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        <title type="main" level="a">De Antero de Quental a Mário Soares: do pensamento à política social na vertigem da democracia portuguesa</title>
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            <forename>António dos Santos</forename>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.24</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
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        <p>The future has always been the destiny of men of action. We note the roots of the thought and fiction of the Portuguese socialist leader, Mário Soares, in the references of the political thought of Antero de Quental and the pedagogical of António Sérgio for the economic, social, cultural and mental well-being of the Portuguese people that we make coincide with humanity because western humanism movesus.</p>
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            <item>Humanis</item>
            <item>Socialism</item>
            <item>Pedagogy</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.24<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.24" /></p>



<p rend="h1_chapter" >De Antero de Quental a Mário Soares: do pensamento à política social na vertigem da democracia portuguesa</p><p rend="h1_author" >António dos Santos Pereira</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_1" >Só o futuro conta para um homem que se pretenda de ação.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3" >(Mário Soares)</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2" >We want to involve citizens to build the future of Europe.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3" >(David Sassoli)</p><p rend="h2" >1. Preâmbulo</p><p rend="text" ><hi >A definição de conteúdos humanistas, no pensamento e no agir políticos, torna possível intuir que a genialidade é intemporal. Assim, de imediato, veremos como aconteceu com as figuras maiores dos espaços da portugalidade, em particular, Antero de Quental (1842-1891) e Mário Soares (1924-2017), que deixamos no título, e outros, de permeio, nos últimos dois séculos. Há muito, se percebeu a modernidade daqueles: a do primeiro, em textos tão poéticos quanto filosóficos; a do segundo, na forma mais discursiva do ensaio e da entrevista e na negociação e decisão políticas, quotidianas. Ambos, eliminaram a oposição claro/escuro, herdada de Alexandre Herculano (1810-1977): em processo triádico e hegeliano, Antero de Quental; em abertura permanente e plural à novidade exaltante, Mário Soares. A liberdade é a virtude humana mais complexa e não pode ser simplificada em díade, nem em dialética imperativa, mas garantida numa eterna negociação entre quem exerce o poder e decide e quem elege; privilegia tanto o racional como o bom senso; e reconhece a virtude ao povo, mesmo quando este não acompanha de imediato os que, pelo seu talento, estão à frente da História. Esta, mais do que disruptiva, como alguns creem, é processo construtivo, ainda que, em passo lento, em nossa opinião, mais demorado, obviamente, se não houver a genialidade por que começamos.</hi></p><p rend="h2" >2. O destino português entre Antero de Quental e Mário Soares</p><p rend="text" ><hi >Os génios de qualquer período são aqueles que entreveem o destino coletivo e o individual a coincidirem em auras de revelação ou de nova criação. Na saga portuguesa, Luís de Camões (1524-1580) completou pessoalmente o caminho peregrino lusíada por África, pela Índia e China e viu-se pobre no retorno à casa materna em Lisboa, que outra não tinha, como há de acontecer a Portugal, no seu todo, depois da descolonização. Antero viveu a liderança académica do seu tempo e a do mundo operário, apenas emergente em Portugal, e retornou a Ponta Delgada para acabar na solidão insular daquele trágico banco do Jardim de S. Francisco. Mário Soares viu-se perto do fim na fatídica ilha de S. Tomé para onde, desde finais de Quatrocentos, eram enviados, para morrerem, com as doenças dos trópicos, os malquistos de quem mandava em Lisboa. Neste Portugal de contrastes, ora suave e quase sempre descuidado, ora agreste e violento, para os seus, o espírito do líder socialista, geralmente positivo, hesitou, por momentos, pois a sua condenação era sem fim, com </hi><hi rend="italic" >residência fixa, por tempo indeterminado</hi><hi >, como sublinha no original dactilografado do livro </hi><hi rend="italic" >Portugal Amordaçado</hi><hi > que ali começou a redigir como potencial testamento (cfr. Soares 1968-1970,</hi><hi > 1). Antecipamos que as citadas figuras maiores da identidade portuguesa coincidem na virtude e nos serviços da pátria e do povo como normas do agir. Ora, em tempos de orfandade, por faltarem, ao nível global, mas particularmente ao português, novas propostas, marcadas de genialidade, de saída das crises de toda a índole que atingiram as novas gerações, convém refletir sobre os ideários e as geniais lideranças do passado para que apareçam outras no futuro por tal estímulo. Lucien Febvre (1878-1956) mostrou-nos em </hi><hi rend="italic" >Un destin: Martin Luther</hi><hi > (1928) como há homens que consignam o sentido do acontecer numa dialética entre a saga individual e a epopeia coletiva e aportam à sua geração o mito prometaico do desafio do futuro. Nós aduzimos como este pode ser entrevisto de novo em alguns homens portugueses da esfera do pensamento e do agir políticos, paradigmaticamente, no arco de um século, em que Antero de Quental liderou a geração de 70 do século XIX e Mário Soares integrou a de 70 do século XX, na linha da frente, quando o espaço público português se modernizou na esfera política ao descolonizar, votar a Constituição de 1976 e iniciar a integração económica, social e cultural, no bloco de países do mundo livre. Tal não se fez sem perceber os males de um povo, os seus atavismos seculares e, nem sempre, também sem algumas limitações de contexto das figuras mais proeminentes no decurso de um período que alargamos a cerca de século e meio, aqui considerado, para entender melhor a figura homenageada, David Sassoli, nos últimos cinquenta anos. Não descemos ao talento maior da lusitanidade, a não ser na alusão, pois a análise dos processos requer a continuidade que se torna difícil seguir em período muito longo e por não haver, antes do século XIX, um espaço público suficientemente informado e atuante pela imprensa periódica ou outros meios de comunicação, razão de ser e condicionante deste. Não temos dúvida de uma consciência pública permanente com uma esfera inteligente e proativa, política e cultural, entre a geração de Antero de Quental e a de Mário Soares, no posicionamento, em muitos conteúdos e na forma. Ambos estiveram na linha da frente das respetivas gerações, reconheceram a importância da política e subordinaram esta aos valores maiores a que a sociedade ocidental chegara no seu tempo pelas vias: do pensamento e sentido coletivo no agir; da pedagogia e virtude no proceder; da tolerância e do respeito humano por todos, logo, do mais profundo humanismo. Mário Soares teve por Antero de Quental a maior consideração e há de colocar um ramo de tulipas vermelhas junto à estátua de Antero de Quental no Jardim da Estrela em Lisboa em 1991 (cfr. RTP 1991), prenúncio das rosas que José Saramago, eleito ‘</hi><hi >Nobel’, deixará junto do túmulo de Camilo Castelo Branco, na réplica literária. Aquele ato significava que o ideário do mais esclarecido e precoce socialista português, finalmente, chegara ao aparelho de Estado e, por este, à sociedade no seu todo. De permeio, houve uma outra geração de figuras, em que nomeamos: na esfera científica, Egas Moniz (1877-1955); no pensamento político, António Sérgio (1883-1969); e, no âmbito literário, Aquilino Ribeiro (1885-1963) e Ferreira de Castro (1898-1974), que travaram, pela superioridade moral e intelectual, o ditador Salazar, que, de facto, eclipsou grande parte da inteligência portuguesa ao afastá-la do espaço público. Perante uma ditadura estabelecida no terror omnipotente da polícia política, percebemos os entraves que cercearam as propostas destes, sempre subtis, mas sem a claridade genial do vate de Ponta Delgada que ainda hoje nos ultrapassa. Uma das inteligências maiores, gerada no país e reconhecida com o Prémio Nobel, Egas Moniz, foi ostracizada nos corredores dos hospitais. Sobre António Sérgio, devemos dizer que influenciou diretamente Mário Soares por ambos terem integrado o grupo de reflexão </hi><hi rend="italic" >Resistência Republicana Socialista</hi><hi >, ainda na década de 50 do século XX, em que o futuro líder socialista completou as suas licenciaturas: Ciências Histórico-Filosóficas (1951) e Direito (1957). Para tal figura, os anos seguintes foram de tanto empenho como, havia cem anos, os que se sucederam ao M</hi><hi rend="italic">anifesto dos estudantes de Coimbra à opinião ilustrada do país </hi>(1862) de Antero de<hi rend="italic"> </hi><hi >Quental. A saga deste começou em Coimbra na liderança académica daquela que viria a ser considerada a ‘Geração de 70’ do século XIX português que foi integrada por uma plêiade de personalidades que </hi>se distinguiram<hi > em vários quadrantes dentro da monarquia parlamentar liberal, como aconteceu com Ramalho Ortigão (1836-1915) e Oliveira Martins (1845-1894), mas também, em ímpeto republicano, com o exemplo mais óbvio no seu conterrâneo Teófilo Braga (1843-1924), que fez a ligação com aquelas figuras da geração intermédia que trouxemos à colação: o ensaísta António Sérgio e os literatos Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores (1956)</hi><hi > que até ao fim do regime será conotada com a oposição. Repetimos que o prestígio moral destas figuras lhes fez ganhar o combate face a Salazar e a eles devemos atribuir a virtude portuguesa, que vingou no período, afastou minimamente o ditador de Hitler e anunciou um caminho de paz comprometida com a humanidade livre. De qualquer forma, estas figuras e outras de superior inteligência fizeram os seus percursos amargurad</hi><hi >os durante o regime imposto pelo ditador: Aquilino Ribeiro soçobrou, cerca de uma década antes de abril de 1974, depois de enfrentar o tribunal plenário; e Ferreira de Castro, causticado por uma censura impiedosa ao longo da vida, faleceu poucos meses depois. Ficou-nos claro que, tanto na Ciência, como no Pensamento Social, na Arte e na Literatura, em particular no romance e na poesia, em Portugal, se sentiu a frustração do afastamento das realidades políticas, económicas e sociais, presas no tempo, até aos finais da década de cinquenta do século XX, quando se anunciou uma nova geração disruptiva em que incluímos Mário Soares, a figura de maior sucesso no último quartel da centúria em causa em que, além da adoção do modelo de democracia ocidental, se procedeu à descolonização e integrou a CEE, atual União Europeia. Entre Antero de Quental e Mário Soares, não desenvolvemos Fernando Pessoa (1888-1935) por nos parecer que não teve tempo de vida suficiente para conferir as expetativas que alguns dos seus textos de índole política sugeriam, mas que indiciou que as classes cultas, tradicionalmente ausentes da política, deviam integrar a esfera governativa para haver uma verdadeira revolução, no caso, a republicana (cfr.</hi><hi > Pessoa [s.d.]).</hi></p><p rend="text" ><hi >A ideia original de Antero de Quental decorre da descoberta de um sentido positivo na História proclamada nas </hi><hi rend="italic" >Odes Modernas</hi><hi > que fez empenhá-lo na revelação do mesmo até à frustração individual, que nele percebemos, mas não notamos em Mário Soares que sublimou o acontecer. Ambos contribuíram para aquilo que Soares confessava como lema pessoal, os assentos do seu humanismo, laico, republicano, socialista e tolerante, por ter percebido a revolução liberal, como aquele, mas também o ideário republicano e a democracia moderna de que é um dos fundadores em Portugal. Notamos, todavia, que Antero viu confluir, no período em que as transformações liberais aconteciam em Portugal, uma revolução mais ampla do que a política. Com efeito, o vate de Ponta Delgada datou de há duzentos anos a revolução maior da história, a do saber humano, ao integrar na ideia de evolução, necessariamente, a de finalidade (cfr. Quental 1894, 24-5), e ao considerar que a tendência era para a perda da crença em sistemas absolutos e intransigentes, para a adoção do criticismo contra o dogmatismo e para a aceitação da opção eclética na compreensão da realidade no seu tempo. A dita nova era está datada na obra que intitulou </hi><hi rend="italic" >Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX</hi><hi > que temos o prazer de ler no manuscrito e atualizamos, deixando em itálico a palavra evolução que ele sublinhou:</hi></p><p rend="quotation_b" >Aí, por 1830, que maravilhoso espetáculo! Um novo período, com efeito, se abria na história das ciências, a abria-o, justamente, a grande ideia filosófico-científica do século, a ideia de <hi rend="italic">evolução</hi>. Ela irrompia, quase ao mesmo tempo, no chão de todas as ciências, desde a Astronomia, que, passando da mecânica para a física celeste, e dos movimentos no espaço para as transformações no tempo, se inspirava dela na grande hipótese cosmogónica da condensação da nebulosa primitiva, até à Antropologia, à Etnografia e à Linguística apontando em comum na história dos homens, das suas raças, costumes e línguas, uma série de desenvolvimentos e um progresso que, por ser muitas vezes tortuoso, não é por isso, no conjunto, menos patente (Quental 1890: fls. 40 e 41). </p><p rend="text" ><hi >Assim, refulge a descoberta, precoce em Antero de Quental, do lema de uma nova ordem a construir, que hoje diríamos pós-moderna, que se revela ao mundo pela ação decisiva dos homens de virtude, exige plena ação a estes no espaço público e desemboca na geração de 60/70 do século XX português. De facto, um século depois </hi><hi >das achegas do vate insular, um lastro pesado de intelectuais portugueses manifestou-se na revista </hi><hi rend="italic" >O Tempo e o Modo</hi><hi >, que Alçada Batista </hi>(1927-2008)<hi > fundou e antecedeu a democracia a que o Movimento dos Capitães de Abril de 1974, por seu turno, abriu as portas. Moldados nas correntes existencialistas que chegavam da Europa e coloriam o cristianismo que transbordava do concílio Vaticano II, tais figuras estavam plenamente atuantes quando o nosso homenageado David Sassoli fazia as suas primeiras leituras. Em momentos em que a guerra colonial angustiava os jovens portugueses, os congéneres do mundo desenvolvido apontavam a paz e o amor como os únicos destinos aceitáveis para o progresso. As esferas católicas também se modernizavam. Os decretos tridentinos de quatrocentos anos antes eram revistos no Vaticano II e a Igreja Católica abria-se à sociedade nas vestes de um Cristo humilde. A encíclica </hi><hi rend="italic" >Pacem in Terris </hi><hi >do papa João XXIII, de 1963, e a constituição </hi><hi rend="italic" >Gaudium et Spes</hi><hi > do concílio Vaticano II, em 1965, desautorizavam a guerra no então dito Ultramar Português.</hi></p><p rend="text" ><hi >Invocamos acima o espírito muito positivo de Mário Soares. De facto, o líder socialista, depois de ter descido ao inferno das prisões, uma dezena de vezes, da deportação e do exílio, cumpriu uma vida positiva, sem ter de passar, como nós, nos últimos anos, a crise de contornos medievais de guerra, peste e fome e, mais ainda, da morte precoce, que levou Sassoli</hi><hi >. Há agora um sentido de orfandade por uma geração de pensamento e progresso. As esferas, literárias, filosóficas e políticas, daquela última geração, que em Portugal construiu o futuro nas últimas duas décadas do século XX, ficaram pelo caminho. Tem havido muita dificuldade em apontar novos pensadores de envergadura planetária como aqueles que leram Karl Jaspers, Martin Heidegger, Gilles Deuleuze, Jacques Derrida e Michel Foucault, abriram as novas vias da democracia ou interpretaram um Deus amoroso na Teologia do Vaticano II, até ao momento trágico que vivemos em que a humanidade perde a crença em si e deixa o mundo exposto a novos tiranos. De facto, há uma contradição essencial às expetativas mais progressistas dos intelectuais de vertente socialista dos últimos cento e cinquenta anos. O mundo gerado não trouxe a paz inerente ao mundo do trabalho, em que confiaram Antero de Quental e também Mário Soares. A frustração consequente nos intelectuais de permeio destas duas figuras portugueses foi notória face ao endeusamento dos ditadores e retorna agora a anunciar novos apocalipses. Quando aconteceu a I Guerra Mundial, Aquilino Ribeiro estava em França e Ferreira de Castro, no Brasil. No espaço entre as duas guerras, um e outro retomaram o ideário, se não da paz universal, ao menos, da portuguesa e não devemos atribuir a Salazar méritos, que não os tem, pois deixou cair Portugal na longa guerra da descolonização sem fazer nada para a evitar. De facto, as elites portuguesas depois da Revolução Liberal, de Herculano e Garrett, bem antes de Antero, tinham percebido a virtude da liberdade que nenhum ditador depois pôde destruir, por mais aparelhos de Estado ao seu serviço, confirmando-se o lema de António Sérgio: «ninguém está vivo se não for livre» isto é capaz de assumir o seu destino (Sérgio 1923, 2). Foi este lema que sustentou Mário Soares e o fez vencer a crise existencial que já depois da morte daquele quis apoderar-se dele na ilha de S. Tomé.</hi></p><p rend="text" ><hi >Intuímos que ninguém se salva sozinho. Quando se fica só, como aconteceu a Antero de Quental, o risco do desatino preenche o vazio em traços de abismo. Desde sempre, percebemos um Soares a integrar movimentos com uma vitalidade inquestionável. As suas propostas aparecem-nos discretas no texto que elaborou para </hi><hi rend="italic" >O Tempo e o Modo</hi><hi > (1963) no melhor desempenho de historiador. Como nós, aqui, ele interpela o seu tempo, escudado no passado de Oliveira Martins, com as questões superiores do regime ou da forma de exercício do poder em debate. O futuro deputado constitucionalista, governante, Primeiro-Ministro e Presidente da República, esconde-se da censura na forma histórica de fazer propostas, no género profético bíblico ou apocalítico, para fugir à perseguição por quem manda. Paradoxalmente, Soares tinha-se dado conta que o discurso em direto levara ao exílio o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes (1906-1989). Assim, consegue apresentar à sua geração os temas mais prementes, </hi>«<hi >destino nacional</hi>»<hi >, </hi>«<hi >maneira de ser do português</hi>»<hi >, </hi>«<hi >independência económica</hi>»<hi >, </hi>«<hi >modo de elevar o nível de vida e de cultura do Povo</hi>»<hi > e a suma questão </hi>«<hi >colonial</hi>»<hi > (cfr. Soares 1963, 26). Em seu abono, voltava a escudar-se em António Sérgio para apontar o destino português e, sobretudo, ilustrar como a falta de rigor na assunção de ideais conduz os melhores ao oportunismo político que tinha escurecido a figura brilhante de Oliveira Martins. Percebe-se ainda a mensagem que Soares enviava aos seus contemporâneos que se deixavam corromper pela oportunidade de cintilar ao lado de Salazar e defendiam a possibilidade do desenvolvimento económico, social e cultural dentro do regime: por mais brilhantes e competentes, manchar-se-iam. Não se podia tergiversar, mesmo que o argumento fosse o da possibilidade de modernização económica, para ele, impossível dentro do regime. Ao centrar a análise na mudança do regime monárquico para o republicano, Soares apontava como única saída a mudança do salazarismo para a democracia e nisto não ia além, afinal, das mais esclarecidas mentes portuguesas do século XIX, Alexandre Herculano e Antero de Quental, que perceberam que a única revolução do seu século fora a que permitira a instalação das instituições liberais em (1820-1834), porém urgia a virtude individual na administração da coisa pública e, por isso, justificava-se a revolução republicana de 5 de outubro 1910. Por seu turno, a geração que clamava, em 1963, em </hi><hi rend="italic" >O Tempo e o Modo</hi><hi >, assumia-se como a digna herdeira daquela, apresentando-se como um conjunto de homens virtuosos que Salazar jamais poderia contrariar no caminho para a Democracia. Soares não havia de perder tempo ao perceber que uma moderna democracia portuguesa precisaria de estruturas partidárias para se concretizar e fundava, em 1964, com Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa, a Ação Socialista que dará lugar ao Partido Socialista em 19 de abril de 1973 em </hi><hi >Bad-Munstereifel, na Alemanha. Entretanto, em 1967, o então advogado Mário Soares, com escritório na Rua do Ouro, em Lisboa, ganhara o estatuto do «mais importante porta-voz da oposição democrática portuguesa sancionado pelo </hi><hi rend="italic" >Herald Tribune</hi><hi rend="italic">»</hi><hi > (Barroso </hi><hi rend="italic" >apud</hi><hi > Soares 2017 vol. I, 13) e fazia aliados de peso nas lideranças políticas democráticas ocidentais que lhe serão muito úteis para aqui situar a democracia portuguesa depois de abril de 1974.</hi></p><p rend="text" ><hi >Numa abordagem indicativa que se quer rápida da bibliografia de Mário Soares, desde as primeiras peças, notamos a sua adesão ao essencial do republicanismo, o dito reconhecimento da necessidade da virtude na gestão da matéria pública, a libertação das sociedades amordaçadas pela dominação ou pelo colonialismo, a adesão ao socialismo como forma de resposta às necessidades dos mais humildes, a abertura portuguesa à Europa e uma nova forma de encarar o mundo, o elogio da política e, sobretudo, a opção pela democracia. Entre as figuras portuguesas aqui abordadas, coube-lhe a maior amplitude de ação. Ele associou a capacidade de publicista, também presente naqueles, à dedicação ao ensino das ideias e instituições políticas, à advocacia, à luta contra o regime salazarista, e ao esforço ímpar de organização política. Tendo sido preso em mais de uma dezena de momentos, deportado para a ilha de S. Tomé em 1968, e exilado, em 1970, em França e Itália, ninguém mais do que ele ganhou credibilidade ou capacidade de testemunho dos conteúdos ditos acima nos anos posteriores em que publicou a sua obra </hi><hi rend="italic" >Portugal Amordaçado</hi><hi >. A formação política de Mário Soares, em particular na Faculdade de Direito de Lisboa, não seguiu linhas diferentes das que Antero de Quental trilhara, cem anos antes na Universidade de Coimbra, coincidindo na abertura ao pensamento mais moderno que lia nos livros que lhe </hi>chegavam<hi > de fora. Soares mostra-nos os suportes académicos em que se fundou, entre eles, o seu professor Luís Cabral de Moncada (1888-1974), docente de História do Direito, matéria para a qual estava particularmente desperto em virtude da sua formação nas disciplinas de Clio na Faculdade de Letras. Foi através dele que bebeu as perspetivas de outros autores sobre o liberalismo e o republicanismo, ainda que notemos propostas de intenção para aprofundar algumas matérias filosóficas em várias figuras que se propôs estudar como era o caso do precoce Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Mário Soares percebera a importância da elaboração de quadros sincrónicos que mostrassem o evoluir do pensamento e da ação política em Portugal, Espanha e no Brasil. O contexto é o dos últimos dois séculos e os </hi><hi rend="italic" >corpora</hi><hi > de trabalho, a Revolução Liberal, a Revolução Republicana e as suas constituições. Coube-lhe ajustar o trilho aberto por Antero de Quental que confiava no processo otimista em que as classes sociais dariam lugar inapelável ao povo trabalhador (cfr. Quental 1872</hi><hi >, 1). Se havia alguma desconfiança em relação à capacidade de reconciliação com este, tanto por parte dos promotores da Revolução Liberal, como dos autores da Revolução Republicana, Mário Soares insuflou-lhe todo o seu espírito positivo. A Revolução de 25 de Abril foi a oportunidade da concretização da ideia anteriana. Soares compreendeu assim o facto e, finalmente, o </hi>«<hi >povo trabalhador</hi>»<hi > português ganhou o seu verdadeiro lugar na História sem a desconfiança das elites. De certa forma, a utopia, que Antero bebeu dos sucessivos congressos da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864), em Genebra (1866), Lausanne (1867), Bruxelas (1868) e Basileia (1869), um pouco mais de cem anos depois, era vertida em Portugal. Os contactos entre os líderes da Associação e Antero de Quental estão bem documentados e o vate incumbiu-se de explicar aos seus concidadãos o que era aquela em um texto que é uma preciosa síntese do principal lema das revoluções portuguesas do futuro, a ‘Justiça’, que os republicanos assumirão, todavia sem a dimensão mais perfeita da vertente social, apenas reconhecida na nossa geração (cfr. Quental 1871). A precocidade do ideário assumido por Antero foi o princípio da sua frustração, como Eça de Queirós (1845-1900) intuiu, mais ainda, sem nunca ter transitado da esfera do movimento operário para a da política efetiva. Porém, um século depois, Mário Soares tornava-se a face positiva que faltou ao metafísico Antero de Quental. Pelas eleições universais e livres, em que se empenhou, o povo tornava-se o verdadeiro motor da História, capaz de eleger, demitir governos e acelerar aquela no sentido da Justiça Social, da Liberdade e da Paz. Repetimos que colocamos o empenho de Antero de Quental na Associação Internacional dos Trabalhadores, nos finais da década de 60 do século XIX, em paralelo à participação de Mário Soares no XI Congresso da Internacional Socialista, entre 16 e 20 de junho de 1969, como convidado de honra (cfr.</hi><hi > Barroso </hi><hi rend="italic" >apud</hi><hi > Soares 2017 vol. I, 15).</hi></p><p rend="h2" >3. Entre a díade, claro/escuro, e a fatalidade da tríade, o discurso complexo de Mário Soares</p><p rend="text" ><hi >Porque a forma importa, devemos também frisar que, tal como Antero evoluiu da geração que o antecedeu por ter aportado as suas fórmulas triádicas às antíteses de Alexandre Herculano, claro/escuro, liberalismo/absolutismo, municipalismo/centralismo, Igreja/Estado, que enumeramos em </hi><hi rend="italic" >Portugal Descoberto </hi><hi >(cfr. Pereira 2008 vol. 2, 116) e aqui reproduzimos de imediato, Mário Soares há de aderir a fórmulas mais complexas que não se esgotam naquelas e são a expressão da liberdade. Com efeito, à dialética anteriana, bebida em Hegel, de tese, antítese e síntese, inapelável e fatal, Soares acresce a alternativa das múltiplas faces que a liberdade, no seu pleno, permite circunstancialmente para não comprometer o futuro. </hi></p><p rend="text" ><hi >Assim, nós acreditamos que Mário Soares foi mais além da saída imperativa numa terceira via e a sua capacidade de conciliação trouxe a possibilidade de outras opções que são a sua fórmula democrática de ver o mundo, ainda que particularmente nos quatro caboucos, em que assentou todo o seu edifício, de homem político, que repetimos: laico, republicano, democrata e socialista. No entanto, percebe-se um maior rasgo filosófico/literário em Antero e confirma-se uma vertente política mais positiva em Soares que resultou também do facto histórico de nunca se deixar esgotar física e psicologicamente por força dos apoios familiares, partidários, populares e de altas figuras do contexto internacional que aquele não teve. O estilo de Soares é elaborado, mas sem a arte daquele, em frases que vão sempre além da tríade em parágrafos longos de texto de modelo académico, ora assertivo ora explanativo e comprovativo. A sua preferência pela acoplagem quaternária é evidente, mesmo em raro parágrafo relativamente curto em que entende a política como proponente: (1) de devoção pela coisa pública; (2) de espírito crítico; (3) de independência moral; (4) e de heroísmo cívico (cfr. Soares 2017 vol. 1, 34). O mesmo ritmo quaternário aparece na descrição do seu primeiro contacto com a polícia: (1) confusão de gritos, (2) encontrões, (3) apupos e (4) correrias (cfr. Soares 2017 vol. 1, 39) e mais longo ainda na caraterização da massa ignara e futeboleira que termina em reticências e importa pouco trazer aqui (cfr. Soares 2017 vol. 1,</hi><hi > 39).</hi></p><p rend="caption_table" >Tabella 1 – Fórmulas triádicas anterianas</p><table rend="Nessuno-stile-tabella" xml:id="table001">
				<!--<colgroup>-->
					<!--<col
  class="_idGenTableRowColumn-1">--><!--</col>-->
					<!--<col
  class="_idGenTableRowColumn-2">--><!--</col>-->
					<!--<col
  class="_idGenTableRowColumn-3">--><!--</col>-->
				<!--</colgroup>-->
				
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella top CellOverride-1">
							<p rend="table" >Fórmulas</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella top CellOverride-1">
							<p rend="table" >Expressões</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella top CellOverride-1">
							<p rend="table" >Fontes</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1 _idGenCellOverride-1" >
							<p rend="table" >Substantivas</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1 _idGenCellOverride-1">
							<p rend="table" >«Da Liberdade, da Igualdade, da Justiça»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1 _idGenCellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 43.</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Da Justiça, da Razão, e da Verdade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Políticas</hi>, 202</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«O capital, a propriedade e a autoridade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 25</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Da propriedade, da indústria e do governo»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 4</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«À propriedade, ao crédito, à ciência»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 4</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Ao parasitismo, ao privilégio, à ciência»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 4</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«À miséria, à impotência e à ignorância»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 4</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«De paz, de esperança e de verdade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 146</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Inércias, (…) inimizades, (…) facções»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 156</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Progresso, (…) leis, (…) melhoramentos»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 161</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Leis, foros e nacionalidade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 161</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«À tirania, às extorsões, à desgraça»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 161</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«O seu amigo, o seu mestre, o seu pai»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 161</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Religião, tolerância e liberdade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 167</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Ideia, ciência, saber humano»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 172</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Instrução, prosperidade, moralidade»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 243</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1" >
							<p rend="table" >Adjetivas</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Cidadãos independentes, dignos e firmes»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 3</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Plebe inconsistente, servil, cruel»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 3</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Aristocracia proprietária, financeira, governamental»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">O Pensamento Social</hi>, n. 4</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella down_line CellOverride-1 _idGenCellOverride-2" >
							<p rend="table" >Verbais</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Tumultua, freme e se agita»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella base_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 172.</p>
						</cell>
					</row>
					<row rend="Nessuno-stile-tabella _idGenTableRowColumn-4">
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella down_line CellOverride-1">
							<p rend="table" >«Não discute, não prova, não argumenta»</p>
						</cell>
						<cell rend="Nessuno-stile-tabella down_line CellOverride-1">
							<p rend="table" ><hi rend="italic">Prosas Sócio-Políticas</hi>, 172.</p>
						</cell>
					</row>
				
			</table><p rend="text" ><hi >Não há duas experiências de vida idênticas, mas a universitária de Mário Soares é similar à de Antero de Quental. Na academia, aduz a mediocridade que os docentes transparecem, ensimesmados, face à imagem positiva do intercâmbio entre os colegas estudantes e à aprendizagem febril que estes levavam a cabo nos livros que lhes chegavam do estrangeiro (cfr. Soares 2017 vol. 1, 52). Fora da escola, Mário Soares herdava a estrutura do pensamento e do agir político de António Sérgio nos seus mais habituais quatro pontos em que se repete: (1) </hi>«<hi >gosto da cultura como uma aventura livre do espírito</hi>»<hi >; (2) </hi>«<hi >hábito de pensar criticamente as coisas portuguesas numa perspetiva europeia moderna</hi>»<hi >; (3) </hi>«<hi >sentido da liberdade intelectual</hi>»<hi >; (4) </hi>«<hi >devotamento cívico</hi>»<hi >. A formação de Soares não perde em leituras face à de Antero. Conhecemos a biblioteca daquele e a deste diz-nos que não ignorou as melhores propostas da historiografia e da jurisprudência contemporâneas em que ganhou por ter uma vida longa. Ambos coincidem no reconhecimento que é o lastro do bom senso do povo/nação que deve regular o proceder político e que é aí que reside a norma dos atos daqueles que a ele pertencem.</hi></p><p rend="text" ><hi >De novo, tanto em relação a Antero, como a Herculano, na opção pela forma menos artística e mais complexa de construção do raciocínio, Mário Soares evoluiu desde os primórdios de 70 para a opção de confiança na expressão eletiva do povo, que ficou consagrada na Constituição Portuguesa de 1976, percebendo que, ao ser agido em campanha por elites persistentes, este deixava de ser campo de voragem dos ditadores, massa ignara, egoísta e tacanha, em que coincidira com Alexandre Herculano, mas antes a realização democrática, entrevista por Antero de Quental, de </hi>«<hi >cidadãos independentes, dignos e firmes</hi>»<hi > em que, afinal, o vate liberal também acreditou, como todos os homens de boa vontade, até nós e ao nosso homenageado David Sassoli.</hi></p><p rend="h2" >4. Concluindo</p><p rend="text" ><hi >A política não é apenas um espaço de intervenção das elites, antes, deve incluir necessariamente o povo, como </hi>o fiel da balança<hi > da democracia. Nós acreditamos na progressiva ação da pedagogia sobre as massas ignaras de que desconfiava Alexandre Herculano e das egoístas que vituperava Antero de Quental. Ao confirmar a virtude dos quatro caboucos ou assentos do compromisso de Mário Soares, a laicidade, o republicanismo, a democracia e a tolerância, finalmente, reconhecemos a incompletude dos discursos simples anteriores de leitura da realidade económica, social e cultural em claro/escuro, ou desfecho inevitável, e confirmamos a necessidade permanente do diálogo pedagógico com o povo pelo seu melhor futuro. Entre Antero e Soares, trouxemos, pois, à ribalta António Sérgio que fez a ligação mais positiva entre as duas gerações e fez acreditar os democratas e socialistas na importância da Pedagogia.</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Pessoa, F. [s.d.]. “Como é que a República Nova pode <hi rend="italic">continuar</hi> a República?” <hi rend="italic">Arquivo Pessoa</hi>. <ref target="http://arquivopessoa.net/textos/2129">http://arquivopessoa.net/textos/2129</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Quental, A. de. 1871. <hi rend="italic">O que é a Internacional</hi>. Lisboa: Ulmeiro.</p><p rend="bib_indx_bib" >Quental, A. de. 1872. “O pensamento social”. <hi rend="italic">O Pensamento Social </hi>1, fevereiro: 1.</p><p rend="bib_indx_bib" >Quental, A. de. 1890. <hi rend="italic">Tendencias geraes</hi><hi rend="italic"> da Philosophia na segunda metade do seculo XIX. </hi>Ms. <ref target="https://purl.pt/14325/2/bn-acpc-e-espa-1121_PDF/bn-acpc-e-espa-1121_PDF_24-C-R0150/bn-acpc-e-espa-1121_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf">https://purl.pt/14325/2/bn-acpc-e-espa-1121_PDF/bn-acpc-e-espa-1121_PDF_24-C-R0150/bn-acpc-e-espa-1121_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Quental, A. de. 1894. <hi rend="italic">A philosophia da natureza dos naturalistas. </hi>Ponta Delgada: Typ. Editora do Campeão Popular.</p><p rend="bib_indx_bib" >Pereira, A. dos S. 2008. <hi rend="italic">Portugal Descoberto vol. II. Cultura Contemporânea e Pós-Moderna.</hi> Covilhã: UBI.</p><p rend="bib_indx_bib" >RTP. 1991. “Homenagem a Antero de Quental.” <hi rend="italic">Arquivos RTP</hi>. <ref target="https://arquivos.rtp.pt/conteudos/homenagem-a-antero-de-quental/">https://arquivos.rtp.pt/conteudos/homenagem-a-antero-de-quental/</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Sassoli, D. [2021]. “We want to involve citizens to build the future of Europe.” <hi rend="italic">Groupe d’études géopolitiques</hi>. <ref target="https://geopolitique.eu/en/2021/05/17/we-want-to-involve-citizens-to-build-the-future-of-europe-a-conversation-with-david-sassoli/">https://geopolitique.eu/en/2021/05/17/we-want-to-involve-citizens-to-build-the-future-of-europe-a-conversation-with-david-sassoli/</ref> (09/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Sérgio, A. 1923. “Os vivos e os mortos.” <hi rend="italic">Homens Livres </hi>1: 1-2. </p><p rend="bib_indx_bib" >Soares, M. 1963. “Oliveira Martins e a questão do regime.” <hi rend="italic">O Tempo e o Modo </hi>1: 26.</p><p rend="bib_indx_bib" >Soares, M. [1968-1970]. “Escritos Políticos/Portugal Amordaçado.” <hi rend="italic">Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares</hi>. <ref target="http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=02546.002">http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=02546.002</ref> (06/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Soares, M. 2017. Portugal Amordaçado, vol. I, obra apresentada por A. Barroso. Lisboa: Expresso.</p>


      <div>
        <listBibl>
          <head>References</head>
          <bibl n="95466">Pessoa, F. [s.d.]. “Como &amp;#233; que a Rep&amp;#250;blica Nova pode continuar a Rep&amp;#250;blica?”. Arquivo Pessoa, http://arquivopessoa.net/textos/2129 (09/22).</bibl>
          <bibl n="95632">Quental, A. de. 1871. O que &amp;#233; a Internacional. Lisboa: Ulmeiro.</bibl>
          <bibl n="95585">Quental, A. de. 1872. “O pensamento social”. O Pensamento Social 1, fevereiro: 1.</bibl>
          <bibl n="95361">Quental, A. de. 1890. Tendencias geraes da Philosophia na segunda metade do seculo XIX. Ms., https://purl.pt/14325/2/bn-acpc-e-espa-1121_PDF/bn-acpc-e-espa-1121_PDF_24-CR0150/ bn-acpc-e-espa-1121_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf (09/22).</bibl>
          <bibl n="95507">Quental, A. de. 1894. A philosophia da natureza dos naturalistas. Ponta Delgada: Typ. Editora do Campe&amp;#227;o Popular.</bibl>
          <bibl n="95524">Pereira, A. dos S. 2008. Portugal Descoberto vol. II. Cultura Contempor&amp;#226;nea e P&amp;#243;s-Moderna. Covilh&amp;#227;: UBI.</bibl>
          <bibl n="95479">RTP. 1991. “Homenagem a Antero de Quental”. Arquivos RTP, https://arquivos.rtp.pt/conteudos/homenagem-a-antero-de-quental/ (09/22).</bibl>
          <bibl n="95345">Sassoli, D. [2021]. “We want to involve citizens to build the future of Europe”. Groupe d’&amp;#233;tudes g&amp;#233;opolitiques, https://geopolitique.eu/en/2021/05/17/we-want-to-involve-citizens-tobuild- the-future-of-europe-a-conversation-with-david-sassoli/ (09/22).</bibl>
          <bibl n="95636">S&amp;#233;rgio, A. 1923. “Os vivos e os mortos”. Homens Livres 1: 1-2.</bibl>
          <bibl n="95582">Soares, M. 1963. “Oliveira Martins e a quest&amp;#227;o do regime”. O Tempo e o Modo 1: 26.</bibl>
          <bibl n="95402">Soares, M. [1968-1970]. &amp;quot;Escritos Pol&amp;#237;ticos/Portugal Amorda&amp;#231;ado&amp;quot;. Funda&amp;#231;&amp;#227;o M&amp;#225;rio Soares / AMS - Arquivo M&amp;#225;rio Soares, http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=02546.002 (2022-6-25).</bibl>
          <bibl n="95539">Soares, M. 2017. Portugal Amorda&amp;#231;ado, vol. I, obra apresentada por A. Barroso. Lisboa: Expresso.</bibl>
        </listBibl>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>