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        <title type="main" level="a">Texto e paratextos à volta da viagem de Fernão de Magalhães: Maximilianus Transilvanus</title>
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          <persName n="1" ref="https://orcid.org/0000-0002-0960-130X" type="ORCID">
            <forename>István</forename>
            <surname>Rákóczi</surname>
            <placeName type="affiliation">Eötvös Loránd University, Hungary</placeName>
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          <resp>This is a section of <title>Nel segno di Magellano tra terra e cielo</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/978-88-5518-467-0</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Lapo Casetti, Salomé Vuelta García</name>
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        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2021">2021</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.10</idno>
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          <p>Available for academic research purposes</p>
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          <p>Copyright Author(s)</p>
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        <p>Maximilianus Transilvanus’s letter, De Moluccis insulis is one of the most important historical sources on the Magellanes-Elcano expedition, born immediately after the circumnavigation of the Earth by Victória. The crew of the ship was interviewed by Maximilianus Transilvanus shortly after the docking in the port of Seville in September 1522. This interview became the basis of the letter written in Latin and sent from the royal secretary to the archbishop of Salzburg, Lang, who had already been his benefactor. The letter is the first step of the transformation of these news into information. This study does not wish to analise the text, but rather the ‘paratexts’ of the letter: a piece of sagu palm broad, a paradisea bird and spieces attached to the letter.</p>
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            <item>Magellan</item>
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            <item>discoveries</item>
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      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.10<ref target="https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.10" /></p>
      
      <p rend="h1_chapter" ><hi >Texto e paratextos à volta da viagem <lb/>de Fernão de Magalhães: Maximilianus Transilvanus</hi></p><p rend="h1_author" ><hi >István Rákóczi</hi></p><p rend="h2" ><hi >1. </hi><hi rend="italic" >Nel mezzo del cammin</hi><hi >…a modo de introdução</hi></p><p rend="text" ><hi >Estariam andados a meio do seu caminho os navios da primeira circum-navegação do globo faz 500 anos, quando hoje, a meia distância entre interpretação e reinvenção, cumprimos o nosso ritual das comemorações magalhânicas. «[…] A calendarização feita por A. Compte, inspirada no catolicismo e na religião cívica da Revolução Francesa é inseparável de uma interpretação linear e acumulativa do tempo, rio no seio do qual o “grande homem” emerge investido de uma exemplaridade típica e de uma capacidade profética que se impunha seguir e escutar» – escreve Catroga (1998, 222) ao propósito das comemorações, analisadas sob o prisma das liturgias cívicas. No mundo atual, universal, globalista, mondializado e planetário não deixa de ser pertinente evocar esta viagem tão simbólica. Ela vem apontada, logo que terminada, para uma memória coletiva – precisamente por Maximilianus Transilvanus, em quem focamos a nossa atenção, e de uma forma que condiz com a leitura moderna concludente:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Certamente são mais dignos estes navegantes para os preservarmos eternamente na memória do que aqueles Argonautas, que com Jasão navegaram para Cólquida. O seu navio também merece mais consideração e ser mais destacado entre as estrelas do que aquele Argo antigo. Este saiu da Grécia, percorrendo um itinerário no Ponto, ao passo que o nosso partiu de Sevilha navegando primeiro para sul, e daqui percorreu todo o hemisfério ocidental e meridional para seguir para leste, para logo voltar novamente a ocidente</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-005-backlink"><ref target="10.html#footnote-005">1</ref></hi></hi><hi >. </hi></p><p rend="text" ><hi >Este parágrafo de conclusão, um lugar comum repetido até a exaustão, parte da comparação do meio físico do itinerário e encontra uma mudança de escala (um mundo mediterrânico fechado </hi><hi rend="italic" >versus</hi><hi > ‘mares nunca talhados’, abertos para novos oceanos), cujo paradigma oferece um novo salto epistemológico na macro-história da Humanidade. A sorte do navio é inversa à vaticinada por Transilvanus, pois sabemos que a nau </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi > foi vendida e posta em leilão em 1523, tendo vindo a fazer bem mais modestas viagens que a circum-navegação do globo (Gil 2009, 309). Mesmo assim, a frase de Maximiliano é copiada, entre outros por Fernandez de Oviedo, para passar definitivamente para um cânone cultural da historiografia oficial coêva. A viagem celebrada passa portanto bastante cedo para um registo de caráter humanístico, de tom elevado e conclusões atemporais, desvinculado de algumas rudes realidades. O aspeto da nossa análise interdisciplinar dá algumas achegas sobretudo para a história da informação, e parte da interpretação de alguns ‘paratextos’ do texto da epístola </hi><hi rend="italic" >De Moluccis insulis</hi><hi > de Transilvanus.</hi></p><p rend="h2" ><hi >2. Origem e paternidade do autor</hi></p><p rend="text" ><hi >Em relação ao autor existe uma discussão aparentemente supérflua e desnecessária, já que tópicos como a nacionalidade e a terra natal não têm nenhuma relevância para a projeção do texto a ser estudado. Mesmo assim, dado o caráter inconcluído desta discussão, não pode deixar de ser referido, se bem que de forma resumida, o ponto de vista da historiografia húngara a este propósito. O nome Transilvanus </hi><hi rend="italic" >ab ovo</hi><hi > parece apontar para uma entidade política identitária centro-europeia por excelência, geralmente aceite e fundamentada numa cadeia de autores – Knopf, Apponyi, Márki Sándor – referidos por Tivadar Ács (1961) que, fundamentando-se numa passagem duma carta do humanista Miklós Oláh, suporta de forma irrefutável uma descendência húngara. Evidentemente, não se desconheciam os pontos de vista opostos da historiografia belga que deduzem do locativo da cidade flamenga Zevenbergen e não do Siebenbürg saxo-alemão um apelido ʻTransylvanus’, já que ambas hipóteses partem do princípio de tratar-se dum jogo humanístico comum da época, que latiniza os topónimos da terra de pertença dos seus autores. Tanto o excelente estudioso belga (Tournoy 2005) como o autor destas modestas linhas (Rákóczi 2007-2008) baseavam-se nestes, por assim dizer, novos ʻapelidos humanistas latinizados adoptados’, sem perguntar pelo apelido propriamente dito, ou o nome recebido no baptismo – de que aliás não foram encontradas até agora provas satisfatórias. Hoje tido por anacrónico o assunto, tendente para alguns compromissos (Monok 2014), a historiografia húngara faz alvo de críticas à posição de Ács (Molnár 2008), regra a que foge o historiador argentino-húngaro László Szabó (1982) que parte de outras suposições. Para ele, o Transilvanus latinizado não provém de Erdély (Transilvânia), senão de Erdőd, uma modesta localidade que serve de prenome ao célebre humanista e bispo Tamás Bakócz, oriundo desta terra, cujo nome de origem (locativo) precede o apelido da linhagem da sua família, nos documentos emitidos na altura em latim. Com seus estudos feitos fora, em Cracóvia e Pádua, o futuro chanceler do rei Matias Corvino destaca-se como o único cardeal húngaro ranascentista ‘papável’, perdendo para Leão X a sua eleição em 1513 (Varga 2013). Para László Szabó (Szabó 1971) o ‘nosso’ Maximilianus não é filho natural de Mateus Lang, senão de Bakócz, e supõe que Maximilianus Transilvanus preservava o locativo paternal como o seu apelido. A amizade e apoio de Lang, arcebispo de Salzburgo, para que o cardeal húngaro conseguisse a tiara papal encontra-se bem documentado, ao passo que a entrega do filho natural é apenas uma especulação. Mesmo assim, tal hipótese, para a qual pessoalmente me inclino hoje cada vez mais, explicaria um nome de baptismo bem pouco vulgar na onomástica húngara tanto hoje como então (Mike, Miksa), contudo mais que explicável pela atitude de Lang, patrono, que servira com tanta dedicação o seu imperador Maximiliano, e que ter-se-ia encarregado da educação do seu jovem ‘pajem’. Com este raciocínio batem certo também os poucos dados relativos à sua educação na “Domschule de Gurk”, lugar onde não me parece racional supor ter estudado o filho de um patrício de Bruxelas. Mesmo assim, e em qualquer das hipóteses, volto a sublinhar que o lugar de nascimento do polido intelectual cosmopolita ao serviço dum império universal não passa de interesse secundário ou impertinente</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-004-backlink"><ref target="10.html#footnote-004">2</ref></hi></hi><hi >, já que na altura da redação da célebre epístola que o imortaliza, desempenhava cargos de confiança e de prestígio numa administração supranacional de Carlos V, incluindo as tarefas de secretário, emissário e conselheiro (Escudero 2011). Testemunha bem o seu estatuto e cotação a sua presença na audiência de Elcano em 1522, e para um período anterior fixa-se no imaginário cultural como aquele que lê na Dieta de Worms, enumerando uma trás da outra, a longa lista das ‘destrutivas’ obras que Lutero devia de ter abjurado naquela ocasião (Rorsch 1933).</hi></p><p rend="text" ><hi >Extensivo também à historiografia romena, parece-me justo referir porém que a importância da nacionalidade de Transilvanus tem os seus reflexos na seleção deste autor em varias coletâneas com a tradução da sua obra (Rákóczi 2021), circunstância que contribui para um certo culto de Fernão de Magalhães em terras húngaras, protagonista de obras de literatura juvenil e de divulgação, e até de peças teatrais. Por outro lado, o renome do autor por si só vem reforçar uma auto-avaliação positiva nacional, segundo a qual os humanistas e cientistas, tanto húngaros como transilvanos, do século XVI, faziam parte duma extensa e densa rede de contactos universitários europeus, não apenas como estudantes-peregrinos nos centros de formação mais famosos do continente, onde formaram uma ‘nação’ independente, mas também contribuindo, ecoando, para a difusão dos novos conhecimentos geográficos. Basta lembrar, já que editada em Brassov, ou seja, na Transilvânia saxã, a obra </hi><hi rend="italic" >Rudimenta Carthographiae</hi><hi > de Johannes Honterus, por exemplo, com os seus anexos de mapas e redigido em verso para um melhor aproveitamento didático-escolar, tendo a obra sido reeditada 39 vezes no século XVI, de Basileia a Praga, de Rostock a Colónia, o que dá vivo testemunho da sua importância (Török 2001). Hoje em dia já também sabemos que não é a Hungria o ponto mais distante da projeção da obra de Maximilianus Transilvanus, já que conhecemos também uma sua tradução quinhentista em russo (Sokolov 2014), o que vêm redesenhar as linhas isocrónicas traçadas sobre a difusão da informação, ainda estabelecidas por Fernand Braudel na sua obra clássica (Braudel 1979, 426).</hi></p><p rend="text" ><hi >No que diz respeito à discutida paternidade ‘biológica’ de Maximilianus Transilvanus, sejam candidatos um nobre húngaro anónimo perecido na batalha de Mohács, seja Steve van Sevenbergen, ou os eclesiásticos Mathäus Lang ou Tamás Bakócz respetivamente, o que muito mais deve ser salientado é a ‘paternidade espiritual’ de Pietro Martyr d’Anghiera, o que tem uma repercussão mais direta, tanto do ponto da vista da metodologia, como para o próprio estilo da sua carta (Vagnon 2019). Conforme tratado por esta investigadora em mais de um profundo estudo, além de modelos greco-latinos evidentes (Vagnon 2010), o secretário imperial fazia uso dos mesmos recursos e com os idênticos objetivos do que o seu mestre italiano numa geração anterior, ao entrevistar os companheiros da viagem de Colombo, que lhe confere o justo título de ‘pai da historiografia sobre o Novo Mundo’. Esta similitude metodológica é inclusivamente apontada pelo próprio Pietro Martyr, quando discursa não apenas sobre uma particular ‘boa sorte’ de Transilvanus e de mais dois companheiros em poderem estar presentes na audiência imperial de El Cano no dia 22 de Setembro de 1522, como também na minuciosa recolha de informações junto destes e outros sobreviventes da nau </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi >. Tais dados não são apenas recolhidos, mas sim também sistematizados e interpretados no mês seguinte (a data do </hi><hi rend="italic" >De Moluccis insulis</hi><hi >, como é abreviadamente chamado, é de 24 de Outubro), para o mais celeremente possível serem divulgados junto da comunidade de possíveis intelectuais interessados – por via de Lang – conforme iremos tratar no capítulo seguinte</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-003-backlink"><ref target="10.html#footnote-003">3</ref></hi></hi><hi >. Antes porém de continuarmos, fiquem registadas mais duas observações ao propósito de Mathäus Lang. Este ilustre prelado não era apenas arcebispo de Salzburgo e antigo mentor de Transilvanus, mas também bispo de Cartagena durante 27 anos, estando como tal ligado por intensos laços a Espanha, e claro, muito particularmente, à sede de seu bispado, a cidade de Múrcia, donde não só recebe regularmente delegados na Áustria, como também designa um intendente particular na pessoa de Maximilianus Transilvanus, para tratar dos seus assuntos económicos </hi><hi rend="italic" >in loco</hi><hi >. Os documentos publicados pelos que cultivam uma história local (Olivares Terol 2003 e Martinez 1996) deixam de ter deste modo ‘só’ uma importância regional, e devem ser considerados entre as fontes da história da informação ligada à viagem magalhânica, já que revelam um outro Transilvanus que, desempenhando a função de secretário imperial, estava ligado – de forma paralela e até simultânea – a Lang, como um seu </hi><hi rend="italic" >familiarius</hi><hi >. Tal facto até agora não fora apreciado do ponto de vista da génese e redação da sua epístola, embora esta ligação contribua para explicarmos melhor a curiosa expressão </hi><hi rend="italic" >domine me unice</hi><hi > que utiliza Transilvanus ao dirigir-se ao seu antigo protetor na sua missiva.</hi></p><p rend="h2" ><hi >3. De notícia-texto à informação impressa</hi></p><p rend="text" ><hi >Sem descuidar as notícias verbais imediatas (depoimentos, relatos, informações aprestados), dá-se a fixação da informação sobre os acontecimentos da viagem magalhânica, legando um grupo heterogéneo de textos recolhidos e mandados omitir, ocultar, censurar ou divulgar por parte da Corte. Além destes, surgem  também – com ou sem controlo político – vários outros documentos imediatos avulsos, dispersos, hoje vulgarmente e no seu conjunto classificados como suas ʻfontes historiográficas’. Naturalmente, logo depois de a </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi > aportar em Sevilha, o </hi><hi rend="italic" >Aviso</hi><hi > de Sebastián Elcano origina uma irradiação do sucesso da viagem, sob a forma de notícias internas e outras para o uso externo, processo em que toda a administração imperial desempenhou um papel de mediação e de representação para as outras cortes europeias. Por outro lado, existia um outro foco da informação sobre a chegada da expedição, constituído por canais diplomáticos,</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >muito especialmente os rápidos e sagazes relatórios do embaixador na corte de Carlos V, Gaspar Contarini (1438-1542), despachados para Veneza. Aguinagalde (2019, 190-91) enumera argumentos convincentes sobre o facto de a noticia ter chegado pelos canais diplomáticos ao Palazzo Ducale em 3 de Novembro de 1522, antes de que a informação ʻoficial’ de Gattinara tenha sido para aí divulgada.</hi></p><p rend="text" ><hi >As informações sobre a chegada da </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi > e as suas múltiplas repercussões político-diplomáticas chegam também até os círculos comerciais – através da sua própria família, a dos Contarini – bem como aos homens da ciência, tais como o cartógrafo Zorzi (†1538), que fica informado também sobre esta viagem de tão grandes e múltiplas consequências. A notícia depressa passa para Raguza e ocorre também a redistribuição da informação para outras sucursais geográficas secundárias, de acordo com uma rede mais ou menos densa do fluxo da informação com a Signoria. É precisamente neste contexto que devemos colocar e encontrar o lugar propício da obra de Maximilianus Transilvanus – entre notícia imediata e balanço informativo. Concordamos com a opinião de Benites (2013, 197) de que esta missiva representa uma espécie de ʻsedimentação’ da notícia num contexto mais alargado. O já citado arquivista e historiador basco lembra-nos muito ao propósito um </hi><hi rend="italic" >bon mot</hi><hi >: ʻcosa stampata voleva dir cosa vera’, ou seja, que a publicação de um manuscrito, como no presente caso, aumenta a veracidade do texto-notícia. Muito embora o seu emissor esteja fortemente ligado ao Poder, distancia-se também dele, não apenas pelo seu estilo elegante (Bouloux 2010, 10), mas com a sua verdadeira intenção humanista de celebrar um momento quando não só se dá uma volta ao mundo, mas também é o mundo que dá voltas.</hi></p><p rend="h2" ><hi >4. Edição e editores: a armadilha do calendário</hi></p><p rend="text" ><hi >Conhecemos bem </hi><hi rend="italic" >a traditio</hi><hi >, a sequência e relação entre as primeiras edições, se bem que falte ainda um elenco bibliográfico moderno exaustivo listando todas as suas publicações, tal como tem acontecido com a privilegiada (pois vivencial e paralela, e durante algum tempo porém inédita) fonte de António Pigafetta (cf. McCarl 2017). As mais recentes referências confirmam as já tiradas conclusões bibliográficas do século XIX (Harris e outros) segundo as quais a ʻRelação’ de Maximilianus Transylvanus conhece três edições no ano 1523, de que se deve considerar a sua </hi><hi rend="italic" >editio princeps</hi><hi > a publicada em janeiro desse ano em Colónia pela imprensa de Eucharius Hirschorn. Intitula-se </hi><hi rend="italic" >De Moluccis insulis itemque aliis pluribus mirandis quae novissima Castellanorum navigatio… imperatoris Caroli V auspicio suscepta nuper invenit, Maximiliani Transylvani ad… cardinalem Saltzburgensem epistola lectu per quam jucunda, Coloniae, in aedibus Eucharii Cervicorni, anno virginei partus MDXXIII, mense januario, In-8°</hi><hi >. A segunda edição não altera o título e texto da primeira de Colónia, e aparece em Paris em julho do mesmo ano por Pierre Viart. Um exemplar desta edição conservada na Biblioteca Nacional de Paris foi consultado por Vagnon (2019, 216), que faz a sua descrição. Esta edição não acarreta problemas bibliográficos. A terceira edição, a de Roma, que sai em novembro de 1523, aparece com um novo título – e antes de mais uma outra filiação e procedência textual completamente diferentes até chegar ao seu terceiro editor, Minizio Calvo. Segundo o prefácio editorial desta publicação, o texto base que se publica é uma carta mandada pelo cardeal Chiericati, por seu turno uma cópia do manuscrito original – de criticada qualidade aliás – daquela carta despachada pelo seu autor ao bispo Mathäeus Lang, que se encontrava em Nuremberga na mesma altura que o prelado italiano, e também futuro mecenas do cavaleiro António Pigafetta. O relato aparece publicado agora como </hi><hi rend="italic" >Maximiliani Transylvani Caesaris a secretis Epistola de admirabili et novissima Hispanoru[m] in Orientem navigatione, qua variae et nulli prius accessae regiones inventae sunt cum ipsis etia[m] Moluccis insulis beatissimis […] inauditi quoq[ue] incolar[um] mores exponuntur ac multa quae Herodotus, Plinius, Solinus atque alii tradiderunt fabulosa esse arguunt[ur], contra, nonnulla ibide[m] vera, vix tamen credibilia, explicant[ur], quibuscum historiis insularibus ambitus describit[ur] alterius hemisphaerii, qua ad nos tandem Hispani redierunt incolumes, Romae, in aedibus F. Minitii Calvi, anno MDXXIII, mense novembri. </hi><hi >A primeira publicação desta variante editorial é seguida por uma outra reedição, com o mesmo aspeto tipográfico da anterior, em começos de 1524, voltando a aparecer outras reedições de outras tipografias só a partir da década dos anos trinta, quando caduca o prazo do privilégio de exclusividade, como observa Gilbert Tournoy (2005, 84-5), certamente fruto dos vínculos do seu editor ao cardeal e à curia papal. Conforme matéria de discussão outrora, remate-se esta enumeração com a ficha bibliográfica do exemplar digitalizado da obra conservada na Biblioteca Nacional da Nova Zelândia, escolhida aleatoriamente e de entre tantas outras possíveis, já que os exemplares dispersos um pouco por todo o mundo se encontram disponíveis aos estudiosos na Internet. A ficha</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-002-backlink"><ref target="10.html#footnote-002">4</ref></hi></hi><hi > condensa também com clareza a causa das incertezas:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Maximilian, of Transylvania, active 1522, Cervicornus, Eucharius, active 1516-1547, printer. The original edition of Maximilian’s account of Magellan’s celebrated voyage. The 2d edition was issued at Rome, by Calvus, in November 1523, under title: “Maximiliani Transyluani Cæsaris a secretis Epistola, de admirabili &amp; nouissima Hispanorũ in Orientem nauigatione.” The priority of the present edition is established by the fact that in Cologne the new year began on December 25, and not in March, as was supposed by those bibiliographers who have given the precedence to the Roman edition (e.g. Medina, Bibliografía española de las Islas Filipinas, 1897, p. [13]-22) cf. Schöner, … Reproduction of his globe of 1523, 1888, p. xxii, 153; and Grotefend, Zeitrechnung des deutschen mittelalters, 1891-98, v. 1, p. 88, 23, 203.</hi></p><p rend="text" ><hi >Seja como for, a epístola de Transilvanus – e não só por ser reeditada em várias antologias odopéricas italianas – faz parte da vasta chamada ʻliteratura de viagens’ em vias de consagração de um novo género (um termo assaz vago, que nos parece um saco roto, uma terminologia cómoda demais que peca pela incongruência e diversidade do nível dos textos que abarca), e tal como a Carta de Pêro Vaz de Caminha pode ser classificada de ʻRelação’, um termo a meio caminho de uma quase-jornalística divulgação de notícias e novidades, em que predomina o fator tempo e o tipo de informação.   </hi></p><p rend="h2" ><hi >5. ʻIl n’y a pas de hors-texte’?</hi></p><p rend="text" ><hi >Nada existe fora do texto, ensina Jacques Derrida, porém nada nos parece mais indicado do que tentar analisar em vez do próprio texto, alvo de minuciosa interpretação de tantos e tão excelsos estudiosos, apenas os três dos elementos paratextuais vinculados a este, ilustrações anexas e/ou testemunhos materializados das notícias divulgadas nesta carta/informação endereçada ao bispo Mathäus Lang. Segundo o </hi><hi >E-Dicionário de Termos Literários</hi><hi >, o que a teoria da literatura entende por paratexto significa «aquilo que rodeia ou acompanha marginalmente um texto e que tanto pode ser determinado pelo autor como pelo editor do texto original. O elemento paratextual mais antigo é a ilustração» (Ceia 2017 [s.p.]). De um ponto de vista conceptual, podemos considerar a missiva de Transilvanus num duplo sentido, desdobrando-a, ora como uma carta manuscrita cujo destinatário é Lang – com os seus anexos ʻpessoais’ – ora como uma epístola, obra destinada para fazer circular entre os leitores a notícia ʻmaravilhosa e admirável’, formando desta feição o enunciado comum dos dois registos dum </hi><hi rend="italic" >corpus</hi><hi > único e compartilhado, que se bifurca desde o momento da sua publicação e gestos editoriais para outros circuitos/recetores da sua mensagem. A ʻcomunicação’ a partir deste ponto deixa de interligar só dois polos, operando-se entre pontos múltiplos, fator característico da correspondência epistolar humanística, que se compraz em formar redes de relacionamento interpessoal perante toda aquela informação que for uma novidade e de interesse nos seus meios.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ao longo da carta, ou seja, na missiva original, são referidos ʻtrês anexos’, a saber um pedaço de pão sagu, uma ave embalsamada e umas amostras de especiarias trazidas a bordo do navio, todos de interesse intrínseco, e que reforçam duma maneira geral, até pela sua materialidade plástica, o rigor de certas passagens da narrração, conferindo-lhe uma maior credibilidade, e abrindo – tal como a própria narrativa – novos horizontes visuais para a imaginação, focando-se no lado exótico da viagem. Embora tenha classificado de ʻparatextos’, devo admitir que, do restrito ponto de vista do sentido do termo, não fazem parte dum apêndice duma ilustração taxativa, encontrando-se sim, já que aludidos e enumerados – intercalados – no texto da carta e não em forma duma lista enquanto </hi><hi rend="italic" >appositio. </hi><hi >Na correpondência eletrónica do futuro imediato, seria equivalente – seja-me permitida esta comparação – ao ʻattachment’ dos nossos e-mails, com a possibilidade de impressão 3D da vinculada ilustração objetivada e material.</hi></p><p rend="text" ><hi >No que diz respeito ao pão sagu, sabemos que da palmeira se extraía um dos alimentos mais antigos da Humanidade, cuja utilização diferia pouco ao longo dos milénios (Barrau 1959, 7). Na Micronésia procura-se atualmente – sob o signo da sustentabilidade – um aprimoramento e aproveitamento da plantação, descrita pela agro-botânica (Ellen 2006, 9-11) tanto na extensão da sua área de cultivo, como pelas subespécies, em que se inclui uma ʻPigafetta’ (sic!), a quem se associa aliás um primeiro intento descritivo</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-001-backlink"><ref target="10.html#footnote-001">5</ref></hi></hi><hi >. Ao propósito da utilização do léxico malaio (e de outras línguas e dialetos) deste cronista da primeira viagem de circumnavegação, existem bons levantamentos linguísticos (cf. Thomaz 2017), para esclarecer passagens ou para tecer considerações do âmbito da tradutologia (cf. Aguilar Domingo e Pérez Vázquez 2020). A árvore (Metroxylon sagu Rottb.) de Cebu (Seidenschwartz 1988, 93) dá a farinha de sagu – identificado por Collins e Novotny (1991, 127) como </hi><hi rend="italic" >ambulung</hi><hi > no Brunei e no norte das Molucas – e tem uma longa lista de denominações desde o javanês </hi><hi rend="italic" >sagú</hi><hi > até as variantes dialetais tratados por Michiel Flach (1996, 7-9). Tal vocábulo passa não apenas para as línguas ocidentais, mas conserva-se reconhecível em línguas orientais fora da área de seu cultivo, como por exemplo na Tailândia, Cambodja ou Burma (na forma de </hi><hi rend="italic" >thagu-bin</hi><hi >). A primeira referência que é feita por Maximilianus Transilvanus difere muito poco daquilo que lemos na </hi><hi rend="italic" >Década</hi><hi > III, Lib.V. cap.V. de João de Barros, exceto precisamente naquela observação que tornava possível o transporte do ʻpão de sagú’ oferecido – adquirido da tripulação da </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi > – mesmo até Nuremberga: a sua capacidade de conservação em longas viagens marítimas. Da mesma forma, Transilvanus faz questão de relatar como consegue adquirir a Elcano e mandar ao seu antigo protetor um dos cinco pássaros empalhados, que não são ʻpapagaios’ (Aguinagalde 2019, 198), mas uma ave do paraíso. No seu texto trata-a associada a uma lenda local justificativa do seu nome – pois carateriza-se por nunca pousar em terra e cair do céu morta quando exausta – e por isso representada primeiro sem os pés. Com uma longa carreira na pintura europeia (cf. Bogdan 2009, García Arranz 1996), desde as suas primeiras representações até Rubens, entra para o mundo da moda, fazendo circular desde a década ‘40 do século XVI a sua exuberante plumagem da corte espanhola até todas da Europa (Andaya 2017, 373). Estes pássaros são de resto referidos de forma muito diferente em Pigafetta, pois são mencionados como presentes do rei de Bacan para o rei de Espanha, sendo vivos e da espécie das </hi><hi rend="italic" >Paradisaea minor</hi><hi >. A primeira descrição da </hi><hi rend="italic" >mamuco diata</hi><hi > de Transilvanus, as ʻmanucodias’ – ou ‘apodatas’  parte do vocábulo </hi><hi rend="italic" >manuk dewata</hi><hi > (Garrod e Smith 2018, 130) – relaciona-se com a islamização da terra, pois o pássaro serve de instrumento para os mercadores ‘maometanos’ sobre o mundo etéreo do além, donde caem estas ‘aves de Deus’. Sem entrar em aspetos de taxonomia, do foro da ornitologia, fique registado o nome português, ‘pássaro do sol’, que contorna todas as possíveis emaranhadas implicações de caráter religioso. Chamamos aqui a atenção para um gosto prematuro do colecionismo centro-europeu, que está por trás do gesto do secretário imperial. Conhecem-se os </hi><hi rend="italic" >Wunderkammer</hi><hi > e uma paixão por tudo o que é raro e exótico, logo muito apreciado pelos homens da cultura, pois representam para o olhar da </hi><hi rend="italic" >Mittel-Europa</hi><hi >, de perspetivas mais fechadas, a diversidade e alteridade dos outros e novos mundos, abertos pelos povos ibéricos. Em terras dos Habsburgos danubianos – e mesmo até ao Iluminismo – existiam espaços que colecionam/expõem em ‘pequenos museus’ privados desde a minerologia e zoologia até os ‘bárbaros empalhados’ (Sánchez Gómez 2019, 274) tais maravilhas, como a oferta da ave do paraíso. Estas peças de luxo e ‘objetos de representação’, catálogos de curiosidades, por seu turno (Brandhuber 2011, 510) funcionavam também  como complementos de mapas, descrições geográficas e toda uma literatura antropológica sobre o mundo alargado em exponencial expansão. É curioso observar que a epístola na versão publicada desaproveita completamente os ‘anexos’/ materiais exóticos da versão da carta, talvez por causa da pressa em dar à luz a noticia impressa. Na página de rosto o título é bordeado por banais cenas de figuras nuas à volta duma fonte renascentista em que se banha uma figura mais central que as outras, e donde parece emanada uma única palavra, em caracteres gregos, </hi><hi rend="italic" >a caritas, </hi><hi >que pouco condiz com um </hi><hi rend="italic" >minnesänger</hi><hi > do canto superior esquerdo da xilogravura, a qual quando colorada, variando de exemplar para exemplar, também não apresenta grande originalidade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Finalmente, faziam parte deste conjunto de ‘anexos’ pequenas porções de especiarias, onde o saber e o sabor – que provem de mesmo étimo – andavam mais que ligados: são amostras de canela, noz moscada e cravo, cujo objetivo, diríamos hoje, era mais promocional do que ilustrativo. Tal funcionalidade ganha naturalmente maior relevo ao interpretarmos este ‘pacote comercial’ no contexto da epístola publicada em janeiro de 1523 e não da carta/encomenda pessoal enviada a 24 de Outubro do ano anterior, pois a finalidade era demostrar que não ficavam atrás na qualidade estas especiarias em relação às que eram redistribuídas anteriormente pelos canais tradicionais do escoamento habitual, instalados pelos venezianos ou pelos portugueses. A expressão latina </hi><hi rend="italic" >recentiora</hi><hi > usada por Transilvanus aqui não se refere à via comercial do novo rival, mas sim à qualidade dos produtos, mais frescos, e já por isso ‘nada piores’ do que os dos outros. A perícia de Transilvanus não podemos contestar, tratando-se pois dum conhecimento ‘familiar’, já que o secretário imperial – refere-o no texto – é genro de Diogo Haro, irmão de Cristóbal Haro, co-financiador e armador da viagem da armada de Magalhães, na plena aceção duma grande empresa comercial. Sabemos inclusivamente bastante sobre o seu envolvimento numa complexa rede de investidores ‘multinacionais’, mais alemães do que ibéricos (cf. Häberlein 2015), se bem que os ʻburgaleses’ também investissem na armada um total de 1. 616.781 mrs (Gil 2009, 266), beneficiando também dos lucros, evidentemente. Dos 700 quintais e 23 libras de cravo que foram carregados na </hi><hi rend="italic" >Vitória</hi><hi > (um neto de 480 quintais à razão de 42 ducados o quintal) valeram 7. 569.130 mrs, vendidos a Henrique Ehinger, um feitor dos Welser, que pagou esta soma em várias prestações. Acontece que muitas vezes somos levados a esquecer também que o objetivo da viagem estava longe de ser espiritual e política, para além de ‘descubridora’ duma carreira espanhola das especiarias, pois tratava-se duma empresa comercial bem definida (Gil 2009, 307), que podia ter sido até mais rentável para a Coroa espanhola, caso tivessem conseguido voltar mais navios carregados com as aromáticas especiarias provenientes das tão cobiçadas Molucas.   </hi></p><p rend="h2" ><hi >6. Globo e globos </hi><hi rend="italic" >versus</hi><hi > mapa e mapas</hi></p><p rend="text" ><hi >Primeiro, e antes de mais, por muito que se tenha tratado duma viagem ‘à volta do mundo sem querer’, executada por obra de Elcano, numa feliz expressão de Luís Filipe Reis Thomaz (2018), a intenção de Magalhães era outra, de acordo com as instruções recebidas: evitar a todo custo que os seus barcos entrassem no hemisfério dos portugueses, que lhes fora reservado pelo Tratado de Tordesilhas. Os conhecimentos geográfico-cartográficos eram por conseguinte de máxima importancia, não só antes e para uma fundamentação científica e político-diplomática da viagem, como também depois dela, dadas as suas respetivas e inquietantes implicações para ambos os terrenos e ambos os rivais ibéricos. É deste ponto de vista que se reveste da maior importância colocar a pergunta – e na medida do possível dar também a sua resposta – se teria havido ou não um quarto anexo à carta de Transilvanus, a saber um globo (não referido no texto da epístola, mas mencionado noutros documentos coevos). Tal suporte podia ter querido servir de utilíssima ilustração ao leitor sobre a viagem. O nome que surge mais associado a este respeito é o de Schöner, autor dum globo de 1515 – cuja carta continua a ser atualmente editada juntamente com a de Transilvanus</hi><hi rend="notes_number CharOverride-1" ><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="10.html#footnote-000">6</ref></hi></hi><hi > – que citámos também a respeito da </hi><hi rend="italic" >editio princeps</hi><hi > de Transilvanus. Supomos com Rui Manuel Loureiro (Loureiro 2019, 34-5) que de Schöner é que devia ter-se servido o próprio Fernão de Magalhães ao apresentar o seu projeto a Carlos V e precisamente por via dos contactos que o clã dos Haro tinha já com os cartógrafos da chamada ‘escola de Nuremberga’. No seu globo de 1515, hoje perdido, o cartógrafo alemão desenha um canal, de que fala uma folha voante anterior a esta data, a </hi><hi rend="italic" >Copia der Newen Zeitung auss Pressigl Landt</hi><hi >, especificando que «desde esse cabo do Brasil (no Rio da Prata?) que é começo da terra do Brasil não há mais de que seiscentas milhas até Malaca». Para o efeito, devia-se ter passado por um estreito, que seria como «o de Gibraltar, para quem passa para o Levante». Tal informação, proveniente dum piloto duma caravela portuguesa – João de Lisboa (cf. Rákóczi 2018) na sugestão de Juan Gil (2009, 246) que neste assunto se apoia em importantes pesquisas de Haebler e de Nunn (Gil 2009, 327) – de certa forma acaba por retomar o projeto original de Colombo, o que serve de mais um argumento para apostar na viagem. Embora o assunto geográfico que mais tinha desafiado os cartógrafos fosse a representação da nova passagem (cf. Onetto 2017), anteriormente tão só obra do desejo e fantasiada, mas agora descoberta por Magalhães, a imensidão do oceano Pacífico – que se presumia grosso modo nas suas reais dimensões – devia ter sido representado de forma mais pontual. É certo que Transilvanus não tinha capacidade e formação para executar globos ou mapas. Não se pode deixar de lado todavia a hipótese de ter adquirido algum serviço alheio, por exemplo de Diego Ribero (Gil 2009, 361), que o autor destas linhas desconhecia na altura de redigir o seu texto (cf. Rákóczi 2007-2008) sobre a forte ligação entre </hi><hi rend="italic" >de Moluccis insulis</hi><hi > e o perdido globo de 1523 de Schöner. Por agora, e por não estar diretamente ligado à nossa intenção atual, remeto apenas para este trabalho algum curioso mais interessado com as fontes e literatura secundária utilizadas, passando apenas a apontar para algumas obras surgidas entre as duas datas. A maior novidade consiste em 2009 ter sido adquirido por F. Muller um mapa manuscrito intitulado </hi><hi rend="italic" >Tabula Moderna Alterius Hemisphaerii</hi><hi > e apresentada (cf. Muller 2012) como sendo primeiro em cartografar um Pacífico, partindo das novas informações. Num profundo artigo que faz uma exaustiva leitura cartográfica do mapa de 1525, atribuído a Lorenz Fries, Martinic publica também o retro do mapa (Martinic 2017, 7, fig.2), que é um resumo da carta de Maximilianus Transilvanus. Nada melhor demonstra, e tão simbolicamente, o vínculo da carta/informação e o seu impacto imediato nos meios académicos, oferecendo mais um testemunho sobre a multiplicidade da sua influência, apresentado aqui como ʻparatextos’ da sua carta, e que volvidos quinhentos anos nos espanta pela sua modernidade.  </hi></p><p rend="h2" ><hi >Riferimenti bibliografici</hi></p><p rend="bib_indx_bib" ><hi >Ács, T. 1961. “Maximilianus Transylvanus, a Magallanes-expedíció krónikása.” </hi><hi rend="italic" >Filológiai Közlöny</hi><hi > 7 n. 1-2: 126-31.</hi></p><p rend="bib_indx_bib" ><hi >Aguilar, Domingo M. S., e M. E. 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V. auspicio suscepta, nuper inuenit</hi><hi >, Coloniae, In aedibus Eucharij Ceruicorni, 1523, &lt;</hi><ref target="https://archive.org/details/demoluccisinsuli00maxi_0"><hi >https://archive.org/details/demoluccisinsuli00maxi_0</hi></ref><hi >&gt; (digitized by the Internet Archive in 2016 with funding from Boston Public Library), cotejando também a tradução húngara de József Salánki (cf. Bibliografia). O exemplar da BPL permite também proceder a uma leitura de notas marginais de punho quinhentista, o que será nosso objetivo de ulterior pesquisa e publicação. </hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="10.html#footnote-004-backlink">2</ref></hi>	<hi >Na literatura mais recente, Emanuelle Vagnon (2019) aceita incondicionalmente a descendência belga, o que de resto condiz com o lugar/fixação da sua residência em Bruxelas, num segundo período da sua vida. A Maximilianus Transilvanus falta qualquer biografia quinhentista por onde se possa decidir neste assunto. Francisco Borja Aguinagalde prefere não tomar posição a este respeito. Cf. ambos no número especial de ANAIS XX do CHAM, 2019, constante na nossa bibliografia.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="10.html#footnote-003-backlink">3</ref></hi>	<hi >Foi também o humanista lombardo que forneceu a chave do mistério para a </hi>ʻ<hi >perda dum dia do calendário</hi>’<hi >, pois foi durante a escala em Cabo Verde que se tinham dado conta de que não era quarta-feira, como estavam pensando, senão quinta (Thomaz 2018, 18). Contente Domingues (1989) faz um elenco dos depoimentos e das fontes escritas provenientes dos sobreviventes e Varela (2019) observa que, comparando com as outras navegações importantes, do ponto da vista da História dos Descobrimentos, até são abundantes as fontes relativas a esta viagem Magalhães-Elcano.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-1"><ref target="10.html#footnote-002-backlink">4</ref></hi>	<hi >Cf. exemplar na BNLZ (Transilvanus 1523) </hi><ref target="https://natlib.govt.nz/records/21530400?search">https://natlib.govt.nz/records/21530400?search</ref>[i][century]=1500&amp;search[i][decade]=1520&amp;search[path]=ites (12/20).</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="10.html#footnote-001-backlink">5</ref></hi>	<hi >Em boa verdade, a primeira obra que trata sob o ponto de vista científico é a </hi><hi rend="italic" >Dissertatio</hi><hi > de Steck (1757).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="10.html#footnote-000-backlink">6</ref></hi>	<hi >Cf. a edição filológica moderna de Wallisch 2009.</hi></p>
      
      
      
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