<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?>
<TEI xmlns="http://www.tei-c.org/ns/1.0">
  <teiHeader>
    <fileDesc>
      <titleStmt>
        <title type="main" level="a">Os reptos e raptos da Europa</title>
        <author>
          <persName n="1">
            <forename>José Manuel de</forename>
            <surname>Vasconcelos</surname>
            <placeName type="affiliation">Portuguese Association of Editors, Spain</placeName>
          </persName>
        </author>
        <respStmt>
          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
        </respStmt>
      </titleStmt>
      <publicationStmt>
        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.11</idno>
        <availability>
          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
          <licence source="text" target="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode">
            <p>Content licence CC BY 4.0</p>
          </licence>
          <licence source="metadata" target="https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/legalcode">
            <p>Metadata licence CC0 1.0</p>
          </licence>
        </availability>
      </publicationStmt>
      <sourceDesc>
        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
      </sourceDesc>
    </fileDesc>
    <encodingDesc>
      <appInfo>
        <application version="2.2" ident="Booksflow">
          <desc>Digital edition XML powered by Booksflow</desc>
        </application>
      </appInfo>
    </encodingDesc>
    <profileDesc>
      <abstract xml:lang="en">
        <p>The project of European unity has oscillated between dream and disillusion. Its future will depend on its ability to know how to think and interpret Europe’s Historical lessons, particularly since the end of the nineteenth-century, keeping in mind its remote cultural roots and the values of freedom and solidarity that survived the hecatombs it went through. Thus, increasingly seeking social justice, Europe will be able to come closer to the values that, in a broad sense, characterize its identity, not shutting upon itself, but rather opening to the world, without losing its autonomy and its inventiveness.</p>
      </abstract>
      <textClass>
        <keywords>
          <list>
            <item>Future of Europe</item>
            <item>humanist values</item>
            <item>solidarity</item>
          </list>
        </keywords>
      </textClass>
    </profileDesc>
  </teiHeader>
  <text>
    <body>
      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.11<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.11" /></p>


<p rend="h1_chapter" >Os reptos e raptos da Europa </p><p rend="h1_author" >José Manuel de Vasconcelos</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_1" >Oggi la linea dell´orizzonte è scura</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2" >e la proda ribolle come una pentola.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2" >(Eugenio Montale)</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2" >L’Europa ci può aiutare a stare meglio al mondo.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3" >(David Sassoli)</p><p rend="text" ><hi >Os olhares sobre a História </hi><hi >da Europa evocam-me, por vezes, o mito de Sísifo no </hi><hi >que nele se manifesta de aspiração e decepção, esforço e </hi><hi >derrocada, impulso utópico e fracasso. As vicissitudes políticas e sociais </hi><hi >do velho continente nos </hi>últimos<hi > cento e cinquenta anos, que </hi><hi >mais directamente se projectaram no presente, a começar na guerra </hi><hi >franco-prussiana, têm sido objecto de investigação por parte de muitos </hi><hi >historiadores, mas também de reflexões por filósofos, escritores e artistas </hi><hi >que procuram a consistência, a natureza, a génese e limites </hi><hi >de uma ‘ideia da Europa’ e de uma ‘identidade</hi><hi > europeia’, delas resultando visões maioritariamente pouco optimistas quanto ao</hi><hi > futuro da sua almejada unidade política, ameaçada como parece estar</hi><hi > por dissonâncias várias. O sonho inicial de uma comunidade europeia</hi><hi > ‒ cuja primeira formulação terá sido a de Mazzini, nos</hi><hi > finais do século XIX, sob a expressão </hi>«<hi >Estados Unidos </hi><hi >da Europa</hi>»<hi > ‒ passou por atribulações e revezes históricos, chegando</hi><hi > </hi>às<hi > concretizações surgidas após o final da guerra de 1939-1945</hi><hi > e aos desenvolvimentos conhecidos até hoje, mas tem-se vindo a</hi><hi > desvanecer pouco a pouco, e a coesão indispensável para a</hi><hi > consolidação de uma Europa unida mas que respeite a diversidade</hi><hi > de vozes que a compõem não tem sido firme nas</hi><hi > práticas políticas, económicas e sociais a que temos assistido. Pensar</hi><hi > no passado, no presente e no futuro da Europa (tal</hi><hi > como nas vidas individuais, na história dos povos essas três</hi><hi > dimensões vivem umas nas outras, de modo indissociável), </hi>é<hi > apreciar</hi><hi > o desfile de opiniões e acções, tantas vezes de um</hi><hi > antagonismo incicatrizável, que vão da reanimação de razões para a</hi><hi > defesa da continuidade de um projecto que exibe diversas feridas</hi><hi > de percurso, </hi>às<hi > pedras impiedosas que a esse projecto têm</hi><hi > sido lançadas pelos que profetizam a sua mais ou menos</hi><hi > próxima desagregação, fundados em convicções ideológicas, primários ardores nacionalistas, ou</hi><hi > simplesmente na descrença provocada por certa mediocridade, hipocrisia e arrogância</hi><hi > de alguns responsáveis políticos, bem como na ineficácia de resultados</hi><hi > e nos sucessivos exemplos de uma solidariedade falsa ou pautada</hi><hi > por critérios desiguais, mais orientada por desígnios económicos de curto</hi><hi > e médio prazo e por estratégias políticas em que sobressaem</hi><hi > os meros interesses nacionais, regionais ou sectoriais, do que por</hi><hi > razões de verdadeira ajuda humana e humanitária. As raízes das</hi><hi > fragilidades europeias devem procurar-se em terrenos diversos, mas, sem dúvida,</hi><hi > um olhar sobre a História do continente, sobretudo desde o</hi><hi > final do século XIX, ajudará certamente a diagnósticos e sobretudo</hi><hi > prognósticos, infelizmente pouco animadores. As obras de historiadores como Eric</hi><hi > Hobsbawm e Tony Judt têm contribuído para uma utilíssima radiografia</hi><hi > histórica da Europa recente, nas suas contradições internas e nas</hi><hi > suas relações com o resto do mundo, dando a quem</hi><hi > reflecte sobre os destinos dos povos que a compõem, excelentes</hi><hi > bases para uma reflexão sóbria, nem excessivamente céptica e demolidora</hi><hi > nem superficialmente positiva. O rosto político da Europa actual tem</hi><hi > sombras preocupantes, rugas que não desapareceram, manchas diversas que desassossegam</hi><hi > aqueles em que ainda resistem centelhas de optimismo crítico. As</hi><hi > melhores reflexões literárias, quer ficcionais quer ensaísticas, sobre os múltiplos</hi><hi > aspectos da realidade europeia, deixam transparecer certa nostalgia de um</hi><hi > passado forçosamente irrecuperável, o que não </hi>é<hi > bom sinal, por</hi><hi > traduzir um sentimento de desconforto, de inadequação relativamente ao presente</hi><hi > que nos </hi>é<hi > dado viver. E não se diga que</hi><hi > os que não escondem reservas sobre a consistência da ideia</hi><hi > de unidade política e do futuro da Europa o fazem</hi><hi > por observarem os factos de um ponto de vista apenas</hi><hi > teórico, afastados dos problemas e desafios concretos que em grande</hi><hi > parte desconhecem. Num livro publicado há menos de dez anos,</hi><hi > Vasco Graça Moura, que para além de intelectual de indiscutível</hi><hi > envergadura, foi político e deputado do Parlamento Europeu, escrevia sobre</hi><hi > os pequenos e grandes desaguisados entre países europeus estas sintomáticas</hi><hi > reflexões:</hi></p><p rend="quotation_b" >As fraquezas de uns tornam-se o pretexto para as evasivas de outros. Os casos concretos trazem em si o germe da desagregação e da conflitualidade. A própria noção de uma identidade europeia sai prejudicada e as questões da cultura tendem a ser cada vez mais centrifugadas para um limbo de preocupações secundárias, com especial detrimento para algumas zonas periféricas (Moura 2013, 16).</p><p rend="text" >É<hi > certo que as preocupações do escritor </hi><hi >se centravam particularmente nas questões culturais, mas tinha toda a </hi><hi >razão nisso, pois só elas podem verdadeiramente cimentar a unidade </hi><hi >europeia e não os vectores económicos, sem dúvida muito importantes, </hi><hi >mas circunstanciais, com prazos de validade geralmente curtos e obedecendo </hi><hi >a lógicas e estratégias apenas de alguns países. A cultura </hi><hi >e a educação têm sido bastante menosprezadas no que respeita </hi>à<hi > profundidade e amadurecimento dos conhecimentos, bem como na seriedade </hi><hi >e ponderação do trabalho reflexivo, e em sua substituição, tem </hi><hi >vindo a ser cultivado um ensino pautado pela rapidez, cada </hi><hi >vez mais abreviado, de natureza essencialmente tecnicista, com manifesto prejuízo </hi><hi >para uma formação integral, por se menosprezarem as ciências humanas, </hi><hi >esquecendo o saudável apelo </hi>às<hi > </hi>«<hi >duas culturas</hi>»<hi > (preconizadas por </hi><hi >vários autores, na esteira da famosa formulação de C. P. </hi><hi >Snow) e obedecendo aos ditames de uma concepção errada de </hi><hi >formação, em ordem a servir exclusivamente os interesses económicos dominantes. </hi><hi >As ciências humanas são parentes pobres (excepto em algumas </hi>áreas<hi > </hi><hi >de particular interesse económico e de aplicação mais ou menos </hi><hi >imediata), frequentemente relegadas para segundo plano nos programas escolares secundários </hi><hi >e universitários e, ainda que sem se dizer frontalmente, tem-se </hi><hi >vindo a negligenciar, a reduzir e mesmo a desincentivar o </hi><hi >seu estudo. E, no entanto, a maioria dos intelectuais europeus </hi><hi >que mais directamente pensaram a Europa, nunca deixaram de sublinhar </hi><hi >a importância real do estudo e da reflexão de matérias </hi><hi >que, a médio e longo prazo, visam a formação humanista </hi><hi >dos indivíduos, condição indispensável para a rejeição da xenofobia, do </hi><hi >racismo e dos populismos que se têm manifestado ultimamente de </hi><hi >forma preocupante. Grandes escritores e pensadores dos problemas europeus sempre </hi><hi >sublinharam a necessidade de uma consciência livre, em ordem a </hi><hi >aproximarmo-nos da justiça, da solidariedade, do pacifismo e do progresso. </hi><hi >Para isso, o europeísmo não pode basear-se num pensamento fechado, </hi><hi >redutor e selectivo, e em nacionalismos efervescentes, tendo de prosseguir </hi><hi >caminhos de vocação internacionalista e pacifista assentes essencialmente no culto </hi><hi >e na prática do desenvolvimento do espírito e longe de </hi><hi >calculismos economicistas. Desígnios estes que, no actual quadro europeu, se </hi><hi >revelam dificílimos, para não dizer impossíveis. Romain Rolland, um dos </hi><hi >maiores pensadores da Europa e das relações a estimular no </hi><hi >espaço da convivência entre os povos, numa carta a Louis </hi><hi >Gillet, cujo pensamento conservador e católico se revelava em bastantes </hi><hi >aspectos diferente do seu ‒ o que nunca impediu uma </hi><hi >sólida amizade, o respeito e admiração recíprocas e um fértil </hi><hi >diálogo ‒, num apelo de congregação, escreveu as seguintes palavras:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Somos</hi><hi > um punhado de homens dispersos pela Europa, que tratamos de</hi><hi > vencer em nós a bestialidade do corpo e do espírito,</hi><hi > de arrancar o homem ao nada, de fazer luzir a</hi><hi > razão na noite destes mortos vivos […] </hi>É<hi > preciso lutar.</hi><hi > Não basta sermos nós próprios: há que quebrar o que</hi><hi > impede, o que abafa e envilece a vida. </hi>É<hi > o</hi><hi > dever de nós todos; não nos devemos esquivar, por amor</hi><hi > da tranquilidade, com receio dos </hi>ódios<hi > suscitados» (Rolland </hi><hi rend="italic" >apud </hi><hi >Reis</hi><hi > 2022, 34).</hi></p><p rend="text" ><hi >E não se tratava de meras palavras. A</hi><hi > sua vida, numa </hi>época<hi > de grandes desvarios, </hi>ódios<hi > e confrontações</hi><hi > terríveis, foi um exemplo admirável de coerência nas ideias, de</hi><hi > actuação permanente e persistente racionalidade ao serviço do pacifismo e</hi><hi > da aproximação entre os povos, nomeadamente pela fundação, em 1923,</hi><hi > da revista </hi><hi rend="italic" >Europe</hi><hi >, de ampla visão europeísta e internacionalista, </hi><hi >que ainda hoje se publica e que tem tido um </hi><hi >papel fundamental no confronto saudável das ideias e da aproximação </hi><hi >da diversidade, através das grandes causas do espírito e da </hi><hi >solidariedade humana.</hi></p><p rend="text" ><hi >A uniformização </hi>é<hi > um dos grandes pecados da Europa.</hi><hi > A simplificação redutora dos problemas e a imposição de ritmos</hi><hi > e velocidades resultantes em grande medida dos fenómenos da globalização,</hi><hi > que apenas servem desígnios económicos de rapacidade extrema e de</hi><hi > curto prazo, a massificação e nivelamente dos hábitos e comportamentos,</hi><hi > a intoxicação infocrática, os excessos de robotização, a perda de</hi><hi > autenticidade dos lugares e das vidas </hi>é<hi > um dos problemas</hi><hi > mais preocupantes da nossa existência enquanto cidadãos europeus. Mas, também</hi><hi > na perspectiva económico-social, a Europa </hi>é<hi > um vasto e preocupante</hi><hi > espaço de desigualdades. A alguns dos seus mais recentes dirigentes</hi><hi > políticos falta, sobretudo, espírito e formação humanista, coerência intelectual e</hi><hi > sabedoria </hi>ética.<hi > A sociedade da informação invadiu os hábitos de</hi><hi > vida europeia, de modo desabrido, mesmo violento, e expulsou </hi><hi >tradições de educação, formação, reflexão, informação autêntica e expressão, indispensáveis</hi><hi > a uma sociedade equilibrada e justa, e introduziu e generalizou</hi><hi > o simulacro, a propaganda, a comunicação estereotipada, a deformação tecnocrática,</hi><hi > chegando frequentemente </hi>à<hi > estupidez e </hi>à<hi > boçalidade. Alguns exemplos de</hi><hi > sensatez crítica têm-se erguido, principalmente em sectores intelectuais, mas parecem</hi><hi > não passar de vozes bradando no deserto. </hi>É<hi > o caso</hi><hi > notável do Instituto Nexus, fundado e dirigido pelo filósofo Rob</hi><hi > Riemen, que muito tem feito em prol de um debate</hi><hi > cultural permanente sobre os grandes problemas ocidentais, numa tradição fundamental</hi><hi > de que, mais de meio século atrás, foi também exemplo</hi><hi > o Instituto Warburg, fundado em Londres, em 1944, para o</hi><hi > desenvolvimento da investigação na História de Arte e as projecções</hi><hi > da antiguidade clássica na história e culturas europeias, tendo como</hi><hi > centro o pensamento e a biblioteca de Aby Warburg, para</hi><hi > ali transferida em 1933, perante o recrudescimento da ameaça nazi-fascista,</hi><hi > biblioteca orientada maioritariamente para o estudo das artes visuais e</hi><hi > das ciências humanas. O manifesto desprezo institucional pelo ensino da</hi><hi > Filosofia no ensino secundário, a redução da História </hi>à<hi > acumulação</hi><hi > sequencial de factos sem grandes esforços de problematização e perspectivação,</hi><hi > a falta de estimulação do exercício crítico, o quase desprezo</hi><hi > a que estão votadas globalmente as ciências humanas, e a</hi><hi > prevalência organizada de saberes tecnológicos orientados para responder </hi>às<hi > exigências</hi><hi > de rapidez, automatização e lucro dos poderosos grupos económicos, gerando</hi><hi > uma sociedade cada vez mais fria, tecnocrática, desigual, plena de</hi><hi > contrastes e desumana, </hi>é<hi > a lacuna essencial a que chegámos,</hi><hi > mercê de políticas preocupadas sobretudo em servir interesses financeiros, políticos,</hi><hi > mediáticos, e até futebolísticos, denotando um nocivo utilitarismo economicista, em</hi><hi > detrimento de uma sociedade de valores fundada numa educação pensada</hi><hi > para a formação crítica completa dos indivíduos. Como se afirma,</hi><hi > com plena razão, numa passagem de um livro do já</hi><hi > referido Rob Riemen: </hi>«As<hi > nossas universidades ensinam, sobretudo, a fazer</hi><hi > dinheiro, não a pensar pela própria cabeça» (Riemen 2016, 82).</hi></p><p rend="text" ><hi >A Europa esqueceu em grande parte o melhor das suas </hi><hi >origens, a sua memória, a sua génese, a matriz greco-romana, </hi><hi >a centralidade do pensamento especulativo, a espiritualidade e a metafísica </hi><hi >que, com todas as suas limitações e reticências inconclusivas, </hi>é<hi > </hi><hi >a forma própria da </hi>ânsia<hi > humana se questionar e de </hi><hi >problematizar abstractamente o desconhecido. Percursos mentais que podem parecer inúteis </hi><hi >aos que, </hi>ávidos<hi > de lucros, só se entregam a raciocínios </hi><hi >calculistas e pragmáticos, mas que são o que mais profundamente </hi><hi >caracteriza o homem como </hi>«<hi >bicho da terra tão pequeno</hi>»<hi > (Camões). A reflexão axiológica e </hi>ética<hi > foi escorraçada pelo </hi><hi >pragmatismo e utilitarismo mais chão, as tradições de pensamento e </hi><hi >de confronto dos saberes, a embriaguês do desconhecido ‒ essa </hi><hi >arena que os gregos nos deixaram desde a aurora pré-socrática, </hi><hi >base da tradição idealista, mas também científico-cosmológica, consubstanciada na filosofia, </hi><hi >nas religiões e no saber das ciências ‒, perdeu o </hi><hi >seu pendor especulativo e abstractizante e foi substituída, com patente </hi><hi >hipocrisia, por um tecnicismo de actuação imediata, sem dúvida </hi>útil,<hi > </hi><hi >atentos os objectivos que persegue, mas desprovidos do encantamento e </hi><hi >da paixão de que o homem necessita no mais fundo </hi><hi >de si. E, no entanto, a Europa ainda não perdeu </hi><hi >completamente o seu fascínio, ainda há aspectos que resistem e </hi><hi >que devemos preservar, impedindo a descaracterização das culturas e a </hi><hi >uniformização crescente que varre as diferenças entre povos, regiões, nações </hi><hi >e abre caminho a um imperialismo cultural, bem visível na </hi><hi >submissão linguística operada em nome da fluidez económica e dos </hi><hi >grandes interesses do capital extra europeu.</hi></p><p rend="text" ><hi >Natália Correia, num livro de</hi><hi > 1951 em que relata as suas impressões de uma viagem</hi><hi > aos Estados Unidos (à América, como então se dizia, numa</hi><hi > sinédoque bem reveladora da sobreposição de um só país ao</hi><hi > restante continente americano), fala-nos de modo bem tocante da importância</hi><hi > que tem a consciência das origens, sobretudo quando confrontadas com</hi><hi > as fragilidades e contradições de um mundo em crescimento vigoroso,</hi><hi > mas impreciso:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Foi na América que tive a grande revelação. </hi><hi >Levara comigo as minhas raízes europeias. Mas uma visão de </hi><hi >contrastes e de agressivos antagonismos trouxe-me </hi>à<hi > consciência os ramos </hi><hi >gerados na profundidade das minhas raízes. Descobri então com deslumbramento </hi><hi >a minha posição no mundo: era EUROPEIA. E os laços </hi><hi >temperamentais que me prendiam </hi>à<hi > família europeia, deixaram de ser </hi><hi >líricas aspirações para se fundirem no aço dum deliberado amor </hi><hi >(Correia 1951, 9).</hi></p><p rend="text" ><hi >Este desabafo da sempre frontal escritora portuguesa, </hi><hi >compreende-se melhor se atendermos ao ano da publicação do livro: </hi><hi >a guerra terminara apenas há seis anos e o sentimento </hi><hi >de libertação e de solidariedade estava bem vivo ainda. Era </hi><hi >o tempo de um humanismo sólido e actuante que se </hi><hi >opunha ao mundo de contrastes fortes e de nascente agressividade </hi><hi >que encontrou do outro lado do oceano. A Europa de </hi><hi >que fala a escritora, vista de fora, surgia aos olhos </hi><hi >da maioria dos portugueses como uma montra de tentações, dada </hi><hi >a marginalização a que Portugal estava votado e que se </hi><hi >iria agravar cada vez mais. Por outro lado, está presente </hi><hi >nestas palavras aquele sentimento de ‘despaísamento’ que frequentemente se </hi><hi >sente quando entramos em espaços grandiosos em que pressentimos a </hi><hi >insegurança do desconhecido e a desmesura que por vezes carrega </hi><hi >consigo um sentimento de risco e de ameaça e nos </hi><hi >faz, pela sensibilidade imediata e sem contornos reflexivos, voltar mentalmente </hi><hi >aos espaços que correspondem </hi>à<hi > escala das nossas vidas e </hi><hi >dos nossos hábitos. Jean Baudillard referiu-se a isso nestes termos: </hi>«A<hi > América corresponde para o Europeu, ainda hoje, a uma </hi><hi >forma subjacente de exílio, a um fantasma de emigração e </hi><hi >de exílio, e portanto a uma forma de interiorização da </hi><hi >sua própria cultura» (Baudrillard 1989, 83). Oxalá continue a ter</hi><hi > razão, mas duvido…</hi></p><p rend="text" ><hi >As </hi>épocas<hi > do pensamento dialogante, da vontade </hi><hi >de ir </hi>às<hi > raízes dos problemas, da acção pensada eticamente, </hi><hi >que percorre tantas importantes reflexões do passado, parece estar a </hi><hi >desaparecer. Esse tempo, com fracturas várias e intensidades diversas, que </hi><hi >George Steiner condensa na imagem dos cafés europeus de um </hi><hi >passado recente, relevando neles a permanência, o convívio e o </hi><hi >debate que representavam, está definitivamente morto. E se já o </hi><hi >sentíamos em 2004, data da publicação do livro </hi><hi rend="italic" >The idea </hi><hi rend="italic" >of Europe</hi><hi >, no qual encontramos o saudoso relembrar desses ambientes</hi><hi > de proximidade socializante, hoje não temos quaisquer ilusões: os cafés</hi><hi > de que fala com nostalgia quase idílica, não passam de</hi><hi > um desejo perdido. E sabemos que essa Europa do encontro,</hi><hi > do diálogo, das polémicas saudáveis, onde se escrevia, convivia e</hi><hi > por vezes se vivia com intensidade, não existe já como</hi><hi > vivência real, como exercício de quotidianidade. Os cafés como marcas</hi><hi > do espírito europeu, santuários de convivialidade, de vizinhança intelectual e</hi><hi > de saudável confronto de ideias, onde se desfrutava uma atmosfera</hi><hi > suave e propícia ao diálogo, foram substituídos pela crueza apressada</hi><hi > dos Mc</hi>Donald’s<hi > e outros balcões de </hi><hi rend="italic" >fast-food</hi><hi >. A Europa </hi><hi >nostálgica do grande pensador de </hi><hi rend="italic" >After Babel</hi><hi >, ele próprio um</hi><hi > impressionante exemplo de abertura dialogante e ecletismo, tornou-se opaca, monocórdica,</hi><hi > americanizando-se, no que este conceito tem de mais deplorável.</hi></p><p rend="text" ><hi >O </hi><hi >sonho comunitário e os valores que animaram alguns dos fundadores </hi><hi >do projecto europeu (Jean Monnet, Robert Schumann, Jacques Delors. E </hi><hi >a estes nomes fundamentais da história europeísta, teremos de juntar </hi><hi >o do recentemente falecido David Sassoli, personalidade humanista e político </hi><hi >admirado e consensual) não passa hoje de uma estrutura fortemente </hi><hi >burocratizada, uma central emissora de directivas, por vezes precipitadas, manchada </hi><hi >por decisões irreflectidas, tantas vezes ao serviço de políticas que </hi><hi >estão longe de responder ao interesse comum dos povos europeus, </hi><hi >ignorando clivagens históricas e mesmo fracturas expostas, dificilmente ultrapassáveis.</hi></p><p rend="text" ><hi >A Europa</hi><hi > de hoje não será já exactamente aquela que Hans Magnus</hi><hi > Enzensberger descrevia nos vários capítulos do seu livro publicado em</hi><hi > 1987, com o título bem expressivo </hi><hi rend="italic" >Ach Europa!</hi><hi >. A </hi><hi >manta de retalhos de que esse livro dá conta, com </hi><hi >a variedade de observações e de impressões resultantes de viagens </hi><hi >a cidades tão diferentes como Helsínquia, Budapeste, Lisboa e Bucareste, </hi><hi >deixou de existir. Muita coisa mudou (em alguns casos apenas </hi>à<hi > superfície), houve transformações de peso, mudanças de regimes e </hi><hi >de hábitos de vida. Muitas pessoas vivem hoje melhor, do </hi><hi >ponto de vista estrictamente material, mas o movimento que se </hi><hi >verificou foi no sentido de uma uniformização e descaracterização cada </hi><hi >vez maior, e não se criaram alicerces para um verdadeiro </hi><hi >e sólido espírito de solidariedade, embora tenha havido tentativas louváveis, </hi><hi >que logo sofreram o embate de egoísmos nacionais e o </hi><hi >ressurgimento de racismos nunca desaparecidos. As melhorias materiais (com destaque </hi><hi >para as verificadas em países que nunca foram ricos), desacompanhadas </hi><hi >de políticas sérias de educação e formação </hi>ética<hi > e humanista </hi><hi >dos indivíduos, são importantes, mas manifestamente insuficientes. A persistência de </hi><hi >formas e modelos que já se revelaram ineficazes na consecução </hi><hi >dos ideais de solidariedade e comunitarismo que animaram os fundadores </hi><hi >da unidade europeia, a subserviência ancilar relativamente a estados poderosos </hi><hi >e seus interesses hegemónicos, não será certamente o melhor caminho </hi><hi >para a Europa. Aos seus dirigentes de hoje falta visão </hi><hi >e determinação fundamentada no pensamento e na </hi>ética.<hi > Falta-lhes sonho. </hi><hi >Por isso, concluo com um pensamento de Eduardo Lourenço, um </hi><hi >dos grandes pensadores da problemática identitária da Europa, extraído do </hi><hi >seu livro </hi><hi rend="italic" >Nós e a Europa ou as duas razões</hi><hi >.</hi><hi > Trata-se mais propriamente de uma exortação que, para além de</hi><hi > evocação literária, </hi>é<hi > um conselho fundamental de vida, para povos</hi><hi > e pessoas singulares: </hi>«É<hi > quixotescamente que devemos viver a Europa</hi><hi > e desejar que a Europa viva» (Lourenço 1988, 37).</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Baudrillard, J. 1989. <hi rend="italic">América.</hi> Lisboa: João Azevedo Editor.</p><p rend="bib_indx_bib" >Correia, N. 1951. <hi rend="italic">Descobri que era Europeia – impressões de uma viagem </hi><hi rend="italic">à América</hi>. Lisboa: Portugália Editora.</p><p rend="bib_indx_bib" >Lourenço, E. 1988. <hi rend="italic">Nós e </hi><hi rend="italic">a Europa ou as duas razões.</hi> Lisboa: IN-CM.</p><p rend="bib_indx_bib" >Moura, V. G. 2013. <hi rend="italic">A Identidade Cultural Europeia.</hi> Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.</p><p rend="bib_indx_bib" >Reis, J. 2022. <hi rend="italic">Romain Rolland. Uma Consciência Livre.</hi> Lisboa: edições Parsifal.</p><p rend="bib_indx_bib" >Riemen, R. 2016. <hi rend="italic">O Regresso da Princesa Europa.</hi> Lisboa: Bizâncio.</p>



      <div>
        <listBibl>
          <head>References</head>
          <bibl n="95641">Baudrillard, J. 1989. Am&amp;#233;rica. Lisboa: Jo&amp;#227;o Azevedo Editor.</bibl>
          <bibl n="95510">Correia, N. 1951. Descobri que era Europeia – impress&amp;#245;es de uma viagem &amp;#224; Am&amp;#233;rica. Lisboa: Portug&amp;#225;lia Editora.</bibl>
          <bibl n="95624">Louren&amp;#231;o, E. 1988. N&amp;#243;s e a Europa ou as duas raz&amp;#245;es. Lisboa: IN-CM</bibl>
          <bibl n="95541">Moura, V.G. 2013. A identidade cultural europeia. Lisboa: Funda&amp;#231;&amp;#227;o Francisco Manuel dos Santos.</bibl>
          <bibl n="95592">Reis, J. 2022. Romain Rolland. Uma Consci&amp;#234;ncia Livre. Lisboa: edi&amp;#231;&amp;#245;es Parsifal</bibl>
          <bibl n="95629">Riemen, R. 2016. O Regresso da Princesa Europa. Lisboa: Biz&amp;#226;ncio.</bibl>
        </listBibl>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>