Seng rovistò nella sabbia e trovò un sasso a forma di mezzaluna, dove, con un altro sasso, incise il nome della morta e glielo poggiò fra le mani. Il piccolo corpo fasciato ricordava un’ingenua bambolina di pezza. Cantavano i pappagallini e i canarini selvatici fra gli alberi. Un ciuffo di biancospino, lì ai piedi, sbocciava in piccoli fiori. Non vidi mai un funerale tanto bello.</p><p rend="text" >Una domenica mattina Mei-Lai e io uscimmo a osservare la città dopo il tifone, e mentre guardavamo, tristi, il paesaggio devastato, Mei-Lai disse:</p><p rend="text" >— Ieri non sono riuscita a terminare la mia storia. Avevo paura che la conclusione le sembrasse eccessivamente macabra. Ma eccola. Lei è in grado di capire.</p><p rend="text" >E raccontò che, sette anni dopo la morte della nonna, era andata a Coloane a recuperarne le ossa, ossa che conservavano in una cassa di lacca vicino all’altare di famiglia — il nome della nonna era già nella lista in rosso e oro degli antenati.</p><p rend="text" >Successivamente, stendendo la mano, Mei-Lai indicò l’anello di giada che portava al dito medio. Lo stesso anello che la nonna aveva indossato per sette anni sotto terra.</p><p rend="h2" >NATALE CINESE</p><p rend="text" >La signora Tung arrivava sempre due giorni prima della vigilia. Era solito vederla la mattina presto, con la sorella giardiniera, nel cortile principale, ad ammirare le piante di arance nane nei vasi di coccio. Era possibile vederla casualmente contemplare, estasiata, il presepe del convento. Infine, la incontravo a tavola.</p><p rend="text" >La signora Tung viaggiava ogni anno da Formosa a Macao, nel periodo natalizio, per festeggiare la nascita di Cristo in compagnia della sua primogenita, la sorella Chen-Mou.</p><p rend="text" >In quei giorni, con le bambine in vacanza, il refettorio del collegio sembrava più grande e più desolato: solo io e Miss Lu ci sedevamo al lungo tavolo delle professoresse. Così la presenza della signora Tung, che in altre occasioni sarebbe passata forse inosservata (la sala si trovava tra cortili di cemento e piante verdi), diventava in questo periodo degna di nota.</p><p rend="text" >Bassa, magra di corporatura, dagli occhi attenti e pensierosi, la signora Tung sorrideva costantemente, parlava inglese, amava mangiare, fumare, giocare a <hi rend="italic" >majong</hi>. Le cameriere la corteggiavano nei corridoi, le preparavano piatti speciali, le portavano il tè in camera. Oltre a essere la madre della vicedirettrice, aveva la fama di essere ricca e distribuiva monete d’argento a tutto il personale nella notte di festa.</p><p rend="text" >Quella notte tre suore parteciparono alla nostra cena (la regola non permetteva loro di mangiare con noi): la direttrice, la vicedirettrice e la responsabile dell’istruzione. E con un’aria molto presuntuosa, stringendo fra le mani un vassoio di lacca coperto da un panno di seta, la signora Tung le ricevette alla porta del refettorio, consegnando cerimoniosamente il regalo alla figlia, che a sua volta lo donò alla direttrice. Erano dolci di farina di riso impastata con olio di sesamo. Tutta vestita di rosso, con le scarpe ricamate e i fermagli di giada tra i capelli, la signora Tung, ogni volta che la madre superiora posava il vassoio dei dolci sul tavolo, si prostrava quasi fino al pavimento. Poi pregavamo. Al di là del cortile, dalla porta della cucina, le domestiche spiavano, curiose.</p><p rend="text" >Né il primo, né il secondo, né il terzo Natale che passai a Macao la signora Tung diventò cristiana, ma ogni anno si designava catecumena. Parlavamo di questo a cena. La direttrice, una francese dalle mani avvizzite che in passato aveva frequentato l’Università di Pechino, domandava in maniera formale quando sarebbe stato il battesimo. Chinando la testa sul petto, la signora Tung balbettava, indicando la sorella Chen-Mou. La figlia… la figlia sapeva. Forse potevamo chiamarla cristiana per lo spirito, ma il cuore la tradiva. Il cuore rimaneva legato ad antiche devozioni… Tuttavia, si vestiva sempre in maniera elegante per la festa di mezzanotte, aveva nella stanza un Bambino Gesù circondato di fiori e l’anima le straripava di allegria come se cristiana lo fosse per davvero.</p><p rend="text" >Con un sorriso, a metà tra il compiacente e il contrariato, la sorella Chen-Mou conversava, passando il vassoio dei dolci alla madre superiora, che ne metteva da parte un po’ per il convento. I dolci rimanenti li mangiavamo noi, alla fine della messa di Natale, con cioccolata calda.</p><p rend="text" >La cioccolata era la sorpresa prevista dalla direttrice. La signora Tung la chiamava, in modo scherzoso, «il tè di Parigi». Alla fine delle tre messe, le tre suore ci raggiungevano di nuovo al refettorio del collegio per scambiare con noi il bacio della pace e offrirci una tazza fumante di cioccolata. Arrivavano e se ne andavano subito (era troppo tardi per trattenersi), e Miss Lu, fanatica suora francescana, sempre attenta ai movimenti delle monache, sorseggiava in fretta il liquido incandescente, come se compisse un dovere, e usciva dopo di loro.</p><p rend="text" >Restammo così, la signora Tung e io, una di fronte all’altra. Alla luce delle candele profumate al centro della tavola, i suoi occhi erano due fessure tremolanti. Sorridevamo. Infine, la tappezzeria in fondo alla sala iniziò a staccarsi. Una delle domestiche entrò, silenziosa. Si serviva vino di riso.</p><p rend="text" >Credo che il vino di riso figurasse fra le bevande proibite nel collegio e che arrivasse lì per vie traverse. Di sicuro, nonostante tutto, entrambe lo bevevamo per accompagnare l’olio di sesamo nel grande e deserto refettorio, la notte di Natale.</p><p rend="text" >Il vino di riso mi bruciava il petto e mi faceva venire le lacrime agli occhi. Quanto alla signora Tung, lo sorseggiava lentamente, inzuppandovi il dolce e, solo per assaggiare il «tè di Parigi», ne beveva due calici.</p><p rend="text" >Nel frattempo, Aldegundes, la domestica macaense più anziana del collegio, appariva con le specialità del territorio: <hi rend="italic" >aluares</hi>, <hi rend="italic" >fartes </hi>e frittelle, dicendo che <hi rend="italic" >aluá</hi> era il materasso del <hi rend="italic" >Bambino</hi> Gesù, <hi rend="italic" >farte</hi> il cuscino, le frittelle il lenzuolo. Ed io traducevo in inglese per la signora Tung, che trovava tutto ciò commovente e gratificava la vecchia generosamente.</p><p rend="text" >Quando alla fine attraversammo la recinzione sulla via di casa, in compagnia di una luna bianca, attonita, annunciatrice dell’Inverno all’alba, la signora Tung si aprì in confidenze.</p><p rend="text" >La bambina sapeva… — la «bambina» era la sorella Chen-Mou, la vicedirettrice del collegio —, sapeva che lei continuava a venerare la Dea della Fecondità. Si trattava di una piccola divinità, tutta nuda e tutta d’oro. Era lei che le aveva dato dei figli. Sterile per sette anni, la signora Tung era ricorsa alla sua intercessione divina quando il marito si stava già preparando a ricevere una nuova sposa. Pertanto, non poteva smettere di amarla. Tutta la felicità le proveniva da lì, da quella fortunata ora in cui la dea l’aveva ascoltata.</p><p rend="text" >Si fermò in mezzo al grande cortile illuminato dalla luna, con lo sguardo meditabondo, le mani incrociate sul grembo. E le parole le uscivano lente e sciolte, come se parlasse da sola.</p><p rend="text" >…E quel mistero della verginità di Nostra Signora! Vergine e Madre allo stesso tempo… non si leggeva nella Genesi: «l’uomo lascerà il padre e la madre per unirsi a sua moglie e i due saranno una sola carne?» non era questa la legge del Signore? Perché poi la Madre di Cristo era diversa dalle altre, in un mondo di uomini e donne dove il Figlio sarebbe venuto a predicare l’amore? La Dea della Fecondità, protettrice del focolare, operava miracoli, sì, ma razionalmente, attirando la volontà degli uomini a quella delle loro compagne ed esaltando questa attrazione. Come la Natura con gli esseri vegetali e animali. Come il Cielo che inonda la terra nella stagione propizia.</p><p rend="text" >Riprendemmo il cammino verso le nostre residenze. Era difficile per me rispondere ai dubbi della signora Tung, né lei sembrava aspettare delle risposte. Cambiava rapidamente argomento, alludendo al tempo, al viaggio di ritorno, alle saporite delizie della domestica macaense.</p><p rend="text" >Arrivate a casa, mi invitò ad andare a vedere il suo presepe. La stanza odorava fortemente di incenso. In cima al comò, tra i fiori, c’era il Bambino Gesù, vestito di seta rossa, con le scarpine di velluto nero, e dai lineamenti cinesi.</p><p rend="text" >Poi, timidamente, la signora Tung aprì lo scaffale… e apparve la dea.</p><p rend="text" >Il Bambino Gesù era d’avorio. La Dea della Fecondità era d’oro. Il Bambino, in piedi, a un palmo di altezza, riccamente vestito. La Dea seduta, piccola, nuda.</p><p rend="text" >Gli occhi della signora Tung indagavano i miei, come in cerca di comprensione, ma le sue rapide parole (per anticipare le mie?) erano di autocensura. No, non avrebbe dovuto farlo. La figlia affermava che il Bambino Gesù si rattristava, in cima al comò, a causa della dea, nello scaffale. E chi ne sapeva più della figlia?</p><p rend="text" >Io sentivo già freddo, nonostante la grappa di riso. L’Inverno, lì, arrivava all’improvviso. La signora Tung, invece, aveva le mani calde e le guance arrossate.</p><p rend="text" >Ci congedammo. Avrei sempre avuto voglia di dirle che stesse tranquilla, che di sicuro il Bambino Gesù non si sarebbe rattristato, sul comò, a causa della dea, nello scaffale. Ma non glielo dissi mai durante i tre anni in cui passai il Natale con lei. Avevo l’impressione che la signora Tung si innervosisse con quell’argomento. E che, in qualche modo, non mi avrebbe creduto.</p><p rend="h2" >LA MATTA</p><p rend="text" >Fu durante le vacanze estive, alla spiaggia di Cheok-Vân, a Coloane.</p><p rend="text" >Era solita sedersi sugli scogli, a fior d’acqua, dopo il tramonto. Non la vedevamo arrivare. Appariva all’improvviso, sopra le pietre, senza rumore, come una lucertola.</p><p rend="text" >Magra, con una treccia grigiastra, il volto liscio e triste fra le mani, fermava gli occhi su un punto lontano, non rispondeva ai nostri «buona sera», non si muoveva e non faceva niente.</p><p rend="text" >Nessuno ne conosceva la residenza o la famiglia. I cinesi evitavano quasi di guardarla.</p><p rend="text" >A notte fonda, nel bungalow di legno, mi svegliai pensando a lei: matta? Rimaneva là, sugli scogli, con gli occhi nell’oscurità, i piedi nell’acqua, il volto fra le mani?</p><p rend="text" >Sam-Lei, la domestica di casa, mi raccontò la storia che si narrava su di lei:</p><p rend="text" >Matta, era fuggita dalla Cina continentale con il figlio, che morì non appena arrivarono nella terra dell’esilio. Il marito, che doveva seguirla, non apparve mai. Sepolto il figlio sulla spiaggia, ogni sera, all’imbrunire, tornava ad aspettare il marito. Lei stessa era fuggita di notte. Ed era di notte che anche il marito avrebbe dovuto fuggire. Di notte i morti resuscitavano. E, ogni notte, la matta era lì, in attesa…</p><p rend="text" >Nella grande casa sul pendio — il palazzo di A-Tim —, il pavone gridava all’alba, e Sam-Lei, la domestica anziana, credeva che fosse la matta in agonia per il sorgere dell’alba.</p><p rend="text" >Non amava il sole, la matta. Nessuno sapeva quello che facesse durante il giorno. Compariva solo di notte, con il vestito stracciato, la treccia grigiastra, i piedi nudi e il volto perso nei pensieri.</p><p rend="text" >Arrivai ad alzarmi molto presto per vedere se riuscivo a incontrarla, ma mai prima del sorgere del Sole.</p><p rend="text" >Era l’ora in cui le lumache giganti riempivano i sentieri dell’isola. Enormi, rosse, gommose, strisciavano verso gli arbusti di igname e i rampicanti dei muri, con la testa alzata, le antenne in allerta. Le barche partivano per la pesca. A volte, lo scoglio della matta scompariva sotto le onde che arrivavano a lambire il cortile colonnato del tempio. Della donna, nessun segno. Ed io sempre timorosa che il mare se la fosse presa, in attesa, afflitta, dell’imbrunire.</p><p rend="text" >Ma, al tramonto, eccola là, immobile, a guardare in lontananza.</p><p rend="text" >La domestica rideva di me.</p><p rend="text" >— Non può morire perché in realtà è già morta. È uno spirito diviso. Un’ombra. Niente di buono o di cattivo può più accaderle. Oscilla fra la vita e la morte. Non è niente.</p><p rend="text" >Il corpo della matta aveva una qualche consistenza? Se l’avessi toccata, l’avrei scoperto (di sicuro, nessuno l’aveva mai toccata. La treccia, riunita con le radici aeree del <hi rend="italic" >ficus</hi>, era ricoperta dalle ceneri del tempio, e i piedi erano pesci di vetro). Non mi ero mai accorta dei piedi della matta? Lunghi, piatti, vitrei, galleggiavano a fior d’acqua come pesci morti.</p><p rend="text" >Sam-Lei, un giorno, l’aveva sentita ridere e la sua risata sembrava una raffica di vento nella profondità di una grotta. Non aveva viscere. Non aveva un’anima. Era vuota.</p><p rend="text" >Io chiedevo:</p><p rend="text" >— E le grida, all’alba?</p><p rend="text" >— È l’ora in cui incontra il suo spirito smarrito. A quel punto sa che il marito non tornerà e che il figlio non le appartiene più. Grida di dolore, di consapevolezza, di sconfitta. Ma è solo un istante. Poi torna ad assentarsi, a non essere nessuno.</p><p rend="text" >— È il pavone, lo sapete.</p><p rend="text" >— I pavoni gridano solo di notte, quando presagiscono la tigre. A Coloane non ci sono tigri. Non è il pavone.</p><p rend="text" >E ogni notte la matta sulla spiaggia, con i piedi nell’acqua, la testa fra le mani. E mai nessuno che la vedesse arrivare.</p><p rend="text" >Passandole vicino, i bambini mormoravano:</p><p rend="text" >— Che odore di morte…</p><p rend="text" >La matta non si muoveva, non sentiva, non vedeva.</p><p rend="text" >Sam-Lei raccomandava di non avvicinarmici. Era pericoloso.</p><p rend="text" >— Di giorno vive nella cavità di un albero… un gufo! Può essere anche un altro uccello, o un pipistrello. Di notte, prende una sembianza umana, va ad aspettare i fantasmi.</p><p rend="text" >Fu in quel periodo che la mia amica Mei-Lai arrivò a Coloane e insieme decidemmo di decifrare il mistero della matta.</p><p rend="text" >Non ci saremmo arrese: saremmo rimaste, come lei, sulla spiaggia, sugli scogli, tutta la notte, se ce ne fosse stato bisogno. Quando alla fine sarebbe tornata a casa (doveva per forza avere una casa), l’avremmo seguita.</p><p rend="text" >Era una notte molto calda. Rimanere all’aria aperta con un caldo del genere poteva quasi essere un piacere. Mei-Lai portò una lampada a mano che avremmo acceso solo in caso estremo, per timore di spaventare la donna, e un sacchetto di noccioline per passare il tempo.</p><p rend="text" >Conversammo per ore, sottovoce.</p><p rend="text" >Il tempo correva. Una, due, tre. C’era la Luna, una luna tonda, chiara, che squarciava un sentiero di perle nel mare. Le onde ripetevano, instancabili, la loro litania.</p><p rend="text" >Mi ricordavo di notti simili in Africa nel mese di marzo, erano il terrore degli indigeni, perché erano scelte dagli animali (mezze divinità, mezzi demoni) per riprodursi — il corteggiamento dei coccodrilli e la posizione dei serpenti nella sabbia tiepida delle spiagge. Notti bianche che portavano sogni angoscianti e la nera Águeda recitava una preghiera all’ «incubo dalle mani bucate e le unghie rosse». Se non era per le mani bucate dell’incubo, mani con cui ci tappava la bocca, saremmo morte soffocate.</p><p rend="text" >Mei-Lai raccontava le superstizioni del suo paese. Nelle notti di luna, sua nonna metteva sul davanzale semi di papavero in un piatto di gres per difendere la casa dagli spiriti erranti. Il papavero, con il suo veleno ipnotico, li intontiva. La mattina, lei sapeva che erano passati per una lieve nube di fumo — tanto lieve che Mei-Lai non la distingueva — che si innalzava dal prato.</p><p rend="text" >Spirava dal mare un venticello lieve.</p><p rend="text" >Restammo in silenzio.</p><p rend="text" >All’improvviso, il mormorio delle onde, insieme al sospiro del mare, cessò.</p><p rend="text" >Si sarebbe detto che la Natura si stava preparando, rispettosamente, per qualche spettacolo solenne, forse la lotta fra la notte e il giorno, forse l’agonia della matta.</p><p rend="text" >La mia amica cinese si avvicinò a me. Non osavamo parlare. Non osavamo guardare in direzione della donna dalla treccia grigiastra. Non osavamo muoverci.</p><p rend="text" >— Non ho mai avuto tanta paura in vita mia. Cosa succederà?</p><p rend="text" >E le noccioline le caddero di mano, rotolando sulle pietre come gocce d’acqua.</p><p rend="text" >Ci guardammo, sorprese. Allo stesso tempo, come se lo avessimo programmato, i nostri occhi cercarono la matta. E lei era lì, rannicchiata sullo scoglio, con l’acqua alle caviglie, inerte, uno spettro.</p><p rend="text" >Dovevano essere più o meno le quattro. In quel momento il pavone cantò.</p><p rend="text" >Era quello di A-Tim, il riccone, alle pendici della spiaggia. Il suono proveniva da quel lato. Quasi mi venne da ridere. Mei-Lai sospirò.</p><p rend="text" >— Dovremmo dire a Sam-Lei che è il pavone, alla fine — decise la mia amica. E la sua voce, sebbene calma, riecheggiò in maniera singolare.</p><p rend="text" >La Luna era molto alta adesso, mentre un lieve chiarore si annunciava da qualche parte, non è chiaro se dal monte o dal mare.</p><p rend="text" >Attorno, le cose sembravano deformate. Un ciuffo di cactus, lì in basso, ricordava una mano aperta, gigantesca, aggressiva. Gli scogli erano animali selvaggi, fiere: leoni sdraiati, orsi eretti, bufali pronti a caricare. Sulle dita di Mei-Lai gli anelli di giada erano sbiancati, come occhi di felini.</p><p rend="text" >E la matta? Guardammo in quella direzione. La marea continuava ad essere bassa. Lo scoglio era lì. Lei, invece, era sparita.</p><p rend="text" >— Ma l’ho appena vista! — dicemmo contemporaneamente.</p><p rend="text" >Corremmo verso la spiaggia. Non c’era anima viva. Scrutammo il mare, deserto, indifferente. Con il preannunciarsi della mattina l’acqua diventava rossastra e la spiaggia, fino a poco prima bianca, scuriva, come se invece che a Cheok-Vân, fossimo a Hak-<hi rend="CharOverride-4" >Ҫ</hi>a — Spiaggia-Nera.</p><p rend="text" >In silenzio, con un passo strascicato, tornammo al bungalow.</p><p rend="text" >Sulla porta della cucina Sam-Lei ci stava aspettando.</p><p rend="text" >— È stato il pavone a gridare, ne abbiamo la certezza! — ma erano solo le nostre voci che diventavano forti.</p><p rend="text" >— E lei invece? — domandò Sam-Lei, senza aspettarsi una risposta. — Ah, sono stata tutta la notte aggrappata a questo amuleto affinché non vi accadesse niente di male! È pericoloso avventurarsi in questo modo…</p><p rend="text" >E dette, a entrambe, una tazza di tè. Ancora adesso mi ritorna in bocca il sapore amaro della bevanda. Sapeva fortemente di anice stellato. Forse era un filtro contro il malocchio.</p><p rend="h2" >L’OSTELLO DELL’AMICIZIA</p><p rend="text" >Cos’era successo, quella mattina, alla signora Li?</p><p rend="text" >Un sabato di aprile eccezionalmente caldo.</p><p rend="text" >Sdraiata sulla brandina in posizione supina, con gli occhi aperti, perduto il sonno alle sei, ascoltavo il ronzio sonnolento del ventilatore e gli insoliti rumori della stanza adiacente alla mia.</p><p rend="text" >La signora Li, creatura calma, era tutta gesti piccoli, pacati, educati. Prima di quel giorno non l’avevo mai sentita agitarsi così. Non l’avevo nemmeno mai sentita dall’altro lato della parete. Quella mattina, invece, che strano scorrazzare, che incessante sbattere di porte, trascinare di sedie, aprire e chiudere di cassetti e armadi!</p><p rend="text" >Se si fosse trattato della Malese Chung, di Miss Jane, professoressa alla scuola d’infanzia, o anche del giovane Wang, basso e magro, dai capelli spettinati e gli occhi stanchi, non mi sarei stupita. Erano tutti rumorosi. Rumorosi e giovani.</p><p rend="text" >Non il signor Choi, uomo maturo, alto, forte, dai lineamenti mongoli o tartari. Impiegato nella Biblioteca Cinese della città, il signor Choi aveva un’andatura solenne e un soave tono di voce.</p><p rend="text" >Il giovane Wang — lo chiamavamo Mister Wang, forse perché parlava inglese correttamente e si trovava molto bene con gli inglesi — viveva nella stanza numero tre. La signora Li, nella numero uno. Io, nella numero due.</p><p rend="text" >Il fatto che, lì, le stanze fossero numerate, suggeriva un pretesto. Questo e il rettangolo di bambù alla porta del corridoio con su scritto «Ostello dell’Amicizia» in pomposi caratteri cinesi.</p><p rend="text" >Ostello? Era solo il piano di un edificio diviso in stanze che A-Hin, l’oste dell’edificio contiguo, affittava a persone decenti.</p><p rend="text" >Al piano terra abitava A-Hin con la famiglia.</p><p rend="text" >A-Pein, la nonna, che restava tutto il giorno lì, con i bambini, usciva la sera, dal retro, per un tè al negozio del figlio, da dove tornava con una lunga pipa che fumava nel cortile fino a tardi.</p><p rend="text" >Le stanze dell’Ostello dell’Amicizia, sei in tutto, più o meno uguali, quadrate, avevano ognuna una finestra che dava sul porticato di legno che circondava la casa. Al posto del salotto c’erano alcune sedie a sdraio in sparto che, nella veranda di fronte alla baia, invitavano gli ospiti a gustarsi l’aria fresca nelle notti d’Estate.</p><p rend="text" >A-Pein saliva due volte a settimana al nostro piano per le pulizie. Facevamo tutti colazione nel ristorante di A-Hin (buon brodo di gallina cinese con dolcetti di farina fritti) e frequentemente vi cenavamo.</p><p rend="text" >Mi piaceva vivere lì, sebbene fossi straniera tra gli altri. Straniera ma non estranea. Solo non cinese. La signora Li diceva che non aveva mai avuto una vicina di stanza migliore e mi chiedeva, a volte, in tarda serata, quando rientravo dalle lezioni, se non mi facesse piacere stare per un po’ con il suo gatto siamese.</p><p rend="text" >Intelligente, la signora Li. Io me la cavavo male con la lingua cinese. Lei sapeva un po’ di inglese e di portoghese — nient’altro. Il gatto, non lei, era il migliore per farmi compagnia.</p><p rend="text" >Il signor Choi, dato che padroneggiava le tre lingue, ci serviva da intermediario. Mi prestava riviste e giornali in lingua inglese, di Hong-Kong, di Bangkok, passandomeli al di sotto della porta quando non c’ero, e anche quando non c’ero, per non disturbare.</p><p rend="text" >Il signor Choi conversava molto con la signora Li, nella veranda. A volte, chinandosi, le sussurrava delle cose all’orecchio.</p><p rend="text" >Io, dalla mia finestra, mi immaginavo un corteggiamento.</p><p rend="text" >Comunque, la signora Li era vecchia, più vecchia del signor Choi, nonostante il viso liscio, tenero, e gli occhietti maliziosi.</p><p rend="text" >Aveva anche delle belle gambe, la signora Li, — non gambe da vecchia —, tornite, color avorio.</p><p rend="text" >Era solito guardarle le gambe fino al ginocchio quando, a Primavera, si arrampicava su uno sgabellino di tek per legare i rami del rampicante con un filo di seta.</p><p rend="text" >La signora Li amava le piante. Il rampicante, tutto verde (non gli avevo mai visto un fiore), era lei che lo annaffiava, che lo guidava in alto verso il cornicione del tetto, che a marzo tagliava una foglia che schiacciava tra le dita per farcene sentire il profumo. Ed erano suoi tutti i vasi di capelvenere, così come un cactus prezioso che la nipote, residente a Hong-Kong, le aveva portato da Honolulu.</p><p rend="text" >La nipote della signora Li era una modella. Appariva nelle riviste, con vestiti floreali, con vestiti scollati alla maniera europea, in bikini. Alla signora Li quell’abbigliamento non piaceva. Lo giudicava una moda barbara.</p><p rend="text" >Miss Chung, meno romantica di me, diceva che, quando la signora Li e il signor Choi conversavano in sordina, molto vicini, sotto il porticato, si lamentavano della vecchia A-Pein e della sua scarsa attenzione nella pulizia delle stanze.</p><p rend="text" >Secondo Miss Chung era tutto chiaro. La signora Li con la nipote modella (fare la modella era un lavoro serio?) e tante esigenze… Della figlia non parlava. Il padre della ragazza era giapponese! Si vedeva dalle foto della ragazza, che occhi storti! E il signor Choi? Sempre con lo stesso vestito…</p><p rend="text" >La Malese Chung aveva una lingua tagliente.</p><p rend="text" >Miss Jane, orgogliosa di avere del sangue inglese in famiglia, si lamentava che la direzione del collegio non le permettesse di darsi lo smalto sulle unghie e nelle serate di sabato, con un vestito con lo spacco che le arrivava a metà coscia e un romanzo in mano, sospirava nella veranda.</p><p rend="text" >Mister Wang, che di domenica, in compagnia di Miss Jane e della Malese, provava specialità della cucina cinese su un fornello a petrolio in fondo al corridoio, mi invitava sempre ad assaggiarle. Credo che fosse lui e non le altre due a ricordarsi di farlo. Veniva in punta di piedi dopo aver fatto un gran fracasso tra pentole di ferro e piccole grida.</p><p rend="text" >La Malese, golosa, sembrava non apprezzare molto la mia presenza. Era lei a servirsi per prima, scegliendo i bocconi migliori. Mister Wang mi diceva il nome cinese delle varie leccornie. Il pappagallo reclamava dalla stanza; sentiva odore di tè caldo. Lui lo andava a prendere, appollaiato sul dito, e lo lasciava bere dalla sua ciotola.</p><p rend="text" >Il pappagallo di Mister Wang, animaletto esotico, si nutriva quasi esclusivamente di fiori.</p><p rend="text" >Ogni sera il ragazzo rientrava dal lavoro con le tasche del cappotto piene di petali di crisantemi, di grappoli di acacia, di bacche di agazzino. A volte, mi chiamava con un’aria entusiasta, bussando con le nocche delle dita alla zanzariera della mia finestra. Io vedevo il volatile, avido, attaccare le tasche dell’uomo, che entrava dalla veranda per sorprenderlo; vedevo il sorriso di Mister Wang, una splendida corona di denti bianchi sul viso magro, in cui adesso gli occhi erano scomparsi.</p><p rend="text" >Dopo, uscivo anch’io sulla veranda. Quello — gli dicevo — era un pappagallo degli dei.</p><p rend="text" >E lui ripeteva «Pappagallo degli dei». Rideva ancora. Mi raccontava come i fiori scarseggiassero in alcuni periodi, come arrivava a prendere petali caduti dalle porte del tempio nelle occasioni in cui nessuno lo avrebbe visto se non il Supremo.</p><p rend="text" >Un giorno, rischiai imprudentemente:</p><p rend="text" >— Al cimitero, Mister Wang! Al cimitero ci sono le corone di fiori. Rimangono lì a marcire.</p><p rend="text" >La bocca gli si spalancò, gli occhi apparvero più stanchi che mai.</p><p rend="text" >Era come se fosse calata l’oscurità.</p><p rend="text" >— Oh, Miss B., il cimitero… il cimitero… mai!</p><p rend="text" >Balbettai delle scuse.</p><p rend="text" >Il pappagallo continuava con la testa persa nella tasca del cappotto di Mister Wang, che aveva smesso di ridere.</p><p rend="text" >Passò un po’ di tempo prima che sentissi di nuovo le nocche sulla zanzariera della finestra.</p><p rend="text" >Fu a novembre — l’Inverno si annunciava già sul rampicante della veranda e sul mare, limpido, dopo il passaggio delle piogge — che seppi che Miss Jane e Mister Wang dormivano insieme.</p><p rend="text" >I loro alloggi erano uno davanti all’altro. E la Malese Chung (solo lei poteva essere) vide il ragazzo uscire dalla stanza dell’amica all’alba.</p><p rend="text" >Rientravo dalla strada quando mi si pararono davanti la malese e la vecchia A-Pein alla porta del bagno in un misterioso chiacchiericcio. Sembravano entrambe molto serie, se non allarmate. Inoltre mi stupii che la ragazza venisse a trovarmi poco dopo, lei che non veniva mai a farmi visita.</p><p rend="text" >— Quei due dormono insieme!</p><p rend="text" >Non so perché, pensai alla signora Li e al signor Choi. Era il mio romanzo. Entrambi belli e vividi. Lui, enorme, imponente, dai lineamenti mongoli o tartari. Lei, piccola, grassoccia, dagli occhi a mandorla. E accennai vagamente a loro e al rispetto che era loro dovuto.</p><p rend="text" >Il volto di Miss Chung si sarebbe detto più largo del solito.</p><p rend="text" >— Parlo di Jane e di Wang.</p><p rend="text" >— Ah, sì?</p><p rend="text" >— Come sai, questa è una pensione di gente onesta. E loro dormono insieme, ne sono certa. L’ho visto con i miei occhi.</p><p rend="text" >Mi sedetti sul bordo del letto, senza ricordarmi di offrire una sedia a Miss Chung.</p><p rend="text" >Quello era davvero eccitante. Un amore giovane, giusto, e inaspettato; per di più lì, al mio fianco, nella casa dove vivevo, nel modesto pianerottolo di stanzine in affitto. Un’avventura a rompere la routine dell’Ostello dell’Amicizia, un’avventura autentica, con segreti, intrighi, passioni.</p><p rend="text" >Penso che dal mio volto trasparisse contentezza perché la Malese mi si rivolse aspramente:</p><p rend="text" >— Lo trova giusto?</p><p rend="text" >Adesso camminava su e giù per la stanza.</p><p rend="text" >— Mio Dio, chi l’avrebbe immaginato?</p><p rend="text" >Lo reputavo giusto, sì. Così gentile, Mister Wang. Così tenera, Miss Jane.</p><p rend="text" >— Rimarrà disoccupata, se lo scopriranno in collegio. Beh… non sarò io ad accusarla. Ma lei è una falsa, ecco quello che è.</p><p rend="text" >Fuori diventava buio. La Malese Chung, che si era accomodata sulla poltrona, si torceva le dita cosparse di anelli.</p><p rend="text" >Nessuna di noi disse niente per alcuni minuti.</p><p rend="text" >Infine, lei parlò lentamente, come chi medita:</p><p rend="text" >— Jane mi ha tradita. A Wang piacevo io. Sì, ero io a piacergli. Solo che non sono così facile, così disponibile… Lei me lo ha rubato. A lui piacevo io.</p><p rend="text" >Senza darle attenzione, pensavo ai personaggi della trama. Miss Chung era grassa e sbiadita; Miss Jane, magrolina e brutta; Mister Wang, dagli occhi antichi e stanchi… E sentii compassione per Miss Chung, per tutti, per il mondo intero.</p><p rend="text" >Le grida del pappagallo ci scossero.</p><p rend="text" >Il giovane Wang tamburellava sulla rete della mia finestra.</p><p rend="text" >Entrambe andammo a vedere l’uccello che mangiava i fiori che il padrone offriva a manciate, gridando:</p><p rend="text" >— Oggi è un giorno di festa per lui. Me lo hanno consegnato due anni fa. Gli ho portato persino dei gigli!</p><p rend="text" >Finché, una notte, alle undici passate, la signora Li venne a trovarmi.</p><p rend="text" >Mi stupì la visita tardiva.</p><p rend="text" >Il volto simpatico della signora Li, ciononostante, irradiava soddisfazione.</p><p rend="text" >Mentre accendevo la lampada ad alcool e mettevo l’acqua per il tè, mi chiedevo cosa l’avesse portata lì a quell’ora.</p><p rend="text" >Ma fu solo dopo aver assaggiato il tè e aver presentato tutti gli elogi della prassi che, accarezzando il gatto che aveva in grembo, si sfogò con me.</p><p rend="text" >Il cactus, quella pianta rara che la nipote le aveva portato da Honolulu, stava iniziando a fiorire. Lo aveva da tre anni e non lo aveva mai visto fiorire. La nipote le aveva detto che faceva una rosa scarlatta, meravigliosa. E lei da tre anni era in attesa di questo avvenimento, costantemente a innaffiare la pianta, a pulirla dagli insetti, a metterle nuove quantità di terriccio. Quella mattina, comunque (Oh, cielo! Oh, Bontà Infinita!), quella mattina, la gemma era spuntata. Si distingueva appena. Appena un granellino biancastro tra le foglie carnose. Ma sarebbe cresciuto, di ora in ora, di giorno in giorno, per infine sbocciare nel fiore delle sue speranze — rosso, colore della felicità!</p><p rend="text" >Quando il fiore sarebbe sbocciato, avrebbe dato un rinfresco nella sua stanza, una vera festa.</p><p rend="text" >La signora Li, che quella notte era quasi eloquente in inglese, si serviva del cinese per esaltare la bellezza del fiore o la sua allegria, e batteva le mani.</p><p rend="text" >Messe poi le dita sulle labbra, indicò la stanza di Mister Wang. Il pappagallo… Il sorriso sfiorì. Bell’uccello, senza dubbio. Che piumaggio! Che sagacia! Ma, a causa sua, aveva solo verde, piante verdi. Come le sarebbe piaciuto coltivare un oleandro, una radice di zenzero! Quella passione dell’animale per i fiori… Gli occhi le si spalancarono di spavento. Il pappagallo girava molte volte da solo per la veranda… Avrebbe messo il cactus sul lato interno della zanzariera.</p><p rend="text" >Ricordai di avvisare il padrone del pappagallo.</p><p rend="text" >— No, questo no. L’uccello potrebbe sentire. E voglio fare una sorpresa a tutti, soprattutto al signor Choi. Parlo del mio fiore da tre anni!</p><p rend="text" >Eppure la pianta aveva bisogno di sole, adesso più che mai. L’avrebbe messa diverse ore all’aria aperta, al limite, controllata da lei stessa.</p><p rend="text" >Sorrideva di nuovo.</p><p rend="text" >— Non voglio male all’animaletto. In fondo, sono solo capricci della Natura. Guardi il mio gatto. Il suo piatto preferito sono le lumache di mare. Per questo è bello! Per questo ha gli occhi azzurri!</p><p rend="text" >Si avvicinò il gatto al petto. Era di nuovo felice.</p><p rend="text" >La mattina seguente, a colazione, Mister Wang ci invitò tutti per un drink prima di cena nel miglior bar della città. Doveva condividere con noi una notizia importante. Fissava Miss Jane con tenerezza.</p><p rend="text" >La signora Li, che guardava prima l’uno poi l’altra, si entusiasmò:</p><p rend="text" >— Non ditemi che vi sposerete!</p><p rend="text" >Tutti ci congratulammo.</p><p rend="text" >Ridevano. Che nessuno avesse fretta. Avremmo saputo quella sera.</p><p rend="text" >Sul finire della serata, all’uscita dal collegio, all’improvviso venne un acquazzone e dato che non ero preparata, Miss Chung si offrì di ripararmi fino a casa sotto il suo ombrellino. Tanta gentilezza mi stupì. C’erano giorni in cui la professoressa cinese neanche mi parlava. Quindi, mentre camminavamo di fretta, mormorò, scandendo le parole:</p><p rend="text" >— Sa che Jane è incinta? Ancora non si nota, ma so che lo è.</p><p rend="text" >Senza rispondere, pensavo al cactus della signora Li, anch’esso a prepararsi per dare alla luce il fiore. Qualcuno lo aveva già notato? Solo la vecchia signora, che lo spiava in ogni momento, piena d’ansia. Miss Jane era per la Malese Chung come il cactus per la signora Li, solo che quest’ultima amava la pianta e desiderava che fiorisse, allo stesso modo in cui l’altra odiava tanto Miss Jane come il frutto del suo ventre.</p><p rend="text" >Frequentemente, a cena, il signor Choi chiamava la signora Li <hi rend="italic" >Tai-Tai</hi>, che significa grande donna, signora della casa, superiore a tutte. Lei sorrideva, stringendogli la mano, e negli ultimi tempi guardava intensamente verso di me. Era il segreto: il fiore del cactus.</p><p rend="text" >Quando ci incontravamo nel corridoio, si fermava, eccitata:</p><p rend="text" >— Arriverà presto. Ha già una puntina di colore. Che sorpresa per tutti quando sboccerà!</p><p rend="text" >Casualmente all’uscita di casa o nell’intervallo tra le lezioni, anche Miss Chung mi faceva delle confidenze, ma con le sopracciglia aggrottate:</p><p rend="text" >— L’ho sentita vomitare stamattina. È sicuro.</p><p rend="text" >E:</p><p rend="text" >— La direttrice l’ha chiamata e lei ha rifiutato. Che indecenza!</p><p rend="text" >I giorni passavano. I fidanzati, adesso dichiarati, uscivano molto a passeggio, tenendosi per mano. A-Hin, con una risatina acuta, chiedeva, servendo a tavola, quando sarebbe stato il grande giorno. La signora Li continuava a scambiare con me sguardi di complicità. Miss Chung quasi non parlava.</p><p rend="text" >Cosa significava, quindi, tanto trambusto nella stanza della signora Li, in quella calda mattina di aprile?</p><p rend="text" >Drizzai le orecchie. Singhiozzi? Sì. La signora Li stava piangendo.</p><p rend="text" >Andai da lei.</p><p rend="text" >— Posso aiutarla signora Li?</p><p rend="text" >Aveva la treccia scompigliata, gli occhi rossi, il volto tumido. La nipote stava molto male, era all’ospedale. Forse colera, chissà? C’era un’epidemia a Hong-Kong… — le si rompeva la voce. Parlava quasi solo in cinese. — Sarebbe partita con la prima nave. Avrebbe portato il gatto con sé. Doveva. A-Pein non amava i gatti e la bestiola era abituata a un certo tipo di trattamento.</p><p rend="text" >Adesso non singhiozzava. Solo che, di tanto in tanto, una lacrima le scendeva sul viso e rivelava ignoti segni di rughe intorno agli occhi, ai lati della bocca.</p><p rend="text" >Tentavo di consolarla. Tutto sarebbe andato per il meglio. Naturalmente la malata era stata vaccinata. Ma la signora Li, che già stava mettendo i vestiti in valigia, mi fissava atterrita:</p><p rend="text" >— Mio Dio, il cactus?</p><p rend="text" >Non poteva lasciarlo nella stanza. Il fiore sarebbe morto senza sole. E coprendosi il volto con la mano, sprofondò nella poltrona.</p><p rend="text" >Chiamai Mister Wang che venne sorpreso in vestaglia e ciabatte. Si era svegliato tardi. Era assonnato. Con la testa in avanti, la fronte aggrottata, gli occhi più stretti, entrò nella stanza della signora Li come un fulmine.</p><p rend="text" >La signora Li spiegò. Il fiore sarebbe sbocciato la settimana successiva. Già si vedeva il rosa dei petali. Ed era profumato. Una cosa unica.</p><p rend="text" >Il ragazzo annuiva con la testa. Poteva stare tranquilla. Avrebbe tenuto d’occhio il pappagallo. E sganciando lui stesso la zanzariera dalla finestra, mise il vaso fuori.</p><p rend="text" >— Signora Li, sua nipote verrà curata. Tra una settimana il fiore del cactus le darà il benvenuto.</p><p rend="text" >Si chinava in riverenze.</p><p rend="text" >Sulle labbra dell’anziana passò l’ombra di un sorriso. Confidava in Tai-Ki, l’Onnipotente.</p><p rend="text" >Apparve il signor Choi, pronto ad accompagnarla al molo. Le prese la valigia.</p><p rend="text" >La signora mormorò non so cosa all’orecchio del giovane Wang. Il segreto?</p><p rend="text" >Alla fine, con un ultimo sguardo alla veranda, sparì scendendo le scale, dietro al signor Choi.</p><p rend="text" >Il sabato seguente, rientrando a casa dopo il cinema, vidi una luce nella stanza della signora Li e nonostante si stesse facendo tardi, non potei fare a meno di bussare alla sua porta.</p><p rend="text" >Nessuno rispose.</p><p rend="text" >La porta, socchiusa.</p><p rend="text" >Non appena il gatto uscì di soppiatto dalla fessura, intravidi la signora Li, in piedi, in fondo all’appartamento, ancora con l’abito del viaggio, la valigia al suo fianco, sul pavimento.</p><p rend="text" >— Posso entrare, signora Li?</p><p rend="text" >Lei mi fissò, senza parlare. Sembrava più piccola e magra.</p><p rend="text" >— Dunque, la malata?</p><p rend="text" >— Si è ripresa. Niente di grave, grazie al Cielo…</p><p rend="text" >— Che bello. Eravamo tutti preoccupati.</p><p rend="text" >I suoi occhi, prima così vivi, così birichini, non avevano la minima espressione.</p><p rend="text" >Mi chiedevo cosa la affliggesse, quando, guardandomi intorno, scoprii, sul davanzale con la finestra aperta, il vaso del cactus… senza fiore. C’erano le foglie polpose e il piccolo stelo decapitato. Nessuna traccia di petali, polline, colore. Nel terriccio sabbioso, le impronte dell’assassino.</p><p rend="text" >La abbracciai.</p><p rend="text" >— Oh, signora Li! Oh, signora Li!</p><p rend="text" >Credo che la mia voce abbia riecheggiato, perché, pochi secondi dopo, si stagliarono due volti alla cornice della finestra.</p><p rend="text" >Erano Mister Wang e la fidanzata, come due fantocci in un teatro di burattini, minuti, rozzi, a braccetto e con la bocca aperta.</p><p rend="text" >Realizzai, come in una vertigine, che erano giunti a rappresentare «Il Miracolo del Fiore». Vedevo già la signora Li ad applaudire. Era una rosa di sangue… una rosa di fuoco… una rosa d’oro!</p><p rend="text" >Con l’apparizione del signor Choi, seminudo, enorme, tartaro, tornai alla realtà.</p><p rend="text" >La sua grande mano accarezzava, lentamente, la testa della vecchia signora.</p><p rend="text" >— Oh, <hi rend="italic" >Tai-Tai</hi>! Oh, <hi rend="italic" >Tai-Tai</hi>!</p><p rend="text" >Infine, la signora Li parlò:</p><p rend="text" >— Per tre anni ho atteso il fiore di questo vaso. Me li concederanno gli dei altri tre anni di vita?</p><p rend="text" >Rimaneva in piedi, imperturbabile. Il suo volto, però, normalmente rotondo e chiaro, adesso era giallo e rugoso, come un limone spremuto.</p><p rend="text" >E fu in quel momento che un grido irruppe nella notte, proveniente da fuori, dalla veranda.</p><p rend="text" >Tenendosi il ventre, Miss Jane singhiozzava, isterica.</p><p rend="text" >Il fiore era morto al suo sbocciare, lacerato dal becco ferino dell’uccello. Anche lei aspettava, di nascosto, una fioritura e temeva l’uccello del malaugurio… La paura la vinse. Una paura più grande di tutte le insolenze del mondo, più grande del suo stesso orgoglio, più grande del mondo.</p><p rend="h2" >IL GIORNO DEL GRANDE FREDDO</p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Quando il salice</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >abbandona i rami</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >nella notte fredda</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >nudi.</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >Nel triste inverno</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >come aspettare</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >il miracolo</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >di vedergli nascere</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" ><hi rend="italic" >le foglie?</hi></p><p rend="quotation_b ParaOverride-1" >(Tu Fu- Trad. Jorge de Sena)</p><p rend="text" >La festa del tempo nelle terre di Cina. La Luna che contò i giorni e i mesi, marca infine la data, e l’anno sarebbe nato. Tutti escono per strada. Scoppiano i petardi per allontanare i demoni e purificare l’aria. È il primo giorno della settimana commemorativa della creazione del mondo.</p><p rend="text" >Esclamazioni in cinese: «Compra il ramo della fortuna! Il ramo della felicità!».</p><p rend="text" >Bancherelle di conserve di verdura; banchi di frittura di pesce e maiale; semi e frutta cristallizzati in zucchero, dolci di cocco, melassa, fagioli, patate dolci, sesamo; crisantemi, dalie, fiori di pesco.</p><p rend="text" >Il vecchio erborista, con gli occhiali sulla punta del naso e la barba lunga e rada, si siede nella penombra del negozio a veder passare le persone e a fumare, pensieroso. Non fuma stupefacenti, sebbene li venda di nascosto e solo come rimedio curativo. Alimenta la pipa con una mistura di erbe aromatiche e medicinali. Condanna gli <hi rend="italic" >oppiomani</hi>. Conosce una storia di divinità che si inebriarono di oppio e impazzirono. Da quel momento non ci furono più divinità. L’oppio è paragonato alla celebrità, gli dei diventarono pieni di sé e del proprio potere, si inabissarono nella propria gloria — <hi rend="italic" >oppiomani</hi> in delirio —, trascurarono il governo del mondo e sopraggiunse il caos. Infuriarono i venti, la terra tremò, i fiumi esondarono dal letto radendo al suolo città e campi. Da lì in poi, l’uomo rimase solo nella confusione del cosmo. E si illude venerando le immagini degli dei antichi, di coloro che persero il giudizio, che non esistono più. E proprio lui fuma la <hi rend="italic" >polvere bianca</hi> (<hi rend="italic" >pak-fân</hi>) immaginandosi al Settimo Cielo.</p><p rend="text" >La religione dell’erborista è la Natura: le piante, gli animali, gli elementi. Stendere il corpo nudo al sole un’ora al giorno dà più forza di un buon piatto di anatra salata. L’acqua delle fonti che sgorga tra le pietre, bevuta la notte, più è fredda e meglio può donare la gioventù eterna, forse — chissà? — l’immortalità. Dal grasso di tigre qualcuno estrasse un balsamo per ogni dolore — medicamento celebre nel mondo intero; il suo scopritore diventò l’uomo più ricco del sud della Cina. E il fiore bianco di aglio e i suoi poteri analgesici?</p><p rend="text" >Bottegaio, guaritore, quasi medico, l’erborista riceve malati e rilascia ricette. Le persone lo cercano quando soffrono di insonnia (lui consiglia di ingoiare spicchi di aglio crudi), di freddo alle ossa, di malaria. Secondo lui, ogni pianta contiene proprietà benefiche o malefiche, solo che della maggior parte di queste proprietà non si sa niente o non ce ne avvaliamo. Il papavero, per esempio, è il <hi rend="italic" >fiore del male</hi>. Conosciamo l’effetto benefico che il rosmarino fa per certi stati di debilitazione o di convalescenza!</p><p rend="text" >Anticamente nessuna partoriente si privava di un’inalazione di rosmarino e vino caldo. Aloe, <hi rend="italic" >pucho</hi>, <hi rend="italic" >abuta</hi>, formano insieme uno dei più importanti rimedi casalinghi della farmacologia cinese. E l’acqua di cottura del riso — il riso, la pianta per eccellenza della terra di Cina! — non cura il male allo stomaco e all’intestino, non è buona per lavare il viso sudato dopo la febbre?</p><p rend="text" >Oggi, comunque, alla vigilia dell’Anno Lunare, con le vie illuminate, i fuochi d’artificio, divertimenti e mormorii ovunque, l’erborista beve tè di gelsomino, da solo, sull’atrio della porta, e fuma le sue erbe. Nella notte dell’Anno Buono nessuno si ammala. Le persone passano, parlando, ridendo, trangugiando semi colorati, e di lui non si accorgono. Qualcuno, comunque, gli lancia da lontano degli auguri di circostanza: <hi rend="italic" >Kung Hei Fat Choi</hi> (Felice Anno Nuovo), ai quali non risponde. Un insulto quelle parole. Anno Nuovo? Il tempo è sempre lo stesso. Si fermò. Quando c’erano realmente gli dei (ci devono essere stati perché le loro immagini sono là nel tempio), di sicuro ogni anno rappresentava una benedizione del Cielo. Generosi, i governanti divini si dotavano di fortuna, abbondanza, vigore. Figlio della Luna e del Sole, gli uomini lo ricevevano come festeggiamento ben meritato. Nuovo era ciò che gli si presentava davanti, fecondo, pieno di promesse. Al giorno d’oggi, comunque, che triste imitazione! Il giorno successivo, all’alba (lui sarebbe rimasto sveglio tutta la notte; lo scoppio dei petardi non lo lasciava dormire), sarebbe venuto a bussargli alla porta qualcuno che aveva mangiato e bevuto troppo (generalmente scortato da un amico), stralunato, a scatti, e avrebbe dovuto aiutarli, cercare un emetico per la nausea e la testa febbricitante. E le ragazze che si presentano supplicando un rimedio per interrompere la gravidanza! «Farò ancora in tempo?» Le vedi tra le braccia degli uomini. Quanti? La notte dell’Anno Buono i folli danno spazio agli istinti, trasgrediscono.</p><p rend="text" >Tuttavia, adesso piangono, aggrappate alle maniche della sua veste, come se anche lui non fosse un uomo. Sente l’impeto di portarle nel retro del negozio e di possederle sul tappeto. Sempre, sempre questo desiderio vile gli sale dal profondo dell’anima, ma sempre comunque lo reprime. Neanche da ragazzo (e che bel ragazzo era!) si lasciava dominare. Le donne non gli erano mai mancate, donne che lo volevano o lo aspettavano. Forse, proprio per il fatto che ci sono così tante e belle donne nella terra di Cina, non si era mai sposato. Come le piante, ogni donna possiede grandi virtù o grandi difetti, ma solo dopo averle prese in sposa gli uomini le conoscono. E non ne vale la pena. Prima di sposarsi, esse sono i fiori ed essi sono i coleotteri. Amarle non dura che un grazioso svolazzare, a sua volta, un disorientamento. Le piante, loro sì, che lo interessano: studiarne i difetti e le qualità a lungo, in una specie di lussuria.</p><p rend="text" >Le ragazze vengono a implorare aiuto, afflitte, e lui dà loro erbe di distruzione che le faranno contorcere dai dolori una notte intera, che non coincidono con le promesse di allegria e felicità che gli innamorati avevano fatto loro, nel giorno di festa, su ampie strisce di carta rossa e lettere dorate.</p><p rend="text" >Ah, lui, il più famoso erborista di Macao, con un’esperienza di molti anni nelle più grandi città della Cina, cosa sa della miseria degli uomini e delle loro illusioni! Illusioni o ignoranza?</p><p rend="text" >«Mi dica, questa non è lebbra, vero?». Da quaranta, cinquanta anni. Anche nei giorni di festa. L’uomo più benestante della regione. Tavola apparecchiata (zuppa profumata di serpente, grappa di riso vecchia e ambrata — <hi rend="italic" >giada liquida</hi>), un mucchio di invitati… E la piaga che gli divorava rabbiosamente il petto. «Se mi curerà, le darò un sacco d’oro!».</p><p rend="text" >Aveva intrapreso un lungo percorso fino alla casa del malato, e non poteva fare altro che prescrivergli dell’<hi rend="italic" >oppio</hi>, per alleviargli almeno la sofferenza. Erano così disgraziati gli uomini che, per non disperarsi, arrivavano ad avvalersi del <hi rend="italic" >fiore del male</hi>.</p><p rend="text" >Due settimane prima era stato il Giorno del Grande Freddo, giorno in cui i cinesi mangiano riso carolino (<hi rend="italic" >ló-mai</hi>), e da lì in poi si preparano per l’Anno Nuovo.</p><p rend="text" >L’erborista aveva assistito a questa preparazione con un sorriso scettico. Ovviamente aveva venduto più che mai. Tutti volevano tè depurativi, tutti compravano rimedi contro <hi rend="italic" >venti sporchi</hi>, erbe della fortuna e dell’invidia, filtri d’amore e di seduzione. Le madri povere chiedevano scorza tostata di cirimoia per pulire dai parassiti le teste dei figli. E c’era chi gli faceva rovistare scaffali e cassetti alla ricerca di una spezia molto preziosa (più piccante dello zenzero, più dolce dell’anice) per stemperare un dolce di Buon Anno destinato al tempio.</p><p rend="text" >Serviva tutti l’erborista, avendo poco tempo per mescolare con le bacchette i pasti cucinati proprio lì, nel negozio, o di sorseggiare un goccio di tè.</p><p rend="text" >Il Giorno del Grande Freddo. Giorno della resa degli dei? Del loro impazzire? Le persone non riflettevano su questa denominazione, occupate come erano con l’avvento delle feste, e lo attribuivano all’abbassarsi della temperatura. Lui, comunque, che conosceva il tempo immobile, inutile, meditava sull’ironia delle parole: Grande Freddo — morte. Anno Nuovo — vita. Come poteva la morte generare vita, la fine venire prima dell’inizio? Era necessario essere erborista e vivere solo, per indagare tali misteri. Era necessario sprecare la propria vita a curare carni ulcerate, occhi flebili per la cecità, nervi corrosi dalle convulsioni, pestilenti, invalidi, allucinati, isterici, menomati. Aver passato le notti in bianco a preparare tisane, impiastri, liquidi caustici e elisir, a manipolare unguenti, a polverizzare cristalli, resine, radici, mucillaggini, detriti (non c’erano negli escrementi di certi uccelli grandi proprietà terapeutiche?). E aver fallito miserabilmente, ricorrendo a soporiferi, a espedienti, a palliativi. Era necessario, prima di tutto, essere, giorno dopo giorno, testimonianza dell’assenza della Protezione Divina, che è uguale a dire: dell’abbandono delle creature.</p><p rend="text" >Notte dell’Anno Nuovo cinese. Mezzo nascosto nel vano della porta, e imperturbabile, l’erborista assiste allo spettacolo delle strade: uomini e donne che passano, euforici, con il ramo di pesco tenuto in alto, come i bambini piccoli che stringono la corda degli aquiloni. Vanno al tempio a portare offerte, si scambiano regali, comprano dolci costosi e nauseanti, mangiano, bevono, giocano a giochi d’azzardo, amano. In questa notte l’erborista non esiste.</p><p rend="text" >Morire è rimandato al giorno successivo. Morire o soffrire — che è pure peggio. L’erborista, pessimista e ateo, non ha niente in comune con loro, al momento. Non lo vedono, né lo vogliono vedere. Che mastichi le sue foglie e rumini i suoi lugubri pensieri nell’ombra del negozio. Esplodono con più fragore i petardi. L’aria si pulirà completamente a mezzanotte, ora segnata dalla nascita dell’anno, quando l’orologio della piazza lascerà cadere solennemente i dodici rintocchi. <hi rend="italic" >Kung Hei Fat Choi</hi> — Felici Feste!</p><p rend="text" >«Aiutami. Ho esagerato. Ho più di settanta anni e ho un martello nel cuore!».</p><p rend="text" >«Ho dormito con un marinaio che mi ha attaccato il cattivo umore…».</p><p rend="text" >Mentre aveva i rimedi, in silenzio, l’erborista rifletteva sul Giorno del Grande Freddo. Celebrazione della morte del tempo? Anniversario del suicidio degli dei?</p><p rend="h2" >ÍNDICE</p><p rend="contents_contents_h2" >A CHINA FICA AO LADO <hi rend="contents_number" >52</hi></p><p rend="contents_contents_h2" >OS ESPELHOS62</p><p rend="contents_contents_h2" >ÓDIO DE RAÇA68</p><p rend="contents_contents_h2" >O HOMEM DE MEIA VIDA76</p><p rend="contents_contents_h2" >FONG-SONG82</p><p rend="contents_contents_h2" >O FILHO DO SOL88</p><p rend="contents_contents_h2" >OS LÁZAROS96</p><p rend="contents_contents_h2" >O HOMEM DO <hi rend="italic" >SAM-LUN-CHÉ102</hi></p><p rend="contents_contents_h2" >MAGIA108</p><p rend="contents_contents_h2" >A MORTA114</p><p rend="contents_contents_h2" >NATAL CHINÊS122</p><p rend="contents_contents_h2" >A DOIDA128</p><p rend="contents_contents_h2" >A POUSADA DA AMIZADE134</p><p rend="contents_contents_h2" >O DIA DO GRANDE FRIO148</p><p rend="h2" >INDICE</p><p rend="contents_contents_h2" >LA CINA È ACCANTO<hi rend="contents_number" >53</hi></p><p rend="contents_contents_h2" >GLI SPECCHI63</p><p rend="contents_contents_h2" >ODIO DI RAZZA69</p><p rend="contents_contents_h2" >L’UOMO DI MEZZA VITA77</p><p rend="contents_contents_h2" >FENG SHUI83</p><p rend="contents_contents_h2" >IL FIGLIO DEL SOLE89</p><p rend="contents_contents_h2" >I LEBBROSI97</p><p rend="contents_contents_h2" >L’UOMO DEL RISCIÒ103</p><p rend="contents_contents_h2" >MAGIA109</p><p rend="contents_contents_h2" >LA MORTA115</p><p rend="contents_contents_h2" >NATALE CINESE123</p><p rend="contents_contents_h2" >LA MATTA129</p><p rend="contents_contents_h2" >L’OSTELLO DELL’AMICIZIA135</p><p rend="contents_contents_h2" >IL GIORNO DEL GRANDE FREDDO149</p><p rend="h2" >Bibliografia</p><p rend="bib_indx_bib" ><hi >Braga M.O. (1968), </hi><hi rend="italic" >A China fica ao lado</hi><hi >, Panorama, Lisboa.</hi></p><p rend="bib_indx_bib" ><hi >Braga M.O. (1974), </hi><hi rend="italic" >A China fica ao lado</hi><hi >, Livraria Bertrand, Amadora.</hi></p><p rend="bib_indx_bib" ><hi >Braga M.O. (1991), </hi><hi rend="simsun" >神州在望</hi><hi rend="italic" > Shénzōu zài wàng</hi><hi >, trad. chinesa Jin Guoping, Instituto Cultural de Macau, Macau.</hi></p>
      
      
      
      
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          <head>References</head>
          <bibl n="89891">Braga M.O. 1968. A China fica ao lado. Lisboa: Panorama.</bibl>
          <bibl n="90347">Braga M.O. 1968. A China fica ao lado. Lisboa: Panorama.</bibl>
          <bibl n="89892">Braga M.O. 1974. A China fica ao lado. Amadora: Livraria Bertrand.</bibl>
          <bibl n="90348">Braga M.O. 1974. A China fica ao lado. Amadora: Livraria Bertrand.</bibl>
          <bibl n="89893">Braga M.O. 1991. 神州在望 Sh&amp;#233;nzōu z&amp;#224;i w&amp;#224;ng, trad. chinesa Jin Guoping, Macau: Instituto Cultural de Macau.</bibl>
          <bibl n="90349">Braga M.O. 1991. 神州在望 Sh&amp;#233;nzōu z&amp;#224;i w&amp;#224;ng, trad. chinesa Jin Guoping, Macau: Instituto Cultural de Macau.</bibl>
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