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        <title type="main" level="a">Saramago e os valores de Sassoli: do mítico e do ético em Caim</title>
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          <persName n="1" ref="https://orcid.org/0000-0002-0027-5237" type="ORCID">
            <forename>Nefatalin Gonçalves</forename>
            <surname>Neto</surname>
            <placeName type="affiliation">Federal University of Pernambuco (UFPE), Brazil</placeName>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.23</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>Cain resumes the biblical story of the genesiacs brothers to recount it in a heterodox way. Based on the canonical biblical texts, the ethical perspective of David Maria Sassoli and in ideological discourses, José Saramago (re)reads the life of the murderous brother by a desacralizing bias, establishing a process of discursive reorganization of the Bible and, consequently, of Christianity – an ideology rooted in the social thought that the writer Portuguese intends to resolve. Our proposal is to probe such ethical assumptions questioned by the novel. Thus, we will focus on the figure of the protagonist to reflect on postures, symbolic representations, narrative functions and ideological expressiveness. Let us, through our reading, decommthe kaleidoscopic clash that the skilled narrator stages to present an ethical proposal in dialogue with renewing ideals of today's society.</p>
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            <item>Cain</item>
            <item>biblical narrative</item>
            <item>parodic rereading</item>
            <item>ethical values</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.23<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.23" /></p>



<p rend="h1_chapter" >Saramago e os valores de Sassoli:<hi rend="italic"> </hi>do mítico e do ético em<hi rend="italic"> Caim</hi></p><p rend="h1_author" >Nefatalin Gonçalves Neto</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_1" >Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3" >(José Saramago)</p><p rend="text" ><hi >O conceito de humanidade</hi><hi > e ideias humanistas têm como escopo maior, em nossa sociedade</hi><hi > atual, por meio de um direcionamento </hi>ético<hi > proveniente da Bíblia</hi><hi > e da cultura judaico-cristã. Em outros termos, o conjunto de</hi><hi > livros que formam a Bíblia são responsáveis diretos tanto na</hi><hi > constituição do imaginário da sociedade ocidental quanto por seu cânone</hi><hi > literário. Essa paternidade </hi>única<hi > não impediu, entretanto, que diversas e</hi><hi > plurais culturas se desenvolvessem baseados em um mesmo ponto inicial</hi><hi > e </hi>promovessem<hi > projetos de melhoria e qualidade social. Dentre tais,</hi><hi > podemos destacar o projeto europeu de melhoria cidadã proposto por</hi><hi > David Maria Sassoli: solidariedade, igualdade, justiça, generosidade, dentre outros </hi><hi >quesitos contrapostos </hi>à<hi > violência, traição, maldade, inveja.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tal proposta se dá,</hi><hi > em especial, por meio de uma diversidade de ideias e</hi><hi > ideais provindos de uma fonte comum e capaz de transformar</hi><hi > a sociedade. Segundo a declaração do próprio eurodeputado, </hi>«a<hi > maior</hi><hi > força da Europa reside na sua diversidade. O Parlamento Europeu</hi><hi > saúda e celebra a singularidade cultural de cada Estado Membro»</hi><hi > (Sassoli 2021).</hi></p><p rend="text" ><hi >Tendo as reflexões de Sassoli como base e</hi><hi > tomando da bíblia suas histórias mais conhecidas, figuras e episódios</hi><hi > como o de Caim servem como objetivo para pensarmos, eticamente,</hi><hi > modelagens e projetos de melhoria e qualidade social. Isso porque,</hi><hi > apesar de qualitativa para tais questionamentos, a bíblia também apresenta</hi><hi > narrativas sanguinolentas, extremamente ambíguas e com quesitos que urgem uma</hi><hi > nova reflexão para se entender a sociedade hodierna e seus</hi><hi > possíveis direcionamentos. </hi>É<hi > por esse caminho que se chega ao</hi><hi > grito que dá sentido ao silêncio necessário de ser urdido.</hi><hi > Não a toa seja a literatura o espaço de maior</hi><hi > diálogo com a bíblia: os dois conjuntos promovem </hi>intertextos<hi > que</hi><hi > repensam a </hi>ética,<hi > projetam possibilidades e emolduram uma melhor ordem</hi><hi > social. Nas palavras de Sassoli, </hi>«do<hi > que a Europa </hi><hi >precisa (e o mundo todo, se pensarmos por um prisma </hi><hi >holístico) – e precisa acima de tudo – </hi>é<hi > de </hi><hi >um novo projeto de esperança» (Sassoli 2021). Essa esperança ansiada</hi><hi > só se perfaz, como bem pontuou o eurodeputado, quando ancorada</hi><hi > em três vertentes robustas: inovação, proteção e iluminação. Podemos tomar</hi><hi > esta moldura exposta por Sassoli como base de leitura para</hi><hi > constatarmos como alguns romances de Saramago se efabulam.</hi></p><p rend="text" ><hi >Iluminado por </hi><hi >um projeto cuja força reside na valorização de uma diversidade </hi><hi >que não ignore o singular de cada sujeito e cultura, </hi><hi >podemos tomar o </hi>último<hi > romance do escritor português, </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >, como</hi><hi > exemplo. O curto romance que retoma a narrativa bíblica que</hi><hi > lhe nomeia traz em seu bojo a qualidade de fechar</hi><hi > o conjunto da obra saramaguiana em suas reincidências e termina</hi><hi > por colocar um ponto final na obra do escritor português.</hi><hi > E não apenas por conta das sibilinas palavras que encerram</hi><hi > o romance: </hi>«A<hi > história acabou, não haverá nada mais que</hi><hi > contar» (Saramago 2009, 172), mas também por fechar em </hi><hi >movimento arrebatador e concatenador, mesmo sem intenção inicial, aquelas ideias </hi><hi >e temas apontados por Sassoli no discurso citado. </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > resgata </hi><hi >em suas linhas toda a obra romanesca saramaguiana e a </hi><hi >conecta, resolvendo enigmas deixados para trás e, principalmente, encerrando o </hi><hi >jogo – como se o escritor implícito na narrativa dissesse: </hi><hi >acabei, tudo está consumado.</hi></p><p rend="text" ><hi >Afora tal sentimento (menos teorético e muito</hi><hi > mais impressionista de nossa parte, deixemos claro), temos de forma</hi><hi > contundente que há um espírito </hi>ético<hi > de leitura heterodoxa direcionada</hi><hi > – a mesma realizada em </hi><hi rend="italic" >Evangelho segundo Jesus Cristo</hi><hi > –</hi><hi > e que suscitou recensões e polêmicas que se multiplicaram quando</hi><hi > do lançamento de </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >. O texto foi tratado pela </hi><hi >crítica com o uma espécie de retomada saramaguiana de suas </hi><hi >questões deístas e ateístas. Contudo, </hi>críticos não leram<hi > o texto em </hi><hi >seu viés literário ou mesmo </hi>ético.<hi > Exemplo soberbo, mas pouco </hi><hi >seguido e divulgado, foi o da mulher de Saramago, Pilar </hi><hi >del Río, ao analisar o texto. No </hi><hi rend="italic" >blog</hi><hi > do escritor,</hi><hi > ela comenta que o romance não </hi>é</p><p rend="quotation_b" ><hi >[…] um </hi><hi >tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de </hi><hi >contas: </hi>é<hi > uma ficção em que Saramago põe </hi>à<hi > prova </hi><hi >a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, </hi><hi >uma história de que todos conhecemos a música e alguns </hi><hi >fragmentos da letra (Río 2009: [s.p.]).</hi></p><p rend="text" ><hi >Apesar de extremamente elucidativo, </hi><hi >o texto de Pilar </hi>é<hi > desconhecido – muito em conta </hi><hi >talvez porque a antena desconfiada da crítica tenha disparado no </hi><hi >exato instante em a mulher do autor dá o direcionamento </hi><hi >de leitura, numa tentativa de fechar a abertura da obra. </hi><hi >Antenas a parte, Pilar </hi>é<hi > uma das </hi>únicas<hi > e enxergar </hi><hi >em </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > a ação do artefato literário em desprezo do </hi><hi >tema bíblico ao declarar, sem qualquer tipo de arremedo ou </hi><hi >cuidados, que o romance </hi>«[<hi >…] </hi>é<hi > literatura em estado </hi><hi >puro» (Río 2009: [s.p.]).</hi></p><p rend="text" ><hi >Em diálogo com Pilar e a</hi><hi > fim de fugir dessa seara extremamente comum e errônea de</hi><hi > se ler </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >, nos propomos a promover uma pequena </hi><hi >incursão no romance que permita entender alguma faceta dessa literatura </hi><hi >em estado puro. </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > </hi>é<hi > um mapa literário que se </hi><hi >espalha em todas as direções, se abre e se fecha, </hi><hi >pulsa, constrói e desconstrói. Um agenciamento que se move em </hi><hi >várias direções, escapa pelos cantos, se esparrama. Sendo discurso plural, </hi><hi >em uma condição democrática de leitura, não poderíamos apresentar um </hi><hi >texto cuja conseqüência seja encerrar qualquer tópico, antes a condição </hi><hi >de leitor que assumimos parte de uma mínima idéia para, </hi><hi >a partir dela, especificar um caminho de leitura.</hi></p><p rend="text" ><hi >Partindo dessa premissa,</hi><hi > temos que </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >, marcado por uma inspiração barroca, apresenta </hi><hi >em suas linhas mestras um conflito característico dessa corrente – </hi><hi >a saber, a oposição entre duas modalidades de experiência, matéria </hi><hi >e espírito – projetadas na dualidade culpa/perdão. A marca da </hi><hi >profanidade, representada pelo pecado, </hi>é<hi > contraposta ao sacro perdão em </hi><hi >um processo de buscas e perdas, qual a ovelha desgarrada </hi><hi >do evangelho que perdida, clama em brados para voltar </hi>às<hi > </hi><hi >graças do Pastor. A temática religiosa </hi>é<hi > marcada pela excelência </hi><hi >de elementos satíricos (em seu sentido primeiro, surgido na constituição </hi><hi >da literatura latina, ou seja, uma composição livre e irônica </hi><hi >contra instituições, costumes e ideias) que destitui carnavalescamente a ideação </hi><hi >de poder divino e insere a necessidade do humano para </hi><hi >a concretização dos atos numinosos. O jogo anômalo que institui </hi><hi >a criatura como fator necessário para a existência e competência </hi><hi >do criador, além do rebaixamento celeste em contraposição </hi>à<hi > elevação </hi><hi >do terreno, </hi>institui<hi > um dinamismo contrastante que causa dramaticidade e </hi><hi >promove a sensibilização sensorial do enunciatário. Temos, então, um caso </hi><hi >especial de dialética, como bem teorizou Eliade (2010): o profano </hi>é<hi > transmutado em sagrado, embora conservando a sua estrutura primitiva </hi><hi >(uma pedra sagrada não deixa de ser uma pedra).</hi></p><p rend="text" ><hi >O </hi><hi rend="italic" >caminho</hi><hi rend="italic" > tortuoso</hi><hi > de construção do romance se vale de uma fórmula</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >mnemotécnica</hi><hi >, ou seja, um raciocínio estranho, que serve para </hi><hi >causar confusão entre falso e verdadeiro. Essa fórmula faz do </hi><hi >jogo linguístico instaurado um processo sem afirmação derradeira; </hi><hi >movência em estado de devir. Essa característica funcional e dinâmica, </hi><hi >própria do barroco, causa a perspectiva multifocal, substitui o absoluto</hi><hi > pelo relativo e, por consequência, a limitação pela liberdade. Perspectiva</hi><hi > que podemos constatar presente a partir do momento que a</hi><hi > personagem principal, Caim</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-003-backlink"><ref target="_23.html#footnote-003">1</ref></hi></hi><hi >, entra em </hi><hi rend="italic" >combate</hi><hi > com Deus. A</hi><hi > orientação provida pelos </hi><hi rend="italic" >deslimites</hi><hi > desse ato insinua poder continuar para</hi><hi > além da moldura física do livro que lhe enforma, marca</hi><hi > a assimetria barroca do escrito – um anteparo solucionador, mas</hi><hi > disposto de tal forma que esconde diversas possibilidades.</hi></p><p rend="text" ><hi >O barroco, </hi><hi >como sabemos, não se constitui apenas como estilo artístico, mas </hi>é<hi > todo um movimento que formula modos novos de perceber </hi><hi >e dispor o mundo. Imbuído por essa perspectiva, </hi><hi rend="italic" >Caim </hi><hi >intenta</hi><hi > confrontar-se com o poder, criticá-lo, lutar contra suas formas de</hi><hi > repressão e violência. E esse confronto se dá, precipuamente, contra</hi><hi > o contexto religioso judaico-cristão – para Saramago o discurso mais</hi><hi > representativo do poder autoritário. O romance inflama-se contra o teológico</hi><hi > em favor de uma tentativa de mudá-lo, transformá-lo. Por seu</hi><hi > turno, enquanto </hi><hi rend="italic" >soldado </hi><hi >de defesa do elemento literário (com intenções</hi><hi > de mudança social racionalizada), o narrador saramaguiano vale-se de dispositivos</hi><hi > críticos – ironia, paródia, paráfrases, discursos ambíguos, síncrises, todos típicos</hi><hi > dos textos carnavalizados – para seduzir o leitor e tentar</hi><hi > possibilitar-lhe outros vieses ideológicos. Apropriando-se do maior mito da sociedade</hi><hi > hodierna, o escritor procura, com seu romance, desmitificar posturas compostas</hi><hi > e pensamentos retrógrados veiculados pelo cristianismo, esbarrando numa problemática constante:</hi><hi > a evidente dependência entre humanidade e divindade em que a</hi><hi > derrocada de um implica a do outro. Assim, o experiente</hi><hi > narrador do romance propõe, para além da morte divina, uma</hi><hi > saída insólita ao conluir criador e criatura em discussões eternas</hi><hi > a favor da vida e de sua melhoria.</hi></p><p rend="text" ><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > inicia,</hi><hi > em seus primeiros dois capítulos, com a narração dos incidentes</hi><hi > cometidos pelo casal primevo do </hi><hi rend="italic" >Gênesis</hi><hi > – cena que permanece</hi><hi > até metade do terceiro capítulo –, momento em que aparece</hi><hi > o protagonista para tomar conta das cenas narrativas com o</hi><hi > grande imperativo de querer destruir a humanidade e acabar com</hi><hi > a existência da figura divina. O romance, portanto, refaz o</hi><hi > escritural bíblico sob um olhar </hi>ético-paródico,<hi > no qual a justificativa</hi><hi > dos atos divinos e humanos </hi>é<hi > colocada, indiretamente, na berlinda</hi><hi > para ser julgada segundo um parecer humanitário. </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > representa, em</hi><hi > seu extrato teórico, a proposição de Waldecy Tenório sobre os</hi><hi > textos de cunho religiosos de Saramago se valerem de um</hi><hi > estilo profético. A expressa indignação presente no livro diante da</hi><hi > injustiça, mesmo quando ela vem de Deus, </hi>é<hi > a mesma</hi><hi > dos enviados divinos: uma voz que se levanta contra a</hi><hi > vileza e a caoticidade da situação (cfr. Tenório</hi><hi > 1998, 139), aponta os caminhos tortuosos e clama pelo </hi><hi >arrependimento de atos insanos contra a vida.</hi></p><p rend="text" ><hi >Na verdade, como o</hi><hi > próprio Saramago afirmou, a Bíblia está cheia de violência e</hi><hi > seu romance retrata-a nesse aspecto. O autor indicia, por</hi><hi > meio de seu texto, que tal problema está irmanado no</hi><hi > pensamento tortuoso promovido pelo </hi><hi rend="italic" >Fator Deus</hi><hi >:</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >o fiel deve </hi><hi >cumprir cegamente suas premissas, motivo que causa o </hi>«[…<hi >] </hi><hi >horror, agachado [que] como um animal imundo, esperou que saíssemos </hi><hi >da estupefação para nos saltar </hi>à<hi > garganta» (Saramago 2001: [s.p.]).</hi><hi > Destarte, para o escritor, Deus cria os homens, mas, </hi><hi >ao mesmo tempo, </hi>é<hi > criado por eles. Essa necessidade da </hi><hi >representação de uma divindade e, consequentemente, a necessidade de uma </hi><hi >religião, implanta certas visões de uma criação ser melhor ou </hi><hi >mais poderosa que outra:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Os deuses, acho eu, só existem no</hi><hi > cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que</hi><hi > os inventou, mas o “fator Deus”, esse, está </hi><hi >presente na vida como se efetivamente fosse o dono e </hi><hi >o senhor dela. Não </hi>é<hi > um deus, mas o “fator</hi><hi > Deus” o que se exibe nas notas de dólar </hi><hi >e se mostra nos cartazes que pedem para a América </hi><hi >(a dos Estados Unidos, não a outra…) a bênção </hi><hi >divina. […] Dir-se-á que um deus andou a semear </hi><hi >ventos e que outro deus responde agora com tempestades. </hi>É<hi > </hi><hi >possível, </hi>é<hi > mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses </hi><hi >sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que </hi>é<hi > terrivelmente </hi><hi >igual em todos os seres humanos onde quer que estejam </hi><hi >e seja qual for a religião que professem, esse que </hi><hi >tem intoxicado o pensamento e aberto as portas </hi>às<hi > intolerâncias </hi><hi >mais sórdidas, esse que n</hi>ão<hi > respeita senão aquilo em que</hi><hi > manda crer, esse que depois de presumir ter feito da</hi><hi > besta um homem acabou por fazer do homem uma besta</hi><hi > (Saramago 2001: [s.p.]).</hi></p><p rend="text" ><hi >Dessa forma, para (a)firmar uma visão de </hi><hi >mundo, pessoas começam a matar seus discordantes, a eliminar o </hi><hi >diferente em nome em nome das divindades representantes do pensamento </hi><hi >defendido – como ocorrido com as Torres Gêmeas, o Conflito </hi><hi >Palestino, Católicos e Protestantes na Irlanda, a luta entre Indianos </hi><hi >e Ingleses, Portugueses continentalistas e guerrilheiros Angolanos/Moçambicanos, Indus e Muçulmanos</hi><hi > na Caxemira etc. As várias </hi>épocas<hi > e passagens que </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > testemunha ao longo de sua viagem no tempo demarcam esse</hi><hi > caráter violento, castrador e narcisista do </hi><hi rend="italic" >fator Deus</hi><hi > representado pela</hi><hi > divindade judaico-cristão. Assim, apesar de aparentemente estranho, o romance de</hi><hi > Saramago confirma que </hi></p><p rend="quotation_b" >[…] Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando […] (Saramago 2001: [s.p.]).</p><p rend="text" ><hi >A apresentação de um ser egóico –</hi><hi > </hi>à<hi > distância da ideia cristã de caráter sagrado, na qual</hi><hi > Deus seria bondoso, justo e misericordioso – redimensiona o tratamento</hi><hi > e insere o quilate literário ao texto. A visão religiosa</hi><hi > apresentada pelo romance de Saramago não </hi>é<hi > aquela que se</hi><hi > assenta na orientação crística</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-002-backlink"><ref target="_23.html#footnote-002">2</ref></hi></hi><hi >, e sim da imagem de</hi><hi > uma entidade que possui um temperamento muito semelhante ao humano.</hi><hi > Ou seja, esse ser </hi>é<hi > instável: faz o bem, fica</hi><hi > feliz, perdoa, reconhece o erro e até aceita a existência</hi><hi > de seres mais poderosos no universo. Podemos constatar tal fato</hi><hi > no excerto que segue:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Andarás errante e perdido pelo mundo, </hi><hi >Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei </hi><hi >um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, </hi><hi >em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal </hi><hi >a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador </hi><hi >a testa de Caim, onde apareceu uma pequena mancha negra, </hi><hi >Este </hi>é<hi > o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor </hi><hi >(Saramago 2009, 37).</hi></p><p rend="text" ><hi >A vacilação de ações e opinião aponta </hi><hi >que Deus, assim como o ser humano, se equivoca, </hi>é<hi > </hi><hi >partidário e delibera de forma parcial. O romance clareia que </hi><hi >a figura divina questionada </hi>é<hi > a exata realização da máxima </hi><hi >agostiniana, ou seja, esse Deus </hi>é,<hi > </hi><hi rend="italic" >ipsis litteris</hi><hi >, igual aos</hi><hi > deuses gregos, imagem e semelhança da humanidade. Essa projeção nascida</hi><hi > da figuração humana </hi>é<hi > extremamente violenta, pois emana nossos sentimentos</hi><hi > mais </hi>íntimos,<hi > tanto os bons quanto os maus – inclusive</hi><hi > assume a sua </hi>«[<hi >…] porção de culpa”, que “não</hi><hi > absorve” a da humanidade, impingindo a ela o merecido “castigo»</hi><hi > (Saramago 2009, 35-6). A denúncia efetivada pelo protagonista do romance,</hi><hi > qual voz profética – como já afirmamos – não se</hi><hi > erige, então, contra </hi><hi rend="italic" >a ideia</hi><hi > de Deus, mas sim contra</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >uma ideia</hi><hi > de Deus, portanto, um texto alegórico. Por isso</hi><hi > as personagens são todas marcadas textualmente em letras minúsculas, fiéis</hi><hi > </hi>à<hi > noção de representantes da coletividade, sem identificação plena</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-001-backlink"><ref target="_23.html#footnote-001">3</ref></hi></hi><hi >.</hi><hi > A problematização de fatos se dá a partir de sistemas</hi><hi > totalitários e verdades universais que precisam ser desconstruídos em favor</hi><hi > de uma reelaboração do mundo por meio da narrativa; essa</hi><hi > possibilita outras vidas possíveis, carregadas de </hi><hi rend="italic" >diferentes verdades</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao voltarmo-nos</hi><hi > para o romance, constatamos que os capítulos iniciais, apesar </hi><hi >de se parecerem com o mítico narrar da criação bíblica, </hi><hi >apresentam certa problemática: a questão da fala e, por consequência, </hi><hi >de suas bem-aventuranças. Deus, um sujeito solitário, resolve criar o </hi><hi >primeiro casal do paraíso e os orienta a não comer </hi><hi >do fruto da arvore do bem e do mal, instalada </hi><hi >no meio do jardim edênico. A diferença da trama se </hi><hi >faz notar por pequenas transformações que subvertem o sentido original </hi><hi >por meio da releitura crítica. Um dos processos se evidencia </hi><hi >na negação da bondade plena. Se no </hi><hi rend="italic" >Gênesis</hi><hi >, depois de</hi><hi > realizar suas ações fundacionais, Deus constata que </hi>«<hi >tudo era </hi><hi >bom</hi>»<hi >, </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > subverte a assertiva apresentando uma divindade furiosa, </hi><hi >esquecida de colocar a língua/fala em suas criaturas. O romance, </hi><hi >ao apresentar Deus, diz que Ele </hi>«[<hi >…] num acesso </hi><hi >de ira, surpreendente em que tudo poderia ter solucionado com </hi><hi >outro rápido fiat</hi>»<hi > (Saramago 2009, 9) e, com uma </hi><hi >nova ação, resolve seu problema. Após a correção do deslize,</hi><hi > a sequência perdura a imitação parafrástica: o casal come do</hi><hi > fruto proibido, causam a ira divina e perdem o direito</hi><hi > ao paraíso.</hi></p><p rend="text" ><hi >A continuidade da narrativa apresenta a consequente expulsão </hi><hi >nascida da desobediência. Na recriação romanesca, a primeira providência tomada </hi><hi >pelo casal após o degredo foi a de arranjar abrigo </hi><hi >para fugir do sol que tostava peles, uma realidade bem </hi><hi >diferente das amenidades a que estavam habituados. O caso </hi>é<hi > </hi><hi >resolvido com a ajuda divina:</hi></p><p rend="quotation_b" >Dito isto, o senhor fez aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos um ao outro em sinal de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso bem se haviam aproveitado. […] Carregando sobre os ombros as fedorentas peles, bamboleando-se sobre as pernas trôpegas, adão e eva pareciam dois orangotangos que pela primeira vez se tivessem posto de pé (Saramago 2009, 18).</p><p rend="text" ><hi >O trecho explicita, claramente, que Deus ajudou </hi><hi >a Adão e Eva, além de relacionar suas vestes de </hi><hi >peles fedorentas a orangotangos bípedes. Ademais, o casal vai morar </hi><hi >em cavernas, aprendem a dominar o fogo e passam a </hi><hi >viver em grupo. Essa sequência narrativa remete </hi>à<hi > proposta darwiniana </hi><hi >cientificista de surgimento da humanidade, uma posição que, a primeira </hi><hi >vista, parece querer diminuir o criacionismo, mas se vista com </hi><hi >cautela, propõe uma nova mitologia na qual as teorias divergentes </hi><hi >convirjam. O romancista reflete, no texto, o paradigma emergente que </hi><hi >reclama para si uma proximidade entre teorias científicas e/ou bíblicas </hi><hi >e criação literária. Saramago inicia, com essa proposição, sua atitude </hi><hi >constante em </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >: brincar com as possibilidades. Transformar o simplório</hi><hi > e o sutil em agudeza; barroquizar o discurso por meio</hi><hi > de pequenas gratuidades aparentemente fortuitas.</hi></p><p rend="text" ><hi >Para além desses quesitos, outra </hi><hi >questão, escondida incidentalmente, se apresenta no entrecho: a reescrita consciente </hi><hi >descreve os acontecimentos do surgimento da humanidade com melindres historiográficos, </hi><hi >ao mesmo tempo em que aproxima teoria(s) científica e criação </hi><hi >literária. Tal ato parece propor uma possível saída aos caminhos </hi><hi >intrincados entre literatura, Bíblia e pressupostos racionalistas. Para além, ressalta </hi><hi >as falhas dos discursos aceitos, promove a carnavalização da narrativa </hi><hi >e se coloca como agenciador de desconstruções:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Que eles não disseram</hi><hi > aquelas palavras, </hi>é<hi > mais do que </hi>óbvio,<hi > mas as dúvidas,</hi><hi > as suspeitas, as perplexidades, os avanços e recuos da argumentação</hi><hi > estiveram lá. O que fizemos foi simplesmente passar ao português</hi><hi > corrente o duplo e para nós irresolúvel mistério da linguagem</hi><hi > e do pensamento daquele tempo (Saramago 2009, 46).</hi></p><p rend="text" ><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > se</hi><hi > apresenta, também, como paródia, um texto que promove a </hi>«[<hi >…] imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e</hi><hi > prejudicar ao mesmo tempo» (Hutcheon 1985, 54). Ou seja,</hi><hi > o romance agencia tradição e ruptura por meio de um</hi><hi > discurso desestabilizador para retomar o diálogo entre presente e passado;</hi><hi > redimensiona esses tempos para revelar História de maneira consciente. Ao</hi><hi > eleger o mito edênico como revisitação, o autor português adentra</hi><hi > um solo extremamente movediço, onde </hi><hi rend="italic" >facto</hi><hi > e </hi><hi rend="italic" >ficto</hi><hi > convergem, se</hi><hi > misturam, se amalgamam. De uma perspectiva crítica, </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > remonta os</hi><hi > mitos de Adão e Eva, Caim e Abel, Abraão e</hi><hi > Isaac, Lilith, a Torre de Babel, o encontro de Moisés</hi><hi > com Deus no Monte Sinai, a destruição das cidades de</hi><hi > Sodoma e Gomorra, Jó e, por fim, o contexto do</hi><hi > dilúvio e a Arca de Noé, todos eles coordenados e</hi><hi > fiduciados pelas mãos de um deus mitopoético. Em um processo</hi><hi > de (auto)decifração nacional, Saramago (re)interpreta os mitos genesíacos por</hi><hi > meio de uma leitura literal dos fatos: cria um discurso</hi><hi > paródico que dessacraliza seus valores. O narrador deixa de lado</hi><hi > a hermenêutica bíblica e renova significados via iconoclastia linguística.</hi></p><p rend="text" ><hi >Retornando, </hi><hi >o romance passa a delinear sua trajetória principal a partir </hi><hi >do terceiro capítulo, momento em que aparecem as personagens Caim </hi><hi >e Abel. Sobre os dois o narrador faz um breve </hi><hi >sumário no qual se refere a uma infância comum e, </hi><hi >rapidamente, chega ao episódio do assassinato. A trama acompanha parafrasticamente </hi><hi >a desdita que acende a cólera de Caim para com </hi><hi >Abel. Ela nasce por conta da rejeição sistemática e sem </hi><hi >motivo, por parte de Deus, das oferendas do irmão mais </hi><hi >novo em contrapartida ao primogênito. Ou seja, </hi>«Estava<hi > claro, o </hi><hi >senhor desdenhava caim» (Saramago 2009, 33). Contudo, se até aqui</hi><hi > a semelhança ao </hi><hi rend="italic" >Gênesis</hi><hi > bíblico </hi>é<hi > clara, no romance Abel</hi><hi > percebe ser preferido em relação ao irmão e passa a</hi><hi > zombar da </hi><hi rend="italic" >incompetência</hi><hi > fraternal, o que atiça a raiva e</hi><hi > inflama a vingança de Caim: </hi>«Foi<hi > então que o verdadeiro</hi><hi > carácter de abel veio ao de cima. Em lugar de</hi><hi > se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele,</hi><hi > e, como se isso ainda fosse pouco, desatou a enaltecer</hi><hi > a sua própria pessoa […]» (Saramago 2009, 33). </hi><hi >Em vez de apoio, escarnecimento. Abel deflagra uma tipificação da </hi><hi >personalidade humana, a atrocidade facínora.</hi></p><p rend="text" ><hi >Tomado pela ira e pela inveja,</hi><hi > o filho mais novo do casal edênico arma uma cilada</hi><hi > e mata seu irmão </hi>«[<hi >…] a golpes de uma</hi><hi > queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto</hi><hi > com aleivosa premeditação» (Saramago 2009, 34), cometendo o primeiro </hi><hi >homicídio na história da Humanidade. Ao confrontar Caim para saber </hi><hi >de seus motivos mortíferos, Deus se desentende com sua criação </hi><hi >e, indignado pelo ato, ameaça-o. A ironia deste momento alto </hi><hi >da narrativa está na defesa que Caim faz de si. </hi><hi >Ao afirmar-se como assassino, o protagonista acusa Deus de dividir </hi><hi >consigo a responsabilidade:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Que fizeste com o teu irmão, perguntou [deus],</hi><hi > e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas</hi><hi > de meu irmão, Mataste-o, Assim </hi>é,<hi > mas o primeiro culpado</hi><hi > </hi>és<hi > tu, eu daria a vida pela vida dele se</hi><hi > tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te </hi>à<hi > prova,</hi><hi > E tu quem </hi>és<hi > para pores </hi>à<hi > prova o que</hi><hi > tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as</hi><hi > coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de</hi><hi > mim nem de minha liberdade […] Como tu foste livre</hi><hi > para deixar que eu matasse a abel quando estava na</hi><hi > tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a</hi><hi > soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses,</hi><hi > bastaria […] que aceitasses a minha oferenda com humildade,</hi><hi > só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e</hi><hi > tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles</hi><hi > a quem dizem ter criado […] (Saramago 2009, </hi><hi >34).</hi></p><p rend="text" ><hi >A citação apresenta algumas das características comentadas da releitura paródica</hi><hi > do mito sob as rédeas da ironia. A fala de</hi><hi > Caim expõe sua negação em aceitar a Deus como dono</hi><hi > de si ou de sua liberdade e, ao apontar que</hi><hi > se tivesse aceitado os sacrifícios dos dois irmãos o</hi><hi > fratricídio não ocorreria, a personagem descarta a soberania divina se</hi><hi > apresenta livre até mesmo para matar seu irmão Abel.</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa </hi><hi >liberdade de Caim o coloca como culpado, mesmo sem essa </hi><hi >percepção por parte da personagem. O jogo criado pela narrativa </hi><hi >desarma a figura divina de seu poder, mas também realoca </hi><hi >sua imagem como culpado, não mais o soberano dono da </hi><hi >verdade. Justamente nesse choque se encontra a motivação reflexiva que </hi><hi >acompanha toda narrativa: Abel, um pastor abençoado e destoante, e </hi><hi >Caim, um agricultor renegado; a morte de Abel inicia um </hi><hi >constante confronto ideológico entre Caim com Deus; a </hi>«<hi >falta de</hi><hi > perdão</hi>»<hi > divino justifica os traços de sedição para com </hi><hi >o criador, mas não apaga a culpa existente no irmão </hi><hi >assassino. Segundo uma leitura rasa do romance, poderíamos pensar que </hi><hi >Deus </hi>é<hi > tirano-vingador, capaz de trucidar populações inteiras (como Sodoma </hi><hi >e Gomorra) sem poupar crianças, enquanto Caim representa a figuração </hi><hi >do sujeito cético cujos pensamentos são anacrônicos, reiterados por sua </hi><hi >força, mas magoado por seu próprio erro:</hi></p><p rend="quotation_b" >Tenho um pensamento que não me larga, Que pensamento, perguntou abraão, Penso que havia inocentes em sodoma e nas outras cidades que foram queimadas, Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida, As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes, Meu Deus, murmurou abraão e a sua voz foi como um gemido, Sim, será o teu Deus, mas não foi o delas (Saramago 2009, 97).</p><p rend="text" ><hi >Contudo, o romance, em verdade, explana a corresponsabilidade existente </hi><hi >entre criador e criatura pelos erros da terra.</hi></p><p rend="text" ><hi >O pecado do</hi><hi > protagonista o coloca em uma situação complexa: marcado por Deus</hi><hi > e condenado a vagar indefinidamente. Mas, diferente da personagem bíblica</hi><hi > (condenado a errar pelo mundo), a de Saramago erra pelos</hi><hi > tempos bíblicos; se torna um desterrado, um homem sem centro/raízes.</hi><hi > Esse desterro permite ao narrador instaurar um jogo insólito que</hi><hi > se realiza por um simples mecanismo: a personagem cruza fronteiras</hi><hi > temporais, passa por </hi>«<hi >súbitas mudanças de presente que o </hi><hi >faziam viajar no tempo</hi>»<hi > (Saramago 2009, 89) e se </hi><hi >transforma em testemunha ocular de episódios pontuais e de alta </hi><hi >importância para a construção da trajetória narrativa do </hi><hi rend="italic" >Primeiro Testamento</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="_23.html#footnote-000">4</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Essa proposição alia o universo insólito da literatura ao universo</hi><hi > do maravilhoso bíblico, promovendo uma argumentação que desconstrói as bases</hi><hi > de sustento da fé judaico-cristã; uma composição paródica que (</hi><hi >re)cria criticamente para apontar falhas sociais e religiosas via ficção.</hi><hi > Essa recriação, enquanto escrita palimpsesta, modifica a ordem cronológica </hi><hi >do texto padrão e, canhestramente, trafega por cenas que permitem </hi><hi >ao leitor avaliar a imagem de Deus em </hi><hi >favor de novas proposições para ela.</hi></p><p rend="text" ><hi >Saramago, como em </hi><hi rend="italic" >A jangada</hi><hi rend="italic" > de Pedra</hi><hi >, se vale de um discurso portentoso realista </hi><hi >para conceder a seu protagonista o dom da transmigração temporal </hi><hi >e testemunhar episódios importantes em nova chave, afinal não </hi>é<hi > </hi><hi >mais um narrador a contar, segundo uma visão posterior e </hi><hi >deliberadamente parcial, o que aconteceu e sim uma personagem vivenciando </hi><hi >situações inusitadas como em:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >E então, </hi>ó<hi > surpresa, </hi>ó<hi > pasmo, </hi>ó<hi > estupefacção, a paisagem que caim tinha agora diante de </hi><hi >si era completamente diferente, verdes de todos os verdes alguma </hi><hi >vez visto, com </hi>árvores<hi > frondosas e frutíferas, complexos de </hi>água,<hi > </hi><hi >uma temperatura suave, nuvens brancas boiando no céu. Olhou para </hi><hi >trás, a mesma aridez de antes, a mesma secura, ali </hi><hi >nada havia mudado. Era como se existisse uma fronteira, um </hi><hi >traço a separar dois países, Ou dois tempos, disse caim </hi><hi >sem consciência de havê-lo dito, o mesmo que se alguém </hi><hi >o estivesse pensando em seu lugar. Levantou a cabeça para </hi><hi >olhar o céu e viu que as nuvens que se </hi><hi >moviam na direcção donde viemos se detinham na vertical do </hi><hi >chão e logo desapareciam por desconhecidas artes. Há que levar </hi><hi >em consideração o facto de caim estar mal informado sobre </hi><hi >questões cartográficas, poderia mesmo dizer-se que esta, de certo modo, </hi>é<hi > a sua primeira viagem ao estrangeiro, portanto </hi>é<hi > natural </hi><hi >surpreender-se, outra terra, outra gente, outros céus e outros costumes. </hi><hi >Bem, tudo isso pode ser certo, mas o que ninguém </hi><hi >me explica </hi>é<hi > a razão de as nuvens não poderem </hi><hi >passar de lá para cá. A não ser, diz a </hi><hi >voz que fala pela boca de caim, que o tempo </hi><hi >seja outro, que esta paisagem cuidada e trabalhada pela mão </hi><hi >do homem tivesse sido, em </hi>épocas<hi > passadas, tão estéril e </hi><hi >desolada como a terra de nod. Então estamos no futuro,</hi><hi > perguntamos nós, </hi>é<hi > que temos visto por aí uns filmes</hi><hi > que tratam do assunto, e uns livros também (Saramago 2009</hi><hi >, 77).</hi></p><p rend="text" ><hi >O princípio da verossimilhança neorrealista presente nos textos que</hi><hi > se querem históricos deixa, aqui, de ser imperioso e o</hi><hi > recurso fantástico, que deveria ser transgressor naquele tipo de narrativa,</hi><hi > se torna o </hi><hi rend="italic" >modus operandi</hi><hi > de </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >: ativa a </hi><hi >perspectiva realista mágica. Em oposição </hi>às<hi > aporias temporais aristotélico-agostinianas, o </hi><hi >narrador saramaguiano, sob uma perspectiva fenomenológica, redimensiona o universo ficcional.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao cruzar a fronteira temporal pela primeira vez a personagem </hi><hi >chega a um lugar diferente de tudo já conhecido, a </hi><hi >terra de Nod, que </hi>«significa<hi > terra da fuga ou terra</hi><hi > dos errantes […]» (Saramago 2009, 45). Segundo o </hi><hi rend="italic" >Gênesis</hi><hi >, Caim foi banido para lá após matar seu irmão</hi><hi > Abel. A raiz hebraica do vocábulo </hi>é<hi > vaguear – referência</hi><hi > </hi>à<hi > vida nômade de Caim e seus descendentes, os chamados</hi><hi > cainitas. Apesar de parecer fortuita, a relação entre cidade </hi><hi >e sujeito alcança mais possibilidades do que possamos imaginar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Nod representa,</hi><hi > na diegese narrativa, a marca específica de um sujeito errante,</hi><hi > alguém que foge, inclusive de si – marcas do próprio</hi><hi > protagonista. Ora, nessa terra Caim arruma emprego como amassador de</hi><hi > barro e toma contato com Lilith. Altamente sedutora – como</hi><hi > seu protótipo –, a personagem feminina atrai para si os</hi><hi > homens que deseja, leva-os para sua cama e esgota-os sexualmente.</hi><hi > Mesmo alertado sobre os perigos advindos ao se relacionar com</hi><hi > a rainha, Caim não consegue passar despercebido. Logo, de trabalhador</hi><hi > passa a amante. A cena que antecede o primeiro encontro</hi><hi > </hi>íntimo<hi > dos dois </hi>é<hi > emblemática, pois guarda o aspecto mais</hi><hi > evidente do romance como um todo: suas bruscas mudanças de</hi><hi > um estado a outro – da passividade </hi>à<hi > brutalidade, de</hi><hi > uma terra a outra, do desconhecimento ao conhecimento, do realismo</hi><hi > ao insólito, da vida </hi>à<hi > morte, do carinho </hi>à<hi > lascívia:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Conduzido por elas a um quarto separado, Caim foi despido </hi><hi >e logo lavado dos pés </hi>à<hi > cabeça com </hi>água<hi > tépida. </hi><hi >O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe </hi><hi >uma erecção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza </hi><hi >seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenções </hi><hi >para com o </hi>órgão<hi > erecto, a que, entre novas risadas,</hi><hi > chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas</hi><hi > suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado,</hi><hi > vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem</hi><hi > ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam,</hi><hi > as escravas receberam na cara e na boca (Saramago 2009</hi><hi >, 54).</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >[…] lilith e caim parecem dois esgrimistas que</hi><hi > apuram as espadas para um duelo de morte. […]</hi><hi > ela mesma dissera, Estarás aqui dia e noite, só não</hi><hi > tinha acrescentado, Serás, quando eu assim o decidir, o meu</hi><hi > boi de cobrição, palavra esta que parecerá não só grosseira</hi><hi > como mal aplicada ao caso, uma vez que, em princípio,</hi><hi > cobrição </hi>é<hi > coisa de animais quadrúpedes, não de seres humanos,</hi><hi > mas que muito bem aplicada está porque estes já foram</hi><hi > tão quadrúpedes como aqueles, porquanto todos sabemos que o que</hi><hi > hoje denominamos braços e pernas foi durante muito tempo tudo</hi><hi > pernas, até que alguém se terá lembrado de dizer aos</hi><hi > futuros homens, Levantem-se que já </hi>é<hi > hora. […] Caim</hi><hi > dá voltas </hi>à<hi > vida na sua cabeça e não lhe</hi><hi > encontra explicação, veja-se esta mulher que, não obstante estar enferma</hi><hi > de desejo, como </hi>é<hi > fácil perceber, se compraz em ir</hi><hi > adiando o momento da entrega, palavra por outro lado altamente</hi><hi > inadequada, porque lilith, quando finalmente abrir as pernas para </hi><hi >se deixar penetrar, não estará a entregar-se, mas sim a </hi><hi >tratar de devorar o homem a quem disse, Entra (Saramago </hi><hi >2009, 58-9).</hi></p><p rend="text" ><hi >Os trechos são descritivos da admissão de Caim </hi><hi >por Lilith como amante. Embora ela fosse casada com Noah </hi><hi >– marido infértil, motivo usado pela insaciável personagem para manter </hi><hi >casos extraconjugais </hi>à<hi > sua vista – a rainha possui uma </hi><hi >independência sexual plena em relação aos homens – traço comum </hi><hi >de seu protótipo mítico. A tradição cabalística que embasa a </hi><hi >figura de Lilith permite, por um lado, sua manutenção e, </hi><hi >por outro, contamina a narrativa de forma a renová-la por </hi><hi >sua diferença contextual. Podemos constatar esse choque no primeiro excerto, </hi><hi >espécie de iniciação catequética e consagração batismal que se dá </hi><hi >por meio do estímulo (catequese) e ejaculação (batismo) de Caim </hi><hi >sobre a face das escravas. Importa-nos ainda, na cena descrita, </hi><hi >que o pênis de Caim </hi>é<hi > chamado de flauta muda. </hi><hi >O termo evoca um instrumento, objeto ao qual ser humano </hi><hi >recorre quer e não quando necessita. Ao nomear o pênis </hi><hi >com um vocábulo </hi><hi rend="italic" >instrumental</hi><hi > o narrador promove uma aproximação do </hi>órgão<hi > a um objeto de uso para fins práticos, um </hi><hi >para causar prazer auditivo, o outro sensitivo-sexual.</hi></p><p rend="text" ><hi >O licencioso se completa,</hi><hi > já no segundo trecho, com o momento orgíaco entre Lilith</hi><hi > e o protagonista, quando a libido e a volúpia se</hi><hi > tornam a tônica da narrativa, processo de mescla entre o</hi><hi > coito animal e relação sexual entre humanos. Ao tratar Caim</hi><hi > como boi de cobrição, o narrador recorda que a raça</hi><hi > humana, por evolução, descende de animais quadrúpedes e, automaticamente, aloca</hi><hi > Caim como passivo, boi que serve apenas para copular, cumprir</hi><hi > – como a flauta – um objetivo. Assim, a figura</hi><hi > da personagem ‘objeto’ serve, a princípio, para sanar as</hi><hi > necessidades sexuais de Lilith, mulher insaciável por natureza e ativa</hi><hi > no ato sexual.</hi></p><p rend="text" ><hi >O protagonista, na presença de Lilith, passa </hi><hi >de seu estado de passividade ao de sujeito atuante sexualmente; </hi><hi >de sua castidade brota a ardência sexual. Sua potência faz </hi><hi >a rainha se apaixonar e, contrariando o usual, não encontra </hi><hi >forma de esgotá-lo voluptuosamente. Assim, não há vitória ou derrota, </hi><hi >mas um emaranhar de perspectivas que levam </hi>à<hi > paixão correspondida </hi><hi >e, por sua marca diferencial, faz com que Caim permaneça </hi><hi >na cidade e acabe por engravidar Lilith.</hi></p><p rend="text" ><hi >Representativa da mulher que</hi><hi > age, a rainha de Nod assume no livro o lugar</hi><hi > da esposa de Caim e mãe de Enoch, o </hi><hi >filho da luxúria. A união entre Caim e Lilith revela </hi><hi >ao leitor ser possível, partindo de histórias moralmente condenáveis, manter </hi><hi >uma dignidade que se sobrepõe a valores estereotipados: Lilith se </hi><hi >torna ‘digna’, não se envergonha de sua natureza, revela-se</hi><hi > capaz de amar, perdoar e, ao mesmo tempo, ser dona</hi><hi > de si. Sua figura mítica amplia a discussão romanesca ao</hi><hi > colocar em pauta a validade de outras versões da história</hi><hi > – que sempre circularam no seio da cultura ocidental –,</hi><hi > além de retomar a antiga questão entre factual e ficcional</hi><hi > para a construção do texto literário, mas dessa vez pautada</hi><hi > em um </hi>âmbito<hi > profundamente metaficcional.</hi></p><p rend="text" ><hi >Após certa permanência na cidade, </hi><hi >Caim parte de Nod e transita para um período outro, </hi><hi >onde acontece seu primeiro encontro com Abraão prestes a sacrificar </hi><hi >seu filho Isaac a Deus. A narrativa original conta que </hi><hi >o sacrifício foi impedido a tempo por uma criatura alada, </hi><hi >mas no romance, </hi>é<hi > Caim que se antecipa ao anjo </hi><hi >e impede a ação de Abraão. Quando tudo se resolve, </hi><hi >o anjo do senhor aparece, atrasado, para realizar uma obra </hi><hi >já acabada. A ação perpetrada por Caim desfalca a atitude </hi><hi >divina e promove a dessacralização propositiva do texto. A importância </hi><hi >da cena se dá, mais uma vez, por quesitos </hi>éticos.<hi > </hi><hi >Ao negar um ato de sacralização da violência, Saramago redimensiona </hi><hi >o olhar da fé. Não há negação divina, apenas excesso </hi><hi >de violência como um estado necessário de ser expurgado. Qual </hi><hi >o </hi><hi rend="italic" >Anticristo</hi><hi > nietzschiano, o romance/ensaio elege uma crítica específica a </hi><hi >determinado procedimento dos propaladores do cristianismo: seu viés dominador, que </hi><hi >submete a humanidade (ou, pelo menos seus fiéis) a uma </hi><hi >dependência ao sofrimento para alcançar o perdão dos pecados e </hi><hi >a graça divina e, mais, </hi>à<hi > imposição de uma crença/ideia </hi>única<hi > por meio da força e de atitudes violentas (muitas </hi><hi >vezes usando, para isso, a </hi>«<hi >vontade de Deus</hi>»<hi >).</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao </hi><hi >contrário do que parece, Saramago não promove, nos trechos citados, </hi><hi >uma crítica a Jesus, mas sim </hi>à<hi > violência do Cristianismo </hi><hi >em prol do poder absoluto (religioso, político e/ou filosófico). Já </hi><hi >não se trata mais de pôr em xeque o próprio </hi><hi >Deus mediante a crucificação de Jesus Cristo, antes de construir </hi><hi >uma personagem cuja característica </hi>é<hi > a de apostrofar o Criador </hi><hi >pessoalmente em momentos cruciais da narrativa, culminando em sua execução </hi><hi >simbólica mediante a destruição daquilo que se infere ser a </hi><hi >sua obra mais preciosa: a humanidade.</hi></p><p rend="text" ><hi >O </hi>último<hi > episódio do livro,</hi><hi > que reencena a questão da violência e seus desdobramentos, envolve</hi><hi > as personagens Noé, Caim e Deus. Enquanto viajante, o protagonista</hi><hi > acaba por parar no tempo/espaço em que Noé realiza a</hi><hi > construção da arca para nela tomar lugar quando acontecer o</hi><hi > dilúvio. Caim </hi>é<hi > aceito para embarcar junto com a família</hi><hi > de Noé e repovoar a terra depois do incidente divino,</hi><hi > mas, durante o evento, mata a todos presentes na embarcação</hi><hi > em uma tentativa, um tanto quanto nietzschiana, de fazer acabar</hi><hi > com a existência de Deus e seu domínio sobre a</hi><hi > humanidade. O encerramento do romance, mesmo se lido enquanto tal</hi><hi > – ficção e, ainda, ficção da ficção –, por si</hi><hi > só esvaziaria qualquer discussão de ordem teológica. Ele deixa entrever,</hi><hi > como já vimos apontando em nossa reflexão, uma interessante discussão</hi><hi > </hi>ética:<hi > a defesa de certa retidão de conduta revelada pela</hi><hi > coerência de atitudes tanto do protagonista quanto do narrador:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Apesar </hi><hi >de assassino, caim </hi>é<hi > um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos </hi><hi >dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do</hi><hi > ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para</hi><hi > perverter o seu inato sentido moral da existência, […]</hi><hi > (Saramago 2009, 143).</hi></p><p rend="text" ><hi >O trecho evoca um procedimento comum ao</hi><hi > discurso do escritor português: a acronia entre o fato narrado</hi><hi > e os conhecimentos postos em enunciação pelo narrador. Sua voz,</hi><hi > ao questionar a moral do casal romanesco, faz o leitor</hi><hi > vacilar frente ao pronto, exigindo que haja uma maior atenção</hi><hi > e verificação para que nada seja julgado de forma fixa;</hi><hi > as ideias são reinterpretadas conforme a verdade se movimenta. Ao</hi><hi > usar o termo burguês, o narrador aproxima o julgamento do</hi><hi > enlace sexual entre Caim e Lilith sob uma moral cristã</hi><hi > atual, e não judaica, (mesmo romana ou grega) – conforme</hi><hi > exige o contexto temporal. O texto deflagra, por essa acronia,</hi><hi > que não há representação da Verdade, mas de </hi><hi rend="italic" >uma verdade</hi><hi rend="italic" > dentre outras</hi><hi > sobre os fatos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Em </hi>última<hi > análise, </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi >, nos</hi><hi > embates entre o factual bíblico e o inventivo, preenche lacunas</hi><hi > de significação deixadas pelo texto genesíaco e dessacraliza o consagrado</hi><hi > como oficial para reorganizar sua proposta epistêmica de sociedade pacífica,</hi><hi > sem violências de qualquer tipo. A presença da mítica Lilith</hi><hi > permite-nos pensar a recriação fundamentada em uma posição gnóstico-filosófica na</hi><hi > qual a fantasia, guiada pela presença do narrador – e</hi><hi > suas interferências –, aponta para um universo pretendido. Nesse, o</hi><hi > ser humano </hi>é<hi > um sujeito competente para lidar, equacional e</hi><hi > equilibradamente, com o bem e o mal – para além</hi><hi > de qualquer manipulação divina. </hi></p><p rend="text" ><hi >Não há profanação, mas uma dessacralização</hi><hi > que não nega o religioso. Qual sujeito marcado por seu</hi><hi > tempo, o escritor português deixa jorrar de sua pena a</hi><hi > preocupação com o sagrado; assassina aquilo que de regra há</hi><hi > nele de ruim para por em evidência uma nova perspectiva</hi><hi >. Ao deslocar significados e, causticamente, negar a imagem de </hi><hi >uma entidade abstrata e residente no inconsciente coletivo eivada de </hi><hi >valores psicológicos e violentos, o escritor institui uma transfiguração das </hi><hi >propriedades subjetivas religiosas: um Deus não confiável para o recebimento </hi><hi >da entrega plena, de credibilidade e justa crença, complexo e </hi><hi >humanizado, passível de erros e empatias.</hi></p><p rend="text" ><hi >Parece-nos, outrossim, existir da parte</hi><hi > do autor uma procura em promover o panorama psicológico humanizado</hi><hi > deste divino para poder negá-lo em favor de outra imagem,</hi><hi > menos sujeita a falhas, maldades e injustiças; similar aos seres</hi><hi > humanos. Dessa forma, a </hi>única<hi > ação de Caim </hi>é<hi > a</hi><hi > de quebrar a passividade diante das inescrutáveis/incompreensíveis ações divinas. Tal</hi><hi > qual o filósofo alemão, Saramago aponta a morte de um</hi><hi > Deus que </hi>é<hi > inclemente, intolerante e intransigente para com a</hi><hi > humanidade, um ser concretamente antropomorfizado que apresenta uma igualdade de</hi><hi > caráter entre criador e criatura. </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > assume outras mortes para</hi><hi > que o plano de uma nova civilização não seja concretizado</hi><hi > e mais uma vez Deus brinque, jogue e/ou manipule com</hi><hi > a vida humana, igual fez com a primeira civilização, destruída</hi><hi > pelo dilúvio divino:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Quando as tartarugas, que tinham sido as </hi>últimas,<hi > se afastavam, lentas e compenetradas como lhes está na </hi><hi >natureza, deus chamou, Noé, noé, por que não sais. Vindo</hi><hi > do escuro interior da arca, caim apareceu no limiar da</hi><hi > grande porta, Onde estão noé e os seus, perguntou o</hi><hi > senhor, Por aí, mortos, respondeu caim, Mortos, como, mortos, porquê,</hi><hi > Menos noé, que se afogou por sua livre vontade, </hi><hi >aos outros matei-os eu, Como te atreveste, assassino, a contrariar </hi><hi >o meu projecto, </hi>é<hi > assim que me agradeces ter-te poupado</hi><hi > a vida quando mataste abel, perguntou o senhor, Teria </hi><hi >de chegar o dia em que alguém te colocaria perante </hi><hi >a tua verdadeira face, Então a nova humanidade que eu </hi><hi >tinha anunciado, Houve uma, não haverá outra e ninguém dará </hi><hi >pela falta […] (Saramago 2009, 172).</hi></p><p rend="text" ><hi >Entretanto, o assassínio </hi><hi >deste Deus carrega um ensinamento diferente daquele de Nietzsche: ao </hi><hi >tentar apagar </hi><hi rend="italic" >toda</hi><hi > a possibilidade de existência do numinoso </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > </hi><hi >desvela que, enquanto ser figurativo, Deus </hi>é<hi > parte constitutiva da </hi><hi >realidade e, mais que isso, da humanidade em si. Matá-lo </hi><hi >significa destruir a vida, tão incrustado ele se encontra </hi>à<hi > </hi><hi >nossa condição. Não há fim de Deus sem fim da </hi><hi >humanidade. As duas instancias precisam aprender a conviver.</hi></p><p rend="text" ><hi >Sem litanias efabulativas</hi><hi >, podemos concluir lendo a marca feita por Deus em </hi><hi >Caim e que o acompanha em todo o romance como </hi><hi >símbolo de duas certezas: a da presença divina na constituição </hi><hi >física do homem/mulher, assim como sinal de reconhecimento da parcela </hi><hi >de culpa divina pelos erros cometidos por cada ser, um </hi><hi >sinal de seu </hi>«[<hi >…] acordo de responsabilidade partilhada […</hi><hi >]» (Saramago 2009, 35). Na poderia ser de outra forma</hi><hi > o final do romance: ele encerra-se com uma eterna conversa</hi><hi > entre criador e criatura. Deus e Caim discutem, eternamente como</hi><hi > convém a todo processo alegórico, a humanidade, seus erros, acertos</hi><hi > e problemas. E aqui, novamente, temos totalmente reorganizado aquele conceito</hi><hi > de humanidade e ideias humanistas propalados por Sassoli, redirecionado </hi><hi >eticamente por meio da releitura de conceitos e imagens advindos </hi><hi >da cultura judaico-cristã.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao retomar a paternidade bíblica em chave mítica,</hi><hi > Saramago apresenta, imbuído naquele espírito solidário de Sassoli, um </hi><hi >projeto ficcional de qualidade social. Em outros termos, </hi><hi rend="italic" >Caim</hi><hi > </hi>é<hi > </hi><hi >o exemplo de que Saramago não quer apagar as bases </hi><hi >da sociedade contemporânea, mas transformá-las, melhorá-las, encontrar possibilidades de diálogo </hi><hi >para seu funcionamento e, principalmente, para a melhoria da vida.</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" ><hi rend="italic">Bíblia TEB </hi>(<hi rend="italic">Tradução Ecumênica da Bíblia</hi>). 1994. São Paulo: <hi >Edições </hi>Loyola.</p><p rend="bib_indx_bib" >Eliade, M. 2010. <hi rend="italic">O sagrado e o profano</hi>, trad. R. Fernandes, São Paulo: WMF Martins Fontes.</p><p rend="bib_indx_bib" >Hutcheon, L. 1985. <hi rend="italic">Uma teoria da paródia</hi>, trad. T.L. Pérez, Lisboa: Edições 70.</p><p rend="bib_indx_bib" >Río, P. del. 2009. <hi rend="italic">Caim – O romance de José Saramago.</hi> <ref target="http://www.josesaramago.org/caim-o-romance-de-jose-saramago/">http://www.josesaramago.org/caim-o-romance-de-jose-saramago/</ref> (08/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Saramago, J. 2001. “O fator Deus.” <hi rend="italic">Folha </hi><hi rend="italic">de São Paulo</hi> 19 de setembro, 2001. <ref target="http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29519.shtml">http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29519.shtml</ref> (06/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Saramago, J. 2009. <hi rend="italic">Caim</hi>. São Paulo: Companhia das Letras.</p><p rend="bib_indx_bib" >Sassoli, D.M. 2021. “A liberdade e a Europa: uma construção de todos / Freedom and Europe: a construction of all.” <hi rend="italic">Bruxelas: European Union. European Parliament. General Directorate for</hi><hi rend="italic"> Communication. Civil Society Outreach Unit</hi>, <ref target="https://infoeuropa.eurocid.pt/registo/000086336/documento/0001/">https://infoeuropa.eurocid.pt/registo/000086336/documento/0001/</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Tenório, W. 1998. “A confissão da nostalgia.” In <hi rend="italic">Saramago segundo</hi><hi rend="italic"> terceiros,</hi> org. L. Lopondo, 131-43. São Paulo: FFLCH\USP.</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_23.html#footnote-003-backlink">1</ref></hi>	<hi >A</hi><hi > fim de evitarmos a confusão homonímica entre romance e personagem</hi><hi > que o nomeia, todas as vezes que nos referirmos </hi>a<hi > Caim como personagem, ela será grafada sem itálico e, quando</hi><hi > a referência for ao romance, ele virá em itálico.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_23.html#footnote-002-backlink">2</ref></hi>	<hi >Usamos o neologismo para diferenciar a ideia de pensamento emanado </hi><hi >das palavras de Cristo frente a doutrinação propalada pelas diversas </hi><hi >denominações cristãs.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_23.html#footnote-001-backlink">3</ref></hi>	<hi >A letra minúscula para grafar nomes demonstra uma</hi><hi > défice do sujeito em relação </hi>à<hi > sua representação. Assim, essa</hi><hi > opção estilística representa, também, um modo proposital de diminuir/dessacralizar as</hi><hi > personagens.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="_23.html#footnote-000-backlink">4</ref></hi>	Adotamos os termos <hi rend="italic">Primeiro</hi> e <hi rend="italic">Segundo Testamento</hi> em todo nosso trabalho em consideração às justificativas de uma leitura ecumênica como bem expressa na Introdução Geral da <hi rend="italic">TEB</hi> (<hi rend="italic">Tradução</hi><hi rend="italic"> Ecumênica da Bíblia</hi>), tradução que consultamos para nossa pesquisa. </p>




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        <listBibl>
          <head>References</head>
          <bibl n="95606">B&amp;#237;blia TEB (Tradu&amp;#231;&amp;#227;o Ecum&amp;#234;nica da B&amp;#237;blia). 1994. S&amp;#227;o Paulo: Edi&amp;#231;&amp;#245;es Loyola</bibl>
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          <bibl n="95500">Matos, G. de. 2010. Poemas escolhidos de Greg&amp;#243;rio de Matos, sel. e org. J.M. Wisnik, S&amp;#227;o Paulo: Companhia das Letras</bibl>
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          <bibl n="95645">Saramago, J. 2009. Caim. S&amp;#227;o Paulo: Companhia das Letras.</bibl>
          <bibl n="95309">Sassoli, D.M. 2021. “A liberdade e a Europa: uma constru&amp;#231;&amp;#227;o de todos / Freedom and Europe: a construction of all”. Bruxelas: European Union. European Parliament. General Directorate for Communication. Civil Society Outreach Unit, https://infoeuropa.eurocid.pt/registo/000086336/documento/0001/ (acesso em: 05 set. 2022).</bibl>
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        </listBibl>
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