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        <title type="main" level="a">Comparar a Europa. O conceito de literatura europeia como fator de integração política</title>
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            <forename>Gabriel</forename>
            <surname>Magalhães</surname>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.20</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
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        <p>Starting with the last European discourse of David Sassoli, our intention is to reflect on Europe, specifically, on the concept of European literature as a factor of political integration.</p>
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            <item>Europe</item>
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            <item>politics</item>
            <item>Sassoli</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.20<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.20" /></p>






<p rend="h1_chapter" >Comparar a Europa. O conceito de literatura europeia como fator de integração política</p><p rend="h1_author" >Gabriel Magalhães</p><p rend="text" ><hi >No seu </hi>último<hi > discurso, pronunciado ao </hi><hi >Conselho Europeu no dia 16 de dezembro de 2021, David </hi><hi >Sassoli exclamava sobre o processo de construção comunitária em curso </hi><hi >no nosso continente: </hi>«Dovremo<hi > innovare in tutti i settori!» (Sassoli </hi><hi >2022a). Esta afirmação entusiástica e inspiradora ecoava outra, já presente </hi><hi >no seu discurso de tomada de posse como Presidente do </hi><hi >Parlamento Europeu, pronunciado em 3 de julho de 2019: </hi>«[…]<hi > </hi><hi >abbiamo bisogno di riforme, di maggiore trasparenza, di innovazione» (Sassoli </hi><hi >2022b).</hi> <hi >O presente estudo – que se integra num volume </hi><hi >de homenagem a David Sassoli – pretende, ainda que modestamente, </hi><hi >inovar, apresentando algumas reflexões e propostas que permitiriam que o </hi><hi >conceito de literatura europeia se transformasse numa </hi>útil<hi > e preciosa </hi><hi >ferramenta para o aprofundamento da construção de uma Europa plenamente </hi><hi >comunitária.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na verdade, a construção de uma comunidade de nações no</hi><hi > continente europeu – comunidade essa que deveria tornar-se ela mesma</hi><hi > uma nova híper-nacionalidade –, tem-se feito sobretudo pela via económica.</hi><hi > Como </hi>é<hi > sabido, começou pelo carvão e o aço, desembocando</hi><hi > mais tarde numa moeda: o euro. Se em tempos de</hi><hi > prosperidade este motor económico e monetário funcionou bem, em </hi>épocas<hi > de crise tem-se revelado problemático, porventura insuficiente. Na atualidade, sentimos</hi><hi > que uma Europa empobrecida corre o risco de ir deixando</hi><hi > de ser europeia, perdendo gradualmente o seu espírito comunitário. Perante</hi><hi > esta situação, começou-se a falar na ideia de «Europa Cultural</hi>»<hi > (cfr. Franco 2012, 9, 12). Trata-se de usar novos</hi><hi > cimentos, novas argamassas para a construção de uma comunidade de</hi><hi > nações no nosso continente. Este artigo pretende propor algumas reflexões,</hi><hi > sugerir algumas linhas de orientação para o papel que uma</hi><hi > literatura europeia assumiria nesse processo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Serve a literatura para construir </hi><hi >a Europa? Poderia ela ter uma utilidade deste tipo? Principiamos </hi><hi >por estas perguntas. Com efeito, ao longo do século passado </hi><hi >ocorreu uma secreta batalha entre os teóricos que quiseram saber </hi><hi >o que era o texto literário em si mesmo, assumindo </hi><hi >uma perspetiva e processos ‘científicos’ – e aqueles pensadores </hi><hi >que propunham para destino das letras uma revolução social, dando-lhe </hi><hi >pois uma finalidade ‘técnica’. Para escolas como a formalista</hi><hi > ou a estruturalista, a literatura transformou-se em ‘literariedade’: </hi><hi >uma palavra que pôs os textos dentro de um tubo </hi><hi >de ensaio; para outros, o dever do escritor seria transformar </hi><hi >a sociedade, constituindo, pois, a obra literária sobretudo um gesto </hi><hi >humanista. No rescaldo da revolução de 1974, podemos encontrar um </hi><hi >volume que testemunha bem esta tensão essencial (cfr. International Association</hi><hi > of Literary Critics 1977).</hi></p><p rend="text" ><hi >Exatamente como o projeto socialista se </hi><hi >derrubou, do mesmo modo a ideia de uma finalidade social </hi><hi >do texto literário foi derrapando até se esvair quase por </hi><hi >completo. A deriva da desconstrução e o jogo de espelhos </hi><hi >dos estudos de receção transformaram a literatura numa patinagem artística </hi><hi >de interpretações diversas. Perdeu-se o sentido da sua finalidade. Ou, </hi><hi >por outras palavras: essa finalidade estilhaçou-se num permanente jogo lúdico. </hi><hi >Por vezes, fica-se com a impressão de que a obra </hi><hi >literária se tornou um brinquedo para o crítico – e </hi><hi >a sociedade, enquanto coletividade, ficou sem saber o que fazer </hi><hi >dela. Este </hi>é<hi > um dos motivos, certamente, do progressivo apagamento </hi><hi >da presença do objeto literário no sistema de ensino.</hi></p><p rend="text" ><hi >Defender que</hi><hi > a obra literária pode ter um papel na construção da</hi><hi > Europa implica também, pois, regressar ao conceito de utilidade da</hi><hi > literatura. Voltamos, por conseguinte, a Horácio e </hi>à<hi > sua </hi><hi rend="italic" >Epístola</hi><hi rend="italic" > aos Pisões</hi><hi >: </hi>à<hi > célebre ideia de </hi>«<hi >lectorem delectando pariterque</hi><hi > monendo</hi>»<hi > – enfim, deleitar e ensinar quem lê (cfr.</hi><hi > Horácio 1992, 106). Uma lição horaciana que terá infindáveis </hi><hi >ecos na história literária do Ocidente, sendo um dos mais </hi><hi >ilustres aquele passo de Cervantes, integrado na sua magna obra </hi><hi >de 1605, em que um cónego afirma: </hi>«el<hi > fin mejor </hi><hi >que se pretende en los escritos, que es enseñar y </hi><hi >deleitar juntamente, como ya tengo dicho» (Cervantes 1982, 543).</hi></p><p rend="text" ><hi >E </hi><hi >a esta ideia clássica de Horácio, que se transformou numa </hi><hi >música de fundo da literatura ocidental, acrescentamos uma outra: o </hi><hi >objeto literário possui uma capacidade notável de agregar comunidades humanas </hi><hi >– de construir nações. Sabemos isto desde que os israelitas </hi><hi >se refugiaram como povo </hi>à<hi > sombra das muralhas dos seus </hi><hi >livros sacros, umas obras que, segundo Northrop Frye, são também </hi><hi >literárias</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-017-backlink"><ref target="_20.html#footnote-017">1</ref></hi></hi><hi >. De igual modo gregos e romanos tomaram como </hi><hi >bandeiras os poemas homéricos e a </hi><hi rend="italic" >Eneida</hi><hi >. E </hi>à<hi > semelhança</hi><hi > do povo eleito, das grandes culturas clássicas, as nações europeias</hi><hi > também se fortificaram nas cidadelas dos seus maiores livros. </hi><hi rend="italic" >Os</hi><hi rend="italic" > Lusíadas</hi><hi >, </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi >, </hi><hi rend="italic" >El ingenioso hidalgo D. Quijote de la</hi><hi rend="italic" > Mancha</hi><hi > constituem exemplos peninsulares dessas obras que funcionam como catedrais</hi><hi > das nacionalidades.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por conseguinte, se a literatura ajudou a formar </hi><hi >comunidades humanas, a dar-lhes solidez e consistência desde há milhares </hi><hi >de anos – também o poderá fazer hoje em dia, </hi><hi >no caso da Europa</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-016-backlink"><ref target="_20.html#footnote-016">2</ref></hi></hi><hi >. E aqui </hi>é<hi > importante entrar </hi><hi >noutra </hi>área<hi > da nossa reflexão. O Ocidente passa por um </hi><hi >tempo em que acredita demasiado nas imagens. Primeiro foi o </hi><hi >cinema, cuja nova beleza, eivada de técnica, não perturbou o </hi><hi >nosso equilíbrio cultural. Veio depois, porém, a televisão, que de </hi><hi >facto o fez, transformando-se naquilo a que alguns chamaram uma </hi><hi >escola paralela (cfr. Porcher 1974)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-015-backlink"><ref target="_20.html#footnote-015">3</ref></hi></hi><hi >. E a chegada da</hi><hi > Internet e do mundo digital elevou ao cubo a presença</hi><hi > das imagens na nossa sociedade. Tudo isto parece pôr em</hi><hi > causa, de forma dramática, o papel do livro e também</hi><hi > o lugar da literatura na vida social.</hi></p><p rend="text" ><hi >Começamos a perceber </hi><hi >que a maneira como nos entregamos </hi>às<hi > imagens empobreceu as </hi><hi >nossas sociedades. Na verdade, trata-se de fenómenos recentes, que tiveram </hi><hi >o seu primeiro grande analista em Marshall McLuhan (cfr. McLuhan</hi><hi > 1962)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-014-backlink"><ref target="_20.html#footnote-014">4</ref></hi></hi><hi >. O certo </hi>é<hi > que o modo como o</hi><hi > Ocidente entra em decadência, ao mesmo tempo que a sua</hi><hi > cultura se torna visual – representa um sinal inequívoco das</hi><hi > fragilidades dessa visualidade excessiva. Por outro lado, o alto </hi>índice<hi > de desemprego entre os mais jovens, algo que surge um</hi><hi > pouco por toda a Europa, mostra que uma formação com</hi><hi > base em imagens não abrirá os mesmos horizontes que um</hi><hi > processo educativo assente na palavra. A Europa já percebeu isto</hi><hi > e estão a ser gerados programas que tentam contrariar a</hi><hi > dimensão excessivamente icónica dos processos sociais e pedagógicos</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-013-backlink"><ref target="_20.html#footnote-013">5</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Encontramo-nos </hi><hi >aqui, numa questão aparentemente tão contemporânea, com um debate com </hi><hi >milhares de anos. Quando a religião judaica opta por proibir </hi><hi >a adoração de imagens (cfr. </hi>Êxodo,<hi > 20, 4-6), quando o</hi><hi > protestantismo vai um pouco na mesma linha</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-012-backlink"><ref target="_20.html#footnote-012">6</ref></hi></hi><hi > – ambas </hi><hi >as religiões afirmam o poder da palavra. E o percurso </hi><hi >que, a partir de aí, fizeram, foi em boa parte </hi><hi >uma história de sucesso. Na atualidade, estamos muito imbuídos dessa </hi><hi >ideia feita, quase um chavão, segundo a qual uma imagem </hi><hi >vale mais que mil palavras, sem nos lembrarmos de que </hi><hi >um </hi>único<hi > vocábulo, como o simples termo ‘mesa’, pode</hi><hi > servir para designar milhões de realidades materiais diversas. Com a</hi><hi > palavra ‘mesa’, eu consigo nomear, de um modo </hi><hi >quase genésico, todas as mesas do mundo inteiro. Tudo indica </hi><hi >que, na Europa, nos enganamos ao sobrevalorizar as imagens.</hi></p><p rend="text" ><hi >Voltar, pois,</hi><hi > ao livro, </hi>à<hi > literatura e, em concreto, </hi>à<hi > noção de</hi><hi > literatura europeia serviria para revitalizar as nossas sociedades – e</hi><hi > também para principiar a cicatrizar as feridas dos erros cometidos.</hi><hi > E este </hi>é<hi > o momento de entrarmos nas objeções mais</hi><hi > teóricas, mais estritamente ‘científicas’ que se podem fazer a</hi><hi > este projeto. Em primeiro lugar, surge a questão de sabermos</hi><hi > se existe realmente um sistema literário europeu. Poderemos identificar na</hi><hi > Europa as «systemic rules» de que fala Torres Feijó?</hi><hi > (cfr. Torres Feijó 2011, 2). Na realidade, este mesmo</hi><hi > autor nos lança na pista certa quando afirma que a</hi><hi > criação de sistemas literários tem muito a ver com decisões</hi><hi > sociais, com </hi>«mechanisms<hi > of struggle, appropriation, and imposition» (Torres Feijó</hi><hi > 2011, 7). No fundo, isto recorda-nos que a existência </hi><hi >dos sistemas literários </hi>é<hi > fundamentalmente uma escolha feita por uma </hi><hi >comunidade: quando o Brasil resolveu ser independente, também decidiu criar </hi><hi >um sistema literário brasileiro. Não </hi>é,<hi > pois, científica ou teoricamente </hi><hi >que as literaturas se justificam a si mesmas, mas sim </hi><hi >de uma maneira histórica e cultural.</hi></p><p rend="text" ><hi >Se os europeus decidirem que</hi><hi > existe uma literatura europeia, seja como sistema literário ou como</hi><hi > um sistema de sistemas, a verdade </hi>é<hi > que a literatura</hi><hi > europeia existirá. Do mesmo modo que, em Linguística, </hi>é<hi > teoricamente</hi><hi > impossível distinguir, de um modo definitivo, um idioma de um</hi><hi > dialeto</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-011-backlink"><ref target="_20.html#footnote-011">7</ref></hi></hi><hi >, de idêntica maneira a afirmação de um sistema</hi><hi > literário como realidade autónoma passa mais por uma decisão do</hi><hi > que por uma reflexão. Mas a nós o nosso papel</hi><hi > de comparatistas obriga-nos a refletir. E existe uma pergunta que</hi><hi > inevitavelmente se coloca: como será possível construir um sistema literário</hi><hi > com tantas línguas diversas como as que existem na Europa?</hi></p><p rend="text" ><hi >Não nos custa admitir a consistência de uma literatura canadiana, </hi><hi >com base em dois idiomas, o francês e o inglês. </hi><hi >Mas será possível uma literatura europeia que fale estónio, húngaro, </hi><hi >finlandês, espanhol e sueco, entre muitos outros idiomas? Colocamos esta </hi><hi >pergunta de um modo caricato, para percebermos, na iminência do </hi><hi >riso, a complicação deste problema. Contudo, quando falamos em literatura </hi><hi >romântica, estamos a referir uma realidade que contém autores que </hi><hi >escrevem em alemão, italiano, português, russo</hi>…<hi > E ao referirmos a</hi><hi > literatura surrealista estamos a mencionar um amplo universo que inclui</hi><hi > escritores de muitas proveniências linguísticas. Por conseguinte, estas expressões, ‘</hi><hi >literatura romântica’ ou ‘literatura surrealista’, apontam para entidades </hi><hi >literárias que saltam por cima de toda e qualquer fronteira </hi><hi >idiomática.</hi></p><p rend="text" ><hi >De que modo isso </hi>é<hi > possível? Pela existência de um</hi><hi > espírito comum que subjaz a essas plurais realizações: a alma</hi><hi > do romantismo, o impulso do surrealismo fundem aquilo que antes</hi><hi > os idiomas separavam. Nesse sentido, podemos asseverar o seguinte: existirá</hi><hi > uma literatura europeia se existir um espírito da Europa, um</hi><hi > espírito que, por um lado, parte da nossa decisão de</hi><hi > o assumirmos – mas que, ao mesmo tempo, não pode</hi><hi > ser desmentido pela materialidade dos textos. Deste modo, essa alma</hi><hi > subjacente </hi>é,<hi > em parte, uma criação, mas sem deixar de</hi><hi > constituir também uma realidade. E recorde-se que a literatura </hi>é<hi > o país em que a mentira e a verdade dão</hi><hi > a mão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Resumindo aquilo que foi dito até aqui, </hi>é<hi > </hi><hi >possível afirmar que a noção de literatura europeia poderá ajudar </hi><hi >a construir uma nacionalidade de nacionalidades no nosso continente. Com </hi><hi >efeito, o texto literário possui uma particular capacidade de amalgamar </hi><hi >pessoas e culturas. Por outro lado, o regresso </hi>à<hi > palavra, </hi><hi >depois do dilúvio de imagens em que temos vivido, revitalizaria </hi><hi >as nossas sociedades. A criação de um sistema literário europeu </hi><hi >depende da nossa decisão como coletividade, mas só funcionará se </hi><hi >efetivamente existir um espírito da Europa, que os textos não </hi><hi >neguem, mas confirmem. Neste caso, o mito não </hi>é<hi > o </hi><hi >nada que </hi>é<hi > tudo. Não poderemos impor a fantasia de </hi><hi >uma Europa: podemos, sim, criar essa fantasia com base numa </hi><hi >realidade efetiva anteriormente existente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Chegou agora o momento de pensarmos um</hi><hi > pouco no papel que a literatura comparada poderia desempenhar neste</hi><hi > processo. Com efeito, o comparatismo, que vive habitualmente nas margens</hi><hi > dos estudos literários, teria de assumir agora um papel central.</hi><hi > De resto, a literatura comparada, como Li Xia nos refere</hi><hi > num brilhante artigo (cfr. Li Xia 2011)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-010-backlink"><ref target="_20.html#footnote-010">8</ref></hi></hi><hi >, tem-se </hi><hi >desenvolvido intensamente na China, como uma maneira de a potência </hi><hi >asiática pensar, refletir sobre a sua relação com o resto </hi><hi >do mundo. Do mesmo modo, torna-se muito interessante conceber uma </hi><hi >literatura comparada europeia, que permita ao nosso continente refletir sobre </hi><hi >si mesmo enquanto a si mesmo se constrói, edificando-se assim </hi><hi >sem pôr de lado uma constante problematização, que </hi>é<hi > uma </hi><hi >das suas maiores riquezas. De resto, a ideia de literatura </hi><hi >europeia, como afirma Gerhard R. Kaiser, esteve presente como o </hi><hi >primeiro horizonte subjacente da literatura universal enunciada no pensamento de </hi><hi >Goethe (cfr. Kaiser 1980)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-009-backlink"><ref target="_20.html#footnote-009">9</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >O que poderia fazer a </hi><hi >literatura comparada para nos ajudar a sermos europeus? Em primeiro </hi><hi >lugar, tratar-se-ia de descobrir as </hi><hi rend="italic" >sequências</hi><hi > do nosso ser cultural. </hi><hi >Porque todos os sistemas literários são </hi><hi rend="italic" >sequências</hi><hi >, com ruturas e</hi><hi > continuidades. Ser capaz de definir a sua </hi>árvore<hi > genealógica </hi>é<hi > um dos grandes desafios de uma literatura: o </hi>êxito<hi > ou</hi><hi > o fracasso deste trabalho de ascendências e descendências constitui o</hi><hi > primeiro teste </hi>à<hi > sua viabilidade. No caso da literatura portuguesa,</hi><hi > ela está cheia de bilhetes de identidade deste tipo, com</hi><hi > filiações bem definidas. São aquilo a que chamo </hi><hi rend="italic" >sequências</hi><hi >, </hi><hi >como a formada pelo </hi><hi rend="italic" >Cancioneiro Geral</hi><hi > de Garcia de Resende, </hi><hi >Sá de Miranda, António Ferreira e Camões. Ou a constituída </hi><hi >por Garrett, Herculano, Camilo, Júlio Dinis e Eça de Queirós.</hi></p><p rend="text" ><hi >Criar</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >sequências</hi><hi > europeias </hi>é<hi > um trabalho fascinante para a literatura comparada:</hi><hi > poderemos assim transformar a linha Garcia de Resende, Sá de</hi><hi > Miranda, António Ferreira, Camões – numa outra via que seria</hi><hi > Petrarca, Garcilaso, Camões, Quevedo. De facto, a Europa </hi>é<hi > qualquer</hi><hi > coisa que tem uma vanguarda, uma cabeça, que primeiro foi</hi><hi > a corte carolíngia e os seus sucedâneos, definindo-se então a</hi><hi > Europa como Cristandade (cfr. Abreu 2012, 16-8); depois passou</hi><hi > para as cidades do Renascimento italiano, a seguir se deslocando</hi><hi > para a Península Ibérica, no tempo das Descobertas; posteriormente, a</hi><hi > dominância voltou </hi>à<hi > Europa Central, Países Baixos e </hi>à<hi > Inglaterra,</hi><hi > enquanto os países nórdicos só desempenharão um papel de relevo</hi><hi > crucial no século XX. Como estamos a ver, existe um</hi><hi > complexo ADN europeu, cujas espirais estão ainda por conhecer –</hi><hi > e a literatura comparada ajudar-nos-ia a desvelar toda a arquitetura</hi><hi > desta genética histórico-cultural, através dos testemunhos literários</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-008-backlink"><ref target="_20.html#footnote-008">10</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tal labor </hi><hi >realizar-se-ia em grande parte pelo estudo das relações, uma das </hi><hi >grandes especialidades do comparatismo. Temos trabalhado no </hi>âmbito<hi > da literatura </hi><hi >comparada ibérica, e </hi>é<hi > verdadeiramente impressionante o modo como uma </hi><hi >realidade cultural se redesenha quando nos debruçamos sobre os diálogos </hi><hi >que, entre universos diferentes, aconteceram ao longo dos séculos. Surgem </hi><hi >então novos paradigmas: no caso da nossa Península, identifica-se mesmo, </hi><hi >segundo Sáez Delgado, um real </hi>«ecosistema<hi > literario» (Sáez Delgado 2012,</hi><hi > 13). Uma coisa </hi>é<hi > um país visto em si mesmo,</hi><hi > e outra esse país em relação, sendo esta novidade de</hi><hi > ver tudo em conexão que a crítica comparatista propõe.</hi></p><p rend="text" ><hi >No </hi><hi >caso europeu, após o estudo dessas interações, a noção de </hi><hi >Europa que viria </hi>à<hi > tona seria muito mais rica do </hi><hi >que a atual. Sobretudo os nossos horizontes ficariam revestidos de </hi><hi >uma liberdade e de um nível de consciência que, neste </hi><hi >momento, infelizmente não possuem. E deve aqui sublinhar-se o carácter </hi><hi >multipolar desses estudos relacionais: não se trataria apenas de analisar </hi><hi >a influência dos grandes centros sobre as periferias, na linha </hi><hi >de um comparatismo que visa afirmar a dominância das literaturas </hi><hi >mais poderosas. Também não se optaria apenas pelos estudos das </hi><hi >relações entre países próximos, como aqueles que se têm feito, </hi><hi >muito meritoriamente, no </hi>âmbito<hi > ibérico. De facto, poderia também estudar-se </hi><hi >o influxo entre países distantes, entre periferias e periferias, como </hi><hi >foi feito num interessante trabalho coordenado por Teresa Pinheiro, Beata </hi><hi >Cieszynska e José Eduardo Franco (cfr. Pinheiro et al. 2011)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-007-backlink"><ref target="_20.html#footnote-007">11</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Outra questão </hi>é<hi > a da definição do cânone da </hi><hi >literatura europeia, um cânone que provocou já a aparição de </hi><hi >estudos de referência (cfr. Buescu et al. 2012)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-006-backlink"><ref target="_20.html#footnote-006">12</ref></hi></hi><hi >. Conhecemos</hi><hi > bem os problemas que a prática canónica levanta, tratados por</hi><hi > críticos como Harold Bloom (cfr. Bloom 1995) ou Douwe </hi><hi >Fokkema (cfr. Fokkema 1998). Também neste aspeto defendemos, tal como</hi><hi > no aspeto das relações, a prática de uma clara pluralidade.</hi><hi > Na linha dos textos antes mencionados, não negamos a existência</hi><hi > de grandes obras incontornáveis, como </hi>é<hi > o caso da </hi><hi rend="italic" >Divina</hi><hi rend="italic" > Comédia</hi><hi >, de </hi><hi rend="italic" >Os Lusíadas</hi><hi >, de </hi><hi rend="italic" >El ingenioso hidalgo D.</hi><hi rend="italic" > Quijote de la Mancha</hi><hi >, de </hi><hi rend="italic" >Hamlet</hi><hi >, de </hi><hi rend="italic" >Fausto</hi><hi > ou</hi><hi > ainda de </hi><hi rend="italic" >Madame Bovary</hi><hi >. Contudo, um esqueleto canónico constituído </hi><hi >apenas pelos trabalhos maiores, pelas grandes obras, seria inoperativo.</hi></p><p rend="text" ><hi >De facto,</hi><hi > um dos fatores mais fascinantes da literatura europeia ao longo</hi><hi > dos </hi>últimos<hi > três séculos tem sido o renascimento de literaturas</hi><hi > desaparecidas e a instauração de sistemas literários que ainda não</hi><hi > se tinham formado, embora já possuíssem alguma tradição escrita. No</hi><hi > </hi>âmbito<hi > peninsular, pensemos no magnífico reviver da literatura em catalão</hi><hi > que, depois dos tempos ilustres de Ramon Llull e de</hi><hi > Ausiàs March, tinha mergulhado numa </hi>época<hi > de trevas; por outro</hi><hi > lado, existe o caso da literatura em basco, que só</hi><hi > agora forma um sistema com alguma solidez. Como conseguir que</hi><hi > estes sistemas, por mais pequenos que sejam, se sintam representados</hi><hi > num híper-sistema europeu?</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-005-backlink"><ref target="_20.html#footnote-005">13</ref></hi></hi></p><p rend="text" ><hi >Neste caso, propomos três estratégias paralelas. Em</hi><hi > primeiro lugar, sugerimos que o cânone não seja formado apenas</hi><hi > pelas grandes obras – mas também por antologias de movimentos.</hi><hi > Pensemos, por exemplo, numa coletânea do surrealismo europeu, que seria</hi><hi > bem mais representativa do que a escolha de uma só</hi><hi > obra, podendo esta recolha coletiva incluir com toda a justiça</hi><hi > textos das mais diversas proveniências. Isto </hi>é:<hi > nem todas as</hi><hi > culturas contribuíram com um grande livro para a literatura europeia,</hi><hi > mas todas elas certamente nos deram belos poemas, magníficos contos</hi><hi > ou brilhantes ensaios. Estas antologias far-se-iam com os pequenos ossos</hi><hi > que o esqueleto canónico da Europa terá de possuir se</hi><hi > verdadeiramente quiser ser articulado.</hi></p><p rend="text" ><hi >Outra estratégia, paralela a esta, passaria </hi><hi >pela determinação de que o cânone da Europa possa ser </hi><hi >definido a partir de cada país, no momento em que, </hi><hi >em cada nação, se lecionasse literatura europeia. Portugal poderia definir </hi><hi >que obras do continente são o </hi><hi rend="italic" >seu </hi><hi >cânone dessa mesma </hi><hi >Europa, ao passo que a Suécia, a Espanha ou a </hi>Itália<hi > poderiam selecionar outros textos. Neste labirinto de escolhas, haveria </hi><hi >sem dúvida muitos pontos comuns, e ao mesmo tempo uma </hi><hi >saudável diversidade. Não nos interessa, pois, uma literatura europeia imposta </hi><hi >a partir de cima, como um programa de austeridade, mas </hi><hi >sim vivida a partir de baixo, na livre decisão de </hi><hi >cada país. Cada nação inventaria a </hi><hi rend="italic" >sua</hi><hi > literatura europeia, e </hi><hi >a sobreposição de todas essas invenções desembocaria na consistência de </hi><hi >algo concreto.</hi></p><p rend="text" ><hi >Do mesmo modo, propomos ainda uma terceira estratégia: trata-se</hi><hi > de criar antologias em que a literatura de um país</hi><hi > apareça em relação com a dos outros países europeus. Exatamente</hi><hi > como na Fundação Calouste Gulbenkian se fez a memorável exposição</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >Diálogo de Vanguardas</hi><hi >, em que a obra de </hi>Amadeo de Souza-Cardoso<hi > </hi><hi >surgia lado a lado com a criação de outros artistas </hi><hi >do seu tempo</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-004-backlink"><ref target="_20.html#footnote-004">14</ref></hi></hi><hi >, de idêntica maneira seria muito elucidativo </hi><hi >conceber, por exemplo, uma antologia europeia da literatura portuguesa. Num </hi><hi >volume deste género, os poemas de Camões apareceriam ao lado </hi><hi >dos de Petrarca e de Garcilaso, bem como os nossos </hi><hi >trovadores dialogariam com os poetas provençais – e certos poemas </hi><hi >pessoanos editar-se-iam a par de uma composição de Shakespeare ou </hi><hi >Rimbaud. Tais antologias podiam ser de poesia, mas também de </hi><hi >contos, de ensaios, de textos de viagem, não existindo, novamente, </hi><hi >um modelo rígido.</hi></p><p rend="text" ><hi >Este ponto conduz-nos a outro da maior importância:</hi><hi > uma literatura europeia tem de ser obrigatoriamente uma rede de</hi><hi > traduções. Por conseguinte, quase que poderíamos afirmar que o idioma</hi><hi > da literatura da Europa </hi>é<hi > precisamente esse – a tradução</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-003-backlink"><ref target="_20.html#footnote-003">15</ref></hi></hi><hi >. De um modo geral, seria desejável que o cidadão</hi><hi > do nosso continente falasse pelo menos duas línguas europeias estrangeiras,</hi><hi > para além do seu idioma pátrio. Mas, mesmo que cheguemos</hi><hi > a uma Europa de utentes de quatro, cinco e seis</hi><hi > idiomas, o que não </hi>é<hi > difícil se pensarmos que o</hi><hi > uso de uma língua se pode resumir </hi>à<hi > sua compreensão</hi><hi > oral e escrita, mesmo assim a nossa pátria será, em</hi><hi > grande parte, a tradução.</hi></p><p rend="text" ><hi >E quem diz tradução – quer </hi><hi >dizer compreensão. Não falo apenas de uma técnica, mas também, </hi><hi >e muito, de uma atitude generosa de aproximação ao outro. </hi><hi >Porque, ao criarmos o híper-sistema literário europeu, não estamos a </hi><hi >querer regressar ao velho esquema nacionalista das literaturas de cada </hi><hi >país. Não se trata, pois, de fabricar um fechado nacionalismo </hi><hi >europeu. Especialistas na </hi>área,<hi > como Helena Carvalhão Buescu, advertiram-nos da </hi><hi >degenerescência deste nacionalismo, em diversos trabalhos (cfr. Buescu 2011)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-002-backlink"><ref target="_20.html#footnote-002">16</ref></hi></hi><hi >.</hi><hi > E </hi>é<hi > por isso que julgamos da máxima importância, na</hi><hi > linha dos tão mencionados estudos de </hi>Étiemble<hi > (cfr. </hi>Étiemble<hi > </hi><hi >1963; </hi>Étiemble<hi > 1974; </hi>Étiemble<hi > 1988)</hi><hi >, conceber a literatura europeia como</hi><hi > uma realidade porosa. Tanto mais que só assim ela </hi>é<hi > compreensível.</hi></p><p rend="text" ><hi >Com efeito, como entender a literatura da Europa sem </hi><hi >a </hi><hi rend="italic" >Bíblia</hi><hi >, que </hi>é<hi > uma obra do Próximo Oriente? Como</hi><hi > compreender a poesia peninsular sem o influxo </hi>árabe,<hi > proveniente do</hi><hi > Norte de </hi>África?<hi > Seria possível analisar Alberto Caeiro sem Walt</hi><hi > Whitman? E o que fazer desse centauro que </hi>é<hi > a</hi><hi > literatura russa, ao mesmo tempo tão europeia, e tão asiática</hi><hi > em certos aspetos? O sistema literário europeu deverá tender para</hi><hi > a tal literatura-mundo que tem sido sempre o </hi>último<hi > horizonte</hi><hi > dos estudos comparatistas. Não se </hi>considere<hi >, pois, a nossa proposta</hi><hi > como um neonacionalismo, mas sim como um modo generoso de</hi><hi > o nosso continente se inserir na globalização, contribuindo para a</hi><hi > humanização desta.</hi></p><p rend="text" ><hi >Porque, com efeito, esta globalização já não </hi>é<hi > </hi><hi >nossa. Fomos nós que a começámos, há séculos, e como </hi><hi >sabemos Portugal teve um importante papel nisso. Contudo, desde meados </hi><hi >do século XX, ou até antes, desde a conclusão da </hi><hi >Primeira Guerra Mundial, em 1918, a Europa já não domina </hi><hi >o mundo. Foi cedendo esse domínio, numa primeira fase aos </hi><hi >Estados Unidos da América, depois também </hi>à<hi > desaparecida União Soviética </hi><hi >– e hoje as rédeas do poder encontram-se muito longe </hi><hi >de nós, porventura já nos mares distantes do Extremo Oriente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deste</hi><hi > modo, falarmos de uma literatura europeia, embora não seja um</hi><hi > nacionalismo, no sentido fechado deste termo – não deixa de</hi><hi > ser um modo de afirmarmos os nossos valores. O primeiro</hi><hi > desses valores </hi>é<hi > a procura de um mundo melhor no</hi><hi > futuro, seja pela via transcendente, seja pelo progresso económico e</hi><hi > social. A sociedade europeia foi sempre peregrina, fosse por um</hi><hi > caminho de catedrais, fosse pelas autoestradas do desenvolvimento. O mundo</hi><hi > atual </hi>é<hi > um confuso universo de mutações permanentes, com constantes</hi><hi > altos e baixos, numa lógica de gráfico de cotação de</hi><hi > bolsa, e o resultado </hi>é<hi > que os europeus se sentem</hi><hi > mal nesses tremores de terra económicos e financeiros que derrubam</hi><hi > a beleza arquitetónica dos horizontes. Com efeito, a globalização atual</hi><hi > vive numa perpétua sucessão de presentes, que são como que</hi><hi > um jogo sem fim, e nós somos uma cultura de</hi><hi > futuros redentores.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por outro lado, para nós, europeus, tem uma </hi><hi >grande importância o valor do amor e da solidariedade. A </hi><hi >nossa história literária </hi>é<hi > um catálogo quase infinito de paixões </hi><hi >e de grandes histórias de fraternidade. Pensemos em </hi><hi rend="italic" >Tristão e </hi><hi rend="italic" >Isolda</hi><hi >, mas também em </hi><hi rend="italic" >Os Miseráveis</hi><hi >, em Pedro e </hi><hi >Inês, mas também nos romances de Dickens. A fraternidade, quer </hi><hi >seja na alta voltagem do amor, quer seja na vivência </hi><hi >suave da solidariedade, constitui também um valor europeu de primeira </hi><hi >grandeza, bem presente nos nossos textos. </hi>É<hi > a procura de </hi><hi >Ulisses que se continuou pelos milénios fora, em busca de </hi><hi >Penélope, sempre rumo </hi>à<hi > felicidade de </hi>Ítaca.<hi > A globalização atual </hi><hi >pouca importância dá a este sentimentos, e nós, europeus, sentimo-nos </hi><hi >por vezes como que desfocados na defesa de ideias que </hi><hi >já não se impõem na cruel fotografia do presente.</hi></p><p rend="text" ><hi >Um terceiro</hi><hi > valor </hi>é<hi > o da liberdade. Em nenhum continente se lutou</hi><hi > tanto por ser livre como no nosso. E essa pugna,</hi><hi > esse anseio define-se já, com muita clareza, nos palcos da</hi><hi > tragédia. Porque, de facto, como também Shakespeare nos ensinou, o</hi><hi > exercício do nosso livre-arbítrio pode conduzir-nos aos nossos maiores demónios.</hi><hi > De qualquer modo, apesar de tantas ditaduras e absolutismos que</hi><hi > sofremos, tantos Césares e senhores feudais que suportámos, nunca desistimos</hi><hi > da liberdade. E este valor entra em conflito, mais uma</hi><hi > vez, com uma certa nova escravatura da atualidade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Poderíamos ainda </hi><hi >falar de um quarto valor: a Natureza, que vem da </hi><hi >poesia greco-latina, está já bem patente nas </hi><hi rend="italic" >Geórgicas</hi><hi > de Virgílio </hi><hi >e chega </hi>às<hi > </hi>églogas<hi > e </hi>às<hi > arcádias, passando depois para </hi><hi >as imensas paisagens românticas ou para os recantos da arte </hi><hi >realista. Somos uma cultura agasalhada no seu quadro natural, como </hi><hi >num regaço materno. Contudo, hoje em dia, o nosso cenário </hi><hi >mais querido está a ser posto em causa de modo </hi><hi >dramático por uma noção do desenvolvimento como pesadelo progressivo. Todos </hi><hi >estes valores, a procura de um mundo melhor, o amor </hi><hi >e a solidariedade, a liberdade, o respeito pela Natureza, já </hi><hi >não parecem ser prioridades absolutas no mundo atual. Partilhamos estes </hi><hi >princípios com o resto do Ocidente, em concreto com os </hi><hi >Estados Unidos e o continente americano, mas cada vez nos </hi><hi >sentimos mais esmagados por outra conceção do mundo, que sentimos </hi><hi >como estranha e até inimiga.</hi></p><p rend="text" ><hi >A todos estes eixos identitários, acrescentaremos</hi><hi > um </hi>último:<hi > a alma contraditória da Europa</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-001-backlink"><ref target="_20.html#footnote-001">17</ref></hi></hi><hi >. De facto,</hi><hi > amamos os horizontes do futuro – mas encantamo-nos com o</hi><hi > nosso passado, transformando a relação que mantemos com as </hi>épocas<hi > pretéritas num autêntico culto. Somos o continente do amor e</hi><hi > da partilha, e fomos nós que demos origem ao sistema</hi><hi > capitalista – e a ferozes modalidades de exploração do homem</hi><hi > pelo homem. Lutamos pela liberdade e, porém, com já foi</hi><hi > dito, permitimos muitos tipos de opressão. Admiramos a Natureza, mas</hi><hi > fomos nós que principiamos a sua sistemática destruição. Esta dimensão</hi><hi > contraditória da alma europeia deu lugar a duas guerras mundiais</hi><hi > e, antes, a uma história infindável de conflitos bélicos. Por</hi><hi > tudo isto, falar do ideal europeu configura um discurso que</hi><hi > não pode rasurar as contradições do continente, mas sim tudo</hi><hi > fazer para que elas se processem em pacífico diálogo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Existe, </hi><hi >pois, um espírito da Europa, mesmo que esse espírito implique </hi><hi >uma dimensão dialógica e paradoxal. Um espírito, que aqui quisemos </hi><hi >apenas esboçar</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1"><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="_20.html#footnote-000">18</ref></hi></hi><hi >, e que seria a base real de </hi><hi >uma literatura europeia. Uma literatura europeia que já está a </hi><hi >ser trabalhada ao nível de muitos dos aspetos de que </hi><hi >falámos (estudos de tradução, estudos sobre o cânone…). No entanto, </hi><hi >enquanto não se tomar uma firme decisão social e política, </hi><hi >que vá muito além de meras intenções genéricas, todo esse </hi><hi >trabalho terá tendência a ser marginal. </hi>É<hi > importante que os </hi><hi >nossos responsáveis saibam que, melhor do que comprar e vender </hi><hi >a Europa, </hi>é<hi > compará-la. Isto </hi>é,<hi > usar o comparatismo e </hi><hi >o maravilhoso património literário do nosso continente como uma ferramenta </hi><hi >para o futuro. Com iniciativas destas, desenvolvidas na </hi>área<hi > da </hi><hi >cultura, conseguiremos algo que David Sassoli defendeu com veemência num </hi><hi >dos seus mais importantes discursos, aquele em que tomava posse </hi><hi >como Presidente do Parlamento Europeu: que a Europa não seja </hi>«un<hi > incidente della Storia» (Sassoli 2022b), mas sim, pelo contrário, </hi><hi >uma realidade com um sólido porvir.</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Abreu, L. M. de. 2012. “Idade Média.” In <hi rend="italic">A Europa segundo Portugal: </hi><hi rend="italic">Ideias de Europa na Cultura Portuguesa Século a Século</hi>, eds. J. E. Franco, e P. Calafate, pp. 13-36. Lisboa: Gradiva.</p><p rend="bib_indx_bib" >Alegre, T. 1989. <hi rend="italic">Introdução à Literatura Comparada</hi>. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.</p><p rend="bib_indx_bib" >Antonelli, R. et al. 2012, <hi rend="italic">Letteratura europea – Il canone</hi>. 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Origine et actualité (2).” <hi rend="italic">Protestantisme Images</hi>. <ref target="https://www.protestantismeetimages.com/La-Reforme-et-les-images-Origine,45.html">https://www.protestantismeetimages.com/La-Reforme-et-les-images-Origine,45.html</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Dias, G.H.M. 2011. “Preconceito linguístico e ensino da língua portuguesa: o papel da mídia e as implicações para o livro didático.” In <hi rend="italic">Textos </hi><hi rend="italic">em Contextos: Reflexões sobre o Ensino da Língua Escrita</hi>, eds. S. M. G. Colello, pp. 29-52. São Paulo: Summus Editorial.</p><p rend="bib_indx_bib" >Domínguez, C. 2014 “Dislocating European Literature(s): What’s in an Anthology of European Literature?” <hi rend="italic">Култура/Culture</hi> 3: 9-24. <ref target="https://www.academia.edu/4118313/Dislocating_European_Literature_s_Whats_in_an_Anthology_of_European_Literature">https://www.academia.edu/4118313/Dislocating_European_Literature_s_Whats_in_an_Anthology_of_European_Literature</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Enes, M.F. 2004. “Ideia de Europa e construção europeia: A propósito do “Preâmbulo” da Constituição.” <hi rend="italic">Cultura: Revista de História e Teoria </hi><hi rend="italic">das Ideias</hi>, IIª. série, 19: 13-36.</p><p rend="bib_indx_bib" >Étiemble, R. 1963. <hi rend="italic">Comparaison</hi><hi rend="italic"> n’est pas raison</hi>. Paris: Gallimard.</p><p rend="bib_indx_bib" >Étiemble, R. 1974. <hi rend="italic">Essais</hi><hi rend="italic"> de littérature (vraiment) générale</hi>. Paris: Gallimard.</p><p rend="bib_indx_bib" >Étiemble, R. 1988. <hi rend="italic">Ouverture(s)</hi><hi rend="italic"> sur un comparatisme planétaire</hi>. Paris: Christian Bourgois. </p><p rend="bib_indx_bib" >Fokkema, D. 1998. “La literatura comparada y el problema de la formación del canon.” In <hi rend="italic">Orientaciones en literatura comparada</hi>, ed. D. R. López, 225-49. Madrid: Arco/Libros.</p><p rend="bib_indx_bib" >Franco, J.E. 2012. Introdução a <hi rend="italic">A Europa segundo Portugal: Ideias de Europa na Cultura Portuguesa </hi><hi rend="italic">Século a Século</hi>, eds. J. E. Franco, e P. Calafate, pp. 8-13. Lisboa: Gradiva.</p><p rend="bib_indx_bib" >Frye, N. 1990. <hi rend="italic">Anatomy of Criticism</hi>. Londres: Penguin Books.</p><p rend="bib_indx_bib" >Horácio. 1992. <hi rend="italic">Arte Poética</hi>, ed. bilíngue de R. M. R. Fernandes. 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J. 2011. “About Literary Systems and National Literatures.” <hi rend="italic">CLCWeb: Comparative Literature and Culture</hi> 13 (5): 2-8. <ref target="http://docs.lib.purdue.edu/clcweb/vol13/iss5/4">http://docs.lib.purdue.edu/clcweb/vol13/iss5/4</ref> (09/22).</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-017-backlink">1</ref></hi>	<hi >Esta ideia aparece de modo sintético em Frye 1990</hi><hi >, 315-26. A primeira edição desta obra </hi>é<hi > de 1957. Em</hi><hi > trabalhos posteriores, o crítico regressará mais amplamente a esta questão</hi><hi > da literariedade da </hi><hi rend="italic" >Bíblia</hi><hi >.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-016-backlink">2</ref></hi>	<hi >A própria União Europeia reconheceu</hi><hi > esse papel através do documento “Promoting the Teaching of European</hi><hi > Literature”, referido por César Domínguez nas páginas 11 e 12</hi><hi > do seu artigo </hi><hi rend="italic" >Dislocating European Literature(s)</hi><hi >: um trabalho feito </hi><hi >no </hi>âmbito<hi > do projeto de investigação “Europe, in Comparison: EU, </hi><hi >Identity and the Idea of European Literature” (cfr. Dominguez 2014).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-015-backlink">3</ref></hi>	<hi >Tradução portuguesa de Maria da Ascensão Pinheiro (cfr. Pinheiro</hi><hi > 1977).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-014-backlink">4</ref></hi>	<hi >Tradução portuguesa de Leônidas Gontijo de Carvalho e </hi><hi >Anísio Teixeira (cfr. Carvalho, e Teixeira 1977).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-013-backlink">5</ref></hi>	<hi >O programa </hi><hi >Ariane </hi>é<hi > um bom exemplo daquilo que referimos.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-012-backlink">6</ref></hi>	<hi >A questão</hi><hi > do uso das imagens no protestantismo </hi>é<hi > particularmente complexa. Uma</hi><hi > boa síntese pode encontrar-se no artigo de Jérôme Cottin intitulado</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >La Réforme et les images: origine et actualité</hi><hi > (cfr. </hi><hi >Cottin 2004a; Cottin 2004b).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-011-backlink">7</ref></hi>	<hi >A este propósito, existe a célebre</hi><hi > frase de Max Weinreich: </hi>«Uma<hi > língua </hi>é<hi > um dialeto com</hi><hi > um exército e uma armada» (Weinreich </hi><hi rend="italic" >apud</hi><hi > Dias 2011, </hi><hi >33). </hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-010-backlink">8</ref></hi>	<hi >A referência ao interesse chinês na literatura comparada </hi><hi >aparece nas pp. 26 e 27.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-009-backlink">9</ref></hi>	<hi >Tradução portuguesa de Teresa</hi><hi > Alegre (cfr. Alegre 1989, 37).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-008-backlink">10</ref></hi>	<hi >Uma obra que </hi><hi >nos pode lançar na pista dessas espirais e desse ADN </hi><hi >que na literatura se manifestam </hi>é<hi > Benoit-Dusausoy, e Fontaine 1992.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-007-backlink">11</ref></hi>	<hi >Outro trabalho sobre relação entre periferias: Pesti 2011.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-006-backlink">12</ref></hi>	Este livro é a edição portuguesa de Antonelli et al. 2012.</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-005-backlink">13</ref></hi>	<hi >Tem aqui muito interesse referir um volume particularmente sensível </hi>à<hi > diversidade literária europeia: Aseguinolaza et al. 2010.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-004-backlink">14</ref></hi>	<hi >A exposição </hi><hi >abriu em Novembro de 2006, tendo sido um enorme </hi>êxito,<hi > </hi><hi >com mais de 100.000 visitantes, e dando origem a um </hi><hi >catálogo de referência. </hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-003-backlink">15</ref></hi>	<hi >Concordamos com César Domínguez quando afirma: </hi>«But,<hi > in contrast to the American case, what one cannot forget</hi><hi > is that translation has already founded the very idea of</hi><hi > European literature» (Domínguez 2014, 21).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-002-backlink">16</ref></hi>	<hi >Sobre estas questões, Helena</hi><hi > Carvalhão Buescu reflete também na obra </hi><hi rend="italic" >Experiência do Incomum e</hi><hi rend="italic" > Boa Vizinhança: Literatura Comparada e Literatura-Mundo</hi><hi > (cfr. Buescu 2013).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-001-backlink">17</ref></hi>	<hi >Aquilo a que Edgar Morin chama </hi>«<hi >a dialógica turbilhonaria» </hi><hi >(cfr. Morin 1987). Tradução portuguesa de Carlos Santos (cfr. </hi><hi >Santos 1988, 100-2).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_20.html#footnote-000-backlink">18</ref></hi>	<hi >Para uma reflexão mais aprofundada sobre o espírito da Europa, consultar Enes 2004.</hi></p>



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