<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?>
<TEI xmlns="http://www.tei-c.org/ns/1.0">
  <teiHeader>
    <fileDesc>
      <titleStmt>
        <title type="main" level="a">Ao(s) espelho(s) do espaço e do tempo</title>
        <author>
          <persName n="1" ref="https://orcid.org/0000-0002-1541-3006" type="ORCID">
            <forename>Annabela</forename>
            <surname>Rita</surname>
            <placeName type="affiliation">University of Lisbon, Portugal</placeName>
          </persName>
        </author>
        <respStmt>
          <resp>This is a section of <title>Nel segno di Magellano tra terra e cielo</title>(DOI: <idno type="DOI">10.36253/978-88-5518-467-0</idno>) by </resp>
          <name>Michela Graziani, Lapo Casetti, Salomé Vuelta García</name>
        </respStmt>
      </titleStmt>
      <publicationStmt>
        <publisher>Firenze University Press</publisher>
        <pubPlace>Firenze</pubPlace>
        <date when="2021">2021</date>
        <idno type="DOI">https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.28</idno>
        <availability>
          <p>Available for academic research purposes</p>
          <p>Open Access</p>
          <p>Copyright Author(s)</p>
          <licence source="text" target="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode">
            <p>Content licence CC BY 4.0</p>
          </licence>
          <licence source="metadata" target="https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/legalcode">
            <p>Metadata licence CC0 1.0</p>
          </licence>
        </availability>
      </publicationStmt>
      <sourceDesc>
        <p>This is original content, published for academic research purposes</p>
      </sourceDesc>
    </fileDesc>
    <encodingDesc>
      <appInfo>
        <application version="2.2" ident="Booksflow">
          <desc>Digital edition XML powered by Booksflow</desc>
        </application>
      </appInfo>
    </encodingDesc>
    <profileDesc>
      <abstract xml:lang="en">
        <p>The following work aims to explore some of the most peculiar paradigms of the travel narratives, focusing on aesthetic aspects as the metamorfoses of the view and schemes, which are the signal of the European culture’s transformation.</p>
      </abstract>
      <textClass>
        <keywords>
          <list>
            <item>space</item>
            <item>time</item>
            <item>European culture</item>
            <item>aesthetic aspects</item>
            <item>travel narratives.</item>
          </list>
        </keywords>
      </textClass>
    </profileDesc>
  </teiHeader>
  <text>
    <body>
      <p>It is available online at https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.28<ref target="https://doi.org/10.36253/978-88-5518-467-0.28" /></p>
      
      
      
      <p rend="h1_chapter" >Ao(s) espelho(s) do espaço e do tempo</p><p rend="h1_author" >Annabela Rita</p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2 ParaOverride-1" ><hi rend="italic">EROS e PSIQUE</hi></p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2 ParaOverride-1" ><hi rend="italic">….</hi></p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3 ParaOverride-1" ><hi rend="italic">Mas cada um cumpre o Destino –<lb/>ela dormindo encantada,<lb/>ele buscando-a sem tino<lb/>pelo processo divino<lb/>que faz existir a estrada.</hi></p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3 ParaOverride-1" ><hi rend="italic">E, se bem que seja obscuro<lb/>tudo pela estrada fora,<lb/>e falso, ele vem seguro,<lb/>e, vencendo estrada e muro,<lb/>chega onde em sono ela mora.</hi></p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_2 ParaOverride-1" ><hi rend="italic">E, inda tonto do que houvera,<lb/>à cabeça, em maresia,<lb/>ergue a mão, e encontra hera,<lb/>e vê que ele mesmo era<lb/>a Princesa que dormia.</hi></p><p rend="epigraph_inscription_epigraph_3 ParaOverride-1" >Fernando Pessoa</p><p rend="text" ><hi >O que se celebra aqui é a circum-navegação do globo. Podemos falar dela, desde os preparativos ao processo, à documentação e à sua consequencialidade. E destacá-la no âmbito da história das viagens </hi><hi rend="italic" >além-mar</hi><hi >, ou das europeias para </hi><hi rend="italic" >além de si</hi><hi >, assinalando as metamorfoses da sua mundividência e observando os sucessivos paradigmas da literatura de viagens, desde os </hi><hi rend="italic" >espelhos do mundo</hi><hi > (enciclopediando o conhecimento do mundo antigo), passando pelas medievais brandonianas e afins dominadas pelas maravilhas divinas, seguindo pelos roteiros de viagens filosóficas entretecendo experiência e imaginação, até à sua tematização na literatura moderna. Também interessante é ver de que modo as artes, nas suas diferentes práticas discursivas, a representam.</hi></p><p rend="text" ><hi >Outros o estão a fazer (e bem!) e eu mesma já abordei alguns tópicos mencionados. Opto pelo que mais me seduz neste momento: observar de que modo essa Europa embarcada e circum-navegante se foi concebendo e representando aos espelhos do tempo e do espaço. E, sendo Portugal a sua finisterra, perfil avançado sobre o oceano que a envolve, replicando-lhe o imaginário identitário e fundador, permitam-se que o tome como observatório privilegiado da sua ‘psique’. Afinal, não afirmam os estudiosos do nosso imaginário essa identidade das estruturas míticas que informa a heterogeneidade europeia? E não confessa, como outros, Eduardo Lourenço</hi></p><p rend="quotation_b" >Na verdade, eu falo de mim em todos os textos. Tanto me faz que seja sobre política, literatura, ou qualquer outra coisa. […] Cada um dos assuntos por que me interesso daria para ocupar várias pessoas durante toda a vida. Por isso como não possuo vocação heteronímica, tenho procurado encontrar um nexo entre as minhas diversas abordagens da realidade. No fundo é a procura de um só tema. E, de facto, se virmos bem, o fio condutor do que venho fazendo, e procuro ainda fazer, é uma reflexão constante sobre o Tempo. Ou melhor, a temporalidade (Lourenço 1998, [s.p.]).</p><p rend="text" ><hi >Ou, para evocar a Filosofia Portuguesa, não nos refere Dalila Pereira da Costa, no seu </hi><hi rend="italic" >A Nau e o Graal</hi><hi >:</hi></p><p rend="quotation_b" >tantas recorrências de hierofanias no tempo e no mesmo território duma mesma comunidade, dum mesmo arquétipo: mundial e ainda duma certa comunidade […] cultural atlântica. […] Na específica maneira que tem o sagrado de, sem cessar, retomar uma mesma sua realidade, transcendente, e através dos séculos e milénios, dar-lhe sem cessar diversas formas na imanência – na manifestação como realidade terrestre. Manifestação que, assim, na história, não se esgotará de uma só vez, não esgotará num só acontecimento ou objecto, toda a sua realidade, como potência. Porque todos eles serão em si só reflexos, ou florescências terrestres duma só raiz, essa, transcendente e inexaurível: o arquétipo sagrado (Costa 1978,  51-2).</p><p rend="text" ><hi >E não há, também, a actual manifesta necessidade de auto-reflexividade assinalada em obras como, por exemplo, </hi><hi rend="italic" >Repensar a </hi><hi rend="CharOverride-1">Europa</hi><hi > (2013), de José Eduardo Franco, Teresa Pinheiro, Beata Elzbieta Cieszynska, ou </hi><hi rend="italic" >De Portugal para a Europa</hi><hi > (2017), de António Barreto, face aos problemas que a Europa enfrenta: sentindo-se clivada (</hi><hi rend="italic" >Continente Dividido</hi><hi >, 2018, de Ian Kershaw), desorientada (</hi><hi rend="italic" >A Europa à Deriva</hi><hi >, 2016, de Slavoj Žižek), numa encruzilhada (</hi><hi rend="italic" >A Europa na Encruzilhada</hi><hi >, 2018, de João Rosa Lã; </hi><hi rend="italic" >Quo Vadis Europa</hi><hi >. </hi><hi rend="italic" >A Encruzilhada Europeia</hi><hi >, 2019, de Bruno Ferreira Costa), à beira do abismo (</hi><hi rend="italic" >A Europa à Beira do Abismo</hi><hi >, 2018, de Tony Phillips) ou, mesmo, a morrer (</hi><hi rend="italic" >A Estranha Morte da Europa. Imigração, Identidade, Religião</hi><hi >, 2018, de Douglas Murray)? Em busca de si, na tradição (</hi><hi rend="italic" >Da Face Oculta do Rosto da Europa</hi><hi >, 2009, de Manuel J. Gandra) e no balanço dos tempos (</hi><hi rend="italic" >Padre Manuel Antunes – A Anatomia do Presente e a Política do Futuro. Portugal, a Europa e a Globalização</hi><hi >, 2017, de Padre Manuel Antunes e José Eduardo Franco). E, aqui, eu, nós não seremos europeus, aqueles a quem Miguel Real, dedica o réquiem de uma antecipação científica (</hi><hi rend="italic" >O Último Europeu</hi><hi >, 2015) e de um último grande amor (</hi><hi rend="italic" >O último minuto na vida de S.</hi><hi >, 2007)?</hi></p><p rend="text" ><hi >Assim, a minha viagem, aqui, será, não atenta à de Fernão de Magalhães, nem aos diferentes e sucessivos paradigmas da literatura de viagens, a mais antiga, sinuosa e espantosa linhagem do nosso cânone. Será, sim, homenagem à que aqui evocamos, de circum-navegação, do abraço ao globo: uma viagem perscrutando as metamorfoses da autorrepresentação europeia, em especial, através do caso/olhar português. Desde o </hi><hi rend="italic">élan</hi><hi > prometeico (Goethe) ao espírito desencantado (Eduardo Lourenço), num itinerário de génese, crescimento, amadurecimento e envelhecimento.</hi></p><p rend="text" ><hi >O autoconhecimento necessita do hetero-conhecimento: é no confronto com a alteridade, nesse espelho que nos devolve a imagem, nos impõe a objectividade da distância e promove a comparação que a consciência proprioceptiva se desenvolve. A </hi><hi rend="italic" >imagem antropomórfica </hi>é a principal figuração identitária, ponto de partida desse processo de conhecimento, porquanto é construída pelos sentidos, mediadores da relação com o real. No indivíduo, como no caso da comunidade. Daí que as expressões estéticas dessas identidades sejam um longo e fortíssimo filão do património comunitário, lugares onde o indivíduo e a comunidade se encontram e (re)conhecem.</p><p rend="text" ><hi >Vejamos, então, como se exprime e textualiza literariamente a corporalidade </hi><hi rend="italic" >antropomórfica</hi><hi > no processo da construção da identidade europeia e, no caso específico da sua sinédoque portuguesa, da da sua identidade nacional, folheando alguns exemplos. E vejamos, também, como se efabula o seu movimento existencial, o seu programa de vida. Percorrerei seis momentos:</hi></p><p rend="text" ><hi >1. Equações iniciais</hi></p><p rend="text" ><hi >2. Da Europa</hi></p><p rend="text" ><hi >3. Da Europa a Portugal</hi></p><p rend="text" ><hi >4. Do Belo</hi></p><p rend="text" ><hi >5. Figurações fusionais: Ficção/Realidade, personagem/País</hi></p><p rend="text" ><hi >6. Do nacional ao universal</hi></p><p rend="text" ><hi >Comecemos, pois, esta viagem reflexiva.</hi></p><p rend="h2" >1. Equações iniciais</p><p rend="text" ><hi >Todo o processo de conhecimento se desenvolve a partir de um lugar objectivo, óbvio, concreto: a (auto)representação parte, assim, do ensaio de objectivação e do que é mais familiar, ou seja, tende a recorrer à antropomorfização. Daí a importância estratégica da alegoria no discurso pedagógico da parenética, da política, etc. Daí a multiplicação de auto-retratos na pintura, inscritos nas cenas de grupo (incluindo religiosas, como nas adorações dos Reis Magos), mas também dos auto-retratos assumidos configurados em função de modelos do imaginário colectivo, com especial destaque para o crístico no caso da pintura europeia</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-008-backlink"><ref target="28.html#footnote-008">1</ref></hi></hi><hi >. O fio de Ariadne na relação entre as imagens é o da (dis)semelhança, principal operador da antropogénese, do conhecimento de si e do outro. A Europa buscará e buscar-se-á ao espelho do </hi><hi rend="italic" >além de si</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Lewis Carroll oferece-nos um excelente e elaborado exemplo dos processos intelectivos da identidade com a sua Alice </hi><hi rend="italic" >no País das Maravilhas</hi><hi > e no </hi><hi rend="italic" >outro lado do Espelho</hi><hi >: no trânsito entre espaços e tempos que promove o estranhamento (logo, a atenção ao próprio e aos outros), o jogo da </hi><hi rend="italic" >relatividade</hi><hi > das </hi><hi rend="italic" >dimensões</hi><hi > e valores é uma constante na </hi><hi rend="italic" >comparação</hi><hi >. Do lugar de observação, derivam as representações, os mitos, as utopias relacionando espaços, tempos, identidades e alteridades. Dele também derivam os projectos imperiais continentais e nacionais. Ou nascem outros no entreolhar dos povos, como os da fraternidade linguística: lusofonia, francofonia, hispanofonia, anglofonia e seus crioulos. Na literatura, a relação e a distância (espacial, temporal e de natureza) entre as imagens (dis)semelhantes serão elaboradas através da efabulação, da narrativa inteligibilizadora, garantia de perspectiva de observação.</hi></p><p rend="text" ><hi >Enfim, o que é a Europa? O que é o mundo em que ela se inscreve? Como (se) pensam? Responder a estas questões conduz-nos a esclarecer as relações entre passado, presente e futuro e entre macro e micro. E tudo converge para e deriva de um mapa em que a Europa se impõe como </hi><hi rend="italic" >Rainha</hi><hi > e Portugal como a sua </hi><hi rend="italic" >cabeça</hi><hi > (Camões) e o seu </hi><hi rend="italic" >rosto</hi><hi > (Pessoa) encimados por uma coroa em cujo topo uma cruz aponta os Açores, o </hi><hi rend="italic" >além</hi><hi > oceânico: refiro-me ao célebre mapa de Sebastian Münster </hi><hi rend="italic" >Europe as a Queen</hi><hi >, inserido na sua </hi><hi rend="italic" >Cosmographia </hi><hi >(1545). Mas também para uma Europa mediadora, aquela que une, relaciona, liga o diverso. Europa, filha de Agenor (rei de Tiro) e de Teléfassa, princesa fenícia raptada por Zeus, apaixonado, transformado em touro branco para escapar à vigilância de Hera e para melhor surpreender a sua amada na praia. E Zeus fá-la rainha em Creta. Da união nascerão, Minos, Radamante e Sarpedião. Eis os monstros nascidos da paixão.</hi></p><p rend="text" ><hi >Ou ela é uma profecia (</hi><hi rend="italic">Europe</hi> <hi rend="italic" >a </hi><hi rend="italic">Prophecy</hi><hi >, 1794, de William Blake), glosada pelas suas nações, como Portugal, que alinha na sua bibliografia </hi><hi rend="italic" >A chave dos Profetas</hi><hi > e </hi><hi rend="italic" >História do Futuro</hi><hi >, de António Vieira, </hi><hi rend="italic" >Os Lusíadas</hi><hi >, a</hi><hi rend="italic" > História Trágico-Marítima</hi><hi >,</hi><hi rend="italic" > Peregrinação,</hi><hi > a </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi >. Ou torna-se aventura: é </hi><hi rend="italic" >Uma </hi><hi rend="italic">Aventura Inacabada</hi><hi > (2004) para Zygmunt Bauman. Ou uma ideia, como para George Steiner (</hi><hi rend="italic" >The Idea of Europe</hi><hi >, 2004). Ou os seus mitos, como destaca Vasco Graça Moura (</hi><hi rend="italic" >A</hi> <hi rend="italic">Identidade Cultural Europeia</hi>, 2013). <hi >Ou os valores e ideais que concebeu e elaborou: hoje, em irreconhecimento, como defende Rob Riemen (</hi><hi rend="italic" >O </hi><hi rend="italic">Regresso da Princesa Europa</hi>, 2016)<hi >. Ou moribunda, como anuncia </hi><hi rend="italic CharOverride-2" >Douglas</hi><hi > Murray (</hi><hi rend="italic" >A Estranha Morte da Europa,</hi><hi > 2017). Ou Prometeu, Narciso, Ulisses, Fausto, ou as configurações femininas que, de Vénus às cidades-Princesas, vão equacionando e simbolizando traços do seu imaginário e acção.</hi></p><p rend="text" ><hi >Deitada no globo, a Europa observa o continente seguinte, África, e o espelho oceânico em que o infinito se projecta. E confronta, reflexivamente, a Esfinge dos enigmas existenciais. </hi><hi rend="italic" >Pensadora </hi><hi >diante de outra. E, se o abismo oceânico lhe devolve uma imagem invertida, especular, a extensão continental oferece-lhe refracções de si, replicada na topografia diversa e nas nacionalidades que nesta vão emergindo, como é o caso de Portugal. Europa-Ulisses, viajante que descobre o mundo, Europa dos monstros e das maravilhas, sagrada e </hi><hi rend="italic" >graálica</hi><hi >, Regina ou Imperial, das ilhas afortunadas e das fantasmas, a cartógrafa das rotas, a pensadora e filósofa, a Esfinge, a empreendedora, a que aspira conhecer os arcanos, a das profecias pagãs e cristãs, a das cidades consagradas, a curiosa dos segredos do universo. Hoje, segundo Eduardo Lourenço e Zygmunt Bauman, transformada em versão envelhecida, grisalha e de longas barbas, exausta, desse Prometeu de outrora. Avancemos mais metodicamente neste itinerário.</hi></p><p rend="h2" >2. Da Europa</p><p rend="text" ><hi >Pelos olhos dos viajantes, o mundo deixará, progressivamente, de ser o pós-diluviano disco tripartido dos mapas T.O., de Isidoro de Sevilha</hi> <hi >(</hi><hi rend="italic" >Etymologiae</hi><hi >), que enciclopedia e ordena a mundividência e a mundivivência do séc. VI (refractando da concepção balilónica) pormenorizada, depois, no séc. XII: o «T» é o Mediterrâneo dividindo os três continentes conhecidos (Europa, Ásia e África) povoados pelos 3 filhos de Noé (Sem, Jafé e circundados pelo oceano («O») com Jerusalém no centro do mapa e a Ásia com a área dos outros dois continentes; o Sol nascia a leste, pelo que o Paraíso (jardim do Éden) era geralmente representado na Ásia, na porção superior do mapa. Depois, a orientação sofrerá uma rotação na representação para que a Ásia esteja à direita, onde o sol nasce. E também deixará de ser a dos mitos amorosos de raptos divinos.</hi></p><p rend="text" ><hi >No início, era o Caos e a história da sua descendência. Dentre as ninfas filhas de Oceano e de Tétis, Europa era uma das 40 Oceânides. A Europa, Princesa fenícia (antes insinuada como uma deusa cretense da lua). Belíssima, encantou Zeus, que a raptou e levou para Creta, o que levou Cadmo a procurá-la e, na jornada, a fundar a cidade de Tebas. Em Creta, Europa teve três filhos: Minos, Radamanto e Sarpedão. A negatividade vai-se insinuando nos interstícios do maravilhoso arquetípico. De princesa raptada a rainha, justificará as representações adequadas em longa e metamórfica iconografia, incluindo a cartográfica: </hi><hi rend="italic" >Europa deplorans</hi><hi > e </hi><hi rend="italic" >Europa triumphans</hi><hi >. Na Literatura, será o estímulo e a referência de toda a épica e tragédia que sinaliza a formação da Europa política.</hi></p><p rend="text" ><hi >A sua beleza promoverá, no plano estético, a elaboração fusional com a deusa que, afinal, também a simboliza: Vénus. E poderemos identificar linhagens de representação, desde o seu nascimento, segundo as posições corporais erecta/vertical (Botticelli, </hi><hi rend="italic" >O Nascimento de Vénus</hi><hi >, 1486), deitada/horizontal (Henri Pierre Picou, </hi><hi rend="italic" >O Nascimento de Vénus</hi><hi >, 1871-1874), sentada/ângulo recto (François Boucher, </hi><hi rend="italic" >A toilette de Vénus</hi><hi >, 1751). A Europa, que nos inclui, começa por ser definida no espaço, com a localização:</hi></p><p rend="quotation_b" >Na<hi rend="italic"> Geographia</hi>, Estrabão descreve o mundo então conhecido em perspectiva geográfico-cultural. Tem por base os três continentes que constituíam a mundividência clássica: Europa, Ásia, Líbia. A Europa é a primeira região mencionada. Esta escolha é justificada pelo autor pelo facto de a Europa ter uma certa predisposição natural para o desenvolvimento de homens e governos excelentes, e porque foi ela que mais contribuiu beneficamente para os outros continentes. Em pleno período augustano, a obra de Estrabão reflecte uma clara ideia de eurocentrismo (Carreira e Alves-Jesus 2011, 6).</p><p rend="text" ><hi >Nesta obra de 17 volumes, o espaço consagrado à Europa é de 8 livros e Portugal inscreve-se no III. Depois, serão os mapas políticos (romano, carolíngio, napoleónico) a redesenhá-la. E a sua tópica identitária tenderá a expandir-se e a reconfigurar-se em função dessa transformação, replicando-se.</hi></p><p rend="text" ><hi >Do séc. XVI em diante, a sua história será marcada pela ascensão e queda de impérios globais, impérios que se ostentaram em sucessivas exposições mundiais (Exposições Coloniais) desde meados do séc. XIX até à sua dissolução. Será essa experiência de um </hi><hi rend="italic" >além de si</hi><hi > que transformará o pensamento europeu de modo decisivo, desde a perspectiva da transcendência (medieval) à da horizontalidade (revolução científica). E essa transformação exprimir-se-á e/ou sinalizar-se-á nas artes e nas letras de modo inequívoco, traçando a trajectória vital desde a emergência ao crepúsculo dos deuses cedendo aos homens dos seus locais. A cartografia política demonstrará esse fazer e desfazer de corpos imperiais, cujas cabeças acabam decepadas pelos membros, que, por sua vez, se autonomizam com protagonismo. A Filosofia evidenciará esse </hi><hi rend="italic" >désanchantement du monde</hi><hi > (Max Weber, Marcel Gauchet).</hi></p><p rend="text" ><hi >Nos séculos XV e XVI, o Renascimento Cultural promoveu uma nova cosmovisão (Alexandre Koyré e outros) a que vai cedendo a do aristotélico </hi><hi rend="italic" >cosmos harmónico e fechado</hi><hi > das esferas celestes: a do Universo Infinito gerido por leis matemáticas exactas, mecânicas (mecânica newtoniana), ideia culminando a ciência do século XVII (Kepler, Galileu, Tycho Brahe e Newton). O século XVII, do ponto de vista de Alfred North Whitehead (</hi><hi rend="italic" >Science and the Modern world, </hi><hi >1926), viveria uma reconceptualização do conceito de </hi><hi rend="italic" >génio</hi><hi > na via da modernidade e da sua teorização, no sentido da originalidade e da singularidade de uma manifestação elevada de qualidades e capacidades humanas. A grande revolução europeia do conhecimento passou por logaritmos, electricidade, telescópio, microscópio, cálculo, leis naturais (da gravitação universal, de Newton, da pressão atmosférica), com personalidades como Isaac Newton, Gottfried Wilhelm Leibniz, Galileo Galilei, René Descartes, Blaise Pascal, Gilles</hi> <hi >Personne de Roberval, Pierre de Fermat, Robert Hooke, Robert Boyle, Anton van Leeuwenhoek e William Gilbert, entre outros.</hi></p><p rend="text" ><hi >Progressivamente, a reflexão sobre a Europa vai-se tornando abstracta, privilegiando o plano das ideias, da cultura, conduzindo para abordagens como a de Rob Riemen, fundador e Director do Nexus Institute:</hi></p><p rend="quotation_b" >A Europa é uma ideia, uma bela ideia, um modelo de civilização. A Europa é uma cultura, um conjunto de valores espirituais e morais, que devem ser continuamente mantidos, cultivados e protegidos. Europa é uma história feita de lágrimas, mas também de grandes feitos e de um sonho imperecível (Riemen 2015,  9).</p><p rend="text" ><hi >Ou a de Zygmunt Bauman: segundo a qual «Procurar a Europa é construí-la!», «A Europa existe mediante a sua busca pelo infinito – e é isso que chamo de aventura» (Bauman 2004, 7). Abordagens onde, apesar disso, a efabulação antropomórfica continua a insinuar-se na revisitação ensaística dos mitos fundadores, como sinaliza o título de Rob Riemen, </hi><hi rend="italic" >O Regresso da Princesa Europa</hi><hi >:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Imagine: Europa, a bela princesa fenícia que de acordo com a tradição grega foi seduzida e raptada por Zeus disfarçado de touro e, meio afogada, deu à costa no litoral de Creta, onde se tornou orgulhosa mãe e a inspiração espiritual de uma civilização de enorme riqueza cultural (Riemen 2015, 11).</hi> </p><p rend="text" ><hi >Ou a sua efabulação segue o modelo temporal, o ciclo do dia, exprimindo teluricamente a percepção dos sentidos da sua história. Em </hi><hi rend="italic" >Assim falou Zaratustra </hi><hi >(1896), poema sinfónico, de Richard Strauss, inspirado no tratado filosófico de mesmo nome de Friedrich Nietzsche (1883-1885), observamos uma estrutura disso significativa, com 9 secções de acordo com capítulos do livro:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >1. Einleitung (Introdução), ou nascer do sol</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >2. Von den Hinterweltlern (Dos Antigos Homens)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >3. Von der großen Sehnsucht (Da Grande Saudade)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >4. Von den Freuden und Leidenschaften (Das Alegrias e Paixões)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >5. Das Grablied (O Túmulo-Canção)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >6. Von der Wissenschaft (Da Ciência)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >7. Der Genesende (A Convalescença)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >8. Das Tanzlied (A Dança-Canção)</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >9. Nachtwandlerlied (Canção do Sonâmbulo)</hi></p><p rend="text" ><hi >Um ciclo que termina com a noite, «A noite caiu: eis agora despertas todas as canções dos que amam. E também a minha alma é uma canção dos que amam. Assim cantou Zaratustra» (Nietzsche 1986,  99). Ciclo que Richard Strauss representará como </hi><hi rend="italic" >Morte e Transfiguração</hi><hi > (1888-1889), poema sinfónico que convocará os sentimentos do artista que morre. Já no séc. XXI, a reflexão retomará o tema, questionando-o de diversos pontos de vista, como o faz Jorge Calado </hi><hi rend="italic" >(Quem é? O que é? A Europa</hi><hi >):</hi></p><p rend="quotation_b" >A Europa renasceu, unida, na América. Como Camões adivinhara, a posição geográfica da Europa apontava para a América. Pessoa confirmou-o num poema da <hi rend="italic">Mensagem </hi>(1934): «A Europa jaz, posta nos cotovelos; / De Oriente a Ocidente jaz, fitando, / […] / Fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. / O rosto com que fita é Portugal». Observador e observado – Europa e América – configuram o Ocidente. Tal como Lisboa teve a sorte de sofrer um terramoto no século XVIII (e não noutra altura qualquer), também os Estados Unidos da América lucraram com uma independência em 1776, movida por Pais Fundadores de grande calibre intelectual, sábios a combinar o melhor pragmatismo (e liberalismo) britânico com o racionalismo francês. A América é uma projecção da imaginação europeia (Calado 2013).</p><p rend="text" ><hi >Remeto para a longa, profunda e estimulante reflexão desenvolvida sobre este tema por autores como Eduardo Lourenço, José Eduardo Franco, Miguel Real, Pedro Calafate, Viriato Soromenho Marques e outros, a nossa mais habitual bibliografia crítica nessa área, porquanto os seus textos convidam a mais prolongada perscrutação. As artes dialogam sobre essa transformação da Europa, visível em múltiplos padrões das suas faces nacionais que tive já ocasião de explorar em livro recente (</hi><hi rend="italic" >Perfis &amp; Molduras</hi><hi >, 2018, 2ª ed. 2019). Bastaria recordar alguns exemplos correspondentes às 3 etapas fundamentais do processo:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >1. O projecto. Um tratado: Tordesilhas (1494), o célebre ‘Testamento de Adão’ (expressão de Francisco I de França) dividindo o mundo entre duas potências, as terras encontradas e ‘a encontrar’.</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >2. A construção imperial. Um quadro: </hi><hi rend="italic" >Os Embaixadores</hi> <hi >(1533), quadro</hi> <hi >de</hi> <hi >Hans Holbein, o Jovem. Um livro: </hi><hi rend="italic" >Os Lusíadas</hi><hi > (1571), de Luís de Camões. Um monumento: o Mosteiro dos Jerónimos ou Mosteiro de Santa Maria de Belém (séc. XVI).</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >3. A redefinição, a memória e a derrocada imperiais a partir do séc. XIX. </hi>Dois dramas: <hi rend="italic">Pátria</hi> (1896), de Guerra Junqueiro, e <hi rend="italic">Tocata para Dois Clarins </hi>(1992), de Mário Cláudio. Uma exposição: <hi rend="italic" >O Mundo Português</hi><hi > (1940). </hi>Um hino: <hi rend="italic">A Portuguesa </hi>(<hi >1890), com letra de</hi> <hi >Henrique Lopes de Mendonça</hi> <hi >e música de</hi> <hi >Alfredo Keil. Um poema: </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi > (1934), de Fernando Pessoa. O nascimento de novos países. Dois filmes: </hi><hi rend="italic">África Minha </hi><hi >(1985), de Sydney Pollack, e </hi><hi rend="italic" >Austrália</hi><hi > (2008), de Baz Luhrmann.</hi></p><p rend="h2" >3. Da Europa a Portugal</p><p rend="quotation_b" >Até muito tarde, aos começos da Idade Moderna, a obra dos poetas portugueses esteve intimamente ligada […] à tradição celta do Atlântico norte. Na poesia portuguesa, tal como nessa, verificar-se-á a existência dos mesmos mitos e heróis, através dos mesmos feitos que, ao longo dos tempos, serão retomados pelas diferentes gerações, metamorfoseando-se, assumindo uma coloração ou nome diferente, desde o paganismo até ao cristianismo, mas revelando sempre nela uma mesma rede e centros de valores existenciais. A raiz ou carga arquetípica é duma coerência e perenidade tão forte que, se bem atentarmos, ela se mostrará à transparência em toda a poesia e história nacionais, – estas como talvez as suas formas de manifestação eleitas – através de seus tempos. Tal como a poesia irlandesa, galesa, armoricana, ela estará impregnada pela mitologia e pela profecia. Porque também aqui, nesta nação, a poesia seria então a ciência dos iniciados. Contendo em si um conhecimento secreto, não desvendado, dado imediatamente. Será esse facto que constituirá nos seus poetas mais genuínos, unidos mais profundamente à sua alma primordial, […] toda a sua suposta obscuridade; sua linguagem cifrada, oferecendo à sua obra como uma dúplice dimensão, ou existência em dois planos, o aparente e o escondido, e em que o primeiro não terá mais do que uma pura função, ou mesmo valor, alusivo – e protector, ou camuflador (Costa 1978, 41-2).</p><p rend="text" ><hi >Entretecendo e reflectindo identidades, veremos Portugal a ser representado por (as)simetrias e (dis)semelhanças, numa replicação da história da Europa em que se inscreve. A parte pelo e como o todo, sinedóquica e simbolicamente, desde os mitos fundadores aos projectos e às utopias.</hi></p><p rend="text" ><hi >As tradições de cavalaria, bíblica e da mitologia clássica confluem nos processos de legitimação régia e nacional, miticamente fundado, em que o imperial se gera. D. Manuel I (1469-1521 [reinado: 1495-1521]), rei de Portugal, intitula-se, também, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia e faz-se representar com o ceptro real (justiça) com o filactério </hi><hi rend="italic" >DEO IN CELO TIBI AVTEM IN MVNDO </hi><hi >(A Deus no céu e a ti na terra), que sinaliza a ligação e a especularidade entre diversos termos: terreno/divino, corte terrena/rei e corte celestial/Cristo: messianismo e V Império cristão com os descobrimentos. E D. Manuel monta um monstro marinho próximo do extremo sul da África</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >num mapa de Olaus Magnus intitulado </hi><hi rend="italic" >Carta marina et descriptio septemtrionalium terrarum ac mirabilium </hi><hi >(Carta náutica e descrição do Norte Terras e Maravilhas) de 1539: o seu triunfo decalca-se no europeu, contrastando com a tradição da </hi><hi rend="italic" >Europa deplorans </hi><hi >iconografada na </hi><hi rend="italic" >Nova et accurata totius Europæ descriptio</hi><hi > (1700), carta de Fredericus de Wit.</hi></p><p rend="text" ><hi >No caso da localização, recordemos que Portugal é sempre europeu: a «cabeça» (Camões) e o «rosto» (Fernando Pessoa) da Europa, que ainda recentemente Fernando Vicente representou em antropomórfico mapa da península Ibérica. «Cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano» (Padre António Vieira)</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-007-backlink"><ref target="28.html#footnote-007">2</ref></hi></hi><hi >, Portugal reclama-se como um país com vocação universal (o Quinto Império será disso a melhor expressão). Encarando o mar, vai também actualizar os mitos que a configuram, como Prometeu, Édipo, Ulisses e Fausto: de diversas maneiras se irá concebendo como eles, novo </hi><hi rend="italic" >pensador</hi><hi > (nas figurações de Miguel Ângelo</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-006-backlink"><ref target="28.html#footnote-006">3</ref></hi></hi><hi > que Rodin esculpiu inicialmente como Poeta-Dante para </hi><hi rend="italic" >A Porta do Inferno</hi><hi >, 1880-1890</hi> <hi >e que tem dezenas de cópias espalhadas pelos museus de todo o mundo) em finisterra europeia. Colocando-se os enigmas da Esfinge: vida, morte, humanidade.</hi></p><p rend="text" ><hi >Não resisto, aqui, a evocar a cena de um Infante D. Henrique vertido em Pensador finicontinental descrita por Azurara e retomada por Nemésio na sua biografia do Infante D. Henrique, «Oh quantas vezes o achou o sol assentado naquele lugar onde o deixara o dia dantes, velando todo o arco da noite sem receber nenhum descanso, cercado de gentes de diversas nações […]!» (Azurara </hi><hi rend="italic" >apud </hi><hi >Nemésio 1959).</hi></p><p rend="text" ><hi >A caminhada identitária nacional será dessa centralidade geoestratégica marítima (atlântica) sinalizada na obra de muitos autores (e particularmente evidente na de Fernão de Oliveira, autor de obras pioneiras da </hi><hi rend="italic" >Arte das Naus</hi><hi >, da </hi><hi rend="italic" >Arte da Guerra no Mar</hi><hi >, da </hi><hi rend="italic" >História de Portugal </hi><hi >e da </hi><hi rend="italic" >Gramática da Língua Portuguesa</hi><hi >) e consagrada no tratado de Tordesilhas para uma marginalidade europeia (continental), percurso em que, ao aumento exponencial do corpo-território (império colonial), sucederá a sua súbita diminuição através da independência política do </hi><hi rend="italic" >ultramar</hi><hi >. Pelo meio, veremos as artes exaltando o percurso: os Painéis de S. Vicente fixando o ritual de missão, os Jerónimos, abrindo os braços em despedida e saudação, </hi><hi rend="italic" >Os Lusíadas</hi><hi > cantando epicamente a viagem. Mas espreitam sombras entre as luzes em </hi><hi rend="italic" >chiaroscuro</hi><hi >: Fernão Mendes Pinto (1509-1583), com a sua </hi><hi rend="italic" >Peregrinação</hi><hi >, e</hi> Bernardo Gomes de Brito, com a <hi rend="italic" >História Trágico-Marítima</hi> (1735-1736). <hi >Da Europa e Portugal e deste a Lisboa, a representação tenderá a combinar a replicação e a miniaturização com os outros processos de construção identitária. Por exemplo, a sua versão de </hi><hi rend="italic" >Menina e Moça</hi><hi > (Bernardim Ribeiro, séc. XVI) perpassará, dentre outros lugares, desde a épica camoniana (como «Princesa» no canto III d’</hi><hi rend="italic" >Os</hi><hi > </hi><hi rend="italic" >Lusíadas</hi><hi >) até às letras de mais de uma centena de fados populares (p.ex., Carlos do Carmo, </hi><hi rend="italic" >Lisboa, Menina e Moça</hi><hi >).</hi></p><p rend="h2" >4. Do Belo</p><p rend="text" ><hi >Dos mapas aos retratos, a representação figurativa de Portugal (como a da Europa e a de Vénus), seja ela feminina ou masculina, assumirá sempre os modelos estéticos do </hi><hi rend="italic" >belo</hi><hi > epocal. O seu </hi><hi rend="italic" >antropomorfismo feminino</hi><hi > tenderá a assumir as medidas em que a medida áurea proporcionalizou a relação das partes com o todo e do micro com o macro simbolizada no homem vitruviano. Medidas reconhecíveis na obra de Sandro Botticelli (1445–1510), de Leonardo da Vinci (1452-1519), de Albrecht Dürer (1471-1528), e de tantos outros numa caminhada até aos nossos dias, com Salvador Dalí (1904-1989) e muitos mais. Medidas que a Arte portuguesa glosou e codificou, até no Modernismo, que tanto se reclamou inovador: Almada perseguiu-as na sua busca obsessiva do </hi><hi rend="italic" >cânone</hi><hi >, da </hi><hi rend="italic" >tradição</hi><hi >.</hi></p><p rend="text" ><hi >Lisboa </hi><hi rend="italic" >deitada</hi><hi >, na </hi><hi rend="italic" >Civitates Orbis Terrarum </hi><hi >(1572), de Georg Braun [Georgio Braúnio], Frans Hogenberg, e no desenho aguarelado de Simão de Miranda (de Távora), de 14 de Maio de 1575, incluído no catálogo da exposição </hi><hi rend="italic" >Lisboa do século XVII – “a mais deliciosa terra do mundo” </hi><hi >(2008)</hi><hi rend="notes_number CharOverride-3" ><hi xml:id="footnote-005-backlink"><ref target="28.html#footnote-005">4</ref></hi></hi><hi >, oferece-se como corpo feminino voluptuosamente alongado na paisagem, sugerindo-se Vénus deitada. Não é, pois, por acaso, que o imaginário da sua capital (nacional e imperial) vai replicando e elaborando a corporalidade/identidade feminina à escala nacional. Sinal disso é o número imenso de fados que representam Lisboa como mulher: dos 183 fados que tratam de Lisboa, 165 (90%) tematizam essa personificação. A título de exemplo, recordo: </hi><hi rend="italic" >Lisboa, Princesa do Tejo</hi><hi >, de Fernando Peres; </hi><hi rend="italic" >Menina Lisboa</hi><hi >, de Amadeu Augusto dos Santos; </hi><hi rend="italic" >Maria Lisboa</hi><hi >, de David Mourão-Ferreira; </hi><hi rend="italic" >Lisboa Mulher</hi><hi >, de Júlio Isidro; </hi><hi rend="italic" >Lisboa Eterna Menina</hi><hi >, de Carlos Conde; </hi><hi rend="italic" >Lisboa Não Sejas Francesa</hi><hi >, de José Galhardo; </hi><hi rend="italic" >Lisboa Dama das Sete Colinas</hi><hi >, de Madalena Avellar; </hi><hi rend="italic" >Sempre que Lisboa Canta</hi><hi >, de Carlos Ramos; </hi><hi rend="italic" >Recado a Lisboa</hi><hi >, de João Villaret; </hi><hi rend="italic" >Cá vai Lisboa</hi><hi >, de Raul Dubini; </hi><hi rend="italic" >Lisboa, Menina e Moça</hi><hi > e </hi><hi rend="italic" >Senhora Dona Lisboa</hi><hi >, de Ary dos Santos. Pelo mundo fora, as cidades-Princesas multiplicam-se desde as consagradas pela concepção medieval da </hi><hi rend="italic" >translatio imperii</hi><hi > (transferência de poder), segundo uma história linear de sucessivas transferências de poder de um imperador para o seguinte, através de genealogias míticas de casas reinantes derivadas dos heróis da épica grega ou romana</hi><hi rend="notes_number CharOverride-3" ><hi xml:id="footnote-004-backlink"><ref target="28.html#footnote-004">5</ref></hi></hi><hi >.</hi></p><p rend="h2" >5. Figurações fusionais: Ficção/Realidade, Personagem/País</p><p rend="text" ><hi >Na literatura, figurações de identitárias nacionais conduzem à elaboração da saudade na distância pelos que ficam e pelos que partem. Na Idade Média, das donzelas da trovadoresca que interrogam as «ondas do mar» e as «flores do verde pinho» ou que, no interior, se revêem no espelho das águas (Bernardim Ribeiro), aos olhos masculinos «tão tristes, tão chorosos, tão doentes da partida» (João Roiz de Castel-Branco). E veremos uma caminhada interiorizadora que acompanha a reflexão identitária na cultura: do espelho oceânico para o âmago corporal, do campo banhado pelo rio ou pelo lago.</hi></p><p rend="text" ><hi >Já no Romantismo, essa figuração dividir-se-á entre o masculino e o feminino, reelaborando a saudade, a interrogação e a distância, como nas garrettianas </hi><hi rend="italic" >Viagens na Minha Terra</hi><hi > (1846), cuja dimensão simbólica e ensaística responde e prolonga o </hi><hi rend="italic" >Portugal na Balança da Europa</hi><hi > (1830), anunciando, já, a loucura finissecular. E conjugar-se-á com outros modelos, dos quais o crístico será o mais relevante na segunda metade do séc. XIX: o ciclo de vida, paixão, loucura e morte de Joaninha será junqueirianamente transformado em crístico (</hi><hi rend="italic" >Pátria</hi><hi >, 1896, de Guerra Junqueiro), encenando a história do país da loucura por amnésia (Doido) à epifania identitária e subsequente crucificação, com insinuação joaquinita e arturiana de ressurreição/restauração futura. A caminhada vai sendo preparada pela construção genealógica, que Antero de Quental tão bem elabora no soneto </hi><hi rend="italic" >A um Crucifixo </hi><hi >(</hi><hi rend="italic" >Sonetos</hi><hi >,</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >1861):</hi></p><p rend="quotations_quotation_b1" >Não se perdeu teu sangue generoso,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Nem padeceste em vão, quem quer que foste,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Plebeu antigo, que amarrado ao poste</p><p rend="quotations_quotation_b3" >Morreste como vil e faccioso.</p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Desse sangue maldito e ignominioso</hi></p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Surgiu armada uma invencível hoste…</hi></p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Paz aos homens, e guerra aos deuses! — pôs-te</hi></p><p rend="quotations_quotation_b3" >Em vão sobre um altar o vulgo ocioso…</p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Do pobre que protesta foste a imagem:</hi></p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Um povo em ti começa, um homem novo:</hi></p><p rend="quotations_quotation_b3" >De ti data essa trágica linhagem.</p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,</hi></p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Lembraremos, herdeiros desse povo,</hi></p><p rend="quotations_quotation_b2" ><hi >Que entre nossos avós se conta Cristo</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-003-backlink"><ref target="28.html#footnote-003">6</ref></hi></hi></p><p rend="quotations_quotation_b3" >(Quental 1981).</p><p rend="text" ><hi >Será essa linhagem espiritual que os Painéis de S. Vicente simbolizarão, de modo que Almada Negreiros, Pessoa, o Saudosismo, a Nova Renascença e a Filosofia Portuguesa recuperarão e o Estado Novo funcionalizará na sua comunicação (cfr. Rita 2014; Rita 2017). Destaco, por expressivas de mais contemporânea formulação, as obras </hi><hi rend="italic" >Portugal Razão e Mistério </hi><hi >(1986-87), de António Quadros,</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >e</hi><hi rend="italic" > História Secreta de Portugal</hi><hi > (1977) e </hi><hi rend="italic" >Horóscopo de Portugal</hi><hi > (1997), de António Telmo. A meio desse ciclo que vai de 1846 ao fim-de-século, outras figurações nacionais se desenvolvem à margem desta linhagem, particularmente, as de uma identidade masculinamente efabulada. Com ela se conclui </hi><hi rend="italic" >A Ilustre Casa de Ramires </hi><hi >(1900),</hi><hi rend="italic" > </hi><hi >para apenas dar um exemplo:</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo: </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >— Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?</hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >— Quem? </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >— Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >— Quem?… </hi></p><p rend="quotation_b" ><hi >— Portugal</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-002-backlink"><ref target="28.html#footnote-002">7</ref></hi></hi></p><p rend="quotation_b" >(Queirós 2016).</p><p rend="text" ><hi >Com ela se elabora a ficção dinisiana </hi><hi rend="italic" >Os Fidalgos da Casa Mourisca</hi><hi > (1871), de masculina linhagem aristocrática e advogando uma aliança interclasses.</hi></p><p rend="text" ><hi >O séc. XX vai revisitar a sua anterioridade, reconfigurando-a. Fernando Pessoa, na sua </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi > que inicialmente intitulou </hi><hi rend="italic" >Portugal</hi><hi >, fá-lo, convocando todo o itinerário nacional e transformando-se de Arauto/Mensageiro a Rei/Senhor/Sonho, instituindo a Hora. E oferece-nos uma imagem fusional de um Povo-Rei e de um Portugal-Europa. </hi></p><p rend="text" ><hi >Após a I Guerra Mundial, mas no início da II, Portugal celebra, conjuntamente, a sua Fundação</hi> <hi >(1140) e a sua</hi> <hi >Restauração</hi> <hi >(1640), evidenciando o</hi> <hi >Estado Novo como herdeiro desse passado glorioso, numa ideia de 1929 do embaixador</hi> <hi >Alberto de Oliveira assumida por Salazar em 1938, na sequência da participação portuguesa nas grandes Exposições Internacionais de Paris (1937),</hi> <hi >Nova Iorque</hi> <hi >e S. Francisco (1939).</hi></p><p rend="text" ><hi >No quadro de um ambiente celebratório nacionalista, evidenciam-se iniciativas </hi><hi rend="italic" >expositivas</hi><hi > visando públicos diferentes, embora reunindo-os numa imagem populacional abrangente e ocupando Coimbra e Lisboa, a cidade ‘académica’ e a cidade de referência política: infantil e adulto. Refiro-me, em especial, ao parque temático Portugal dos Pequenitos e à exposição do Mundo Português. Os projectos têm como objectivo comum, </hi><hi rend="italic" >demonstrar</hi><hi >, patrimonial e historicamente, Portugal no Mundo e o Mundo que o império reúne, exibindo as referências maiores da sua patrimonialidade material e imaterial: os obreiros, as acções e projectos, a construção, os mapas, as culturas e as suas expressões/concretizações. O Império e a sua História </hi><hi rend="italic" >corporificam-se</hi><hi > para se imporem aos seus e aos outros, para se fazerem ver, sentir, ouvir, percorrer, </hi><hi rend="italic" >(re)viver</hi><hi > na imaginação estimulada, excitada, emocionada dos visitantes. Da cartografia que oferece a imagem biplanificada, erguem-se conjuntos urbanísticos, </hi><hi rend="italic" >corporificando</hi><hi > mais convincentemente Portugal: o Portugal dos Pequenitos (Coimbra, 1938-1940-1950) familiariza o público infantil com as provas da sua História e o Mundo Português (Lisboa, 23/Junho/1940-2/12/1940) responde ao Mundo e demonstra aos seus a unidade na diversidade, o mundo dentro de si.</hi><hi rend="notes_number CharOverride-3"><hi xml:id="footnote-001-backlink"><ref target="28.html#footnote-001">8</ref></hi></hi><hi > 1934 é ano do primeiro ensaio desse ofício que se emoldura em graálico Palácio de Cristal (a Exposição Colonial Portuguesa do</hi> <hi >Porto) e é o ano de uma </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi > ao país, a de Pessoa, que lhe revisita o imaginário e o folheia em exposição organizada em livro, álbum de mitos simbolizados, figurados, ilustrados, catalogados e sistematizados em núcleos temáticos, ciclos históricos </hi><hi rend="italic" >convocados</hi><hi >. Muitas das figuras respondem a interpelações de outrora (no tónus épico evocador do camoniano, nos Castelos de </hi><hi rend="italic" >Finis Patriae</hi><hi > e da </hi><hi rend="italic" >Mensagem</hi><hi >).</hi></p><p rend="text" ><hi >A </hi><hi rend="italic" >convocação</hi><hi >, em ambos os casos, visa quebrar o encantamento estiolante de uma desesperança cinzentista de um povo que acreditara encontrar na República a solução da decadência e que sobrevivia ao trauma da convulsão por ela trazida.</hi><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><hi xml:id="footnote-000-backlink"><ref target="28.html#footnote-000">9</ref></hi></hi><hi > Povo que se sentira desprezado e desrespeitado desde antes do regicídio (v. Ultimato inglês), trucidado nos combatentes da I Guerra Mundial, afundado no sentimento da decadência e da falta de horizontes, anelante de um sinal de esperança. «É a hora!» é o </hi><hi rend="italic" >sopro</hi><hi > conclusivo dessa </hi><hi rend="italic" >convocação</hi><hi >, a invectiva, a ordem à fraternidade para o início de um novo ciclo no meio das representações do velho, desse Portugal de Varões e epopeia que se encontrara com o Prestes João e que tinha sonhado o V Império. Exclamação religiosa na instauração de um novo tempo. Os fantasmas do passado regressam como matéria estética. </hi></p><p rend="h2" >6. Do nacional ao universal</p><p rend="text" ><hi >A Máquina do Mundo mostrada a Vasco da Gama, na Ilha dos Amores, por Camões, é graficamente imaginada por Almada Negreiros (1960), na frontaria da Faculdade de Letras de Lisboa. O projecto aúreo de outrora afunda-se no deslaçamento dos mapas políticos coloniais sobre cujas ruínas se ergue o da fraternidade lusofóna e universal. E Portugal, de corpo modificado, tem de se repensar e reencontrar.</hi></p><p rend="text" ><hi >Por um lado, procura não perder os seus traços identitários e fundadores: a história (com a Nau Catrineta, tradicional ficção hermenêutica, concebida por Almada Negreiros para acolher os que chegam ou se despedir dos que partem na Gare de Alcântara, 1945), o fado, que conta a sua história, a do povo e a do país. Por outro lado, convoca os seus fantasmas para as ficções de si: Gonçalo M. Tavares oferece-nos </hi><hi rend="italic" >Uma Viagem à Índia</hi><hi > (2010) e Teolinda Gersão </hi><hi rend="italic" >A Cidade de Ulisses </hi><hi >(2011), revisitações paródicas (Linda Hutcheon).</hi></p><p rend="text" ><hi >Com a actual cedência das identidades nacionais às transnacionais e às supranacionais e a «liquidez» cultural (</hi>Zygmunt Bauman<hi >), as artes exprimirão um deslizamento progressivo da reflexão identitária comunitária da esfera do nacional para a do universal. No caso da Literatura, bastaria lembrar o caso de Sophia de Mello Breyner Andresen num dos seus contos (</hi><hi rend="italic" >A Casa do Mar</hi><hi >, 1970), casa memória da sua tópica onde a europeia se funde, ou num dos seus belíssimos sonetos, antologia, também, dessa tópica ocidental à beira-mar do tempo e do espaço:</hi></p><p rend="quotations_quotation_b1" >Em todos os jardins hei-de florir,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Em todos beberei a lua cheia,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Quando enfim no meu fim eu possuir</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Todas as praias onde o mar ondeia.</p><p rend="quotations_quotation_b1" >Um dia serei eu o mar e a areia,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >A tudo quanto existe me hei-de unir,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >E o meu sangue arrasta em cada veia</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Esse abraço que um dia se há-de abrir.</p><p rend="quotations_quotation_b1" >Então receberei no meu desejo</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Todo o fogo que habita na floresta</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Conhecido por mim como num beijo.</p><p rend="quotations_quotation_b1" >Então serei o ritmo das paisagens,</p><p rend="quotations_quotation_b2" >A secreta abundância dessa festa</p><p rend="quotations_quotation_b2" >Que eu via prometida nas imagens</p><p rend="quotations_quotation_b3" >(Andresen 2013,  68-9).</p><p rend="text" ><hi >Enfim, neste folheio de algumas páginas da nossa memória identitária, o corpo feminino (efabulado, pictórico, escultórico) surge como inequívoca forma de inteligir a identidade individual, epocal e nacional. No conjunto, verifica-se que Portugal se mantém, na longa metamorfose identitária de quase um milénio de existência, como figuração replicante dessa Europa de que é finisterra, como reconhece Eduardo Lourenço no catálogo </hi><hi rend="italic" >Nós e o Futuro</hi><hi > (1997) da Expo 98:</hi></p><p rend="quotation_b" >Portugal tem essa espécie de passado, como o navio-Europa com que na aurora de um novo milénio abordamos as margens de um novo tempo onde nos reconhecemos os mesmos, e já outros, por outra ser a navegação. Mas, para isso terá de revivê-lo como memória activa, sempre em revisitação e mesmo invenção. O passado também se inventa. O nosso e o dos outros. É uma das funções do presente […] (Lourenço 1997,  29-31).</p><p rend="text" ><hi >Na finisterra da Europa, entre realidade(s) e utopia(s), desde as viagens de brandoniano recorte, passando pelas espirituais de Dante, até à de épica e camoniana feição e às filosófico-científicas, Portugal </hi><hi rend="italic" >foi</hi><hi > e é </hi><hi rend="italic" >Rosto</hi><hi > da Europa enfrentando a Esfinge, replicando-lhe perfil, travestindo-lhe os mitos. </hi>Qual será a próxima conferência?</p><p rend="quotation_b" >É a 2 de Dezembro, sobre “Como mudar o mundo”. O Slavoj Zizek vai lá estar, um deputado britânico conservador também, [o escritor] Alessandro Baricco. E no próximo ano vamos abrir um café com uma livraria europeia e um salão cultural, num antigo teatro de Amesterdão. Se tivesse dinheiro gastava-o a abrir um assim em cada cidade, arranjava orquestras<hi >… Temos de reconstruir as infraestruturas culturais, precisamos disso com urgência. E temos de ser nós porque as elites no poder não o vão fazer (</hi>Riemen 2012,  [s.p.]).</p><p rend="h2" >Riferimenti bibliografici</p><p rend="bib_indx_bib" >Andresen, S. de M.B. 2013 (1994). <hi rend="italic">Poesia</hi>. Porto: Assírio &amp; Alvim.</p><p rend="bib_indx_bib" >Azurara, G. 1841. <hi rend="italic">Chronica do descobrimento e conquista da Guiné</hi>. Paris:<hi rend="italic"> </hi>Aillaud <ref target="https://archive.org/stream/chronicadodesco00zuragoog/chronicadodesco00zuragoog_djvu.txt">https://archive.org/stream/chronicadodesco00zuragoog/chronicadodesco00zuragoog_djvu.txt</ref> (05/20).</p><p rend="bib_indx_bib" >Bauman, Z. 2004. <hi rend="italic">Europa – uma aventura inacabada</hi>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.</p><p rend="bib_indx_bib" >Calado, J. 2013. “Quem é? O que é? A Europa.” <hi rend="italic">XXI Ter Opinião</hi>, 3, 2º sem., <ref target="https://www.ffms.pt/artigo/648/quem-e-o-que-e-a-europa">https://www.ffms.pt/artigo/648/quem-e-o-que-e-a-europa</ref> (05/20).</p><p rend="bib_indx_bib" >Carreira, P., e S. Alves-Jesus. 2011. “Ideias de Europa na Antiguidade Clássica: a Geographia de Estrabão na Roma de Augusto.” <hi rend="italic">Debater a Europa</hi> 4: 6-17.</p><p rend="bib_indx_bib" >Costa, D.P. da 1978. <hi rend="italic">A Nau e o Graal</hi>. Porto: Lello &amp; Irmão.</p><p rend="bib_indx_bib" >Garcia, J., coord. 2008. <hi rend="italic">Lisboa do século XVII – “a mais deliciosa terra do mundo”</hi>. Lisboa:<hi rend="italic"> </hi>Gabinete de Estudos Olisiponenses  <ref target="http://geo.cm-lisboa.pt/fileadmin/GEO/Imagens/GEO/Livro_do_mes/Padre_Antonio_Vieira/catalogo1b1.pdf?page=14">http://geo.cm-lisboa.pt/fileadmin/GEO/Imagens/GEO/Livro_do_mes/Padre_Antonio_Vieira/catalogo1b1.pdf?page=14</ref> (05/20).</p><p rend="bib_indx_bib" >Junqueiro, G. 1891. <hi rend="italic">Finis Patriae</hi>. Porto: Empreza Litteraria e Typographica.</p><p rend="bib_indx_bib" >Lourenço, E. 1997, <hi rend="italic">Nós e o Futuro, Lisboa</hi>, Expo 98/Assírio &amp; Alvim, Lisboa.</p><p rend="bib_indx_bib" >Lourenço, E. 1998. “Todos os meus livros.” <hi rend="italic">Diário de Notícias</hi> 21/03/1998 <ref target="http://www.eduardolourenco.com/bibliografia.html">http://www.eduardolourenco.com/bibliografia.html</ref> (05/20).</p><p rend="bib_indx_bib" >Nemésio, V. 1959. <hi rend="italic">Vida e Obra do Infante D. Henrique</hi>. Lisboa: Com. Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique.</p><p rend="bib_indx_bib" >Nietzsche, F. 1986 (1883-85).<hi rend="italic"> Cinco canções de Zaratustra</hi> <hi rend="italic">— Poemas em Prosa</hi>. Coimbra: Centelha.</p><p rend="bib_indx_bib" >Riemen, R. 2012. “A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise!.” <hi rend="italic">Jornal I</hi> 23/04/2012 <ref target="https://ionline.sapo.pt/artigo/467568/rob-riemen-a-classe-dominante-nunca-sera-capaz-de-resolver-a-crise-ela-e-a-crise-?seccao=Mundo">https://ionline.sapo.pt/artigo/467568/rob-riemen-a-classe-dominante-nunca-sera-capaz-de-resolver-a-crise-ela-e-a-crise-?seccao=Mundo</ref> (05/20).</p><p rend="bib_indx_bib" >Riemen, R. 2015. <hi rend="italic">O Regresso da Princesa Europa</hi>. Lisboa: Editorial Bizâncio.</p><p rend="bib_indx_bib" >Rita, A. 2014. <hi rend="italic">Luz &amp; Sombras do Cânone Literário</hi>. Lisboa: Esfera do Caos.</p><p rend="bib_indx_bib" >Rita, A. 2017. <hi rend="italic">Do que não existe</hi>. Lisboa: Esfera do Caos.</p><p rend="bib_indx_bib" >Rita, A. 2019. <hi rend="CharOverride-1">Sfumato. Figurações </hi>in hoc signo. <hi rend="CharOverride-1">Na senda da Identidade Nacional</hi>. Lisboa: Edições Esgotadas/CLEPUL.</p><p rend="bib_indx_bib" >Rita, A. 2021: <hi rend="CharOverride-1">SFUMATO &amp; Cânone Literário. Na senda da Identidade Nacional</hi>. Brasil | Espanha | Franca | Itália | Portugal: Edições Esgotadas | IECC | Cátedras do Instituto Camões “Vasco da Gama”/ Università degli Studi Internazionali di Roma, “Fidelino Figueiredo” / Universidade do Estado da Bahia, “José Saramago” / Universidade de Vigo, “Fernando Pessoa” / Università di Firenze | Real Gabinete Português de Leitura (RGPL) do Rio de Janeiro | Universidad Complutense de Madrid | Universidad Libre de Infantes Santo Tomás de Villanueva |  Università Ca’ Foscari Venezia | Università degli Studi Internazionali di Roma – UNINT | Università di Torino | Università per Stranieri de Siena | Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3.</p><p rend="bib_indx_bib" >Queirós, E. 2016 (1900). <hi rend="italic">A Ilustre Casa de Ramires</hi>. Porto: Porto Editora.</p><p rend="bib_indx_bib" >Quental, A. 1981 (1861). <hi rend="italic">Sonetos Completos</hi>. Lisboa: Publicações Europa-América.</p><p rend="bib_indx_bib" >Vieira, A. 1959. “Discurso apologético oferecido secretamente à Rainha Nossa Senhora para alivio das suas saudades, depois do falecimento do Príncipe D. João, primogenito de Ss. Magestades.” In A. Vieira, <hi rend="italic">Sermões</hi>, vol. 15. Porto: Lello e Irmãos: 83-6.</p><p rend="bib_indx_bib" >Vila Maior, D., e A. Rita, eds. 2016. <hi rend="CharOverride-1">100 Orpheu</hi>. Lisboa: Edições Esgotadas.</p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-008-backlink">1</ref></hi>	<hi >Muitos foram os autores que se pintaram configurando-se como Cristo, </hi><hi rend="italic" >Ecce Homo </hi><hi >e/ou Redentor: Piero della Francesca (</hi><hi rend="italic" >A Ressurreição</hi><hi >, c. 1463-5), Hans Memling, Da Vinci (c. 1499), Andrea Mantegna (e também como </hi><hi rend="italic" >Ecce Homo</hi><hi >, c. 1500), Dürer (1500), Cranach (</hi><hi rend="italic" >Christ’s head with crown of thorns</hi><hi >, c. 1520-1525, e </hi><hi rend="italic" >Form of the body of Jesus</hi><hi >, 1553), Samuel Palmer (</hi><hi rend="italic" >The artist as Christ</hi><hi >, 1833).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-007-backlink">2</ref></hi>	<hi >Cfr. Vieira 1959 vol. 15, 83-6. Na primeira edição dos </hi><hi rend="italic">Sermões</hi> este discurso surge sob o título <hi rend="italic">Palavra do Pregador Empenhada e Defendida,</hi><hi > associado a outro em acção de graças pelo nascimento do mesmo Príncipe, intitulado </hi><hi rend="italic">Palavra Empenhada.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-006-backlink">3</ref></hi>	<hi >Quer vitais, como o Lorenzo de Medici (1526-1531), quer </hi><hi rend="italic" >post-mortem</hi><hi >, como a de uma figura torturada no Juízo Final, &lt;</hi><ref target="https://i.pinimg.com/originals/3a/cd/34/3acd34b18278564890d06a96163a1f9b.jpg"><hi >https://i.pinimg.com/originals/3a/cd/34/3acd34b18278564890d06a96163a1f9b.jpg</hi></ref><hi >.&gt; (05/20).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-005-backlink">4</ref></hi>	<hi >A expressão é de António Vieira citado na epígrafe. Cfr. Garcia 2008.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-004-backlink">5</ref></hi>	<hi >Trata-se de mimetizar um procedimento clássico: Virgílio apresentou Eneias (herói troiano) como fundador mítico da cidade de Roma, na </hi><hi rend="italic" >Eneida</hi><hi >. Procedimento que se replica diversamente. É o caso, por exemplo, de Oto da Frisinga (Alemanha): [Roma → Bizâncio → Francos → Longobardos → Germanos (Sacro Império Romano Germânico)], Chrétien de Troyes (França) [Grécia → Roma → França], Richard de Bury (Inglaterra) [Atenas (Grécia) → Roma → Paris (França) → Inglaterra], Geoffrey de Monmouth e Wace [fundação da Grã-Bretanha por Brutus de Troia, filho de Enéias]. Na Renascença, Jean Lemaire de Belges (</hi><hi rend="italic" >Les Illustrations de Gaule et Singularités de Troie</hi><hi >) vinculou a fundação da Gália céltica ao troiano ‘Francus’, filho de Heitor, e a Germânia céltica a ‘Bavo’, primo de Príamo, prestigiando a genealogia de Pepino e Carlos Magno (e a lenda de ‘Francus’ também se insinuaria no épico </hi><hi rend="italic" >La Franciade</hi><hi >, de Ronsard).</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-003-backlink">6</ref></hi>	<hi >Sublinhados meus.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number _idGenCharOverride-1"><ref target="28.html#footnote-002-backlink">7</ref></hi>	<hi >Sublinhados meus.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-3"><ref target="28.html#footnote-001-backlink">8</ref></hi>	<hi >Cf. Annabela Rita. </hi><hi rend="CharOverride-1" >Mensagem em moldura epocal </hi><hi >in Dionísio Vila Maior e Annabela Rita (coord.). </hi><hi rend="CharOverride-1" >100 Orpheu</hi><hi >, Lisboa, Edições Esgotadas, 2016, pp. 599-616.</hi></p><p rend="layout_notes" ><hi rend="notes_number CharOverride-3"><ref target="28.html#footnote-000-backlink">9</ref></hi>	Já<hi > Guerra Junqueiro sentira essa necessidade revitalizadora e convocara em </hi><hi rend="italic" >Finis Patriae</hi><hi > os ‘génios do lugar’ e do futuro configurados pela ‘Mocidade nas Escolas’: «Por terra, a túnica em pedaços, /Agonizando a Pátria está. / Ó Mocidade, oiço os teus passos!… / Beija-a na fronte, ergue-a nos braços, / Não morrerá! // Com sete lanças os traidores / A trespassaram, vede lá!… / Ó Mocidade!… unge-lhe as dores, / Beija-a nas mãos, cobre-a de flores, / Não morrerá!</hi>» (Junqueiro 1891<hi >, 49).</hi></p>
      
      
      
      
      
      
      <div>
        <listBibl>
          <head>References</head>
          <bibl n="56620">Andresen, S. de M.B. 2013 (1994). Poesia. Porto: Ass&amp;#237;rio &amp;amp; Alvim.</bibl>
          <bibl n="56621">Azurara, G. 1841. Chronica do descobrimento e conquista da Guin&amp;#233;. Paris: Aillaud https://archive.org/stream/chronicadodesco00zuragoog/chronicadodesco00zuragoog_djvu.txt (05/20).</bibl>
          <bibl n="56622">Bauman, Z. 2004. Europa – uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.</bibl>
          <bibl n="56623">Calado, J. 2013. “Quem &amp;#233;? O que &amp;#233;? A Europa.” XXI Ter Opini&amp;#227;o, 3, 2&amp;#186; sem., https://www.ffms.pt/artigo/648/quem-e-o-que-e-a-europa (05/20).</bibl>
          <bibl n="56624">Carreira, P., e S. Alves-Jesus. 2011. “Ideias de Europa na Antiguidade Cl&amp;#225;ssica: a Geographia de Estrab&amp;#227;o na Roma de Augusto.” Debater a Europa 4: 6-17.</bibl>
          <bibl n="56625">Costa, D.P. da 1978. A Nau e o Graal. Porto: Lello &amp;amp; Irm&amp;#227;o.</bibl>
          <bibl n="56626">Garcia, J., coord. 2008. Lisboa do s&amp;#233;culo XVII – “a mais deliciosa terra do mundo”. Lisboa: Gabinete de Estudos Olisiponenses&amp;#160; http://geo.cm-lisboa.pt/fileadmin/GEO/Imagens/GEO/Livro_do_mes/Padre_Antonio_Vieira/catalogo1b1.pdf?page=14 (05/20).</bibl>
          <bibl n="56627">Junqueiro, G. 1891. Finis Patriae. Porto: Empreza Litteraria e Typographica.</bibl>
          <bibl n="56628">Louren&amp;#231;o, E. 1997, N&amp;#243;s e o Futuro, Lisboa, Expo 98/Ass&amp;#237;rio &amp;amp; Alvim, Lisboa.</bibl>
          <bibl n="56629">Louren&amp;#231;o, E. 1998. “Todos os meus livros.” Di&amp;#225;rio de Not&amp;#237;cias 21/03/1998 http://www.eduardolourenco.com/bibliografia.html (05/20).</bibl>
          <bibl n="56630">Nem&amp;#233;sio, V. 1959. Vida e Obra do Infante D. Henrique. Lisboa: Com. Executiva das Comemora&amp;#231;&amp;#245;es do Quinto Centen&amp;#225;rio da Morte do Infante D. Henrique.</bibl>
          <bibl n="56631">Nietzsche, F. 1986 (1883-85). Cinco can&amp;#231;&amp;#245;es de Zaratustra — Poemas em Prosa. Coimbra: Centelha.</bibl>
          <bibl n="56632">Riemen, R. 2012. “A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise!.” Jornal I 23/04/2012 https://ionline.sapo.pt/artigo/467568/rob-riemen-a-classe-dominante-nunca-sera-capaz-de-resolver-a-crise-ela-e-a-crise-?seccao=Mundo (05/20).</bibl>
          <bibl n="56633">Riemen, R. 2015. O Regresso da Princesa Europa. Lisboa: Editorial Biz&amp;#226;ncio.</bibl>
          <bibl n="56634">Rita, A. 2014. Luz &amp;amp; Sombras do C&amp;#226;none Liter&amp;#225;rio. Lisboa: Esfera do Caos.</bibl>
          <bibl n="56635">Rita, A. 2017. Do que n&amp;#227;o existe. Lisboa: Esfera do Caos.</bibl>
          <bibl n="56636">Rita, A. 2019. Sfumato. Figura&amp;#231;&amp;#245;es in hoc signo. Na senda da Identidade Nacional. Lisboa: Edi&amp;#231;&amp;#245;es Esgotadas/CLEPUL.</bibl>
          <bibl n="56637">Rita, A. 2021: SFUMATO &amp;amp; Cânone Literário. Na senda da Identidade Nacional. Brasil | Espanha | Franca | Itália | Portugal: Edições Esgotadas | IECC | Cátedras do Instituto Camões “Vasco da Gama”/ Università degli Studi Internazionali di Roma, “Fidelino Figueiredo” / Universidade do Estado da Bahia, “José Saramago” / Universidade de Vigo, “Fernando Pessoa” / Università di Firenze | Real Gabinete Português de Leitura (RGPL) do Rio de Janeiro | Universidad Complutense de Madrid | Universidad Libre de Infantes Santo Tomás de Villanueva | &amp;nbsp;Università Ca’ Foscari Venezia | Università degli Studi Internazionali di Roma – UNINT | Università di Torino | Università per Stranieri de Siena | Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3.</bibl>
          <bibl n="56638">Queir&amp;#243;s, E. 2016 (1900). A Ilustre Casa de Ramires. Porto: Porto Editora.</bibl>
          <bibl n="56639">Quental, A. 1981 (1861). Sonetos Completos. Lisboa: Publica&amp;#231;&amp;#245;es Europa-Am&amp;#233;rica.</bibl>
          <bibl n="56640">Vieira, A. 1959. “Discurso apolog&amp;#233;tico oferecido secretamente &amp;#224; Rainha Nossa Senhora para alivio das suas saudades, depois do falecimento do Pr&amp;#237;ncipe D. Jo&amp;#227;o, primogenito de Ss. Magestades.” In A. Vieira, Serm&amp;#245;es, vol. 15. Porto: Lello e Irm&amp;#227;os: 83-6.</bibl>
          <bibl n="56641">Vila Maior, D., e A. Rita, eds. 2016. 100 Orpheu. Lisboa: Edi&amp;#231;&amp;#245;es Esgotadas.</bibl>
        </listBibl>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>