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        <title type="main" level="a">Humanidade e cegueira: desvãos identitários entre José Saramago e José Ortega y Gasset</title>
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          <persName n="1" ref="https://orcid.org/0000-0002-2548-2988" type="ORCID">
            <forename>Jean Paul d’</forename>
            <surname>Antony</surname>
            <placeName type="affiliation">Federal University of Sergipe, Brazil</placeName>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.22</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
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        <p>The text discusses the unfolding of identities, especially in European society, in dialogue with the analysis of Saramago’s blindness and the idea of mass-man in Ortega y Gasset. The objective is to rethink the transits and unraveling of humanization processes that transcend the European Union project and the speeches of David Maria Sassoli, as president of the European Parliament.</p>
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            <item>Identity</item>
            <item>blindness</item>
            <item>humanization</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.22<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.22" /></p>



<p rend="h1_chapter" >Humanidade e cegueira: desvãos identitários entre José Saramago e José Ortega y Gasset</p><p rend="h1_author" >Jean Paul d’Antony</p><p rend="text" >Em algumas circunstâncias da história nosso olhar se refletiu estupefacto frente a possibilidade da perda de direção da nossa humanidade e de um consequente progresso antihumanista, seja com os fantasmas de guerras mundiais, seja no ventre dessas guerras, seja nas vitrines da globalização e suas promessas, seja na dissolução violenta das identidades, seja… seja… seja… Os valores europeus, sem que precise descrever a memória, podem ser vistos nesse pêndulo entre humanismo e antihumanismos através da lente da sua progressiva consciência coletiva até à construção da União Europeia (UE).</p><p rend="text" ><hi >Dito isso, entendo a </hi><hi >UE como um projeto atormentado na coexistência de níveis de </hi><hi >diferentes visões entre seus objetivos e valores (cfr. Comissão</hi><hi > Europeia [s.d.]), mas que sempre ecoam (ou tentam) como</hi><hi > ponto de referência mundial para o crescimento equilibrado e sustentável,</hi><hi > bem como frente de resgate do indivíduo e dos direitos</hi><hi > Humanos, do respeito </hi>às<hi > identidades individuais e coletivas que, de</hi><hi > certa forma, transitam em torno do símbolo de uma universalidade</hi><hi > (já vista como imperialista por algumas abordagens dos Estudos Culturais,</hi><hi > a título de exemplo) de solidariedade, liberdade, fraternidade, democracia e</hi><hi > igualdade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa construção de comunidade humanitária sempre foi tecido dos </hi><hi >discursos do jornalista italiano e social-democrata David Maria Sassoli, principalmente</hi><hi > como presidente do Parlamento Europeu. Sassoli possuía uma identidade ideológica</hi><hi > bastante híbrida e que favorecia, em todos os campos, o</hi><hi > reforço do Artigo 2°, do Título I, das Disposições Comuns,</hi><hi > no Tratado da União Europeia (Versão Consolidada)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >A União funda-se </hi><hi >nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da </hi><hi >democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito </hi><hi >pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes </hi><hi >a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade </hi><hi >caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, </hi><hi >a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres (Jornal </hi><hi >Oficial da União Europeia, C 202, 2016)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-005-backlink"><ref target="_22.html#footnote-005">1</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >O que chama</hi><hi > a atenção aqui? Esse discurso de Sassoli está fundado neste</hi><hi > Artigo 2° e, da mesma forma, funda uma sociedade ideal,</hi><hi > modelo de cruzamentos identitários e modelo de humanização. Esta análise</hi><hi > não </hi>é<hi > sobre a União Europeia ou sobre Sassoli, </hi><hi >não obstante pensá-los e pesá-los me permite dissecar uma cegueira </hi><hi >que, em doses </hi>ácidas,<hi > desenha uma nova humanidade ou uma </hi><hi >nova humanização: os cegos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Dessa forma, Saramago desenha uma cegueira em</hi><hi > 1995 e em 17 de novembro de 2019 o mundo</hi><hi > tem seu primeiro caso de Covid-19. O que um vírus</hi><hi > ficcional e um vírus real tem em comum? Ambos fizeram</hi><hi > uma incisão cruel e violenta no corpo daquilo que defendemos</hi><hi > como humanização. Nesse sentido, tenho a responsabilidade de citar o</hi><hi > Sassoli em uma pequena fração da sua entrevista concedida ao</hi><hi > jornal </hi><hi rend="italic" >L’Osservatore Romano</hi><hi > e </hi>à<hi > </hi><hi rend="italic" >Rádio Vaticano - Vatican</hi><hi rend="italic" > News</hi><hi >. Em algum momento, ele responde acerca do papel </hi><hi >da União Europeia dentro do cenário global pós-pandemia:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Deve tornar-se um</hi><hi > modelo, porque senão não teria alguma função. Infelizmente no espaço</hi><hi > europeu existem vírus para além do Covid, que sempre atormentaram</hi><hi > o espírito europeu. Um </hi>é<hi > certamente o anti-semitismo e o</hi><hi > outro </hi>é<hi > o nacionalismo, que são os motores que produzem</hi><hi > divisão, construção do inimigo, </hi>ódio<hi > e até mesmo guerras na</hi><hi > Europa. Devemos levar o espaço europeu, que já o </hi>é,<hi > a ser ainda mais, um ponto de referência (Sassoli </hi><hi rend="italic" >apud</hi><hi > Monda 2020).</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa visão em torno de outros vírus que</hi><hi > assolam o espaço europeu </hi>é<hi > emergencial e necessária. Enquanto presidente</hi><hi > do Parlamento Europeu seu foco está correto. Todavia, me predisponho</hi><hi > a citar como reducionista, talvez comum a esse gênero de</hi><hi > discurso, diante dos desdobramentos da problemática que se desvelará ao</hi><hi > seguir do objetivo e da metodologia desse texto. O anti-semitismo</hi><hi >, o nacionalismo, o sexismo, o racismo, a homofobia, a </hi><hi >transfobia, a xenofobia e todo o tipo de violência baseada </hi><hi >em preconceito assolam o espírito de uma comunidade mais igualitária, </hi><hi >justa e solidária. Outra forma de violência que juntamente com </hi><hi >a cegueira de Saramago e o Covid-19 matam silenciosamente, quando </hi><hi >não sufocam os pulmões, </hi>é<hi > a vitrinização de nossas e </hi><hi >novas identidades na indústria de consumo, na indústria cultural, na </hi><hi >indústria da velocidade, onde vende-se o desejo como promessa de </hi><hi >liberdade para alimentar a engrenagem global e, não menos, onde </hi><hi >acontece o mais constante esboço do servo voluntário e do </hi><hi >desfazimento da humanização fantasiada de conquistas, a sociedade da conquista.</hi></p><p rend="text" ><hi >Eis</hi><hi > que este artigo alcança seu objetivo porque circunscreve algumas incisões</hi><hi > no tangente </hi>às<hi > ontologias gasosas da identidade, da hipermodernidade, da</hi><hi > cegueira, da narrativa que constrói o homem-massa, e o que</hi><hi > por fim se desenha, entre trânsitos e desvãos, como imagem</hi><hi > de humanização. Alinharemos nossa problematização nos contornos de </hi><hi rend="italic" >Ensaio sobre</hi><hi rend="italic" > a Cegueira</hi><hi > (1995), de José Saramago, e </hi><hi rend="italic" >Rebelião das Massas</hi><hi > (2013), de José Ortega y Gasset, </hi>à<hi > medida que semearemos</hi><hi > a discussão no cruzamento com outros autores. O homem-massa na</hi><hi > obra de Ortega limita-se ao tipo humano na virada do</hi><hi > século XIX para o século XX, no entanto deslocaremos essa</hi><hi > abordagem para pensar também o homem da hipermodernidade na visão</hi><hi > do Lipovetsky (2004).</hi></p><p rend="text" ><hi >Em alguma medida foi constituído limites existenciais </hi><hi >acerca do homem-massa. Muito me preocupa agora, observando a cegueira </hi><hi >saramaguiana, porque a existência dessa crítica de Ortega y Gasset</hi><hi > atravessou ao século XXI reinstaurando novas realidades que edificaram, horizontalmente,</hi><hi > a fé cega no espírito do tempo: tempo da velocidade,</hi><hi > tempo das mudanças, tempo do excesso de positividade (cfr</hi><hi >. Han 2017). Tudo em prol da manutenção das massas, </hi><hi >numa promessa de revelação sempre em </hi><hi rend="italic" >devir. </hi><hi >Não </hi>é<hi > raro </hi><hi >entender que a cegueira reforça a engrenagem do progresso porque </hi><hi >essa não tem prática reflexiva, não transcende. Da mesma forma, </hi><hi >o homem-massa. São partes do mesmo embrião: homem-massa e cegueira. </hi><hi >Seguindo esta lógica, para Ortega y Gasset, este homem (ou </hi><hi >mulher), ou melhor, este tipo humano não tem classe social, </hi><hi >pode vir de qualquer uma: rico, pobre, intelectual, ser doutor, </hi><hi >ser empresário ou proletário. O relevante </hi>é<hi > compreender que essa </hi><hi >massa aglutina uma identidade que deve ser dirigida, homogeneizada.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por essa</hi><hi > via, penso. Como um rizoma existem alguns horizontes interrogativos que</hi><hi > acho necessário desenhar: como articular homem-massa e cegueira dentro de</hi><hi > um corpo identitário? Esse corpo identitário, ontologicamente, nos define como</hi><hi > cegos? A crise identitária </hi>é<hi > uma estratégia para a produção</hi><hi > em massa de homens-programados, a bem dizer homens-massa?</hi></p><p rend="text" ><hi >De forma </hi><hi >pulsante sua narrativa jorra em nossos olhos uma espécie de </hi><hi >mapeamento das identidades metamórficas que montam nossas circunstâncias. Nesse sentido, </hi><hi >uma dúvida ininterrupta rasga a folha do romance e martela </hi><hi >nossa segurança: será que </hi>«dentro<hi > de nós há uma coisa </hi><hi >que não tem nome, essa coisa </hi>é<hi > o que somos»? </hi><hi >(Saramago 1995, 262). Em vista disso, nada nos afasta da</hi><hi > possibilidade de entender que </hi>é<hi > necessário capitalizar essa ‘coisa </hi><hi >que não tem nome’, e somos, a fim de </hi><hi >manter a ontologia do homem-massa, a fim de manter as </hi><hi >suas direções, bem como as suas subversões, tudo em controle. </hi><hi >Destarte, a cegueira vem sendo um instrumento bastante utilizado em </hi><hi >prol da manutenção desse corpo amorfo do homem-massa, e um </hi><hi >dos seus resultados, bem como sua função, </hi>é<hi > o apagamento </hi><hi >das identidades.</hi></p><p rend="text" ><hi >Antes, devemos reconhecer esse homem-massa a partir de Ortega</hi><hi > y Gasset que nos aponta dois traços desse tipo humano:</hi></p><p rend="quotation_b" >[…]<hi > a livre expansão de seus desejos vitais, portanto, </hi><hi >de sua pessoa, e a radical ingratidão a tudo quanto </hi><hi >tornou possível a facilidade de sua existência. Um e outro </hi><hi >traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. E, com </hi><hi >efeito, não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para </hi><hi >olhar através dela a alma das massas atuais. Herdeiro de </hi><hi >um passado extensíssimo e genial — genial de inspirações e </hi><hi >de esforços —, o novo vulgo tem sido mimado pelo </hi><hi >mundo circunstante (Ortega y Gassset 2013, 74). </hi></p><p rend="text" ><hi >Este tipo de</hi><hi > homem, na visão orteguiana, não </hi>é<hi > um homem superior. </hi><hi >Ele </hi>é<hi > a imagem que o mundo convida e lhe </hi><hi >compele a ser, ou a servir voluntariamente. Chamo a atenção </hi><hi >para a sociedade europeia que semantiza esse tipo homem-massa, mas </hi><hi >que a visão do Sassoli, quando na presidência do Parlamento</hi><hi > Europeu, em seu </hi>último<hi > discurso ao Conselho Europeu intitulado </hi><hi rend="italic" >A</hi><hi rend="italic" > Europa deve ser justa com seus cidadãos </hi><hi >(cfr. Quotidiano</hi><hi > nazionale 2022), quase nos convida a acreditar em um homem</hi><hi > coletivo que destoa desse homem orteguiano, mesmo que de </hi><hi >maneira ingênua ou mesmo equivocada. Isso porque uma vez que </hi><hi >este homem se preocupa unicamente com seu bem-estar, sem ao </hi><hi >menos entender o que seria exatamente esse bem-estar, certamente ele </hi><hi >está disposto a empreender todo esforço para saciar-se, mesmo que </hi><hi >a natureza desta sede seja um desgaste das suas identidades </hi><hi >em prol da hérculea e imperativa mudança de vida, </hi>à<hi > </hi><hi >mercê da vitrine das possibilidades e dos simulacros de realizações.</hi></p><p rend="text" ><hi >A</hi><hi > problemática orteguiana se desloca novamente ao cenário identitário. Da mesma</hi><hi > forma, como entender a identidade nesse processo? A identidade só</hi><hi > </hi>é<hi > e só existe no incerto, nas circunstâncias, no indiscernível,</hi><hi > ela </hi>é<hi > o próprio simulacro, um fantasma, porque o simulacro</hi><hi > não passa pela Ideia, sua pretensão </hi>é<hi > infundada, está sempre</hi><hi > numa dessemelhança e num desequilíbrio interno. Nesse sentido, a identidade</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >são</hi><hi >, ou </hi>é,<hi > simulacros-fantasmas. Nesse caso, deve-se destruir a </hi><hi >ideia de que existe uma imagem-identitária que nos representa, porque </hi><hi >ela não </hi>é<hi > sequer uma cópia de alguma coisa que </hi><hi >considerávamos como modelo original, do modelo do Mesmo, como um </hi><hi >núcleo ou fundamento, portanto, não passa de uma obsessão em </hi><hi >busca do eterno retorno inviável. Nascem, sem dúvidas, os simulacros </hi><hi >de nós mesmos fáceis, inclusive, de manipulação e comercialização porque </hi>«falsos<hi > pretendentes, construídos a partir de uma dissimilitude, implicando uma </hi><hi >perversão, um desvio essencial» (Deleuze 2011, 262). Talvez, essenciais </hi>à<hi > </hi><hi >própria reprodução identitária, como identidades camaleônticas cuja farsa existe como </hi><hi >uma ilusão projetada pelo nosso imaginário, ainda que necessária, mas </hi><hi >ilusão, na manutenção e reposição de um ser como habitar </hi><hi >natural. Bauman nos conta que</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >A idéia de ‘identidade’ nasceu</hi><hi > da crise do pertencimento e do esforço que esta desencadeou</hi><hi > no sentido de transpor a brecha entre o “deve”</hi><hi > e o “</hi>é<hi >” e erguer a realidade ao nível</hi><hi > dos padrões estabelecidos pela idéia – recriar a realidade </hi>à<hi > semelhança da idéia (Bauman 2005, 26).</hi></p><p rend="text" ><hi >Tratar a origem </hi><hi >da identidade pela crise do seu pertencimento </hi>é<hi > o mesmo </hi><hi >que tratar a visão por sua crise, a cegueira. Um </hi><hi >só toma consciência do outro após uma existência que se </hi><hi >consuma pela ausência. Isso quer dizer que a identidade não </hi><hi >tem uma existência anterior </hi>à<hi > sua perda? De forma não </hi><hi >capciosa, identidade sempre será um simulacro forjada através de uma </hi><hi >ideia que se encontra dissolvida ou no tempo, ou na </hi><hi >memória, no imaginário, na crença de ser </hi>única,<hi > e emerge </hi>à<hi > medida que um certo tipo de liberdade </hi>é<hi > posta </hi><hi >em risco e quando o espelho de realidade que criamos </hi><hi >para projetar nosso Eu-Deus </hi>é<hi > rachado, fragmentando nosso reflexo e </hi><hi >consequentemente nosso estado de completude. Esse estado (ou Estado) </hi>é<hi > </hi><hi >a forja do homem-massa. Ora, novamente aqui a voz saramaguiana </hi><hi >se intercala: </hi>«Sei,<hi > sei, levei a minha vida a olhar </hi><hi >para dentro dos olhos das pessoas, </hi>é<hi > o </hi>único<hi > lugar </hi><hi >do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se </hi><hi >eles se perderam» (Saramago 1995, 135). A episteme da identidade</hi><hi > se apresenta nesta alteridade? Acreditamos que não. Pensar numa pedra</hi><hi > no meio do caminho não nos redime de um tropeço,</hi><hi > da mesma forma que não pensar na identidade não nos</hi><hi > redime de um tropeço em seus estilhaços, pois </hi>«quantos<hi > cegos</hi><hi > serão precisos para fazer uma cegueira» (Saramago 1995, 135). </hi><hi >Nessa condição aberta de possibilidades e desvãos impressos pelos contornos </hi><hi >ditados pelo mundo, o homem-massa se apresenta, pronto, cego aos </hi><hi >perigos, esvaziado de si e submetido a uma sociedade que </hi><hi >potencializa e explora esse abandono incansavelmente.</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Portanto, sua vida era constantemente</hi><hi > regulada por esta instância suprema de que dependia. Mas o</hi><hi > homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo</hi><hi > a nenhuma instância fora dele. Está satisfeito tal como </hi>é.<hi > Ingenuamente, sem necessidade de ser vão, como a coisa mais</hi><hi > natural do mundo, tenderá a afirmar e considerar bom tudo</hi><hi > quanto em si acha; opiniões, apetites, preferências ou gostos (Ortega</hi><hi > y Gasset 2013, 76).</hi></p><p rend="text" ><hi >Incapaz de sair de si mesmo,</hi><hi > esgotado, seu apelo serve </hi>às<hi > arquiteturas de uma nova sociedade</hi><hi > que confunde o homem-massa alegando que ser um homem superior</hi><hi > </hi>é<hi > superar a si mesmo. E neste momento, e não</hi><hi > iremos entrar nesta seara, Ortega y Gasset aparenta retoricamente confundir-se</hi><hi > em suas definições. No entanto, levantaremos a seguinte questão: se</hi><hi > superação de si mesmo conduzir a uma vida regada pela</hi><hi > servidão, não seria certo compreender que esta nobreza </hi>é<hi > uma</hi><hi > farsa? Tanto o homem-massa que não se supera, quanto o</hi><hi > homem nobre que se supera, são cegos diante de uma</hi><hi > regência que torna seus corpos, mentes, espíritos, vontade, desejos, angústias,</hi><hi > medos etc, consagração da velocidade hipermoderna. O que nos </hi><hi >conduz a outro movimento desse artigo.</hi></p><p rend="h2" >1. Cegos e hipermodernidade</p><p rend="text" ><hi rend="italic" >Ensaio </hi><hi rend="italic" >sobre a cegueira</hi><hi > (1995) arquiteta em sua narrativa um mundo </hi><hi >amorfo de onde nasce a hipermodernidade. Não </hi>é<hi > uma pós-modernidade </hi>ávida<hi > de identidade, não existe um tempo desse Pós em </hi><hi >relevância porque nada está no culto do ‘pós’, no</hi><hi > sentido de anulação de um tempo passado. Talvez seja acomodação</hi><hi > da linguagem ou comodismo da nossa linguagem. O que existe</hi><hi > </hi>é<hi > um tempo do doravante compulsivo, cuja força de sua</hi><hi > liquidez está nas peças humanas sempre substituíveis, que se assemelham</hi><hi > </hi>à<hi > cabeça da Hidra de Lerna</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-004-backlink"><ref target="_22.html#footnote-004">2</ref></hi></hi><hi >. Essas cabeças minam</hi><hi > nossos empenhos e desertificam nossos contra-discursos, anulando qualquer possibilidade </hi><hi >de deserção da batalha.</hi></p><p rend="text" ><hi >Contemporaneamente parece não existir um Hércules para</hi><hi > cortar a cabeça do centro da Hidra. Alguns acreditavam que</hi><hi > ela guardava, no lago de Lerna, um acesso ao Mundo</hi><hi > Subterrâneo, mas em nosso modelo civilizatório Hércules só motiva a</hi><hi > fantasia ou está definitivamente morto, porque a cabeça central da</hi><hi > Hidra, quando não invisível, </hi>é<hi > híbrida, se máscara de vários</hi><hi > nomes e em não-nomes. Ou, de alguma forma, esse mundo</hi><hi > subterrâneo submergiu trazendo a cegueira e que por trás dessa</hi><hi > palavra-tela saramaguiana apresenta o espetáculo da desordem, do deserto, da</hi><hi > animalização do homem atrás das </hi>últimas<hi > migalhas do mundo hipermoderno.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao invés de trabalharmos com o termo pós-moderno, pós-modernidade, optamos </hi><hi >em assumir aqui o conceito do filósofo francês Gilles Lipovetsky,</hi><hi > em seu livro </hi><hi rend="italic" >Os tempos hipermodernos</hi><hi >, onde afirma que </hi>«a<hi > hipermodernidade não </hi>é<hi > nem o reino da felicidade absoluta, </hi><hi >nem o reino do niilismo total. Em certo sentido, não </hi>é<hi > nem o resultado do projeto das Luzes, nem a </hi><hi >confirmação das sombrias previsões nietzschianas» (Lipovetsky 2004, 43). Atentamos </hi><hi >aqui para a noção de que a hipermodernidade não acontece </hi><hi >na contestação ou na superação da modernidade, pois não há </hi><hi >uma ruptura como se propõe o uso do prefixo </hi>«<hi >pós</hi>»<hi > na dita pós-modernidade. Conforme Lipovetsky, a nossa contemporaneidade </hi>é<hi > ‘moderna’, mas com um estado agravante, o excesso, </hi><hi >o hiperconsumo, o hiperindividualismo, a intensidade difusa marca a sociedade </hi><hi >moderna, tais como o individualismo, o consumismo, a </hi>ética<hi > hedonista, </hi><hi >a fragmentação do tempo e do espaço.</hi></p><p rend="text" ><hi >Emblematicamente, a primeira cena</hi><hi > do livro de Saramago retratando o primeiro cego </hi>é<hi > uma</hi><hi > massa amorfa desse caos hipermoderno, mais um obstáculo ao prosseguimento</hi><hi > do trânsito e da velocidade dos citadinos que não pode</hi><hi > ser interrompida:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da </hi><hi >frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira </hi><hi >de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente </hi><hi >que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas </hi><hi >brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada </hi><hi >que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe </hi><hi >chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da </hi><hi >embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos </hi><hi >nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões </hi><hi >já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre </hi><hi >para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem </hi><hi >sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos </hi><hi >pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças </hi><hi >sucessivas das três cores de cada um, </hi>é<hi > uma das </hi><hi >causas mais consideráveis dos engorgitarmentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, </hi><hi >se quisermos usar o termo corrente.</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >O sinal verde acendeu-se enfim,</hi><hi > bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não</hi><hi > tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do</hi><hi > meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer,</hi><hi > o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que</hi><hi > se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos</hi><hi > travões, falha do circuito eléctrico, se </hi>é<hi > que não </hi><hi >se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira </hi><hi >vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de </hi><hi >peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor </hi><hi >do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas; enquanto</hi><hi > os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram</hi><hi > para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para</hi><hi > onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos</hi><hi > vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a</hi><hi > cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que</hi><hi > grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete</hi><hi > uma palavra, uma não, duas, assim </hi>é<hi > realmente, consoante se</hi><hi > vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma</hi><hi > porta, Estou cego (Saramago 1995, 11-2).</hi></p><p rend="text" ><hi >O humano agora </hi>é<hi > programável, operando em direções que obliteram a consciência e potencializam</hi><hi > a cegueira em busca de identidades que são ofertadas e</hi><hi > cirurgicamente implantadas. Lipovetsky, em </hi><hi rend="italic" >O império do efêmero</hi><hi >, nos</hi><hi > conta que</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >A consciência de ser dos indivíduos de destino </hi><hi >específico, a vontade de exprimir uma identidade </hi>única,<hi > a celebração </hi><hi >cultural da identidade pessoal, longe de constituírem um epifenômeno, tem</hi><hi > sido uma força produtiva, o próprio motor da mutabilidade da</hi><hi > moda. Para que surgisse o voo de fantasia das frivolidades,</hi><hi > foi necessário uma revolução na representação das pessoas e no</hi><hi > sentimento de si, subvertendo as mentalidades e valores tradicionais (</hi><hi >Lipovetsky 1989, 67-8).</hi></p><p rend="text" ><hi >Esta subversão do indivíduo nasce diante de </hi><hi >uma moda, em que a representação de si se dá </hi><hi >através da coisificação dessa mesma representação pelo mercado global das </hi><hi >necessidades, das subjetivações de mundo em logomarcas. Surge a cegueira </hi><hi >implantada. Nada natural. A cegueira como força produtiva de uma </hi><hi >sociedade global, de sensações globais, medos globais, fantasias globais, múltipla </hi><hi >e, ao mesmo tempo, tendendo ao homogêneo. Neste sentido, Saramago </hi><hi >consegue capturar na metáfora da cegueira toda a formação do </hi><hi >modelo de humanidade que emerge desse palco hipermoderno e numa </hi><hi >trama fatídica: a indústria há muito vem produzindo cegos que </hi><hi >podem ser guiados por outros, cuja ilusão de total percepção,</hi><hi > de visão iluminada por um semáforo traz um mundo aberto</hi><hi > em todas as direções, mas em verdade fá-los enxergar a</hi><hi > brancura de um espaço vago, nadificado, que poderíamos comparar </hi>à<hi > cegueira branca.</hi></p><p rend="text" ><hi >O cego está no meio do turbilhão onde</hi><hi > tudo está acontecendo, inclusive no desacontecimento das coisas que nascem</hi><hi > e morrem e nossa percepção não consegue tocar, apenas passamos</hi><hi > carregados de nada e nos comportamos como se fôssemos carregados</hi><hi > de nós mesmos. Ao próprio motorista cego, quando deixado na</hi><hi > segurança do seu apartamento, chegou-lhe o pensamento de</hi></p><p rend="quotation_b" >que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis (Saramago 1995, 15-6).</p><p rend="text" ><hi >Essa brancura que devorava todas as cores e seres, </hi><hi >tornando-os duplamente invisíveis, equivale ao vício da indiferença de nosso </hi><hi >olhar diante da aparência do mundo. Viciamos o olhar nas </hi><hi >aparências porque fomos viciados e, consequentemente, a cegueira apagou essas </hi><hi >aparências restando apenas a brancura.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ousamos dizer que existe uma ordem</hi><hi > quase natural nesse processo, que tem como objetivo cooptar e</hi><hi > abduzir as identidades no processo de desfronteirizar o mundo na</hi><hi > liquidez imediata da exposição, na aparente abertura totalizante dos centros</hi><hi > comerciais do mundo. Tudo está </hi>à<hi > venda dentro e fora</hi><hi > do cotidiano: de objetos substanciais a metafísicos; verdades; mentiras; imaginários,</hi><hi > valores; costumes; crenças; deuses; manuais de bem-estar aos de suicídio;</hi><hi > manuais de assassinato e hecatombes; vidas virtualizadas, tudo aparentemente aberto</hi><hi > na oferta do espetáculo para todos e </hi>«que<hi > se legitima</hi><hi > configurando um novo imaginário de integração e memória com os</hi><hi > souvenirs do que ainda não existe» (Canclini 2007, 156).</hi></p><p rend="text" ><hi >Este imaginário não </hi>é<hi > apenas falso ou negativo, suas construções </hi><hi >permitem e legitimam a estratégia da globalização de existir, de </hi><hi >se enraizar nas instâncias subjetivas e objetivas de uma sociedade </hi><hi >e, ao mesmo tempo, expande as relações, dilata o imaginário, </hi><hi >o ilusório e apodera os sujeitos de reinventar suas narrativas. </hi><hi >A sociedade, ao entrar neste vale encantado de tradições e </hi><hi >modernizações congruentes e paradoxalmente conflitivas e controversas, não consegue retirar-se </hi><hi >de sua reinvenção identitária no campo do ilusório, criado para </hi><hi >substituir a crise de pertencimento. Isto </hi>é<hi > uma anulação voluntária </hi><hi >ou uma sutil violência implantada na educação formal e na </hi><hi >educação das vivências, das circunstâncias, porque assim a imaginação e </hi><hi >a memória tendem a assentar-se num espaço em que a </hi><hi >reelaboração da identidade se torna o campo fértil do discurso </hi><hi >globalizador e do imperialismo de Estados-nação, que utilizam o argumento </hi><hi >clichê de que tudo </hi>é<hi > em prol da defesa de </hi><hi >oportunidade e igualdade para todos, como uma panaceia que garante </hi><hi >o humanismo mais interativo. Assim, também, se programa o homem-massa </hi><hi >porque ele</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >[</hi>…<hi >] sente-se perfeito. Um homem de seleção, para</hi><hi > sentir-se perfeito, necessita ser especialmente vaidoso, e a crença na</hi><hi > sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele, não </hi>é<hi > ingênua, mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele</hi><hi > mesmo tem um caráter fictício, imaginário e problemático. Por isso</hi><hi > o vaidoso necessita dos demais, busca neles a confirmação da</hi><hi > ideia que quer ter de si mesmo. De sorte que</hi><hi > nem ainda neste caso mórbido nem ainda “cegado” pela</hi><hi > vaidade, consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. Contrariamente</hi><hi > ao homem medíocre de nossos dias, ao novo Adão, não</hi><hi > se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude.Sua confiança em</hi><hi > si </hi>é,<hi > como de Adão, paradisíaca (Ortega y Gasset 2013</hi><hi >, 81). </hi></p><p rend="text" ><hi >Aqui, para Ortega y Gasset, o homem-massa se </hi><hi >expõe, este cuja vaidade e plenitude não passam da confirmação </hi><hi >de seu voluntarismo </hi>à<hi > servidão. Sua cegueira reside na constante </hi><hi >compra de si mesmo, vitrine de si mesmo, na eterna </hi><hi >ampulheta de simulações. Neste ponto, se voltarmos ao romance de </hi><hi >Saramago, nos parece que existe na ideia de um ensaio </hi><hi >sobre a cegueira, ensaio</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-003-backlink"><ref target="_22.html#footnote-003">3</ref></hi></hi><hi > enquanto experimento, uma ameaça a uma</hi><hi > falsa identidade que nós abraçamos, nos rituais do cotidiano, como</hi><hi > verdade. Nesse sentido, o mundo tornou-se uma fábula que seria</hi><hi > preciso dissolvê-la? Dissolver, como bem aponta, Nietzsche, em </hi><hi rend="italic" >Crepúsculo dos</hi><hi rend="italic" > </hi><hi rend="italic">ídolos</hi><hi >, a oposição entre o mundo tido como verdadeiro </hi><hi >e o das aparências que nos promovem a sujeitos livres </hi><hi >porque acredita ele que </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >A “razão” </hi>é<hi > a causa </hi><hi >de falsificarmos o testemunho dos sentidos. Na medida em que </hi><hi >mostram o vir-a-ser, o decorrer, a transformação, os sentidos não </hi><hi >mentem</hi>…<hi > Mas Heráclito sempre terá razão em que o ser</hi><hi > </hi>é<hi > uma ficção vazia. O mundo “aparente” </hi>é<hi > o</hi><hi > </hi>único:<hi > o “mundo verdadeiro” </hi>é<hi > apenas acrescentado mendazmente</hi>…<hi > </hi><hi >(Nietzsche 2006, 26, grifos do autor).</hi></p><p rend="text" ><hi >A hipermodernidade </hi>é<hi > a </hi><hi >criação de sujeitos como mera ficção. Portanto, o homem-massa. A </hi><hi >exposição primeira da genealogia da identidade como ficção e mito, </hi><hi >a gênese da história dos erros: se Deus está morto, </hi><hi >certamente o sujeito, enquanto imagem e semelhança também está. Nesse </hi><hi >caso o sujeito em sua busca pelo cálice sagrado, a </hi><hi >identidade, só nos obriga a entender essa razão falsificadora de </hi><hi >si-mesmos como uma </hi>«<hi >falsa consciência esclarecida</hi>»<hi rend="notes_number CharOverride-1"><hi xml:id="footnote-002-backlink"><ref target="_22.html#footnote-002">4</ref></hi></hi><hi > que absorve toda</hi><hi > a trajetória do esclarecimento e o mantém sepultado diante da</hi><hi > sua própria experiência histórica.</hi></p><p rend="text" >Se voltarmos o olhar, o reino dos cegos agora é o manicômio, reino dos indesejáveis, o mundo em sua mais objetiva e clara escatologia. E como bem disse a mulher do médico no romance, «o mundo está todo aqui dentro» (Saramago 1995, 102), porque «já por muito tempo a terra foi um hospício!…» (Nietzsche 1998, 82) e nesse hospício da sociedade hipermoderna e/ou contemporânea estava concentrado todas as proporções das diferenças potencializadas por diversas cegueiras que pouco a pouco conduziram à cegueira branca.</p><p rend="text" ><hi >Alimentados e</hi><hi > deixados como tumores sociais, teriam agora que reinventar a tão</hi><hi > gloriosa civilização, na qual foram educados a ver através de</hi><hi > regras maniqueístas. A cegueira explora o fundamento de uma tragédia</hi><hi > anunciada: a formação cultural do sujeito e de uma sociedade</hi><hi > enferma balizada em marcadores insólitos como igualdade e identidade, que</hi><hi > não respondem ao peso das batalhas internas e externas que</hi><hi > vão minando tudo.</hi></p><p rend="text" ><hi >No mundo-manicômio, como no mundo externo, os </hi><hi >sujeitos foram deixados como ratos de laboratórios cuja doença não </hi><hi >estava prevista ao corpo físico-social-político e que ainda não fora </hi><hi >diagnosticada. Como sempre, em qualquer manicômio, com ou sem muros, </hi><hi >a cegueira era a força do tipo ‘escravo’ que </hi><hi >estava diretamente comprometida com sua reação ao que está fora, </hi><hi >ou seja, não provinha de si mesma. Nesta visão, o </hi><hi >novo tipo de escravo raramente produz valores autênticos que partam </hi><hi >de suas experiências próprias, está sempre vinculado a estímulos externos </hi><hi >que lhe servem para justificar a inércia, a fraqueza, a </hi><hi >impotência, dor e frustração diante do que ele gostaria de </hi><hi >ser. E como seria diferente? Uma vez que o próprio </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Governo, receosos de que a iniciativa oficial não chegasse para </hi><hi >as encomendas, donde resultariam pesados custos políticos, a defender a </hi><hi >ideia de que deveria competir </hi>às<hi > famílias guardar em casa </hi><hi >os seus cegos, não os deixando sair </hi>à<hi > rua, a </hi><hi >fim de não complicarem o já difícil transito nem ofenderem </hi><hi >a sensibilidade das pessoas que ainda viam com os olhos </hi><hi >que tinham e que, indiferentes a opiniões mais ou menos </hi><hi >tranquilizadoras, acreditavam que o mal-branco se propagava por contacto visual, </hi><hi >como o mau-olhado (Saramago 1995, 125).</hi></p><p rend="text" ><hi >Dessa noção de injustiça </hi><hi >enraizada na compreensão de vida nasce a ‘moral escrava’,</hi><hi > que reage e elabora suas reações, o que nos conduz</hi><hi > a entender que o Eu não </hi>é<hi > uma entidade passiva-pura,</hi><hi > mas </hi>é<hi > uma entidade passiva-conflitiva. Na primeira, a dessubstancialização</hi><hi > das identidades se daria em um plano imerso da existência</hi><hi > que anularia qualquer atividade ‘com’ o mundo, o que</hi><hi > seria inconcebível. Na segunda, a identidade </hi>é<hi > formada e inventada</hi><hi > a partir do lugar do conflito, simulada infinitamente a partir</hi><hi > de enxertos na relação com este mundo e suas circunstâncias.</hi><hi > Faz-se, dessa maneira, a </hi>única<hi > forma pura de identidade, na</hi><hi > raiz do paradoxo.</hi></p><p rend="text" ><hi >A partir desse tipo de escravo que </hi><hi >sempre reclama em busca de ser outra pessoa, como o </hi><hi >faz o homem-massa orteguiano, nasce a falsa consciência, implantada pelo</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >modus operandi</hi><hi > caracterizado pelo tipo crônico de servidão diante da</hi><hi > dinâmica hipermoderna. Não obstante, o que se observa nesse tipo</hi><hi > de servidão </hi>é<hi > também o nascimento do tipo cínico. O</hi><hi > cínico, agora na visão de Sloterdijik (2012), </hi>é<hi > uma qualidade</hi><hi > que vai de encontro </hi>à<hi > ideologia tradicional e está integrado</hi><hi > </hi>à<hi > massa moderna e ao jogo de poder. O cinismo</hi><hi > seria uma postura de negação, um contra-discurso que não se</hi><hi > sustenta e não legitima a fundação de um esclarecimento que</hi><hi > venha a agir frontalmente, como vanguarda. O cínico </hi>é<hi > mais</hi><hi > uma figura lusco-fusco da falsa consciência que valida o poder</hi><hi > disciplinar e a cooptação do sujeito.</hi></p><p rend="text" ><hi >O que se apresenta </hi><hi >no romance </hi><hi rend="italic" >Ensaio sobre a cegueira</hi><hi > também apresenta o imperativo </hi><hi >de que toda mudança em nível nacional e transnacional sempre </hi><hi >está dominada e instrumentalizada pelas políticas capitais e culturais dos </hi><hi >enormes fluxos dos Estados-nação imperialistas. Essa ordem não permite </hi>à<hi > </hi><hi >coletividade o uso da razão crítica na tentativa de filtrar </hi><hi >as dimensões e controvérsias da globalização que atuam no corpo </hi><hi >do cotidiano e da consciência. Essa ordem não trabalha em </hi><hi >prol de um ‘quem’ sólido e passível de culpabilizar, </hi><hi >seu sistema </hi>é<hi > auto-sustentável na empresa que age sobre as </hi><hi >necessidades do imaginário cotidiano. Aí está a cegueira. E nesse </hi><hi >sentido, Ulrich Beck argumenta que</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Globalização significa a experiência cotidiana da</hi><hi > ação sem fronteiras nas dimensões da economia, da informação, da</hi><hi > ecologia, da técnica, dos conflitos transculturais e da sociedade civil,</hi><hi > e também o acolhimento de algo a um só tempo</hi><hi > familiar mas que não se traduz em um conceito, que</hi><hi > </hi>é<hi > de difícil compreensão mas que transforma o cotidiano com</hi><hi > uma violência inegável e obriga todos a se acomodarem </hi>à<hi > sua presença e a fornecer respostas (Beck 1999, 46-7).</hi></p><p rend="text" ><hi >Por outro lado reforça Ortega y Gasset, numa perspectiva em </hi><hi >torno da Europa, mas que dialoga com Beck:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Em sua </hi><hi >conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira </hi><hi >mais crua e contundente, mas a chave está no hermetismo </hi><hi >intelectual. O homem médio encontra-se com “ideais” dentro de </hi><hi >si, mas carece da função de idear. Nem sequer suspeita </hi><hi >qual </hi>é<hi > o elemento sutilíssimo em que as ideias vivem. </hi><hi >Quer opinar, mas não quer aceitar as condições e supostos </hi><hi >de todo opinar. Daqui que suas “ideias” não sejam </hi><hi >efetivamente senão apetites ou palavras, como as romanças musicais. (Ortega </hi><hi >y Gasset 2013, 84). </hi></p><p rend="text" ><hi >Pode-se argumentar que tanto a aparência</hi><hi > dos seres e das coisas, a brancura que devorava o</hi><hi > sujeito mergulhado em total luminosidade e que também devorava tudo</hi><hi > e a todos, a invisibilidade por consequência e os defeitos</hi><hi > de nosso olhar derivam de fórmulas culturais (em todos os</hi><hi > sentidos possíveis </hi>à<hi > definição de cultura) que utilizam princípios da</hi><hi > educação e equilíbrio social, político e econômico para disfarçar a</hi><hi > manutenção da sua domesticação missionária, provavelmente reificando as identidades já</hi><hi > em crise, homogeneizando as diferenças como estratégia de manutenção de</hi><hi > poder. A violência da aparência que seduz </hi>à<hi > acomodação também</hi><hi > identifica o sujeito com a morte, mas neste caso </hi>é<hi > uma morte-no-olhar</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-001-backlink"><ref target="_22.html#footnote-001">5</ref></hi></hi><hi > na experiência de socialização de uma personagem </hi><hi >que fora forçada a enxergar o suposto esclarecimento sobre o </hi><hi >mundo. Referimo-nos a mulher do médico que indaga: </hi>«o<hi > que </hi><hi >penso </hi>é<hi > que já estamos mortos, estamos cegos porque estamos </hi><hi >mortos, ou então, se preferes que diga isto doutra maneira, </hi><hi >estamos mortos por que estamos cegos, dá no mesmo» (Saramago </hi><hi >1995, 241).</hi></p><p rend="text" ><hi >A grande questão que se escancara tem infinitas </hi><hi >não-resoluções. Uma das não resoluções possíveis </hi>é<hi > a encubação do </hi><hi >sujeito livre através do hedonismo utilizado pela indústria de consumo </hi><hi >para manter a letargia sempre como verdade. </hi>É<hi > um tipo </hi><hi >de chibata sutil. Uma chibata que metaforiza os pés no </hi><hi >acelerador do carro e a buzina presa </hi>às<hi > mãos para </hi><hi >que o motorista cego abrisse caminho, essa mesma chibata nos </hi><hi >metaforiza como escravos</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="_22.html#footnote-000">6</ref></hi></hi><hi > porque aprendemos, fomos adestrados ou conduzidos culturalmente</hi><hi > a enxergar o aparente, apenas no vício do olhar, indiferente</hi><hi > ao teatro a céu aberto e aos mistérios, sem ao</hi><hi > menos lançar um olhar oblíquo.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em verdade, na literatura saramaguiana </hi><hi >temos um tratado da condição futura, de um futuro profético </hi><hi >por onde caminha a nova humanidade cega, bem como o </hi><hi >novo homem-massa do século XXI, porque não devemos esquecer que </hi><hi >a linguagem artística faculta a produção de um novo real </hi><hi >que se dilata, numa visão talvez mimética ou transreal, para</hi><hi > as fronteiras de um real paradoxalmente palpável na aparência que</hi><hi > aceitamos como </hi>único.<hi > Por isso, e somente nesse fundamento, a</hi><hi > </hi>«aparência,<hi > para o artista, não significa a negação do real,</hi><hi > mas uma seleção, uma correção, um desdobramento, uma afirmação. O</hi><hi > artista </hi>é<hi > aquele que procura a verdade, </hi>é<hi > o inventor</hi><hi > de novas possibilidades de vida» (Deleuze 2001, 33).</hi></p><p rend="text" ><hi >Eis que</hi><hi > Saramago desmascara verdades colapsadas através de uma narrativa que primeiro</hi><hi > nos contamina com a cegueira branca, mantém-nos letárgicos e, em</hi><hi > seguida, nos conduz a outra ilusão de visão clara das</hi><hi > fantasmagorias que nos aprisionam: ainda somos o homem-massa de Ortega</hi><hi > y Gasset?</hi></p><p rend="text" ><hi >Por fim, </hi>é<hi > uma ironia organizada por um </hi><hi >sistema que reconhece a necessidade do homem de ser total </hi><hi >e mobiliza instrumentos que, ao mesmo tempo, liberta-o nas vitrines </hi><hi >e, como nada vem de graça, coloniza seu estado de </hi><hi >consciência. Nessas tentativas, o homem-massa, aceita a quimera, a fantasia </hi><hi >como moeda de troca para que se possa orbitar na </hi><hi >vontade de plenificar-se e gestar uma identidade plena, essencial. Justamente, </hi><hi >não podemos encarar como ilusão e/ou como paradoxo? Por mais </hi><hi >que as fronteiras entre o real e a ficção sejam </hi><hi >gasosas, o Eu faminto mergulha nas ofertas transitórias do mundo </hi><hi >e da arte para, em seguida, retirar-se delas pleno. Entretanto, </hi><hi >essa plenitude </hi>é<hi > cambiante e não dura mais que um </hi><hi >espasmo e, tal qual a mulher do médico, ela </hi>é<hi > </hi><hi >compelida a enxergar a cegueira da alteridade, a coexistir com </hi><hi >a cegueira em toda a sua nudez. E, ensaiando uma </hi><hi >cegueira que nos define, Saramago ousa afirmar que </hi>«penso<hi > que </hi><hi >não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, Cegos</hi><hi > que, vendo, não vêem</hi>»<hi > (Saramago 1995, 310).</hi></p><p rend="text" ><hi >Este texto </hi><hi >alcança seu caráter pendular </hi>à<hi > medida que seu tecido apresenta </hi><hi >os valores europeus, através de um mapa horizontal, da luta </hi><hi >entre o humanismo e o antihumanismo, e ao transitar pelas</hi><hi > características da União Europeia. No momento em que visito a</hi><hi > proposta do Sassoli e, concomitante, reflito o homem-massa, a cegueira</hi><hi > saramaguiana, a crise de pertencimento e a identidade como </hi><hi >um fantasma sempre em deslocamento, isso me permite o limite </hi><hi >entre humanidade enquanto projeto e humanidade enquanto discurso. Sassoli, como</hi><hi > agente de humanização no discurso e nos projetos, ancora uma</hi><hi > razão crítica em torno de um corpo (a UE) que</hi><hi > precisa ser repensado na direção humana, pragmática, social, histórica, econômica</hi><hi > e cultural. E aqui finalizo o texto e não encerro</hi><hi > a problematização.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em que circunstâncias o discurso apaixonado de Sassoli </hi><hi >em “Inovar, proteger, divulgar” e o Tratado da União </hi><hi >Europeia poderia conscientizar toda uma comunidade que sua identidade </hi>é,<hi > </hi><hi >por fim, rizomática? Até que ponto Sassoli conseguiria dissolver, em </hi>«<hi >prol da dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade,</hi><hi > do Estado de direito e do respeito pelos direitos do</hi><hi > Homem</hi>»<hi >, o medo da alteridade diante da migração e</hi><hi > o choque com a crise de pertencimento? O homem-massa, a</hi><hi > cegueira, o simulacro de uma identidade fixa (pura ou </hi>única),<hi > são espasmos de uma humanidade doente que a história dos</hi><hi > corpos guarda na memória, muito mais que a história da</hi><hi > grafocentria guarda como razão. Os cegos saramaguianos não são uma</hi><hi > metáfora, apenas não os enxergamos.</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Adorno, T. W. 1994. <hi rend="italic">O ensaio como forma.</hi> <hi rend="italic">Sociologia. </hi>São Paulo: Ática.</p><p rend="bib_indx_bib" >Bauman, Z. 2005. <hi rend="italic">Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi,</hi> tradução C.A. Medeiros, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.</p><p rend="bib_indx_bib" >Beck, U. 1999. <hi rend="italic">O que</hi><hi rend="italic"> é Globalização? Equívocos do globalismo: respostas à globalização,</hi> tradução A. Carone, São Paulo: Paz e Terra.</p><p rend="bib_indx_bib" >Canclini, N. G. 2007. <hi rend="italic">Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade,</hi> tradução H.P. Cintrão, e A.R. Lessa, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.</p><p rend="bib_indx_bib" >Comissão Europeia. [s.d.]. “União Europeia. Objectivos e valores.” <ref target="https://european-union.europa.eu/principles-countries-history/principles-and-values/aims-and-values_pt">https://european-union.europa.eu/principles-countries-history/principles-and-values/aims-and-values_pt</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Deleuze, G. 2011. <hi rend="italic">Lógica </hi><hi rend="italic">do sentido</hi>, tradução L.R.S. Fortes, São Paulo: Perspectiva.</p><p rend="bib_indx_bib" >Deleuze, G. 2001. <hi rend="italic">Nietzsche e a filosofia</hi>. Portugal: Brochura.</p><p rend="bib_indx_bib" >Han, Byung-Chul. 2017. <hi rend="italic">Sociedade do cansaço,</hi> tradução E.P. Giachini, Petrópolis: Vozes, Petrópolis.</p><p rend="bib_indx_bib" >Jornal Oficial da União Europeia (C 202). 2016. Edição em língua portuguesa, <ref target="https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=OJ">https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=OJ</ref>:C:2016:202:FULL&amp;from=CS (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >La Boètie, E. 1999. <hi rend="italic">Discurso da</hi><hi rend="italic"> servidão voluntária</hi>, tradução L.G. dos Santos, São Paulo: Brasiliense.</p><p rend="bib_indx_bib" >Lipovetsky, G. 1989. <hi rend="italic">O império do efêmero: a moda e </hi><hi rend="italic">seu destino nas sociedades modernas</hi>, tradução M.L. Machado, São Paulo: Companhia das Letras.</p><p rend="bib_indx_bib" >Lipovetsky, G. 2004. <hi rend="italic">Os tempos hipermodernos.</hi> São Paulo: Barcarola.</p><p rend="bib_indx_bib" >Monda, A. 2020. “David Sassoli: Europa significa atenção concreta às pessoas.” <hi rend="italic">Vatican News</hi>. <ref target="https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-04/david-sassoli-europa-significa-atencao-concreta-pessoas.html">https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-04/david-sassoli-europa-significa-atencao-concreta-pessoas.html</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Nietzsche, F. 2006. <hi rend="italic">Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com Martelo</hi>, tradução P.C. de Souza, São Paulo: Companhia das Letras.</p><p rend="bib_indx_bib" >Nietzsche, F. 1998. <hi rend="italic">Genealogia da Moral</hi>, tradução P.C. de Souza, São Paulo: Companhia das Letras.</p><p rend="bib_indx_bib" >Ortega y Gasset, J. 2013. <hi rend="italic">A </hi><hi rend="italic">rebelião das massas,</hi> tradução Herrera Filho, edição eletrônica: Ed. Ridendo Castigat Mores.</p><p rend="bib_indx_bib" >Quotidiano Nazionale. 2022. “David Sassoli, l’ultimo discorso in Europa: Innovare, proteggere, diffondere.” <hi rend="italic">Quotidiano nazionale</hi>. <ref target="https://www.quotidiano.net/politica/david-sassoli-discorso-1.7236192">https://www.quotidiano.net/politica/david-sassoli-discorso-1.7236192</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Saramago, J. 1995. <hi rend="italic">Ensaio sobre a cegueira.</hi> São Paulo: Companhia das Letras.</p><p rend="bib_indx_bib" >Sloterdijk, P. 2012. <hi rend="italic">A crítica da razão</hi><hi rend="italic"> cínica,</hi> tradução M. Casanova et al., São Paulo: Estação Liberdade.</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-005-backlink">1</ref></hi>	<hi >Referência colocada seguindo o formato do texto do Jornal Oficial</hi><hi > da União Europeia, de 07 de junho de 2016.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-004-backlink">2</ref></hi>	<hi >A Hidra de Lerna foi uma serpente mitológica com várias </hi><hi >cabeças (humanas, segundo alguns) que devastava as terras por onde </hi><hi >passava e foi morta por Héracles (Hércules, para os latinos). </hi><hi >Seu hálito era mortífero, e suas cabeças renasciam em dobro </hi><hi >quando cortadas. Além disso, a cabeça do centro era imortal.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-003-backlink">3</ref></hi>	<hi >O significado de ensaio, comparativamente ao título do romance e</hi><hi > do filme, corresponde tanto a forma quanto ao conteúdo da</hi><hi > cegueira. Por isso, entendemos ensaio na medida do que nos</hi><hi > diz Adorno: </hi>«é<hi > inerente </hi>à<hi > forma do ensaio a sua</hi><hi > própria relativização: ele precisa compor-se de tal modo como se,</hi><hi > a todo momento, pudesse interromper-se. Ele pensa aos solavancos e</hi><hi > aos pedaços, assim como a realidade </hi>é<hi > descontinua, encontra sua</hi><hi > unidade através de rupturas e não </hi>à<hi > medida que as</hi><hi > escamoteia. A unanimidade da ordem lógica engana quanto </hi>à<hi > essência</hi><hi > antagônica daquilo que ela recobre. A descontinuidade </hi>é<hi > essencial ao</hi><hi > ensaio, seu assunto </hi>é<hi > sempre um conflito suspenso» (Adorno 1994</hi><hi >, 180).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-002-backlink">4</ref></hi>	<hi >Para Sloterdijk, na Crítica da Razão Cínica, </hi><hi >utilizar essa </hi>«formulação<hi > significa aparentemente deferir um golpe contra a </hi><hi >tradição do esclarecimento. A frase mesma </hi>é<hi > um cinismo em </hi><hi >estado cristalino. Contudo ela manifesta uma pretensão objetiva de validação; </hi><hi >o ensaio em questão desenvolve o teor dessa pretensão e </hi><hi >sua necessidade. </hi>É<hi > lógico que se trata de um paradoxo, </hi><hi >pois como </hi>é<hi > que uma consciência esclarecida poderia ser ao </hi><hi >mesmo tempo falsa?» (Sloterdijk 2012, 34).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-001-backlink">5</ref></hi>	<hi >Essa morte </hi>é<hi > a condição de um falso esclarecimento. Seu olhocentrismo </hi>é<hi > um</hi><hi > tipo de morte imperativa e crudelíssima, porque não permite ao</hi><hi > sujeito o suicídio da sua visão mergulhando na cegueira branca,</hi><hi > impõe a força esmagadora da cegueira do Outro, do mundo,</hi><hi > na pura escatologia de uma civilização que deverá reinventar o</hi><hi > modo de se identificar como tal.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_22.html#footnote-000-backlink">6</ref></hi>	<hi >O sentido de escravo equivale ao sentido de servo voluntário, La Boètie (1999).</hi></p>


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        <listBibl>
          <head>References</head>
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          <bibl n="95530">La No&amp;#232;tie, E. 1999. Discurso da servid&amp;#227;o volunt&amp;#225;ria, tradu&amp;#231;&amp;#227;o L.G. dos Santos, S&amp;#227;o Paulo: Brasiliense.</bibl>
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          <bibl n="95516">Sloterdijk, P. 2012. A cr&amp;#237;tica da raz&amp;#227;o c&amp;#237;nica, tradu&amp;#231;&amp;#227;o M. Casanova et al., S&amp;#227;o Paulo: Esta&amp;#231;&amp;#227;o Liberdade.</bibl>
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