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        <title type="main" level="a">David Sassoli: por uma Europa mais livre, mais justa e mais próspera</title>
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          <persName n="1" ref="https://orcid.org/0000-0002-7439-2989" type="ORCID">
            <forename>Carlos</forename>
            <surname>Nogueira</surname>
            <placeName type="affiliation">University of Vigo, Portugal</placeName>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.10</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
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        <p>This essay aims to reflect on the political and ecological future of Europe, starting with the figure and the democratic values of David Sassoli.</p>
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            <item>Democracy</item>
            <item>Future of Europe</item>
            <item>David Sassoli</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.10<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.10" /></p>

<p rend="h1_chapter" >David Sassoli: por uma Europa mais livre, mais justa e mais próspera</p><p rend="h1_author" >Carlos Nogueira</p><p rend="text" ><hi >Em qualquer tempo e lugar, e</hi><hi > em particular no mundo ao mesmo tempo alheado, indiferente e</hi><hi > extremista em que vivemos, a morte de um democrata ativo</hi><hi > </hi>é<hi > uma perda irremediável. David Sassoli era um socialista e</hi><hi > um europeu convicto, um homem de pensamento e de ação</hi><hi > empenhado em contribuir para fazer da Europa e do mundo</hi><hi > um espaço mais habitável, mais livre de egoísmos e de</hi><hi > cisões. Do primeiro discurso de Sassoli como Presidente do Parlamento</hi><hi > Europeu, retenho os temas, fundamentais para o nosso presente e</hi><hi > para o nosso futuro, que ele se propunha trabalhar: os</hi><hi > jovens, a pobreza, a igualdade e a ecologia. Sassoli salientou</hi><hi > também o lugar da memória, essa capacidade tão humana a</hi><hi > que José Saramago se referiu tantas vezes em tom aforístico:</hi><hi > </hi>«Somos<hi > a memória que temos, sem memória não saberíamos quem</hi><hi > somos» (Saramago 2018, 225). David Sassoli lembrou que o seu</hi><hi > pai teve de lutar contra outros europeus e a sua</hi><hi > mãe foi obrigada a sair de casa para se refugiar</hi><hi > no seio de outras famílias. Esta alusão evidente </hi>à<hi > Segunda</hi><hi > Guerra Mundial não </hi>é<hi > fortuita nem melodramática; revela a memória</hi><hi > viva de Sassoli, a sua atenção ao passado, </hi>às<hi > </hi><hi >lições da História e </hi>à<hi > imprevisibilidade do amanhã.</hi></p><p rend="text" ><hi >A Itália onde</hi><hi > nasceram o pai e a mãe de Sassoli foram o</hi><hi > lugar onde em primeiro lugar se instituiu o fascismo (com</hi><hi > Mussolini, como </hi>é<hi > sabido) e de onde irradiou para outros</hi><hi > países europeus, como a Alemanha, que o levou a um</hi><hi > extremo de perfecionismo. Foi nesta Europa, plena de arte da</hi><hi > mais sublime, que o horror e o </hi>ódio<hi > se institucionalizaram,</hi><hi > o crime </hi>à<hi > escala industrial se vulgarizou durante seis longos</hi><hi > anos (sem contar o tempo que antecedeu a Guerra). Aconteceu,</hi><hi > pode voltar a acontecer, disse-o Primo Levi, que sabia do</hi><hi > que falava. Sassoli nasceu em 1956, portanto bem depois do</hi><hi > fim do conflito que assolou a Europa e o mundo</hi><hi > pela segunda vez no mesmo século, por muitos considerado o</hi><hi > mais cruel da História. Não foi o século mais violento,</hi><hi > mas antes aquele em que a escravatura, a tortura e</hi><hi > os assassinatos em massa se tornaram mais fáceis devido ao</hi><hi > desenvolvimento científico e tecnológico. Seria de esperar, pelo menos depois</hi><hi > da Primeira Guerra Mundial, mais comedimento perante a pulsão humana</hi><hi > para a violência e a morte do outro. David Sassoli</hi><hi >, que não viveu nenhuma das tragédias europeias, teve acesso </hi><hi >direto, por via da experiência da própria família, </hi>à<hi > memória </hi><hi >do totalitarismo de Mussolini e da Segunda Guerra Mundial, viveu </hi><hi >em plena Guerra Fria, era muito jovem quando se deu </hi><hi >o Maio de 68, tinha 33 anos quando caiu o </hi><hi >Muro de Berlim, 36 quando começou a Guerra da Bósnia, </hi><hi >45 quando se deu o ataque </hi>às<hi > Torres Gémeas dos </hi><hi >EUA, no dia 11 de setembro de 2001, praticamente 48 </hi><hi >em março de 2004 (também dia 11), quando aconteceu o </hi><hi >atentado em Madrid, na estação de comboios de Atocha, mais </hi><hi >de 50 e mais de 60 quando outros ataques e </hi><hi >outras guerras se concretizaram na Europa (especialmente em França: Bataclan,</hi><hi > em 2015, etc.) e por todo o mundo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Para quem </hi><hi >a sofre, a opressão </hi>é<hi > uma verdade crua, não uma </hi><hi >imagem desvanecida de um estado de coisas que quem vive </hi><hi >em abundância e segurança se pode dar ao luxo de </hi><hi >considerar inaceitável e nada fazer. Sassoli, enquanto jornalista, viu as</hi><hi > múltiplas faces da dominação, da exclusão social, política e cultural,</hi><hi > da discriminação e da destruição moral e física; viu a</hi><hi > ascensão da social-democracia, a derrota do comunismo; viu a atração</hi><hi > que o modelo democrático exerce sobre povos que vivem em</hi><hi > ditadura (penso na Primavera </hi>Árabe,<hi > em particular); viu também o</hi><hi > crescimento das forças antidemocráticas, na Europa e no mundo, que</hi><hi > falam uma linguagem em que democracia e populismo se confundem,</hi><hi > que aspiram ao poder pelo poder e, para isso, exploram</hi><hi > os medos, as dificuldades e a tendência humana para ver</hi><hi > no outro, naquele que </hi>é<hi > diferente (o pobre ou o</hi><hi > remediado acusa o rico, o rico culpabiliza o pobre ou</hi><hi > o remediado) e estrangeiro (os imigrantes ou outros povos), a</hi><hi > causa dos seus problemas (desemprego, inflação, baixo crescimento económico, taxas</hi><hi > de juro altas, etc.).</hi></p><p rend="text" ><hi >Sassoli jornalista observou e lidou com </hi><hi >a extrema-direita e a extrema-esquerda, analisou os movimentos da demagogia, </hi><hi >pôde ver de perto o modo como políticos sem escrúpulos </hi><hi >criam inverdades e mentiras e as sabem pôr em circulação </hi><hi >nas redes sociais, na televisão, nos jornais, no mundo académico, </hi><hi >como sobrepõem a subjetividade e as emoções </hi>à<hi > razão e </hi>à<hi > factualidade, como proferem frases curtas e imediatas que comunicam </hi><hi >ideias pobres ou inexistentes revestidas da energia das verdades irrefutáveis </hi><hi >e salvadoras, como apresentam soluções que dizem ser infalíveis e </hi><hi >concretizáveis num curto espaço de tempo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tudo isto (a sua história</hi><hi > familiar, a sua formação académica em ciência política, a sua</hi><hi > atuação muito ativa no jornalismo) levou David Sassoli </hi>à<hi > política</hi><hi > italiana e ao Parlamento Europeu. Como presidente, empenhou-se em atuar</hi><hi > em </hi>áreas<hi > nevrálgicas. Repito: os jovens, a pobreza, a igualdade</hi><hi > e a ecologia.</hi></p><p rend="text" ><hi >A sociedade responsável e livre por que </hi><hi >Sassoli trabalhou enquanto político socialista democrata tem no seu centro </hi><hi >as crianças e os jovens, e, naturalmente, a educação e </hi><hi >a cultura. Educação escolar, sem dúvida, nas suas múltiplas esferas </hi><hi >curriculares, mas também educação e cultura no sentido de consciência </hi><hi >de direitos e de deveres, de respeito por si e </hi><hi >pelos outros, de construção de uma cidadania ampla em que </hi><hi >não haja os outros (os diferentes de nós na cor, </hi><hi >na religião, nos usos e costumes, na riqueza material). Cultura </hi><hi >também no sentido de elevação de espírito, essa procura constante </hi><hi >de compreensão do que </hi>é<hi > o humano que se aprofunda </hi><hi >no convívio com a literatura, a música, o teatro, etc., </hi><hi >aspeto em que a escola e a sociedade em geral </hi><hi >têm falhado, na Europa e no mundo, ora porque não </hi><hi >formam com a qualidade técnica desejável, ora porque desconsideram os </hi><hi >valores </hi>ético-morais,<hi > a transmissão de uma ideia de sociedade em </hi><hi >que há direitos tanto quanto há deveres e regras, liberdades </hi><hi >mas não menos interdições. A escola europeia </hi>é<hi > muito mais </hi><hi >um espaço de competição por boas classificações do que de </hi><hi >formação espiritual.</hi></p><p rend="text" ><hi >Mais e melhor escolaridade e sabedoria traduzem-se, a médio</hi><hi > e a longo prazo, na diminuição da pobreza, em mais</hi><hi > acesso qualificado e digno ao mundo do trabalho, e em</hi><hi > mais igualdade de oportunidades, mais bem-estar económico, pessoal e social,</hi><hi > menos conformismo e mais propensão para desconstruir a linguagem do</hi><hi > populismo, para não se deixar seduzir pelas promessas de felicidade</hi><hi > e riqueza imediatas, para se ser agente de uma democracia</hi><hi > responsável e inclusiva, para se tender a contrariar o egoísmo,</hi><hi > o autoritarismo e o gosto pelo poder, impulsos e características</hi><hi > próprios da espécie humana, como bem se sabe, e a</hi><hi > preferir outros elementos antropológicos que também nos definem (o amor,</hi><hi > o altruísmo, a ‘educação’, a compreensão, os desejos </hi><hi >de harmonia e de paz, a intolerância contra a violência </hi><hi >e a subjugação).</hi></p><p rend="text" ><hi >Pensar nas crianças e nos jovens europeus (e</hi><hi > não só), para Sassoli, significava garantir-lhes condições de realização </hi><hi >enquanto pessoas com a sua individualidade própria e enquanto cidadãos </hi><hi >preparados para o mundo do trabalho. Sassoli estava bem consciente </hi><hi >do processo que Marx definiu como alienação no trabalho, e</hi><hi > não o desejava para os jovens da Europa (e para</hi><hi > nenhuns outros, obviamente), que ele queria ver exultantes a todos</hi><hi > os níveis, com garantias de bem-estar mental e físico, </hi><hi >intelectual, pessoal e profissional. David Sassoli queria homens e mulheres </hi><hi >que não se sentissem, para usarmos linguagem socialista, fora </hi><hi >de si próprios, seres com a sua individualidade negada </hi><hi >pelo trabalho, impedidos de poderem reconhecer a sua personalidade nos </hi><hi >produtos que criam e de se reconhecerem participantes no</hi><hi > movimento emancipador que sempre deve acompanhar a sociedade. Não </hi>é<hi > isso que está acontecer. Os jovens veem-se, na sua maioria,</hi><hi > submetidos </hi>à<hi > </hi>«<hi >máquina de valorização do capital» (Louçã 2018</hi><hi >, 24), destruídos por um trabalho que apenas, ou </hi><hi >quase só, os explora.</hi></p><p rend="text" ><hi >Pelo menos em parte, </hi>é<hi > assim porque</hi><hi > o sistema de ensino europeu, a comunicação social pública e</hi><hi > os Governos continuam a não saber e a não querer</hi><hi > investir verdadeiramente em cultura e em arte. Estas palavras de</hi><hi > George Steiner são exemplares e muitíssimo atuais, mais do que</hi><hi > em 2004, quando foram escritas: </hi>«se<hi > os jovens ingleses escolhem</hi><hi > classificar David Beckham acima de Shakespeare e Darwin na lista</hi><hi > de tesouros nacionais, se as instituições culturais, as livrarias e</hi><hi > as salas de concertos e teatro lutam pela sobrevivência numa</hi><hi > Europa que </hi>é<hi > fundamentalmente próspera e onde a riqueza nunca</hi><hi > falou tão alto, a culpa </hi>é<hi > muito simplesmente nossa» (</hi><hi >Steiner 2007, 55). Steiner não podia saber, em 2004, da </hi><hi >crise financeira mundial de 2008, e, por isso, o que </hi><hi >nos diz no mesmo texto, a concluir, tem um envolvência </hi><hi >premonitória que continua a fazer sentido em países como Portugal </hi><hi >e Itália. Refiro-me </hi>à<hi > constatação de que muitos dos melhores </hi><hi >talentos científicos e humanísticos europeus abandonam a Europa para não </hi><hi >mais voltarem. O pensador conclui, em termos muito pragmáticos: </hi>«se<hi > </hi><hi >não for colmatada a diferença entre a América em termos </hi><hi >de salários, oportunidades de carreira, recursos destinados </hi>à<hi > investigação e </hi>à<hi > descoberta em parceria, ficaremos efetivamente condenados </hi>à<hi > esterilidade ou </hi>à<hi > segunda mão» (Steiner 2007, 54).</hi></p><p rend="text" ><hi >Sassoli acreditava na soberania </hi><hi >popular esclarecida, não no poder de um povo que se </hi><hi >deixa manipular por homens e mulheres não-democráticos; cria ser possível </hi><hi >conciliar progresso com liberdades individuais e economia de mercado livre</hi><hi > regulado pela política, não pelos grupos económicos e financeiros que</hi><hi > no passado recente (recessão de 2008) tantas tragédias sociais e</hi><hi > individuais acarretaram. Invista-se nos jovens, portanto, dizia Sassoli, que </hi><hi >com certeza sabia como o sistema de ensino, em não </hi><hi >poucos países europeus, está subordinado a uma inércia que faz </hi><hi >com que, por exemplo, um aluno mal-comportado impeça toda uma </hi><hi >turma de ter um ambiente saudável na sala de aula, </hi><hi >que a autoridade dos professores e das escolas seja praticamente </hi><hi >inexistente, tal </hi>é<hi > o receio de agressões por parte de </hi><hi >pais e mães ofendidos porque os seus filhos foram repreendidos. </hi><hi >A educação começa em casa, desenvolve-se na escola e na </hi><hi >sociedade em geral, não apenas na sala de aula (geralmente </hi><hi >com excesso de alunos, apesar da redução que se verificou </hi><hi >nos </hi>últimos<hi > anos, pelo menos em Portugal, em que havia </hi><hi >turmas com mais de 30 alunos). Sem esta articulação, sem </hi><hi >diálogo e respeito intergeracionais, sem crianças e jovens que percebam</hi><hi > que não devem sujar a sala de aula, que têm</hi><hi > deveres, o futuro da Europa está comprometido. O exemplo que</hi><hi > acabei de apresentar (a limpeza do espaço de ensino-aprendizagem) pode</hi><hi > parecer menor, mas nele está toda uma cultura de desresponsabilização</hi><hi > das nossas crianças e dos nossos jovens, muito diferente de</hi><hi > outras culturas, como a japonesa (cujas crianças, em sala de</hi><hi > aula, zelam pelo ambiente físico que </hi>é<hi > de todos, levam</hi><hi > a sua própria comida, comem em harmonia, lavam e arrumam</hi><hi > os utensílios).</hi></p><p rend="text" >«<hi >Ecologia</hi>»<hi > </hi>é<hi > outro dos quatro termos do </hi><hi >problema para cuja solução Sassoli se propôs trabalhar com ideias </hi><hi >e ações (e também aqui a cultura escolar </hi>é<hi > fundamental). </hi><hi >Não há boas políticas sem um pensamento ecológico amplo e </hi><hi >em diálogo com os sinais que a Natureza nos apresenta. </hi><hi >Somos seres inscritos num ambiente natural, somos parte da Natureza, </hi><hi >mas temos estado contra ela. Esse paradigma tem de ser </hi><hi >substituído por um outro em que os indivíduos e as </hi><hi >sociedades, na sua ecologia social, cultural e científica, devem (re</hi><hi >)aprender a inscrever-se na ecologia da Natureza e a respeitar </hi><hi >os seus recursos de energia, </hi>água,<hi > terra, ar, vida animal, </hi><hi >reino mineral. Num mundo que </hi>é<hi > multipolar, esta mudança não </hi><hi >se pode fazer sem uma procura contínua de diálogo e </hi><hi >de negociações, sem investimento científico que promova o desenvolvimento rápido </hi><hi >da energia dita verde. Os interesses mútuos e a sobrevivência </hi><hi >da espécie humana (o planeta manter-se-á, bem como muitos seres </hi><hi >vivos) devem sobrepor-se </hi>à<hi > cobiça e </hi>à<hi > ambição.</hi></p><p rend="text" ><hi >Habitarmos um planeta</hi><hi > assolado por uma destruição ambiental e climática antropogénica que parece</hi><hi > imparável </hi>é<hi > destinarmo-nos aos conflitos, </hi>às<hi > violências e </hi>às<hi > guerras</hi><hi > que sempre resultam das injustiças e das desigualdades. Daí o</hi><hi > empenhamento de David Sassoli na aprovação da Lei do Clima.</hi><hi > Sassoli desejava uma nova habitação da Terra, uma mudança no</hi><hi > nosso modo de vida, e não se coibiu de o</hi><hi > dizer, apesar das críticas daqueles céticos (ou irresponsáveis) para quem</hi><hi > os nossos maus hábitos energéticos não têm impacto no clima.</hi><hi > Na conferência de imprensa por ocasião da Cimeira Europeia de</hi><hi > 16 de dezembro de 2021, consciente do avanço da pandemia</hi><hi > do Covid 19, o então presidente do Parlamento Europeu afirmava</hi><hi > ser necessário fazer mais e melhor. Sassoli sabia que esta</hi><hi > </hi>é<hi > uma calamidade natural com uma relação direta com a</hi><hi > ação humana, e sabia que temos de aprender com ela,</hi><hi > não esquecê-la mal a ultrapassemos. A pandemia do novo coronavírus</hi><hi > não </hi>é<hi > simplesmente o resultado de um qualquer distúrbio natural</hi><hi > sem qualquer relação com as atividades humanas. Este vírus (e</hi><hi > outros) nasce da submissão que queremos impor a tudo o</hi><hi > que nos rodeia, quer seja um ser vivo ou uma</hi><hi > qualquer força ou substância, em particular, no caso, animais selvagens</hi><hi > vivos, que tratamos desde uma perspetiva ‘especista’. Tal </hi><hi >como houve e há racismo, houve e há ‘especismo’,</hi><hi > e por isso Sassoli não aceitava a vontade humana de</hi><hi > controlo das leis da Natureza e de subjugação de todos</hi><hi > os seres vivos.</hi></p><p rend="text" ><hi >A imagem de subserviência e homogeneidade que </hi><hi >Descartes e outros tanto apreciavam e usavam em favor de </hi><hi >uma ideia de futuro de abundâncias materiais sem limites continua </hi><hi >a ser demasiado forte. Políticos e humanistas como Sassoli podem </hi><hi >fazer a diferença entre o nosso futuro na Terra ou </hi><hi >a nossa extinção. Não vivemos apenas no mesmo tempo deste </hi><hi >vírus; nós somos este vírus, ou somos a sua origem </hi><hi >e a sua garantia de sobrevivência (enquanto hospedeiros e porque </hi><hi >lhe proporcionamos ambientes propícios: </hi>água,<hi > ar e terra poluídos), o </hi><hi >que </hi>é<hi > o mesmo. Cada pessoa que morre devido a </hi><hi >este coronavírus ou devido </hi>à<hi > crise ambiental e climática </hi>é,<hi > </hi><hi >de certo modo, o </hi>«último<hi > homem</hi>»<hi > do conto-crónica de </hi><hi >Saramago </hi><hi rend="italic" >Os Animais Doidos de Cólera</hi><hi >, escrito em finais da</hi><hi > década de 60 do século XX: o </hi>último<hi > homem antes</hi><hi > do derradeiro </hi>último<hi > homem que as formigas, que povoam a</hi><hi > literatura de Saramago (como no romance </hi><hi rend="italic" >Levantado do Chão</hi><hi >), </hi><hi >hão de reduzir a matéria-prima de outras vidas não-humanas, visíveis </hi><hi >e invisíveis, unicelulares e pluricelulares, sem excluir os vírus (que </hi><hi >são o </hi>único<hi > organismo vivo que não possui células). Estamos </hi><hi >em 2020/2022, não em 2968, e esta não </hi>é<hi > a </hi><hi >primeira zoonose (doença transmitida de animais para o homem) que </hi><hi >a humanidade enfrenta (e desencadeia). Noutro lugar, afirmei: </hi>«<hi >a pandemia</hi><hi > provocada pela difusão rápida deste coronavírus, sinal e símbolo do</hi><hi > infinitamente pequeno que pode dizimar o ser humano, acontece muito</hi><hi > antes do ano “profetizado” por Saramago (2968) para o fim</hi><hi > do (nosso) mundo</hi>»<hi > (Nogueira 2022, 190). Contudo, pelas suas </hi><hi >características próprias (como ter um considerável período de incubação no </hi><hi >corpo humano antes de surgirem os sintomas, o que aumenta </hi><hi >o contágio; e pela sua universalidade, viabilizada pela globalização), esta </hi><hi >pandemia </hi>é<hi > uma antevisão do que acontecerá, se não antes, </hi><hi >em 2968: </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Talvez acabe mesmo. E se os animais vierem </hi><hi >a endoidecer de cólera e desencadearem esta guerra (2968, por </hi><hi >exemplo), ao menos o </hi>último<hi > homem, coberto de formigas que </hi><hi >o estraçalham, ainda poderá pensar que morre a lutar pela </hi><hi >humanidade… E será a primeira vez que tal acontece. (Saramago </hi><hi >1971, 137).</hi></p><p rend="text" ><hi >Se (ou quando) isto acontecer, dar-se-á a inversão completa</hi><hi > e definitiva do que acontece há séculos, bem antes e</hi><hi > sobretudo desde a Revolução Industrial, com o ser humano a</hi><hi > explorar sem limites todos os recursos naturais e todos os</hi><hi > animais. Nunca como hoje se falou tanto em crise global</hi><hi > do ambiente, nem se percebeu como agora que a Natureza</hi><hi > não pode suportar passivamente toda a desmesura humana e toda</hi><hi > a tecnologia.</hi></p><p rend="text" ><hi >Recorro a outra afirmação minha: </hi>«a<hi > visão saramaguiana </hi><hi >da nossa pertença ao mundo e da nossa responsabilidade em </hi><hi >relação a tudo quanto existe está sintonizada com o pensamento </hi><hi >ecológico e ambientalista mais evoluído» (Nogueira 2022, 379). Também Sassoli </hi><hi >viu as ruínas da casa que (mal) habitamos e quis </hi><hi >contribuir para uma nova </hi>ética<hi > da Natureza em geral e </hi><hi >da vida animal em particular, e para a denúncia eloquente </hi><hi >do descomedimento tecnológico e económico. O presidente do Parlamento Europeu </hi><hi >falava de </hi>«<hi >inovação tecnológica</hi>»<hi >, mas não de desenvolvimento ao</hi><hi > serviço do domínio ilimitado da Natureza e dos seus recursos.</hi><hi > Sem uma casa habitável, não pode haver um futuro digno,</hi><hi > nem (literalmente) vida para nós e para as outras espécies.</hi><hi > A libertação do humano e do não-humano acontece na prática</hi><hi > humana, mas tem de se verificar, antes de mais, nas</hi><hi > consciências individuais e coletivas. Era aí que a palavra de</hi><hi > um pensador como Sassoli queria atuar; </hi>é<hi > aí, na consciência</hi><hi > e nos atos de cada um de nós, que a</hi><hi > transformação começa.</hi></p><p rend="text" ><hi >David Sassoli não defendia reformas e mudanças impossíveis, </hi><hi >nem queria sim</hi><hi >plificar o que </hi>é<hi > humana, burocrática, científica e </hi><hi >institucionalmente complexo. Muito do seu labor como cidadão interventivo, em </hi><hi >Itália, na Europa e no mundo, consistiu em desconstruir uma </hi><hi >tendência que persiste porque quem detém os poderes político e </hi><hi >económico, nas diferentes </hi>áreas<hi > de decisão e de dominação, não </hi><hi >os quer simplificar e partilhar; quer, muito pelo contrário, complexificá-los, </hi><hi >aumentá-los e perpetuá-los. David Sassoli foi um homem de cultura </hi><hi >e de ação, sabia que a liberdade se constrói com </hi><hi >clarividência, com o envolvimento de toda a sociedade num caminho </hi><hi >sempre difícil de construção de entendimentos, com ‘cultura’ nos </hi><hi >vários sentidos do termo (educação enquanto processo de aquisição de </hi><hi >conhecimentos e de valores, princípios e normas de conduta, moderação, </hi><hi >capacidade de diálogo, respeito pelas diferenças de diverso tipo), não </hi><hi >com ideias mais ou menos assumidas e explícitas de supremacia </hi><hi >(cultural, económica, política, religiosa, geográfica, </hi>étnica).</p><p rend="text" ><hi >Evocar Sassoli e os seus</hi><hi > valores humanistas e políticos </hi>é<hi > não esquecer que a Europa</hi><hi > não pode alhear-se da sua responsabilidade moral e civilizacional, dos</hi><hi > princípios universais que o lema da Revolução Francesa (liberdade, igualdade,</hi><hi > fraternidade) condensa; </hi>é<hi > ter igualmente bem presente que a nossa</hi><hi > Europa não pode esquecer que de si nasceram males que</hi><hi > a levaram a uma autodevoração (as guerras europeias) e </hi>à<hi > devoração de praticamente todo o mundo, com a imposição de</hi><hi > valores supostamente universais pela mão de descobridores, conquistadores, missionários; que,</hi><hi > no seu interior, em especial na Europa Central culta e</hi><hi > evoluída, a infâmia atingiu requintes de crueldade massiva, programada e</hi><hi > científica (e pseudocientífica, como aconteceu com as muitas ‘leis’</hi><hi > ditadas por homens como o médico nazi Josef Mengele).</hi></p><p rend="text" ><hi >Convém </hi><hi >não ignorar, para não incorrermos na tentação de crer que </hi><hi >a arte, a literatura, a civilização, a sensibilidade, só por </hi><hi >si, implicam boa-fé e paz: Hitler queria ser pintor, Mussolini </hi><hi >lia muito e tocava guitarra (sozinho, durante horas, no campo), </hi><hi >Salazar ia </hi>à<hi > missa (com um olhar cândido). Sem valores </hi><hi >como aqueles que David Sassoli defendia, sem pensamento político e </hi><hi >económico, sem uma práxis voltada para o bem de todos </hi><hi >(sem exceção), a cultura pode não ser senão a antecâmara </hi><hi >da barbárie e da exclusão dos mais fracos (ou de </hi><hi >todos, como no totalitarismo).</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Louçã, F. 2018. “Marx e Engels na preparação de <hi rend="italic">O Capital. </hi>A suprema intriga da vida social.” In <hi rend="italic">O Capital de Karl Marx 150 </hi><hi rend="italic">Anos Depois</hi>, coords. C. Bastien, e J.V. Fagundes, 17-36. Coimbra: Edições Almedina.</p><p rend="bib_indx_bib" >Nogueira, C. 2022. <hi rend="italic">José Saramago: a Literatura</hi><hi rend="italic"> e o Mal</hi>. Lisboa: Tinta da China.</p><p rend="bib_indx_bib" >Saramago, J. 1971. <hi rend="italic">Deste Mundo e do Outro</hi>. Lisboa: Editora Arcádia.</p><p rend="bib_indx_bib" >Saramago, J. 2018. <hi rend="italic">O Caderno</hi>. Porto: Porto Editora.</p><p rend="bib_indx_bib" >Steiner, G. 2007. <hi rend="italic">A Ideia de Europa</hi>. Ensaio introdutório de R. Riemen. Prefácio de J.M.D. Barroso. Tradução de M. de F. St. Aubyn. Lisboa: Gradiva.</p>


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        <listBibl>
          <head>References</head>
          <bibl n="95383">Lou&amp;#231;&amp;#227;, F. 2018. “Marx e Engels na prepara&amp;#231;&amp;#227;o de O Capital. A suprema intriga da vida social”. In O Capital de Karl Marx 150 Anos Depois, coords. C. Bastien, e J.V. Fagundes. 17-36. Coimbra: Edi&amp;#231;&amp;#245;es Almedina.</bibl>
          <bibl n="95591">Nogueira, C. 2022. Jos&amp;#233; Saramago: a Literatura e o Mal. Lisboa: Tinta da China</bibl>
          <bibl n="95620">Saramago, J. 1971. Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editora Arc&amp;#225;dia.</bibl>
          <bibl n="95655">Saramago, J. 2018. O Caderno. Porto: Porto Editora.</bibl>
          <bibl n="95454">Steiner, G. 2007. A Ideia de Europa. Ensaio introdut&amp;#243;rio de R. Riemen. Pref&amp;#225;cio de J.M.D. Barroso. Tradu&amp;#231;&amp;#227;o de M. de F. St. Aubyn. Lisboa: Gradiva.</bibl>
        </listBibl>
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