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        <title type="main" level="a">O impossível futuro da Europa ou O último europeu 2284 de Miguel Real</title>
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            <forename>Maria Cristina</forename>
            <surname>Pais Simon</surname>
            <placeName type="affiliation">Sorbonne Nouvelle University, Brazil</placeName>
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          <resp>This is a section of <title>Europa: um projecto em construção</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/979-12-215-0010-3</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Annabela Rita</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2023">2023</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.25</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
          <licence source="text" target="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode">
            <p>Content licence CC BY 4.0</p>
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            <p>Metadata licence CC0 1.0</p>
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        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
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        <p>In 2015, Miguel Real publishes O último europeu 2284 (The Last European 2284), where he conducts, through the tale of an ideal and utopian city, an analysis of a European Union crumbling around all sorts of conflicts. In the current context, does Europe have a future? Is the future of a community compatible with human nature? These are the questions we will be reflecting upon in this article, through the study of this work.</p>
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            <item>European Union</item>
            <item>Future of Europe</item>
            <item>David Sassoli</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.25<ref target="https://doi.org/10.36253/979-12-215-0010-3.25" /></p>



<p rend="h1_chapter" >O impossível futuro da Europa ou <hi rend="italic">O último europeu 2284</hi> de Miguel Real</p><p rend="h1_author" >Maria Cristina Pais Simon</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_1" >Estavam, deixaram de estar.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2" >Existiam, deixaram de existir.</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3" >(Miguel Real)<hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="_25.html#footnote-000">1</ref></hi></hi></p><p rend="text" ><hi >Eis o que conclui n’</hi><hi rend="italic" >O </hi><hi rend="italic">último</hi><hi rend="italic" > europeu 2284</hi><hi > de Miguel Real o narrador, um </hi><hi >velho sábio estudioso das democracias do passado e incumbido pelos </hi><hi >seus governantes de deixar escrita a </hi><hi rend="italic" >Crónica da criação e </hi><hi rend="italic" >da extinção da Nova Europa</hi><hi >, desde a sua origem, nos</hi><hi > finais do século XXI, </hi>à<hi > sua extinção no século XXIII.</hi></p><p rend="text" ><hi >As descobertas e os avanços tecnológicos dos séculos XXI e </hi><hi >XXII, pré-história da humanidade, levaram, em 2184, </hi>à<hi > fundação da </hi><hi >Nova Europa, pensada por filósofos, cientistas, ecologistas, engenheiros biológicos e </hi><hi >arquitectos ambientalistas, e instituída contra a demagogia da «falsa democracia</hi>»<hi >;</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >uma sociedade perfeita, em que não havia lugar para </hi><hi >a fome, a miséria, a doença artificial […] não havia </hi><hi >lugar para a desigualdade, a injustiça, a guerra, a simples </hi><hi >violência individual, uma organização social em que predominava, como rainha </hi>ética,<hi > a harmonia entre a tolerância e a liberdade, mesmo </hi><hi >que só mental, a sociedade mais perfeita até hoje criada </hi><hi >(Real 2015, 28).</hi></p><p rend="text" ><hi >Erigida num espaço compreendido entre o antigo Portugal</hi><hi > e a antiga Polónia, foi, no decurso do “</hi>Êxodo<hi >”</hi><hi >, </hi>«constituída<hi > por um pequeno comité de dirigentes de todos </hi><hi >os antigos países da então União Europeia» que, </hi>«após<hi > um </hi><hi >século de esforço titânico de união, entre 1950 e 2050» </hi><hi >(Real 2015, 39, 42) acabou por se desintegrar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Embora salvaguardada pela</hi><hi > Bolha Hiperatómica de Protecção e Segurança, a Nova Europa vem,</hi><hi > porém, sendo ameaçada de invasão, desde o ano de 2260,</hi><hi > pelo </hi>«absolutismo<hi > Oriental</hi>»<hi > dos </hi>«<hi >Mandarins de Tóquio, Pequim, Xangai,</hi><hi > Nova Deli» (Real 2015, 24), que, já senhores da </hi>África,<hi > pretendem libertar-se do seu excedente de 500 milhões de habitantes,</hi><hi > exterminar ou escravizar os neo-europeus e dispor dos seus incomparáveis</hi><hi > conhecimentos científicos. No respeito dos princípios </hi>éticos<hi > e pacifistas em</hi><hi > que assenta a Nova Europa, o Conselho dos Pantocratas recusa-se</hi><hi > a qualquer contra-ataque atómico susceptível de contaminar o território europeu</hi><hi > durante três mil anos.</hi></p><p rend="text" ><hi >Concomitantemente, populações bárbaras, resíduos da Velha </hi><hi >Europa habitando nos Baldios, </hi>«fundados<hi > em antigas filosofias individualistas, esperam </hi><hi >igualmente o Fim» (Real 2015, 19), pelo que, transpondo o </hi><hi >Cordão Verde de Segurança, fronteira electrónica que as separa da </hi><hi >Nova Europa, invadem, pilham e cometem os mais atrozes massacres </hi><hi >nos Conglomerados, sendo, por fim, exterminadas pela Grande </hi>Ásia.</p><p rend="text" ><hi >Considerando a</hi><hi > perpetuação da Nova Europa como um dever </hi>ético,<hi > e </hi>«desejando<hi > um futuro igual ao passado» (Real 2015, 30), sessenta neo-europeus</hi><hi > juntam-se em Dunquerque donde, guiados pelo velho sábio, o Reitor,</hi><hi > partem, no maior segredo das potências mundiais – Império Americano,</hi><hi > Grande </hi>Ásia,<hi > Rússia – para a Ilha do Pico, no</hi><hi > devastado arquipélago dos Açores, na esperança de edificar a Novíssima</hi><hi > Europa.</hi></p><p rend="text" ><hi >Este notável romance de Miguel Real, publicado precisamente quinhentos </hi><hi >anos após a </hi><hi rend="italic" >Utopia</hi><hi > de Thomas More (1516), homenageado na </hi><hi >dedicatória e citado no capítulo III (além de ter sido </hi><hi >elevado a santo patrono dos homens políticos pelo Papa João </hi><hi >Paulo II, em 2000), retoma, claramente, em numerosos aspectos, a </hi><hi >obra do escritor e político inglês. Inspira-se também, certamente, nas </hi><hi >lendas dos paraísos sonhados e buscados pelos mareantes e exploradores </hi><hi >do passado, bem como em sistemas filosóficos constitutivos do pensamento </hi><hi >ocidental: </hi><hi rend="italic" >A República, O Político</hi><hi > e </hi><hi rend="italic" >As Leis </hi><hi >de Platão; </hi><hi >o Humanismo renascentista e o seu ideal de homem universal; </hi><hi >a filosofia racionalista de Hobbes, e em particular o </hi><hi rend="italic" >Leviatã</hi><hi >;</hi><hi > o </hi><hi rend="italic" >Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade</hi><hi rend="italic" > entre os homens</hi><hi >, o </hi><hi rend="italic" >Emílio</hi><hi >, e o </hi><hi rend="italic" >Contrato social</hi><hi > de Rousseau, principalmente nos capítulos dedicados </hi>à<hi > Novíssima Europa.</hi></p><p rend="text" ><hi >A </hi><hi >utopia constitui-se na base de uma realidade que ilustra implicitamente </hi><hi >e que suplanta, pelo que </hi>«a<hi > organização social mais perfeita </hi><hi >criada pela humanidade» (Real 2015, 177), tem, na economia deste </hi><hi >romance publicado um ano após o início das hostilidades entre </hi><hi >a Rússia e a Ucrânia, a função de proporcionar uma </hi><hi >reflexão sobre a Velha Europa dos </hi>«povos<hi > decadentes, de quem </hi><hi >nada de bom se pode esperar» (Real 2015, 93); uma </hi><hi >Europa alheia aos pactos sociais que a fundamentaram, em que </hi><hi >o homem </hi>é<hi > um lobo para o homem, retomando a </hi><hi >célebre locução de Plauto, e na qual </hi>reconhecemos<hi > a </hi><hi >actual União Europeia. Para esta reflexão contribuem no texto pistas </hi><hi >de legibilidade que remetem para momentos cruciais da história da </hi><hi >Europa e do mundo, e para as quais meia palavra </hi><hi >basta: </hi>«<hi >Dunquerque</hi>»<hi >, </hi>«Êxodo»<hi >, </hi>«<hi >Solução Final</hi>»<hi >, </hi>«<hi >Cordão Verde de Segurança</hi>» –<hi > fictício Muro de Berlim? </hi>–<hi >, bandeiras exibindo simbólicas </hi>águias,<hi > </hi>«<hi >a América para os americanos</hi>»<hi >…</hi></p><p rend="text" ><hi >Nos passos consagrados n’</hi><hi rend="italic" >O </hi><hi rend="italic">último</hi><hi rend="italic" > europeu</hi><hi > </hi>à<hi > Velha </hi><hi >Europa, </hi>«bárbara<hi > e cruel» (Real 2015, 18), encontram-se também subjacentes, </hi><hi >e violados, todos os princípios dos textos fundadores da União </hi><hi >Europeia, reunidos na </hi><hi rend="italic" >Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >(2007), e reafirmados na recente Conferência Sobre o Futuro da</hi><hi > Europa de 2021-2022: dignidade, liberdade, solidariedade, justiça, a fim de</hi><hi > </hi>«partilhar<hi > um futuro de paz, assente em valores comuns» (European</hi><hi > Union Agency for Fundamental Rights 2007-2022). De igual modo, </hi>«o<hi > respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano»</hi><hi > como </hi>«ideal<hi > comum a ser atingido por todos os povos</hi><hi > e por todas as nações» (cfr. UNICEF Brasil [s.d.]), </hi><hi >estipulados no Preâmbulo da </hi><hi rend="italic" >Declaração Universal dos Direitos Humanos</hi><hi >, nov</hi><hi >o pacto social que, em 1948, na sequência da guerra </hi><hi >de 1939-1945, teve por objectivo </hi>«promover<hi > o progresso social e </hi><hi >melhores condições de vida e o desenvolvimento das relações amistosas </hi><hi >entre as nações» (cfr. UNICEF Brasil [s.d.]), deixaram de fazer</hi><hi > sentido.</hi></p><p rend="text" ><hi >O oportunismo e a incapacidade dos dirigentes, a especulação </hi><hi >financeira e os monopólios </hi>capitalistas<hi > assentes em alianças duvidosas, a </hi><hi >inflação, a exploração do homem pelo homem, o consumismo desenfreado, </hi><hi >a carência do mínimo vital, de assistência e de hospitais </hi><hi >públicos, as pandemias, o trabalho intensivo, eis o que vinga </hi><hi >na Velha Europa onde </hi>«ter<hi > mais </hi>é<hi > ser mais, ser </hi><hi >mais </hi>é<hi > ter mais poder» (Real 2015, 81), o que </hi><hi >impossibilita qualquer veleidade de união. Estilhaçada pelas rivalidades entre clãs </hi><hi >e pelo ressurgimento de ideologias nacionalistas – como na realidade </hi><hi >vem acontecendo em vários países da União, e como se </hi><hi >verificou uma vez mais neste 25 de setembro em que </hi><hi rend="italic" >Fratelli d’Italia</hi><hi > ganhou o Parlamento italiano –, esgotada dos </hi><hi >seus recursos energéticos, a Velha Europa deperece em 2084 na </hi><hi >sequência da ‘Grande Fome’.</hi></p><p rend="text" >«Não<hi > tinha já cura a </hi><hi >Europa» (Real 2015, 93), lamenta o Reitor referindo-se </hi>à<hi > União </hi><hi >cuja extinção corresponde ao fim da pré-história da humanidade, no </hi><hi >ano de 2170. A Nova Europa, herdeira da Europa humanista </hi>«criadora<hi > da grande Filosofia, da grande Ciência e da grande </hi><hi >Arte» (Real 2015, 108), obedece a </hi>«uma<hi > nova concepção de </hi><hi >História, uma história humana fundada na realização de uma sociedade </hi><hi >totalmente comunitária, isto </hi>é,<hi > igualitária e justa, na qual cada </hi><hi >membro contribui para o conjunto com o máximo das suas </hi><hi >potencialidades, recebendo em troca a satisfação integral das suas necessidades» </hi><hi >(Real 2015, 41).</hi></p><p rend="text" ><hi >Na obra de Miguel Real, o impossível futuro</hi><hi > da Europa exprime-se precisamente pelo advento de uma sociedade que</hi><hi > só a utopia ou a ficção científica podem suster: um</hi><hi > espaço obrigatoriamente isolado da restante humanidade no qual a harmonia</hi><hi > está incondicionalmente submetida a manipulações informáticas do cérebro humano passando</hi><hi > o homem, deste modo, da condição de </hi><hi rend="italic" >homo</hi><hi > de </hi>«cérebro<hi > reptiliano e mamífero» (Real 2015:,19), </hi>à<hi > de </hi><hi rend="italic" >homo humanus</hi><hi >, </hi>«Puro<hi > cérebro racional […] puro ser pensante, sem crenças </hi><hi >metafísicas, religiosas ou científicas» (Real 2015, 54), alheio a qualquer </hi><hi >sentimento ou emoção, cujas consequências não podem ser senão funestas, </hi><hi >um super-homem, em suma, como ajuiza o Reitor que evoca </hi><hi >nos seguintes termos a sociedade perfeita:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Desde há 150 anos que</hi><hi > projectamos e registamos o nosso pensamento no Grande Cérebro Electrónico</hi><hi > cuja função </hi>é<hi > prestar ordem sintáctica e lógica aos imperfeitos</hi><hi > </hi>raciocínios<hi > humanos, aformoseando-nos segundo os preceitos da Grande Ordenação. […]</hi><hi > </hi>É<hi > considerada um acto caprichoso, fútil e herético uma decisão</hi><hi > individual que não tenha em conta os ditames do Grande</hi><hi > Cérebro Electrónico, ou seja, os seus “aconselhamentos”, que, </hi><hi >por serem lógicos e se submeterem </hi>às<hi > necessidades sociais, são </hi><hi >encarados como verdadeiramente sábios. A actual filosofia da Europa </hi>é<hi > </hi><hi >profundamente humanista. Somos livres de pensar, de propor, de criar </hi><hi >alternativas de vida, de querer e desejar, mas devemos atender </hi><hi >aos conselhos do Grande Cérebro Electrónico, que reúne a experiência </hi><hi >de cerca de 150 anos de sabedoria social, não permitindo </hi><hi >que, pelos desejos individualistas e narcisistas de cada Cidadão Dourado, </hi><hi >a organização científica dos Conglomerados se estiole, enfraquecendo-se, regressando-se aos </hi><hi >velhos tempos da desigualdade e da injustiça sociais, do aterrador </hi><hi >domínio do trabalho obrigatório sobre o prazer próprio e da </hi><hi >perversão das leis harmónicas da natureza (Real 2015, 16-7).</hi></p><p rend="text" ><hi >Privando </hi><hi >o homem da faculdade de pensar por si próprio, em </hi><hi >plena liberdade, a sociedade ideal revela-se, se bem que de </hi><hi >forma diferente de </hi>outras<hi > sociedades decadentes e injustas evocadas no romance, </hi><hi >um estado totalitário em que o Grande Cérebro Electrónico, tal </hi><hi >o Leviatã de Hobbes ou o Big Brother de George </hi><hi >Orwell em </hi><hi rend="italic" >1984</hi><hi >, se apropria das mentes para que sejam</hi><hi > escrupulosa e infalivelmente cumpridos os mandamentos da Grande Ordenação, gravados,</hi><hi > aliás, no hipercórtex a que se substituiu o córtex humano.</hi><hi > Assim sendo, qualquer eventualidade de comunidade humana não </hi>é<hi > senão,</hi><hi > como a Nova Europa, </hi>«um<hi > sonho, uma utopia […] realizado</hi><hi > por homens sábios, cientistas geniais, mas românticos e sonhadores» (Real</hi><hi > 2015, 252).</hi></p><p rend="text" ><hi >Na sequência dos ataques da Grande </hi>Ásia<hi > e </hi><hi >do corte da </hi>única<hi > rede de abastecimento energético de que </hi><hi >depende totalmente a Nova Europa, os neo-europeus, desconectados do Grande </hi><hi >Cérebro Electrónico, e </hi>«não<hi > detectando soluções no seu hipercérebro racional» </hi><hi >de 2000 cm</hi><hi rend="superscript CharOverride-1" >3</hi><hi > (Real 2015, 52) regridem, passando a ceder</hi><hi > a emoções, a pulsões animais acirradas pela situação de guerra,</hi><hi > numa </hi>«profunda<hi > confusão e descoordenação, próprias dos povos bárbaros…» (Real</hi><hi > 2015, 27). A queda final dá-se, porém, na Ilha do</hi><hi > Pico onde, não conseguindo aplicar os princípios da Grande Ordenação</hi><hi > </hi>à<hi > nova sociedade, e dotados somente do córtex, os novíssimos-europeus</hi><hi > entram progressivamente num processo de decadência física e moral resultante</hi><hi > de constrangimentos próprios do estado natural a que regressam. </hi>«Imperfeitos,<hi > habitando uma sociedade imperfeita, deliciam-se com a imperfeição, os seus</hi><hi > limitados cérebros não admitem a existência de uma sociedade perfeita»</hi><hi > (Real 2015, 236), comenta o Reitor, o </hi>último<hi > europeu, fazendo</hi><hi > o balanço de um «presente […] tão carregado de passado</hi><hi > e tão grávido de futuro» (Real 2015, 176). Em 2299,</hi><hi > quinze anos após a sua implantação na Ilha do Pico</hi><hi > onde o Império Americano, em recessão económica e vítima de</hi><hi > ataques terroristas, acaba de descobrir as maiores fontes energéticas do</hi><hi > mundo, os novíssimos-europeus são capturados e levados para o </hi>«<hi >Mundo Disney»; mais de meio milhar de crianças será </hi><hi >vendido a famílias americanas; a restante população, susceptível de reivindicar, </hi><hi >pela sua formação e pela sua experiência social, direitos humanos </hi><hi >incompatíveis com a «ditadura democrática» ou «Tecnocracia Democrática» </hi><hi >em vigor na pátria de Monroe, será exterminada no decurso </hi><hi >da ‘Solução Final’.</hi></p><p rend="text" >«<hi >Futuro</hi>»<hi >, </hi>«<hi >esperança</hi>»<hi > </hi>«<hi >reconstruir</hi>»<hi >, </hi>«<hi >igualdade</hi>»<hi >, </hi>«<hi >liberdade</hi>»<hi >, </hi>«<hi >justiça</hi>»<hi >, </hi>«<hi >democracia</hi>»<hi > </hi>«<hi >protecção</hi>»<hi >, </hi>«<hi >dignidade</hi>»<hi >, </hi>«<hi >direitos humanos</hi>»<hi >… são </hi><hi >termos recorrentes n’</hi><hi rend="italic" >O </hi><hi rend="italic">último</hi><hi rend="italic" > europeu 2284</hi><hi >; são também os</hi><hi > que pautam os discursos de David Sassoli que, a 16</hi><hi > de dezembro de 2021, numa das suas </hi>últimas<hi > intervenções, e</hi><hi > no momento preciso em que decorria a Conferência sobre o</hi><hi > Futuro da Europa, reconhecia, como o velho Reitor, perante o</hi><hi > Conselho da Europa, que </hi>«<hi >a nossa União </hi>é<hi > imperfeita</hi>»<hi >. Crente, porém, no futuro de uma Europa </hi>«<hi >mais f</hi><hi >orte, mais democrática, com maior justiça social</hi>»<hi >, ultrapassando as </hi><hi >diferenças entre as suas nações, e </hi>«<hi >guiando e iluminando como</hi><hi > um farol</hi>»<hi >, afirmava que </hi>«o<hi > nosso desafio consiste em</hi><hi > construir um novo mundo respeitador do Homem e da natureza,</hi><hi > com uma economia ao serviço do bem-estar de todos, e</hi><hi > não somente ao serviço dos interesses de alguns» (Sassoli </hi><hi rend="italic" >apud</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >Boulasha 2022). Neste discurso em que defendeu um </hi>«<hi >projecto</hi><hi > europeu de esperança</hi>»<hi >, </hi>«<hi >projectos ambiciosos para a nossa </hi><hi >Europa</hi>»<hi >, o Presidente do Parlamento Europeu não só admitia </hi><hi >a necessidade de uma remodelação do projecto de desenvolvimento europeu </hi><hi >como também respondia ao que a 25 de abril de</hi><hi > 2020, dia comemorativo da libertação da Itália do fascismo e</hi><hi > do nazismo, realçara numa entrevista aos mídias do Vaticano: </hi>«Temos<hi > de fazer ver que na liberdade, na democracia, no respeito</hi><hi > dos direitos fundamentais do homem e no valor da vida,</hi><hi > podemos viver melhor e melhorar o nosso nível de vida.</hi><hi > Se a Europa se desmoronar, quem no mundo de hoje</hi><hi > em dia poderá hastear a bandeira dos direitos humanos ?</hi>»<hi > (Sassoli 2020).</hi></p><p rend="text" >«A<hi > Europa perdeu um líder, a democracia perdeu</hi><hi > um defensor» (Metsola 2022), afirmou a presidente interina do Parlamento</hi><hi > Europeu, Roberta Metsola, na homenagem prestada a David Sassoli em</hi><hi > Estrasburgo, a 17 de janeiro de 2022, onde também Enrico</hi><hi > Letta, primeiro ministro de Itália, confirmou que </hi>«a<hi > luta de</hi><hi > David pela democracia, liberdade e Estado de direito tem sido</hi><hi > uma inspiração para todos nós» (Letta 2022); </hi>«Continuaremos<hi > o teu</hi><hi > trabalho. As tuas lutas continuarão a ser as nossas lutas»</hi><hi > (Letta 2022), asseverou. Façamos nossas estas palavras para que não</hi><hi > sejamos os </hi>últimos<hi > europeus.</hi></p><p rend="h2" >Referências bibliográficas</p><p rend="bib_indx_bib" >Boulasha, D. 2022. “Hommage à David Sassoli, passionné par l’Europe et ‘uomo perbene’.” <ref target="http://Altriitaliani.net"><hi rend="italic">Altriitaliani.net</hi></ref>. <ref target="https://altritaliani.net/hommage-a-david-sassoli-passionne-par-leurope-et-uomo-perbene/">https://altritaliani.net/hommage-a-david-sassoli-passionne-par-leurope-et-uomo-perbene/</ref> (10/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >European Union Agency for Fundamental Rights 2007-2022. “A Carta dos Direitos Fundamentais da União Euopeia. Preâmbulo.” <hi rend="italic">European Union Agency for Fundamental Rights</hi>. <ref target="https://fra.europa.eu/pt/charter-title/preambulo">https://fra.europa.eu/pt/charter-title/preambulo</ref> (10/22). </p><p rend="bib_indx_bib" >Letta, E. 2022. “Cerimónia de homenagem ao presidente David Sassoli: <hi rend="italic">A tua luta pela democracia continuará</hi>.” Parlamento Europeu. <ref target="https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20220114IPR21010/cerimonia-de-homenagem-a-david-sassoli-a-tua-luta-pela-democracia-continuara">https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20220114IPR21010/cerimonia-de-homenagem-a-david-sassoli-a-tua-luta-pela-democracia-continuara</ref> (10/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Metsola, R. 2022. “Cerimónia de homenagem ao presidente David Sassoli: <hi rend="italic">A tua luta pela democracia continuará</hi>.” Parlamento Europeu. <ref target="https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20220114IPR21010/cerimonia-de-homenagem-a-david-sassoli-a-tua-luta-pela-democracia-continuara">https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20220114IPR21010/cerimonia-de-homenagem-a-david-sassoli-a-tua-luta-pela-democracia-continuara</ref> (10/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >Real, M. 2015. <hi rend="italic">O último europeu 2284</hi>. Alfragide: Publicações D. Quixote.</p><p rend="bib_indx_bib" >Sassoli, D. 2020. “L’Europe symbolise l’attention concrète aux personnes.” Entretien réalisé par Andrea Monda – Cité du Vatican. <hi rend="italic">Vatican News</hi>. <ref target="https://www-vn.azureedge.net/fr/monde/news/2020-04/david-sassoli-l-europe-symbolise-l-attention-concrete-aux-pers.html">https://www-vn.azureedge.net/fr/monde/news/2020-04/david-sassoli-l-europe-symbolise-l-attention-concrete-aux-pers.html</ref> (10/22).</p><p rend="bib_indx_bib" >UNICEF Brasil. [s.d.]. “Declaração Universal dos Direitos Humanos Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948. 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          <bibl n="95317">Metsola, R. 2022. “Cerim&amp;#243;nia de homenagem ao presidente David Sassoli: A tua luta pela democracia continuar&amp;#225;”. Parlamento Europeu, https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20220114IPR21010/cerimonia-dehomenagem- a-david-sassoli-a-tua-luta-pela-democracia-continuara (10/22).</bibl>
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          <bibl n="95332">Sassoli, D. 2020. “L’Europe symbolise l’attention concr&amp;#232;te aux personnes”. Entretien r&amp;#233;alis&amp;#233; par Andrea Monda – Cit&amp;#233; du Vatican. Vatican News, https://www-vn.azureedge.net/fr/monde/news/2020-04/david-sassoli-l-europe-symbolise-lattention- concrete-aux-pers.html (10/22).</bibl>
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